21
06
2009
Ao longo de mais de um ano, o Aerograma tem crescido em direcções inesperadas. Começou timidamente, apenas para contar e aprofundar as experiências que um novo continente diferente proporciona. Servia para manter os meus ao corrente de tudo aquilo que não conseguia dizer pelo telefone, quer fosse por me faltarem as palavras quer por ainda estar a tentar digerir tudo quanto tinha visto, ouvido e sentido.
Pouco a pouco, o Aerograma sentiu a necessidade de se tornar diário. Eu não tive voto na matéria. Apenas contribuo com uns toques nas teclas para que as palavras ganhem forma. Impus-lhe algumas regras, no entanto. Não toleraria repetições injustificadas de temas ou de histórias. Só permitiria textos originais. Não me tornaria seu escravo.
Mais de trezentos artigos depois, notei mudanças em mim e no Aerograma. Apercebi-me das muitas muletas que usava nos textos e, paulatinamente, tenho-me obrigado a abandoná-las. Ainda faltam umas quantas, mas noto melhorias. O Aerograma também deixou de ser um relato diário do que me rodeava. Os artigos passaram a ser um pouco mais imprecisos no tempo, porque, na verdade, não me interessa muito saber em que dia vivi um determinado episódio. Interessa-me apenas saber que me marcou.
A meio deste artigo apercebi-me de que, mais uma vez, o Aerograma se tinha apoderado dele. Parece um artigo a comemorar mais um centenário, mas queria mesmo ter falado de outra coisa.
Voltemos ao tema.
Uma das regras que estabeleci foi a de não me tornar escravo do Aerograma. Sirvo-lhe de intérprete e dou-lhe forma porque quero e não o contrário. No entanto, as coisas nunca são assim tão lineares. Habituei-me a ter sempre alguns artigos de reserva, programados para os dias seguintes, para não sofrer a pressão de ter de escrever um. Pode haver dias em que as coisas fluem melhor e consiga preparar meia-dúzia deles e de deixar outros tantos alinhavados. Outros nunca passam de uma breve nota no caderninho que se acaba por perder porque já sou incapaz de perceber a minha elegante caligrafia esquizofrénica.
Mas esta relação tão próxima com algo que já tem vida própria provocou mudanças no meu ser. Habituei-me a escrever. Acostumei-me a esta relação de intimidade longínqua com pessoas que não conheço, apenas porque tenho um intérprete das minhas experiências. Escrevi sobre muitas coisas diferentes. Escrevi mais do que alguma vez sonhei e sinto que ainda há muito por dizer.
Percebi que tinha violado a minha regra quando fui de férias e deixei de poder escrever. Viagens, burocracias e cansaço contribuíram para este desleixo. Os artigos que tinha de reserva foram sendo publicados, ao ritmo de um por dia, como sempre, até que se esgotaram.
A escrita é uma rotina. E a longa pausa quebrou essa rotina. Dei por mim preocupado porque tinha mesmo de escrever ou então o Aerograma era interrompido. Não adviria nenhum grande mal ao mundo, mas abria um precedente. Deixaria de ser diário por incúria minha.
Escrevi umas coisas assim-assim, pouco inspiradas, porque a quebra da rotina foi também acompanhada por um afastamento das experiências que movem o Aerograma. Fui escravizado por algo que devia controlar.

Algures na Áustria
Foram precisos alguns dias até que conseguisse afinar de novo os sentidos para procurar os detalhes no meio do ruído. Ao fim de uma semana, voltei a rir-me das crianças a correr na lama atrás de um cão. Tornei a fazer notas incompreensíveis no caderninho, sabendo de antemão que poderão nunca ser usadas.
Senti-me liberto. Percebi que a escrita sobrevive de uma certa rotina e disciplina. As regras não precisam ser rígidas, mas têm de existir. Voltei a escrever quando me apetece. Um, dois ou mais artigos de cada vez. Hei-de voltar a ter uma reserva confortável, mas não me vou preocupar muito com isso. Fui alforriado e não me apetece voltar a ser escravo.
E só para lhe mostrar quem manda, vou publicar este texto apenas daqui a uns dois meses, por altura do quadrigentésimo artigo!
20
06
2009
Numa das visitas ao Huambo, perguntei a um dos funcionários do aeroporto de quem era o grande hangar ao lado da aerogare. «É da Força Aérea», respondeu-me. Comentei que achava estranho estar vazio, só com um estendal num canto. Perguntei o que lá faziam. «É a Força Aérea», respondeu-me de novo. Foi uma resposta bem mais esclarecedora do que ele julga.
Recentemente, houve um incêndio em Luanda, perto do Kinaxixi. Pela primeira vez vi bombeiros na capital. Sempre me tinha interrogado quanto à sua existência, uma vez que ambulâncias só tenho visto as privadas e as do Hospital do Prenda têm ar de que não costumam sair muito.
Chegaram algumas horas depois do incêndio começar. Dois deles esticaram umas fitas de plástico para evitar que os peões passassem perto do prédio. Depois juntaram-se todos do outro lado da rua a observar. Por momentos, julguei quem me estavam a descrever as actividades «da Força Aérea» lá no Huambo.
Na verdade, até compreendo a atitude dos bombeiros. Afinal de contas, sem água dá para fazer o quê? As poucas bocas de incêndio que sobraram do tempo colonial servem apenas de banco ou decoração porque foram desligadas da rede de águas há muito e os carros de bombeiros nunca transportam muita água. Que mais há para fazer senão vedar a área e ver arder?
19
06
2009
Angola é uma terra cheia de problemas, não há como negá-lo. Tem os mesmos problemas que as outras e depois tem uns só dela. Para os resolver, é necessário manter a calma e concentrarmo-nos nos mais importantes.
Os angolanos são um povo prático e, ao longo dos tempos, desenvolveram e aperfeiçoaram uma teoria de resolução de problemas simples e eficaz, que levam à prática a cada oportunidade que surge. Assenta em princípios simples e não implica dispendiosas acções de formação para que seja transmitida. Cada um aprende fazendo ou vendo fazer.
Em vez de expôr a teoria, vou explicar como se aplica com alguns exemplos, para que se tenha uma ideia de como os angolanos aprendem a usá-la. Mais tarde farei a exposição teórica.
Exemplo 1
Problema:
O vizinho de cima tem um cano roto na casa-de-banho e chove-nos na sala.
Resolução:
Batemos-lhe à porta e reclamamos da água.
Ele responde «O problema não é meu. É teu. É na tua sala que chove.»
Problema resolvido!
Os menos preparados poderão zangar-se com o vizinho, chamar-lhe nomes e ser até desagradável, insinuando que a mãe do senhor era algo que não honrada. Na verdade, isto não passa de um choque cultural, um daqueles mal-entendidos que acontecem quando não se está perfeitamente integrado numa sociedade diferente. Se aplicarmos a teoria angolana para a resolução de problemas a este caso concreto, a solução é muito mais simples do que se julga.
Exemplo 2
Problema:
O vizinho de cima tem um cano roto na casa-de-banho e chove-nos na sala. Ele diz que o problema é nosso.
Resolução:
Partimos o tecto da sala e reparamos o cano roto.
No dia seguinte, ele bate-nos à porta e reclama que não tem chão na casa-de-banho. Respondemos «O problema não é meu. É teu. Já não me chove na sala.»
Problema resolvido!
Analisando com cuidado, percebemos que todo este processo assenta no princípio da conservação da energia. A teoria angolana implica que a responsabilidade pela resolução do problema seja canalizada para outrém, não resolvendo de imediato a questão, mas evitando desperdício de energia. Eventualmente, a responsabilidade chegará a alguém que terá de investir mais energia na transmissão da responsabilidade do que na resolução efectiva do problema. Pode demorar um pouco mais, mas acaba por se resolver.
Exemplo 3
Problema:
Os iogurtes comprados no supermercado estavam estragados. Reclamamos. Aplicam a teoria angolana e dizem-nos que o problema é nosso.
Ponto de vista do supermercado:
Energia necessária para aceitar a reclamação, receber os iogurtes estragados e trocar por outros, devolver ao fornecedor, preencher papéis: muita.
Energia necessária para recusar a reclamação: desprezável.
Ponto de vista do cliente:
Energia necessária para ir ao supermercado, esperar que alguém atenda a reclamação, provar que os iogurtes estavam estragados, esperar pelos novos, regressar a casa e descobrir que também estão estragados: muita.
Energia necessária para deitar fora os iogurtes e comprar outros na loja da esquina: desprezável.
Torna-se óbvio que a solução que conserva mais energia é a que segue a teoria angolana de resolução de problemas.
Depois de interiorizarmos esta filosofia de vida, começamos a perceber como Luanda funciona. Os geradores, os depósitos de água, os todo-o-terreno passam a fazer todo o sentido e, na verdade, permitem poupar muita energia que poderia estar a ser desperdiçada em reclamações inúteis.
A rua tem buracos? O problema é teu, compra um jipe!
Não há electricidade 22 horas por dia? Compra um gerador, que não temos nada a ver com isso.
Faltou a água? A culpa é da guerra. Se tivesses depósito, safavas-te…
Ninguém te consegue ligar? Anda com dois telefones.
Os angolanos gostam da sua teoria de resolução de problemas. Poupa-lhes muitos dissabores, pelo menos a curto prazo. Mas o que aconteceria se fosse aplicada pelo resto do mundo em relação a Angola?

O esgoto não tem tampa? O problema é de quem lá cai!
18
06
2009
À porta da esquadra, quase em frente da sentinela que abraçava a AK-47 com o carregador virado para o queixo, estava parado um todo-o-terreno da polícia. O condutor estava a tratar de algum assunto junto do piquete e deixou o carro ali mesmo. O comandante da esquadra veio perguntar de quem era o carro, que não podia ali ficar.
Ninguém se acusou, temendo um raspanete e, de qualquer das formas, o comandante sairia daí a uns minutos. À falta do condutor, o chefe mandou outro polícia. Achei estranho não pedir as chaves, mas depois espreitei pela janela e reparei que no lugar do canhão da fechadura estava apenas um emaranhado de fios retorcidos.
O polícia sentou-se, enfiou as mãos debaixo do volante e fez arrancar o motor com uma ligação directa! Há quem diga que os bons polícias devem conhecer os esquemas dos ladrões, mas pareceu-me algo exagerado praticar com tanta convicção.
17
06
2009
Em Luanda encontrei o Cristo Rei debaixo de uma Sarça Ardente. Pareceu-me ser um sinal Divino, mas não sei bem de quê.
Sinal Divino
Talvez tenha de recorrer a uma das milhentas igrejas de Luanda para que me expliquem o sinal.