Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

18  08 2009

Elis Regina, odeio-te!

Julgo que não estarei sozinho quando escolho a canção Águas de Março como uma das minhas preferidas. A sua cadência, quase chuva, recria uma atmosfera de sonho que nos remete para as brincadeiras de criança e tudo quanto nos marca para sempre. O espantoso poema e o mais que fabuloso dueto de Elis Regina e Tom Jobim fazem dela uma obra-prima.

Os vizinhos do prédio da frente acharam por bem fazer uma festa no terraço e, desta vez, para além das músicas habituais que sacodem o esqueleto, surpreenderam-nos com Águas de Março, quase comemorando o fim do Cacimbo. A noite musical não estava a ser grande coisa, mas deu-nos esperança de que melhorasse.

Umas horas mais tarde, recomeçaram os primeiros acordes, com aquelas duas notas quase desafinadas no piano. Por momentos, todos parámos o que fazíamos e apreciámos o doce embalar da Bossanova que vinha das colunas roufenhas do lado de lá da rua.

Não pude deixar de me lembrar de uma das chuvadas de Março em Luanda, com as ruas transformadas em rios e é pau, é pedra, é um resto de toco, é um caco de vidro

Mais tarde ainda, quando a noite de Domingo já se tinha transformado em madrugada de Segunda, a festa continuava. Um pouco mais calma, com muita música para dançar devagarinho, agarrado à dama. Uma salutar melhoria em relação ao habitual, temos de admitir, mas nada adequado à necessidade de dormir.

A certa altura, a Elis Regina regressou. O Tom Jobim também. Assim que acabou, recomeçou. E depois outra vez. E outra. E outra. A dada altura, a música ainda estava a meio quando alguém a fazia recomeçar. Comecei a odiar aquela voz que me fala da vida,do Sol e da chuva chovendo. Só conseguia pensar no carro enguiçado e na lama, na lama. E lá vem a canção de novo.

É pau, é pedra,
Que me apetece
Atirar aos vizinhos
E às colunas
Para ver
Se se calam…

Ao fim de seis repetições completas e outras tantas só pelo meio, conseguiram fazer a mesma música tocar quase uma hora seguida. Adormeci a odiar a Elis, o Tom, os seus ascendentes e descendentes até à oitava geração e ainda todos os que alguma vez ouviram falar na música.

Passei o dia seguinte com a canção no ouvido, como seria de esperar…


17  08 2009

Os “judeus” de Angola

Durante séculos, os judeus na Europa foram perseguidos, enfiados em guetos e explorados. A qualquer momento, apenas por serem judeus, poderiam ser expulsos e ver a sua vida de pernas para o ar. No entanto, ao invés de desaparecerem, fizeram das fraquezas forças e prosperaram.

Por serem judeus, descendentes de outros judeus que, reza a história, entregaram outro judeu aos romanos, tornaram-se os bodes expiatórios perfeitos. Todos os males do mundo tinham origem neles. No entanto, foram elementos fundamentais de todas as sociedades europeias. Uma das limitações que lhes era imposta era a da propriedade. Os judeus não podiam ter terras ou casas. E mesmo nas sociedades onde esta proibição não era explícita, a qualquer momento poderiam ver as suas coisas confiscadas.

Uma vez que não podiam ganhar a vida como agricultores, ferreiros ou pescadores, dedicaram-se a ofícios que coubessem dentro de uma caixa ou, melhor ainda, dentro da própria cabeça. Tornaram-se artesãos cobiçados em todo o mundo. a qualquer momento, mesmo que perdessem toda a riqueza material, poderiam começar de novo, porque a arte que tinham levado uma vida inteira a aprender, e transmitiriam aos filhos, seguia sempre com eles.

Mecânicos de instrumentos precisão, cartógrafos, entalhadores ou lapidadores de diamantes eram profissões que requeriam uma vida inteira de aprendizagem, fora do alcance de quem se tentava aventurar pela primeira vez na matéria. A sua riqueza residia no domínio de conceitos para além dos que se preocupavam apenas com a propriedade. Ainda hoje há resquícios desta tradição de ofícios que passam de geração em geração nas famílias judias, quando se fala de tarefas muito especializadas.

O que tem este pedacinho de História a ver com Angola? Bem mais do que parece, asseguro-o.

Há anos que se ouvem apelos para que se aumente o investimento estrangeiro em África. Angola faz o mesmo, pedindo que estrangeiros montem fábricas, giram explorações agrícolas, criem empresas. Mas os estrangeiros não vêm. Estão receosos. E têm boas razões para isso. As mercadorias que todos os dias chegam ao Porto de Luanda foram todas pagas antes de embarcarem, fruto de grandes calotes no passado.

A experiência mostrou-lhes que o investimento em países africanos significa, quase sempre, enterrar enormes quantidades de dinheiro num projecto e, quando finalmente começa a haver retorno, este é nacionalizado, confiscado ou apenas roubado. No fundo, é a situação dos judeus durante a Idade Média.

Em Angola, apesar de não ser requisito legal, é obrigatório que haja sócios angolanos no investimento estrangeiro. Sem eles, as portas fecham-se e o que paga em gasosas não compensa a parte dos lucros que se tem de pagar ao sócio que só entrou com o nome.

Os estrangeiros temem, por experiências anteriores, que a qualquer convulsão social ou política, haja uma vaga de nacionalizações que os faça perder tudo. Neste momento, em Angola, estão a ficar receosos com a idade avançada do José Eduardo. As convulsões da sucessão podem significar nacionalizações ou pior.

Fábrica Angolana de Elásticos e Passamanarias, Lda.
Investimento abandonado

Tal como os judeus na Europa, os estrangeiros em Angola são acusados de todos os males, de estarem a retirar trabalhos aos angolanos, de roubarem as riquezas do país, de explorarem o povo. A qualquer momento são ameaçados com ordens de expulsão arbitrárias ou confisco de propriedade. Às vezes, o sócio angolano que investiu apenas o nome passa a ser o único sócio, sem adquirir as quotas correspondentes…

Os estrangeiros passaram a investir principalmente com aquilo que não se lhes pode tirar dos bolsos – conhecimentos. Engenheiros, técnicos especializados, gestores, professores, médicos vêm a Angola vender os seus conhecimentos e habilidades, seguros de que, se as coisas correrem mal, poderão voltar para casa sem perder o investimento e a mercadoria.

Felizmente que, com o fim da guerra, esta imagem está a ser menos frequente. Os técnicos angolanos começam, finalmente a surgir. Pela lei da oferta e da procura, os estrangeiros serão cada vez menos necessários, primeiro para as tarefas básicas e depois para as outras.


16  08 2009

Luanda de respiração suspensa

Numa tarde abafada de Cacimbo, as ruas estão desertas. O polícia que guarda o edifício do Governo Provincial dormita na cadeira, imitando os seguranças das lojas da Mutamba, lá em baixo. Parece que é proibido passar debaixo da varanda do edifício, mas hoje ninguém anda na rua.

No jardim, a estátua da mascote do campeonato africano de basquetebol de há uma década vai-se inclinando lentamente para a direita. O jogador Vitó, com uma máscara tradicional na cara, continua a segurar a bola sobre a cabeça, como que prestes a encestar. A sua imobilidade condiz com a calma da cidade. Parece uma qualquer cidade do interior, onde nada acontece.

Na Igreja do Carmo está sempre fresco. Alguns jovens conversam baixinho nos últimos bancos. Os azulejos azuis e brancos e a talha do altar bem cuidada remetem-nos para uma época que não a nossa, em que havia tempo para tudo. O tecto pintado com cores fortes contrasta com a alvura do hábito da irmã que prepara o altar para a eucaristia.

Numa salva traz o cálice, que pousa junto das imagens de São Paulo e da Nossa Senhora da Assunção, os padroeiros de Luanda. Regressa com uma chave na mão, que, com a cabeça baixa, introduz na fechadura do relicário e desaparece pela porta da sacristia. Pouco depois ouve-se o zumbido do sistema de som encher a igreja silenciosa.

Alguns fiéis começam a chegar à missa da tarde. Hoje promete ser pouco concorrida.

No regresso a casa, surpreendo um dos seguranças do banco a fazer palavras cruzadas, «para passar o tempo, que hoje está muito calmo, chefe». Conversamos um pouco sobre coisa nenhuma. Está realmente calmo. Parece que a cidade susteve a respiração.

Horas depois, estoura a festa. Gritos, buzinas, tachos batidos, corridas na rua e vozes roucas anunciam a vitória.

«Éu-ê! A Taça é Nossa! Éu-ê! A Taça é Nossa!»

A final do campeonato africano de basquetebol foi vencida por Angola. O resultado não interessa. Angola ganhou. Agora percebo porque estava tudo tão calmo. Era da expectativa!


15  08 2009

Via “A” ou Via “C”

Há tempos, acompanhei o G., angolano da Quibala, a um armazém lá para a Boavista. Alguns equipamentos tinham chegado e eram precisas duas pessoas para carregar. Aproveitei para ir conhecer uma daquelas partes de Luanda onde é raro passar.

Como era Sexta-feira à tarde, quase na hora da festa, éramos os únicos clientes. A bem dizer, éramos os únicos no armazém, porque não se via nenhum funcionário. O G. bateu as palmas e começou a chamar bem alto. Ao fim de uns minutos apareceu um dos empregados, que cheirava a cerveja. O G. entrou logo a matar:

«’Tava demorado. Hoje não se trabalha?»
«É Sexta-feira…»
«Um dia destes vem cá o chefe e manda todos para casa.»
«O chefe não vem cá. É Sexta-feira.»

Eu, com vontade de rir, fiz de conta que não estava lá. Eles continuaram.

«Vai lá buscar as nossas caixas, que temos pressa de voltar.»
«Tem que esperar um bocadinho, o colega está com a namorada…»
«Trouxeram outra vez mulheres para cá? Querem mesmo ser despedidos!»
«É Sexta-feira… tem que festejar…»
«Vocês não têm juízo. Trazer mulheres para o armazém todas as semanas…»
«Elas gostam de nós!»

O colega apareceu, com os olhos bem vermelhos e também a cheirar a cerveja. Acenou com a cabeça a toda a gente e sentou-se numa palete com um suspiro.

Caricas de garrafas de cerveja no chão
O fim da festa

«Eu não percebo o que elas vêem em ti. És feio como tudo!»
«Ó G., se não vai pela via A, vai pela via C!»
«Via A, via C, ‘tás a dizer disparates. Qué isso?»
«Se não vai pela via do Amor, Corrompe-se! Até parece que não sabes como é…»

Umas gargalhadas depois, os dois foram buscar as caixas que nos pertenciam. Carregámos a carrinha e voltamos para o escritório. Pelo caminho, o motivo de conversa não é difícil de adivinhar.

Uns meses depois o G. disse-me que aqueles dois tinham sido despedidos. O chefe tinha lá aparecido numa Sexta-feira à tarde e assistiu aos festejos…


14  08 2009

Afrograma

Descobre-se ao longo da vida que nos pormenores reside tudo quanto é interessante. As coisas muito diferentes dispersam-nos demasiado a atenção, mas aquelas onde apenas algo está fora de sítio obriga-nos a concentrar no assunto. Sabendo isto, podemos ser tentados a usá-lo como técnica para começar a falar de alguma coisa. É muito mais fácil pensar na árvore do que na floresta.

Mas voltemos aos pormenores.

Devido a necessidades de programação, o nome do Aerograma é escrito por cima da imagem do embondeiro. O curioso, é que a prioridade de escrita é dada aos artigos e, por vezes, o nome fica esquecido. Um gatafunho surge em seu lugar, confundindo os visitantes. Perdi algumas horas a mexer nas entranhas da programação da página, mas acabei por desistir. Falhas mais graves, a nível da tradução para Português de algumas secções, necessitaram de mais atenção.

Até agora, apenas tinha sido motivo de interesse e risota, ver que os últimos pedacinhos não apareciam e a única letra distorcida era o E, que se transformava num F. Mas descobri que alguns leitores julgam ter chegado ao AFROGRAMA!

Afrograma
A falta que faz uma perninha


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