Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

23  08 2009

Terceiro acto

O prólogo do último acto da tragédia é apenas o choro da mãe que não quer deixar a sua casa. Sentada na soleira da porta, olhando para a rua que já não existe, reclama que foi ali que cresceu. As vizinhas, mais conformadas, dizem-lhe que é inevitável, que tem de se resignar, que a vida dos pequenos é assim mesmo. O pano desce.

Última casa da Travessa da Mutamba 
A soleira do prólogo

Ao longo dos últimos meses, os dois primeiros actos da tragédia da Travessa da Mutamba foram-se desenrolando com a aparente inevitabilidade que rodeia as obras em Luanda. Aos poucos, as paredes foram sendo derrubadas, preparando o terreno para mais um sinal de modernidade.

Ruínas do restaurante da esquina
A demolição passo-a-passo

Abre num novo dia, por sinal um Domingo de Cacimbo que acordou preguiçoso. A cidade ainda está silenciosa e as ruas vazias. Os poucos haveres de três famílias são carregados quase sem barulho no balde de um camião de transporte de terras. Duas escavadoras vermelhas inertes sobre um mar revolto de entulho preenchem o cenário.

1931
Data de nascimento

Aos haveres juntam-se as pessoas. O camião parte, em direcção a Viana. Alguns olham para trás, de coração apertado, vendo a casa desaparecer ao virar da esquina. Outros sentam-se de costas, com os olhos inchados, revivendo memórias.

Publicidade antiga da Pepsi-Cola
Memórias esbatidas

O Sol surge no céu, furando o véu de cacimbo que o escondeu até tarde. O camião regressou vazio. Despejou a sua carga de gente e vidas como se mais uma carga de entulho fosse. Espera agora que o encham de novo, com o entulho em que as escavadoras transformaram as últimas quatro paredes que resistiam na travessa mal-amada.

Terreno cheio de entulho
Fim da memória

A obra trágica inspirada nos últimos dias da Travessa da Mutamba chega ao fim. Cabe agora a vez às escavadoras de limpar o cenário. Sobrarão as memórias dos que lá passaram ou viveram.

Agora resta esperar pela obra que se segue. As apostas para o número de andares já estão abertas, mas todos suspeitam que sejam muitos. Nas fotografias acima, tiradas em todas as direcções em volta da travessa, está presente uma das torres da nova Luanda. A que aqui irá nascer não deve ser muito diferente.


22  08 2009

Olha lá, largas pêlo?

Quando entrei em Angola, tinha comigo um passaporte. Não era especialmente bonito nem nada, nem sequer era meu, porque o Estado Português só mo emprestou por uma década. Mas no fundo, até gostava dele, nem que fosse porque tinha lá a minha fotografia e os carimbos que marcaram o cruzar de muitas fronteiras… Veio substituir o outro, que tinha um número com cinco algarismos iguais, quase como se fosse uma curiosidade.

Por causa de Angola, tive de me separar dele três vezes, situação inusitada e que é capaz de violar o acordo que assinei dizendo que nunca o deixaria fora da minha vista, sob pena de ter o Estado a dizer que me estava a portar mal.

A primeira separação foi para a obtenção do primeiro visto. Durante duas semanas andou no processo da agilização lá no Consulado da República de Angola em Lisboa – atenção ao nome, se estiver mal endereçado, o processo é recusado! Devolveram-mo com o visto a ocupar uma página inteira. Na primeira carimbadela angolana, ainda no aeroporto, fui presenteado com o habitual ar desconfiado do funcionário que não confia nos próprios serviços consulares do país.

Umas semanas depois, para receber o visto com super-poderes, que me conferia o direito a respirar o ar angolano por um ano inteirinho, voltei a deixar o livrinho castanho com a ilustração dos Lusíadas fugir-me da vista. Longos dias passou ele nas masmorras da DEFA, suponho que a pão e água e alguma porrada. Regressou magrinho e combalido, com umas esfoladelas na capa. Lá dentro, mais uma página ocupada com o autocolante do visto, agora com uma fotografia e tudo.

Mais umas carimbadelas de entrada e saída, quase sempre tão sumidas que fazem um bom exercício de decifração de datas e postos fronteiriços, marcaram um ano de uso. Passou até pela mudança do sistema informático no aeroporto trouxe menos atenção ao controlo do passaporte e muito mais complicação na hora de carregar nas teclas do computador, quase sempre a morder a língua no canto da boca…

A terceira separação começou quase um mês antes de expirar o visto e tem-se prolongado para além do razoável. Desde que entrou na DEFA, que nunca mais o viram. Dois meses, daqui a nada. Em troca recebi um papelito com um ar semi-oficial, sem carimbos ou assinaturas, que será contestado pelo primeiro fiscal de estrangeiros que lhe puser as mãos em cima, alegando ser falso, feio ou fazer uma sede desgraçada

Depois de ouvir algumas histórias de passaportes que desaparecem naquela casa e são encontrados, meses depois, a servir de calços a mesas mancas, já estou por tudo. A minha teoria é a de que faltou papel na casa de banho e alguém usou o que tinha mais à mão; um pouco como a história do urso e do coelhinho que deu o título a este artigo.


21  08 2009

Cair em tentação

Sinto umas saudades danadas dos pequenos prazeres a que me fui habituando ao longo de uma vida inteira e esta estadia um pouco mais longa que a média em Angola tem tido o condão de me fazer perceber onde são os meus limites.

A semana passada não resisti e cedi à tentação de provar um bolo no Poupa Lá que me fez lembrar os palmiers da Marianita. Eu já devia saber que nem tudo o que reluz é ouro, mas há alturas em que esquecemos as regras mais elementares.

Os que desejarem uma aventura sem sair de casa, uma verdadeira revolução das papilas gustativas, façam o favor de provar os pequenos palmiers que custam os olhos da cara. Não os posso descrever como secos, porque até têm uma certa elasticidade, nem consigo admitir que sejam totalmente desprovidos de sabor, mas a imagem que tive quando provei o meu, foi a do Chaplin a comer a sola da bota no Alaska. Acho que o couro cozido deve ter aquela consistência. O paladar algo indefinido do bolo não andará longe do caramelo. Que desilusão!

Conclusão, a gula é mesmo um pecado capital que se expia na hora. Aprendi a lição. Salgados ainda vá, mas bolos, ali não torno a comprar!


20  08 2009

O artigo perdido

Às vezes fico furioso comigo mesmo por deixar escapar um pensamento. São aquelas ideias geniais que temos e, dois segundos depois, nos esforçamos inutilmente por tentar lembrar delas. Somem-se sem deixar rasto. Fica apenas uma sensação esquisita de que se perdeu algo. Deixar fugir um pensamento ou ficar com um espirro pendurado são duas coisinhas bem irritantes.

Não no mesmo patamar de aborrecimento, mas lá perto, está a incapacidade de perceber a própria letra. É um pensamento que se nos escapa, mas com atraso. Na altura ficamos felizes porque o imortalizámos, mas depois descobrimos que não foi adequadamente conservado e apodreceu como aquele tomate que deixei no frigorífico a semana passada.

Porque a minha caligrafia tem uma personalidade que quase lhe confere vida própria, há alturas em que grandes tiradas (ou imensos disparates) se confundem com os rabiscos frenéticos que antecedem o uso de uma esferográfica velha e de tinta seca.

Tenho de me conformar. Se até agora não melhorou, não lhe antevejo um futuro diferente ou, pelo menos, mais legível. Lá diz o ditado que burro velho não aprende línguas. Sou tentado a acrescentar que não é por ser velho…

Há umas semanas atrás rabisquei qualquer coisa no verso de um talão de caixa do supermercado. Meia-dúzia de linhas como alinhavo de uma ideia para algo que merecia um artigo no Aerograma. Literalmente em cima do joelho e com o esmero habitual no desenho dos ss, dos rr e dos mm, que agora só consigo adivinhar onde estão os tt e os ii, por causa dos traços e das pintas, claro. Como não me lembro de ter escrito a nota em código morse, suspeito que só isto não baste.

Camião abandonado, sem motor
Sumiu-se

Agora estou num dilema. Será que a ideia era boa? Será que acabaria por se juntar aos rascunhos rejeitados? Pelo sim, pelo não, vou guardar o papelinho mais uns dias na secretária. Pode ser que me inspire.


19  08 2009

Hora de Verão

Invocando motivos de poupança energética que ninguém percebe bem, muitos países usam a hora de verão. A determinada altura toda a gente anda com os relógios para a frente ou para trás, para curtir o jetlag durante uns dias. Seis meses depois fazem o mesmo, mas no sentido inverso.

A electricidade que se poupa no final do dia porque se usa mais iluminação solar, é desperdiçada logo de manhã, porque todos estão ainda às escuras. Na verdade, como toda a gente trabalha com computadores todo o dia, não interessa se lá fora faz sol ou não. E há milhares de escritórios que não têm iluminação natural. A hora de Verão é uma daquelas tradições cretinas que ninguém percebe, mas que também ninguém tem coragem para deixar de a cumprir.

Já em Luanda, onde não se usa a hora de Verão porque seria apenas mais uma desculpa para os atrasos que agora se imputam ao trânsito, as coisas são muito mais simples. A EDEL resolveu a problemática da poupança energética criando um período em que todos poupam (a não ser que tenham gerador em casa, claro). A seguir ao mata-bicho cortam a electricidade a um bairro inteiro. As pessoas deixam de ter luzes acesas sem necessidade, deixam de ligar as máquinas de ar condicionado nos quartos vazios ou de ver televisão. Todos poupam. Quem tem livros, lê na rua, quem não tem, bebe a cerveja que tem no frigorífico antes que fique morna. Bebe-se mais cerveja do que se lê livros…

Quando as pessoas começam a ver a vida mal-parada e o Sol a descer sobre os bares da ilha, a electricidade volta a ser ligada. Faz lembrar as campanhas de apagar as luzes por uma hora que ocorrem todos os anos. Os objectivos do dia foram cumpridos.

A grande chatice é que os sistemas de águas da cidade dependem muito de bombas eléctricas e, passados alguns minutos de cortarem a luz, as torneiras deixam de correr. Se calhar, é também uma medida para poupar água.

Para compensar a poupança, há dias em que a iluminação pública fica acesa durante o dia…

Candeeiro aceso durante o dia
O que se poupa nuns dias gasta-se noutros


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