Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

28  08 2009

Branco a correr é atleta

Eu sei que é feio brincar com estas coisas, mas não resisti.

Os novos autocarros de Luanda que, aos poucos, estão a destronar os candongueiros como transporte público de excelência, ostentam agora decorações alusivas ao campeonato de futebol africano que se realizará em 2010.

Há várias versões da publicidade, sempre com desenhos da escola brasileira, mostrando crianças felizes a pular ou a correr, bandeiras angolanas e a palanca negra que faz as vezes de mascote do CAN.

Há uns dias, acompanhando o L., que passaria bem por sósia do Agostinho Neto, a menos do bigode, fiz o caminho todo atrás do autocarro com as crianças a correr. O trânsito estava infernal, para não variar. Surgindo de trás do autocarro, passou por nós um branco de calções a correr, muito suado e vermelho. O L. murmurou «branco a correr é atleta…». Olhámos um para o outro e desatámos a rir.

Luanda_20090709-082219-S08-81752_E013-23104_68
Negro a correr… é futebol!


27  08 2009

Batman, o mercenário

Em pleno Cacimbo, e a caminho de outras paragens com História, um pequeno desvio levou-nos outra vez ao monumento de Kifangondo.

O restaurante continua fechado, com aspecto de que tão cedo não voltará a abrir, mas as estátuas continuam a vigiar atentas a foz do Bengo, erguendo estoicamente a bandeira. Baixar a guarda na vigilância do campo de batalha é a última coisa em que pensam.

Monumento aos Mártires de Kifangondo
A Vitória é Certa!

Junto do primeiro baixo-relevo que retrata a batalha, um cheiro acre relembrou-me as saudades que tenho de ir às grutas. Um pouco mais tarde, enquanto fotografava os combatentes de bronze, uma valente algazarra começou atrás das sacas de areia que protegem os soldados.

Primeiro baixo-relevo da Batalha de Kifangondo
Barulho atrás da barreira

Aproveitando as pequenas frestas entre a escultura e a parede, uma colónia de morcegos instalou-se nos ocos do painel. Ficam abrigados, embora desconfie que haja alturas em que aquilo deve parecer um verdadeiro forno. Se forem morcegos africanos são friorentos, por isso não deve incomodar.

Por outro lado, há muito que deixei de acreditar em coincidências e gestos inocentes. Cá para mim, o Batman participou na batalha como mercenário e os colegas resolveram homenageá-lo da melhor forma que podiam, instalando uma colónia nas trincheiras dos defensores.

Fezes de morcego
Aos milhares

A urina que escorre pela parede e os milhares de caganitas no chão não deixam dúvidas – a colónia floresce. Ou então, ninguém vem varrer…


26  08 2009

Aventuras culinárias, o regresso

Após longos meses de ausência, a cozinha cá de casa volta a surgir como local de destaque em Luanda.

Não se trata do sítio mais refinado, nem dos mais conhecidos, mas é aqui se de desenrolam excitantes aventuras que podem mesmo até acabar por matar a fome a alguém.

Depois da saga dos bolos e dos ingredientes tropicais ou só esquisitos, surge algo mais normal, para os que, como eu, preferem cozinhar a comer fora.

A ementa do dia foi «Coisas avulsas que se encontrou no armário, com molho de ostras». Infelizmente, o molho de ostras já se tinha acabado.

Comecemos!

aventura01
Um pouco de azeite num tacho, antes de mais nada

Para não desiludir, começo com um refogado, a base da cozinha portuguesa. Azeite e cebola picada, um pouco de sal e salta tudo para o fogão.

aventura02
Só de olhar para elas, fico triste

A parte mais difícil deste prato é ouvir as histórias tristes que as cebolas têm para contar. São capazes de fazer chorar as pedras da calçada, como alguns fadistas de Alfama, depois de um copinhos de três.

aventura03
Acabei de picar a cebola a parecer um convidado da Oprah, a chorar baba e ranho como se não houvesse amanhã.

aventura04
O refogadinho

Mas a vingança não se fez esperar. Uns minutos mais tarde, a cebola conheceu o azeite quente e deixou de achar piada às minhas lágrimas. Uma risada maléfica encheu a cozinha. Depois olhei em volta, não fosse haver testemunhas. Havia!

Três incautos dentes de alho tiveram o mesmo destino da cebola. Para aumentar o nível de sadismo da tortura, acrescentei pimenta preta.

aventura05
Apanhados de surpresa

Dentro do armário encontrei mais uns candidatos para a panela. Fizeram-se rogados a princípio, mas depois até gostaram.

aventura06
Duas latinhas de atum

Para fazer um pouco de contraste com o atum, achei que umas salsichas não ficariam mal. Deram um pouco de luta, mas consegui tirar todas da lata sem me morderem os dedos.

aventura08
Directamente do Gradil para Luanda

Na panela já havia legumes, peixe e carne, porque não uma coisa indefinida, como cogumelos?

aventura07
Duas latinhas de cogumelos para preguiçosos (cortados)

O aspecto da mistela até agora não era muito convidativo. Acrescentei polpa de tomate, para ganhar um pouco de cor.

aventura09
Andy Warhol, rói-te de inveja

Para não dizerem que falta consistência ao cozinhado, sacrifiquei um pacote de natas inteirinho. Espremi-o até lhe saírem as tripas pela boca.

aventura10
Projecto de coronária entupida

Uma vez que estávamos sem electricidade há quase doze horas, fui espreitar o que se estava a descongelar no frigorífico. Encontrei umas imitações de peixe cor-de-rosa a nadar de costas. Foi tirar-lhes a casca e enfiá-los na panela. Aproveitei e juntei umas aparas de queijo que ameaçavam tornar-se uma cultura de penicilina.

aventura11
As coisas de peixe

Enquanto esperava que apurasse, pus-me a pensar que esta aventura culinária precisava ainda de um toque tropical, à semelhança das anteriores. Puxei pela cabeça, procurando algo que não ficasse demasiado estranho. A solução estava quase à minha frente. O cacho de bananas que tinha comprado no Prenda estava com bom aspecto. Escolhi uma e enfiei-a no tacho, cortadinhas às rodelas, evidentemente.

aventura12
O toque tropical

Entretanto, armado em Milú Modesto, Chef Silva ou outra personalidade televisivo-culinária, tiinha já preparado uma travessa de massa cozida, sobre a qual despejei alarvemente o conteúdo do tacho.

aventura13
A massa preparada às escondidas

O resultado final não ficou desagradável de todo. A aparente semelhança com regurgitado de necrófago serve apenas para afastar os mais gulosos, porque estava bem saboroso.

aventura14
Et voilá

Ingredientes: O que houver, e mais um pratinho de massa

Modo de preparação: O inevitável refogado e o resto ao molho por cima

Tempo de preparação: A julgar pela hora das fotografias, uma hora, um minuto e quinze segundos!


25  08 2009

Cirurgiões

Os médicos de cada região têm tendência a especializar-se nos problemas que os rodeiam. Com muitos a tratar as mesmas doenças, é certo que surgirão especialistas de renome internacional com maior frequência. Na Índia há muita gente a precisar de óculos e, talvez por isso, se oiça muitas vezes dizer que os melhores oftalmologistas são indianos.

Da mesma forma, asseguraram-me, os pneumologistas africanos são excelentes, uma vez que se dedicaram a estudar doenças que costumam ser bem mais graves em África. São estereótipos e valem o que valem, bem sei.

Em Angola ainda há poucos médicos angolanos a trabalhar. Especialistas menos ainda. Em todo o país há um neuro-cirurgião, por exemplo. Olhando para os problemas que afectam a população, não são muito diferentes dos que preocupam os países vizinhos. Aparentemente, seria difícil dizer em que se distinguiriam os médicos angolanos.

Mas uma voltinha pelas ruas de Luanda elucida-nos depressa. Cada fachada é uma verdadeira rede de tubos e canos instalados para contornar entupimentos ou roturas. A medicina angolana irá fornecer muitos bons cirurgiões cardio-toráxicos especializados em operações de bypass coronário múltiplas.

Nova rede de esgotos instalada na fachada
Esgoto entupido, problema resolvido

Por vezes, o doente está num estado tão grave que um só bypass não é suficiente. O cirurgião angolano não se deixa intimidar e instala uma rede complexa de ligações paralelas capaz de fornecer água e retirar esgotos com maior eficiência que a rede original.

Emaranhado de ligações paralelas
Não há enfarte que resista

O próximo passo será direccionar todos estes exímios cirurgiões para as faculdades de medicina, onde poderão aprender a aplicar a sua arte em doentes humanos. Daqui a uns anos, Angola vai exportar petróleo, diamantes e cardiologistas de renome!

Tubos mal ligados, a verter
Bom, e daí, talvez não…


24  08 2009

As regras oficiosas

Conduzir em Angola é uma actividade de risco. Quase uma aventura, dirão alguns. A grande maioria dos condutores não tem a mínima ideia do que anda a fazer, mas está convencido de que sim. Sabem como levar o carro de um lado para o outro, e pouco mais. Alguns conhecem apenas duas regras de trânsito, a Eu primeiro e a Salve-se quem puder. Nenhuma delas faz parte do código de estrada pelo qual todos se deviam reger.

Se dentro de Luanda as coisas já são caóticas porque a primeira regra dita que todos fiquem parados em filas intermináveis, fora da cidade dá azo a situações muito mais perigosas. 

Depressa concluímos que o travão é apenas usado quando se pretende sair do carro. Durante o resto do tempo, apenas o acelerador é usado, e muito.

Se há um buraco grande na estrada e só passa um carro de cada vez, a solução habitual consiste em acelerar ainda mais e ultrapassar o buraco antes do carro que segue em sentido contrário. Se o outro vier na sua mão, que se desvie, afinal de contas, se chega depois, pela teoria angolana de resolução de problemas, o problema passa a ser dele. Infelizmente, assim que avistam o buraco, ambos aceleram o mais que podem, não vá a estrada desaparecer depois do outro passar. Não será necessário referir que às vezes não se desviam…

Na cidade, nos sítios onde só passa um carro e com pouca folga, há os condutores que insistem em passar em simultâneo, um pouco à semelhança do caso acima. Espelhos partidos, chapa almogada ou choque frontal são os desfechos mais frequentes. Nenhum dos condutores equaciona sequer esperar que o outro passe antes de entrar no aperto.

Chegamos à conclusão que o condutor médio angolanos se julga invulnerável, tais são as acrobacias a que se sujeita para cumprir a primeira regra do seu código oficioso.

O Senhor é a nossa Luz e Salvação
Resumo do código de estrada

A segunda regra dita que as ultrapassagens sejam feitas em todo e qualquer lugar ou situação, como curvas, lombas, traços contínuos, com trânsito de frente, pela direita, pelo meio de outras ultrapassagens, com chuva, nevoeiro ou poeira e, mais raramente, em rectas com visibilidade e sem trânsito de frente.

Se a fila estiver compacta, todos os expedientes valem para ganhar um ou dois lugares. Carrinhas azuis e brancas a circular nos taludes, quase a tombar ou com uma roda na berma e outra no passeio, são os exemplos mais normais do Salve-se quem puder, mas, se um atalho pelas areias da praia, permitir poupar uns minutos de trânsito, então será usado.

Como ter um carro à frente viola claramente a primeira regra, há que o passar, nem que seja recorrendo à segunda. É frequente ver os Starlet vermelhos a cair de velhos ultrapassar três camiões de cada vez, ocupando toda a faixa contrária e ver os camiões que circulam em sentido contrário a desviarem-se para a berma. Quanto mais se desviam, mas o carrito ocupa a faixa contrária, como que mostrando quem manda.

Camioneta enfiada dentro de casa
A casa não se desviou, malandra

Conduzir de noite é outro desafio porque, se durante o dia, todos usam e abusam dos sinais de luzes para pedir passagem à esquerda, o que é uma coisa que me fazia muita confusão até perceber que os piscas são usados para tudo menos para indicar as mudanças de direcção, à noite parece que é tradição andar de luzes apagadas. E de acelerador a fundo. E fora de mão. No fundo, é a segunda regra em todo o seu esplendor, tal como quando vemos gente a circular em sentido contrário nas ruas de sentido único e ainda reclamam com os que circulam no sentido certo e «que lhes estão a complicar!».

Em Luanda os acidentes com vítimas mortais são menos frequentes do que se temeria, um pouco porque o trânsito circula tão devagar que os acidentes mais graves se resumem a chapas amassadas e farolins estalados. Mas é fácil reparar que, ao mínimo trecho de estrada livre, cada um acelera o mais que pode, para depois travar a fundo antes de bater no fim da fila seguinte, a cerca de cem metros de onde começou a corrida… Às vezes o jornal noticia que dois candongueiros chocaram de frente lá para os lados do Cacuaco e a regra do Eu primeiro associada à do Salve-se quem puder resultou em vinte mortos e dois feridos ligeiros – os condutores.


« Previous PageNext Page »