Josef K. veio para Angola. Passou pelas habituais desventuras consulares com que o país brinda quem o visita. A primeira carta de chamada, que vinha endereçada aos Serviços Consulares da Embaixada de Angola, foi recusada. Tinha de ser dirigida ao Consulado de Angola.
Durante um ano trabalhou numa seguradora famosa, num escritório com vista para a Baía de Luanda. Aliás, foi devido à sua experiência com processos complicados que foi enviado para Angola.
Tinha chegado a altura de renovar o visto. Informou-se do que era necessário e dirigiu-se à DEFA. Apareceu lá bem cedo, bem antes de abrirem as portas. Aos poucos, a confusão foi-se instalando. Empurrões e vozes altas a reclamar da lentidão. Um pouco antes da hora do almoço, conseguiu entrar. Pelo meio ainda deu uma gasosa ao segurança, que aceitou dizendo que «só a aceitava para que não julgasse que tinha se negligenciado alguma forma de acelerar o Processo». Esperou que os funcionários que «ainda não tinham regressado do almoço» ou os que «estavam quase-quase a chegar» regressassem. Depois esperou mais um pouco, dando-lhes tempo de pôr a conversa em dia.
Atenderam-no a meio da tarde. Ao primeiro relance, recusaram-lhe o processo. Lamentavam muito, mas era necessário apresentar uma cópia autenticada de uma qualquer certidão obscura. Sem ela, não poderiam dar andamento ao processo. Josef K. bem tentou argumentar que semelhante certidão só se poderia obter em Praga e que em lado nenhum estava escrito que aquele documento era necessário. Foi inútil. A dificuldade estava criada, mas seguramente lhe poderiam vender uma faciilidade…
Recusando-se a ceder a esta táctica, no dia seguinte procurou maneira de obter a certidão. Telefonemas para casa, conversas com amigos e desabafos com conhecidos fizeram-lhe chegar uma cópia do documento pretendido às mãos. Agora só precisava de a autenticar.
Depois de muitas tentativas frustradas, resolveu atacar o problema de outra maneira. Com um carimbo e umas assinaturas pomposas transformou a sua cópia da certidão num documento de ar oficial, que nunca passaria por verdadeiro.
Regressou à DEFA. Perdeu mais um dia, mas apresentou o documento. Foi recusado. O original não serve, tem de entregar uma cópia autenticada pelo Ministério das Relações Exteriores.
No dia seguinte, foi ao MIREX, para autenticar o documento semi-verdadeiro. Esperou a manhã inteira. Foi atendido e explicou o que queria. Não era ali que tinha de se dirigir. O MIREX só autentica depois dos serviços consulares do país de origem lhe autenticarem uma cópia do documento…
Josef K. estrebuchou. Reclamou porque nunca lhe diziam onde devia começar o processo. Só o informavam do passo imediatamente anterior. Aborrecido, foi à procura do consulado.
Chegou perto da hora de fecho, perguntou ao segurança onde poderia autenticar o documento. O segurança disse-lhe logo que tinha de voltar na semana seguinte, porque – apontou para o letreiro na parede – «Autenticações só às Segundas-feiras». Josef K. esmoreceu, mas entrou na mesma, com esperança de se cruzar com alguém a quem explicar a situação. Encontrou uma porta encostada e não se fez rogado. Entrou mesmo, como se fosse da casa. A funcionária no gabinete disse-lhe que já não atendiam, mas ele acabou por lhe explicar que só queria mesmo autenticar aquela cópia para levar ao MIREX por causa da complicada burocracia angolana. Com estas palavras ganhou uma aliada e a funcionária disse-lhe que abria uma excepção. Até abriu outra excepção e fez a fotocópia no consulado. O pagamento dos dez dólares de taxa é que tinha de ser feito no banco da esquina e aí não podia ceder. Os pagamentos têm de ser sempre feitos por transferência bancária.
Josef K. correu até ao banco da esquina e sorriu quando viu que estava vazio. Confiante, avançou até ao caixa, que o olhou nos olhos e lhe disse, com toda a calma:
«Não há sistema…»
«Mas só quero fazer um depósito para o consulado.»
«Não há sistema, não posso fazer nada.»
«Quanto tempo demora até voltar?»
«Depende. Talvez meia-hora, talvez mais…»
«Mas é só um depósito. Só preciso de um talão em como depositei e esse pode fazer à mão.»
«Depois eles não aceitam…»
«Aceitam sim. São só dez dólares. Já alguma vez ouviu alguém dar um golpe de dez dólares?»
«Não sei. Com o sistema, eles confiam mais…»
«Se tiver um carimbo do banco têm de aceitar. Se não aceitarem eu venho buscar o outro, pode ser?»
«Eu faço, mas eles vão recusar…»
Mas não recusaram. E Josef K. conseguiu autenticar uma cópia da sua certidão semi-original. Já podia ir ao MIREX. Mas isso teria de ficar para o dia seguinte.
Logo pela manhã, esperou umas horas até ser atendido. Disseram-lhe que podia autenticar a certidão, mas tinha de fazer um requerimento em papel de vinte e cinco linhas. Estava explicado o mistério de toda a gente ter uma folha azul na mão.
«Onde posso comprar aquele papel?»
«Lá fora, nos miúdos.»
No exterior, tentou regatear uma folha de papel azul e a estampilha fiscal sem sucesso. O preço está tabelado: 150 Kz.
Copiou a minuta para a folha e apresentou o requerimento, depois de mais algumas horas de espera, claro. Assistiu à funcionária conferir a cópia, carimbar, assinar e marcar com o selo branco o documento que tinha sido autenticado na véspera pelo consulado. Logo a seguir, colocou a cópia e o requerimento num cesto ao lado. Josef K. perguntou se já estava. «Sim, está pronto.» Então porque não lho entregava? «Tem de esperar 24h. Está na lei. Amanhã pode vir levantar.»
Vítima do Processo
Inconformado, mas resignado, esperou até ao dia seguinte. Levantou a certidão duplamente autenticada e dirigiu-se à DEFA. A confusão do costume no exterior fê-lo pensar que tinha sido boa ideia guardar a senha de atendimento de há uns dias. Acenou-a à frente do segurança que faz as vezes de porteiro e disse-lhe que a menina só o tinha mandado ir fazer uma fotocópia. Foi mandado entrar. Entregou os documentos todos, não deixou de sorrir por ver a sua certidão ser aceite. Não comprou a facilidade, mas as dificuldades foram muitas.
Josef K. regressou a Praga no mês seguinte, onde o esperava um Processo que lhe diziam ser muito complicado. Riu-se à gargalhada. «Venha ele!»