Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

07 2009

No óbito…

As mulheres dançam em círculo, entoando ladaínhas monótonas com voz cansada. Arrastam os pés com um baque-baque surdo, levantando o pó fino que lhes vai cobrindo os panos coloridos. As mulheres que começaram a dançar desgarradas aproximam-se do círculo que cresce e, aos poucos, encontram o seu lugar. De fora só se adivinham contornos escuros que rodopiam contra o lusco-fusco do cacimbo.

Um pouco ao acaso, cada mulher recita umas palavras e as restantes, em coro, respondem com o refrão. Pelo meio, há umas que interrompem com um lamento ou um gemido. Os pés continuam a arrastar a poeira, com o raspe-raspe ritmado.

Os homens conversam nas cadeiras de plástico, enquanto afastam os mosquitos chegados com o final da tarde. O quarto minguante compete com as lâmpadas nuas penduradas para iluminar as caras gastas e olhos vermelhos. O funge de milho e o peixe frito que as mulheres prepararam antes do anoitecer começa a circular. As gasosas também.

As mulheres mais novas meneiam as ancas, bamboleando o corpo e embalando a criança que têm às costas. As mais velhas limitam-se a arrastar os pés no círculo, com os braços pendurados ao lado do corpo, mostrando desânimo completo. O filho mais velho sente-se desorientado. Amanhã tem de ir escolher a caixa para pôr o pai no chão. Está revoltado. A viúva cumprimenta os recém-chegados que nem conhece. Limita-se a repetir o nome. Filomena. Filomena. Filomena…


30  06 2009

Crónica de guerra

A varanda da Aerogare do Huambo é um local fantástico para se conhecer mais um pouco da História de Angola, nem que seja através dos pequenos episódios que nunca chegam aos livros.

No intervalo entre os aviões que chegam e partem, pouco mais há para fazer que olhar para o céu e, indecentemente, escutar fragmentos de conversas que o vento traz.

Desta feita, quatro militares sentaram-se na mesa ao lado, partilhavam memórias do tempo da guerra, que uns tinham vivido e outros já só tinham ouvido contar, por serem demasiado novos.

O mais velho, da Força Aérea, puxou do tema do último ataque ao aeroporto do Huambo, por parte das forças da Unita. Não mostrava saudades da batalha, mas agora sentia-se demasiado relaxado.

Casa de Jonas Savimbi destruída
Chez Savimbi

Um oficial bem mais novo contou a sua versão do que se passou nessa manhã, pelo ponto de vista de quem se tinha visto no meio de uma guerra sem saber bem como.

«No dia em que a guerra começou, no dia 9, eu ainda nem sabia disparar a arma. Meti a cartucheira e depois foi o Kota Jamaica que me mostrou como se fazia.»

Outro atalhou: «O Jamaica correu por ali e só parou lá no fundo. Nunca tinha medo. Deu bwé de tiros.»

O mais velho acrescentou «É, ele safou muitos aqui…»

Prumo metálico crivado de buracos de balas
Violência

Temores e aventuras passados entre os abrigos de terra que protegiam os aviões e os soldados foram pintando uma história de bravura e improvisação numa batalha confusa. Mais umas cervejas e o assunto foi mudando para coisas mais mundanas: as namoradas, o carro novo, quem pagava a rodada seguinte.

Foram interrompidos pelo Capitão, que tinha chegado à esplanada. Em jeito de início de conversa, avisou o oficial mais novo: «Se não me dás saldo, nunca mais chegas a segundo tenente!». Deixei de prestar atenção à conversa. O novo assunto tinha menos interesse que o jacto que acabara de aterrar e se dirigia à placa.


29  06 2009

Yanick, o presidiário

O nosso chato de serviço cá do prédio andou ausente por umas semanas. Foi um descanso. Mesmo morando no anexo das traseiras e tendo quem o sustente, não desistia de pedinchar dinheiro para o mata-bicho, para a sopa ou para a cerveja.

No início de Maio voltei a vê-lo. Estava baço e apagado. Falava baixinho e encolhido, como se não quisesse ser visto ou ouvido. Tinha peladas na cabeça, mostrando uma cabeça rapada com pouco cuidado e feridas nos nós dos dedos.

Contou—me que tinha feito um disparate e, por isso, prenderam-no por 28 dias. Enquanto olhava por cima do ombro, sentou-se num degrau das escadas. Deve ter sofrido na prisão com a sua atitude de gabarolas. As feridas nas mãos eram sinais das últimas lutas lá dentro.

Depois de se encostar à parede e voltar a espreitar por cima do ombro, desabafou: «Estava um homem a discutir com o meu padrinho e eu parti-lhe o espelho do carro… fui preso.»

Dei-lhe dinheiro para comprar um antibiótico para as feridas infectadas nas mãos e recomendei que não o gastasse em cerveja.

Umas semanas mais tarde, as mazelas do corpo estavam curadas, mas as do espírito desconfio que vá demorar mais tempo.


28  06 2009

Orgulho e brio

Que hão-de as pessoas pensar (e não me refiro só aos estrangeiros), quando um angolano bate no peito inchado (de ar nacional, claro) e afirma, orgulhoso, que Angola é o melhor país do Mundo, que é o mais rico, o mais bonito, o mais tudo do Mundo, enquanto, atrás de si, correm crianças descalças nos esgotos que escorrem pelo meio das vielas do bairro de lata?

Para quem achar que só estou a apontar os defeitos de Angola, desengane-se. Pobreza há em todo o lado, não é exclusiva da terra das palancas negras. Cenas destas repetem-se um pouco por todo o mundo. Não considero Portugal, Estados Unidos, Brasil ou França os melhores países do mundo. Também têm bairros degradados, alguns até mesmo de lata.

Lobito
Bairro popular no Lobito

Mas custa acreditar que alguém consiga dizer convictamente que Angola é o país mais rico do mundo porque tem petróleo e diamantes quando a grande maioria da população sobrevive na miséria. Mas daí, talvez até tenham razão, um país que se dá ao luxo de importar tudo, deve ser mesmo muito rico.

Os critérios que definem a qualidade de um país incluem uma parte subjectiva, que tem a ver com a noção de Pátria, mas também há muitos parâmetros objectivos: igualdade, fome, saneamento básico, saúde, nível de vida, cultura.

Raparigas a tomar banho num charco
Lavando o corpo

Se me disserem que Angola é o país mais orgulhoso do Mundo, acredito. Mas não deixo de pensar que poderia ser um país muito melhor se apenas uma parte ínfima deste orgulho se convertesse em brio.


27  06 2009

Terceira Guerra Mundial

Para os que ainda temem o início da Terceira Guerra Mundial, tenho de lhes dar uma grande desilusão: já acabou e tudo.

O receio da guerra atómica entre as duas super-potências traduziu-se na paz podre que dividiu o mundo em dois blocos e a que se chamou Guerra Fria. Geralmente esquecemo-nos de que esta guerra foi tudo menos fria. Só que se travou longe, com exércitos de procuração, tentando aumentar esferas de influência sem recorrer às armas nucleares, sempre evitando a aniquilação mútua.

Guarita construída sobre ruína
Marca da guerra

Cada bloco procurou afirmar o seu domínio do mundo, de uma forma quase Orwelliana, conduzindo guerras onde apoiava os inimigos dos que eram auxiliados pelo outro lado.

África foi o palco perfeito para este jogo. Situa-se sensivelmente a meio caminho dos beligerantes e era suficientemente longe para que não se estendesse aos territórios de cada um. Estimulando descontentamentos tribais, raciais e sociais, movimentos armados e financiados pelas grandes potências iniciaram a guerra quente da Guerra Fria.

Tanque destruído
Filho da guerra

Pelo número de países envolvidos, esta foi verdadeiramente uma guerra mundial, possivelmente até a maior de todas. Mas como a maioria dos mortos eram os pretos lá na África, ninguém fez muito caso.

A guerra fria fez movimentar influências mas, acima de tudo, muito dinheiro. A ocupação de territórios em África não tinha só objectivos políticos. Os recursos naturais cobiçados foram trocados por armas mais ou menos obsoletas.

 guerra_fria_1
Nem a Lua no céu disfarça o horror da guerra

Os povos que se viram aprisionados neste fogo cruzado pagaram muito mais do que imaginaram. Se, a princípio, eram apenas os recursos da terra que pagavam a guerra alheia, depressa se começou a pagar com vidas e, mais tarde, com o próprio futuro da terra. Depois de vender as armas, destruiram-se as infra-estruturas e as fábricas para vender a reconstrução ou, ainda melhor, vender apenas o produto acabado.

Um continente inteiro com o futuro hipotecado em prol de uma guerra em que os intervenientes tinham medo de se defrontar… chega a ser cretino.


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