Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

09 2009

Pensamentos fugidios

Tudo tem o seu reverso. Tal como é curioso analisar associações de ideias que tomam o freio nos dentes e fogem para sítios inesperados, despertando memórias há muito esquecidas, uma coisa verdadeiramente irritante é deixar fugir um pensamento.

A ideia germina e, quando está quase a despontar, deixamos de lhe prestar atenção por um instante. É o suficiente para desaparecer sem deixar rasto. Bem podemos tentar relembrar no que pensávamos antes e reconstruir todo o caminho até ao ponto em que… nada.

De vez em quando deixa-se antever, quase que gozando com o nosso esforço, e depois esconde-se atrás de outra pedra e fica a rir-se como um perdido, o desgraçado.

Bem sei que o mal de uns é o bem de outros. Há quem treine afincadamente a mente para ir apagando, um a um, os pensamentos que surgem, a caminho da meditação perfeita que abre as portas do Nirvana. Por enquanto, acho que ainda não tenho ideias em excesso ao ponto de precisar de perder algumas propositadamente.

Quando menos esperar, o pensamento há-de voltar, nem que seja para me atazanar mais um pouco e depois desaparecer novamente.

Juro que tinha uma excelente ideia para este artigo. Só não me lembro qual!


09 2009

Três, quinhentos

Há tempos contaram-me a origem de uma expressão típica de Luanda que por vezes se ouve quando se fala de polícias, especialmente da boca dos mais-velhos.

Ao que consta, nos idos do Partido Único, a inflacção galopante fez com que o Novo Kwanza viesse substituir o original com um carimbo nas notas velhas alterando a denominação. Mais tarde, já depois da guerra rebentar pela segunda vez, o Kwanza foi Reajustado e renascido, fazendo com o o Kwanza actual, o segundo com este nome, seja apenas mil milhões de vezes mais valioso que o primeiro.

Mas, entre o Segundo Kwanza e o Reajustado, na altura em que toda a gente se esquecia de pronunciar os últimos três zeros e as notas de meio milhão de Kwanzas Reajustados eram só chamadas de Quinhentos, a corrupção era ainda pior do que agora.

Todos quantos detinham um pedacinho de poder, por muito pequeno que fosse, refinavam os esquemas de venda de facilidades para as dificuldades acabadas de criar. A situação era tão má que, a nível oficial, se achou que havia de por um travão na corrupção dos polícias, porque já nada os separava dos ladrões.

A primeira solução adoptada foi a de evitar patrulhas de homens isolados. O problema não melhorou, porque os colegas protegiam-se uns aos outros e rapidamente arranjavam esquemas entre si. A segunda solução foi combinar em cada destacamento três polícias de divisões diferentes. Talvez assim se conseguisse que a vergonha os impedisse de pedir tantas gasosas.

O certo é que, a partir de certa altura, sempre que alguém descrevia uma patrulha com os três polícias a par, se dizia apenas «eram três, quinhentos». As contas eram simples: três polícias, uma nota de 500’000!

Pelo que me consta, a gasosa de cortesia que não tenta fazer fechar os olhos a actos ilegais mas tão-somente comprar a facilidade para a dificuldade recém-inventada, continua com a mesma grandeza de valores…


31  08 2009

Maravilha da Física – Entropia negativa

Desde que se começou a olhar para o mundo com equações matemáticas, tentando desvendar os seus segredos mais íntimos segundo o racionalismo newtoniano, ainda que às vezes salpicado com alguma alquimia, que se percebeu que a desordem é a natural evolução das coisas. A entropia, que mede a desordem, apenas sabe crescer. O futuro do Universo que conhecemos é uma massa homogénea totalmente desorganizada.

Angola é um país que pode ser descrito como um sistema de elevada entropia, tal é a desorganização que encontramos a cada esquina. Por outro lado, podemos concluir que Angola segue na linha da frente em direcção ao futuro inevitável – isto é que é progresso!

O sonho de todo o Físico teórico, experimental ou assim-assim é descobrir a forma de inverter a entropia. Quem o fizer ganhará não só o Prémio Nobel, como o agradecimento de todos os construtores de castelos de cartas com gatos em casa.

Por todo o mundo se gastam rios, ou melhor, oceanos de dinheiro em novas máquinas e experiências complexas para encontrar pistas que levem à descoberta de formas de abrandar a entropia. Aceleradores de partículas ou laranjas de Silves, detectores de neutrinos e bosões provavelmente inexistentes, contadores de gatos de Schrödinger ou compactadores de lixo e máquinas de transformar porcos em salsichas, tudo serve para a pesquisa. Resultados práticos após mais de um século de experiências – nenhuns, nem sequer uma máquina de transformar salsichas em porcos. Apenas um considerável aumento da entropia nas bibliotecas e arquivos onde se acumulam as teses sobre o assunto.

Mas os angolanos, que já se viu, estão muito à frente da maioria, escondem um segredo tremendo. Inventaram a máquina da entropia negativa! Como todos os segredos desta magnitude, deve estar abrigado do olhar cobiçoso dos estrangeiros. O melhor lugar para o esconder, é a sede do Departamento de Estrangeiros e Fronteiras, por razões óbvias.

Para ajudar a disfarçar, está camuflada de forma a que se confunda perfeitamente com o que a rodeia. Assemelha-se a um normalíssimo armário arquivador metálico com quatro gavetas fundas e uma fechadura. A fonte de energia é, para já, desconhecida. Não se vislumbram cabos ou tubos a ligar a máquina a lado nenhum. Talvez seja alimentada apenas pelo constante abrir e fechar das gavetas.

Pelo que me foi dado a perceber, introduz-se um conjunto de objectos ordenados grosseiramente e, à medida que se retiram elementos e acrescentam novos conjuntos ordenados, o sistema vai-se ordenando a si mesmo, reduzindo a entropia inicial. Uma descoberta fantástica!

Como povo prático que é, os angolanos resolveram guardar passaportes nesta máquina. Agarram num molho deles e põem-nos mais ou menos por ordem numa gaveta. À medida que vão recebendo novos passaportes vão-nos introduzindo no meio dos restantes, aproximadamente nas posições certas. A dada altura chega um estrangeiro para levantar o seu passaporte. O funcionário vai procurando por ordem alfabética até chegar à posição esperada. Se o encontrar, retira-o. Se não o encontrar, quer dizer que ainda tem demasiada entropia e não encontrou o seu lugar devido. Caso a máquina não existisse, teria de verificar os passaportes um a um, mas assim, basta-lhe esperar «Volte cá amanhã». Entretanto, outros pedem os seus passaportes, fazendo variar a ordem dos documentos dentro da máquina.

No dia seguinte, o estrangeiro da véspera torna a pedir o seu passaporte. Se tiver tido a sorte de que os últimos passaportes retirados tenham feito o seu deslocar-se para o sítio devido, leva-o consigo. Caso contrário… «Volte cá amanhã». Este ciclo repete-se até que o documento chegue, finalmente, a colocar-se entre os que o deveriam ter rodeado desde o princípio.

Demonstração
A teoria

Esta máquina é fabulosa! Em vez de se desperdiçar energia à procura de uma coisa que se sabe vir a aparecer eventualmente, basta esperar pelo dia seguinte. A entropia reduz-se pouco a pouco até se anular completamente para cada passaporte e tudo isto sem qualquer esforço ou cansaço!

Penso que talvez funcione com base no princípio de que a entropia média do conjunto se mantém estável ou que cresce muito lentamente à medida que se lhe acrescentam elementos, mas que a entropia de cada elemento isolado vai variando negativamente.

Pessoas a caminhar sobre montes de lixo a arder
Demasiada entropia

Agora só espero que não deixem esta ideia desaproveitada em tarefa tão simples como gerir passaportes. Há muitos sítios em Luanda onde podiam começar a fazer umas experiências…

A propósito, a entropia do meu passaporte já foi anulada!


30  08 2009

No Gira-Bairro

A face mais evidente dos candongueiros de Luanda são as iáces azuis e brancas com o rabo do cobrador pendurado à janela, mas não são, de todo, os únicos táxis informais em circulação. Há também muitos turismos, como são por aqui conhecidos os carros de passageiros particulares, a fazer as voltas da candonga. Quase sempre Corollas e Starlets a cair de maduro e muito esmurrados são usados para este negócio que é mal visto tanto pelas autoridades como pelos táxis oficiais.

Nos mercados e praças mais concorridos é vulgar ver o condutor de um destes carros à porta do passageiro segurando o banco levantado enquanto anuncia um qualquer destino habitual. Só arranca quando o carro estiver cheio. Por serem mais leves, geralmente usam caminhos ainda piores que os condutores das carrinhas, o que não dá saúde nenhuma aos passageiros ou ao pobre carro.

Candongueiro "Deus é Grande"
Candongueiros para todos os gostos

Os que fazem o serviço de Gira-Bairro não costumam usar o mesmo carro muito tempo. A partir de certa altura, a polícia começa a ver muitas vezes a mesma viatura recolher passageiros nas mesmas esquinas e podem multar ou, mais frequente, cobrar a taxa de autorização de serviço. Por outro lado, os vinte anos de utilização na Europa e mais meia-dúzia de abuso em Luanda são a garantia de que dois meses a saltitar carregado nas ruas esburacadas marcam o caminho da sucata. Quando o carro começa a dar problemas com travões e suspensão ou a fazer muitos barulhos prenunciadores do fim próximo, levam-no ao parque de vendas, onde lhe fazem uma limpeza e o tentam impingir a um papalvo qualquer sem sequer permitirem que o experimente.

Assim que o vendem compram outro para abusar mais umas semanas…


29  08 2009

Leitura infeliz

Juntar o logótipo e o nome da empresa no letreiro da loja costuma ser vantajoso. Os clientes passam a associar os dois símbolos e podem reconhecer a empresa conhecendo apenas um deles.

Às vezes, o desenhador está tão contente com o seu trabalho que as coisas mais evidentes lhe passam ao lado. É sempre bom conselho dizer para ver como ficam as coisas no contexto. O logótipo é bom e o nome da loja não tem erros ortográficos, mas é preciso ter cuidado com a maneira como se juntam as duas coisas. Um enquadramento infeliz pode dar azo a uma cacofonia visual que deturpa a mensagem.

Ali para os lados do Prenda, há uma empresa de piscinas que sofre deste mal. Um G do logótipo com um tipo de letra que o leva a confundir com um C no tipo de letra do nome e o desatre é certo. O cartaz chama a atenção, mas a vontade de contratar a empresa vai pelo cano abaixo.

AG AGAR Piscinas
Lendo depressa, ficamos sem vontade de ir à piscina


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