Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

16  06 2009

Queiroz, o nosso herói

Num dos muitos fins-de-semana prolongados que marcaram o início do Cacimbo, fomos a Cabo Ledo para confirmar se as pessoas tinham seguido o meu conselho. Parece que não, porque havia muita gente.

A meio da tarde os nossos piores receios concretizaram-se. O Cabo Ledo estava a tornar-se no Mussulo, com duas motas de água às voltinhas logo a seguir à rebentação.

Para piorar ainda mais as coisas, uns minutos depois chega uma moto-quatro muito barulhenta. Veio ao longo da praia, atirando areia por todo o lado e afugentando os banhistas. É desnecessário acrescentar que o condutor gostava de fazer aceleradelas só para ouvir o escape. Veio parar mesmo em frente às mesas do Queiroz, demorando um pouco até desligar o motor.

Cabo Ledo
Deixem-me dormir

Os homens que fumavam o narguilé na mesa corrida onde uma família de libaneses almoçava pousaram-nos e pararam de conversar. O mesmo fizeram todos os outros clientes. O centro das atenções era o recém-chegado. E não era pelas melhores razões.

Nisto, um sujeito grande dirige-se ao intruso e começa a falar-lhe alto, apontando para fora da praia e ameaçando que chama a polícia. Afinal de contas, ainda estamos no Parque da Quiçama e só se pode andar nas picadas. Se anda na areia arrisca-se a que coisas más lhe aconteçam. O condutor, intimidado não só pelos argumentos mas também pelo tamanho do homem, ligou o motor e retirou a mota da praia, com ar de poucos amigos.

O sujeito grande afinal é o dono do restaurante, o Sr. Queiroz. E fez mais pelo seu negócio com este gesto do que com toda a publicidade que pudesse comprar.

A calma regressou a Cabo Ledo e o Sr. Queiroz foi encarado como um herói!


15  06 2009

O fim

Já muitas vezes me perguntei como será o fim do Aerograma. Como se termina uma coisa que sabemos nunca estará completa? Como se diz que este será o último artigo?

Ao longo dos últimos tempos tenho assistido ao fim de alguns blogs dedicados a Angola. Os seus autores partiram para outras paragens ou descobriram novos interesses. Terminam quase sempre com um artigo de despedida e deixam a sua obra num limbo cibernético, esperando a nova entrada que nunca chegará.

Quando a estadia programada chegar ao fim, o Aerograma irá fechar, naturalmente. Tenho vindo a pensar mais vezes no que será o último artigo, em como será a despedida. Espero que não seja algo de nostálgico, porque esta é uma terra de futuros e sorrisos brilhantes. Ou talvez não feche e mude só de cara e de tema, mas não será mais o Aerograma escrito em Luanda acerca de Angola. Haverá milhares de assuntos que mereciam ser tratados ou revisitados, mas terão de ficar assim, porque não faz sentido escrevê-los fora da terra.

Tem sido uma experiência de vida ímpar, com contrariedades e alegrias que nunca serei capaz de descrever completamente. É por isso que o último artigo do Aerograma fechará apenas um capítulo. O resto da história ficará por contar. E sentir.

Não foi a antecipação de algo que ainda antevejo distante que me levou a escrever este artigo. Foi mesmo porque parte do Aerograma chegou ao fim. Acabou-se. Não sobrou mais que uma capa dobrada e algumas folhas garatujadas com notas indecifráveis. E o número de telefone de um polícia do Dondo.

Fim
Acabou

A versão de bolso do Aerograma, aquela que me acompanhava a todo o lado para receber notas e esboços de artigos, quando não mesmo artigos inteiros, foi emagrecendo à medida que a edição electrónica engordava. Acabou por dar o seu último suspiro. Está na altura de comprar outro.

A propósito, há um ano que estou em Angola…


14  06 2009

Descontracção

Dois amigos conversavam na berma da estrada. O que estava no passeio encostado a uma mota verde, o outro tinha um pé no lancil e as mãos nos bolsos.

Conversavam acerca de nada ou acerca de tudo, não sei bem. Dentro do carro não os ouvia. Frente a frente, via-os dizer coisas e só podia tentar imaginar o assunto.

A meio de uma frase, o que tinha o pé no lancil tirou as mãos dos bolsos e virou o corpo para a esquerda. Continuou a falar enquanto enfiava as mãos dentro dos calções. Com a maior naturalidade, começou a urinar para a valeta, evitando salpicar os chinelos. A conversa continuou por cima do ombro, com o mesmo ar descontraído.

Enxugadas as mãos aos calções, voltou-se para o amigo e continuaram, como se nada se tivesse passado. O carro da frente avançou e eu também.


13  06 2009

Coincidências

Para evitar perder duas horas por dia no trânsito só para almoçar, optámos pela solução do Maomé e da montanha. Todos os dias recebemos, salivando abundantemente, um almoço completo cá no escritório. A ementa é mais variada do que os restaurantes que frequentávamos, não nos aborrecemos no trânsito e até é mais barata. Fizemos a escolha certa!

Acontece também que, às vezes, trago alguma coisa para petiscar a meio da manhã. Uma peça de fruta ou algumas bolachas, por exemplo.

Mais ou menos por volta do início do Cacimbo, comecei a notar numas coincidências estranhas. É aquele tipo de situações que nos deixam a pensar na razão das coisas.

Numa manhã, preparei uma tacinha com pedaços de ananás. Olhei para ela toda a manhã, antevendo o bem que me iria saber ao lanche. Chegou o almoço. A sobremesa era uma tacinha com pedaços de ananás…

Uns dias depois, trouxe uma laranja. A sobremesa era laranja…

Como achei curioso estas duas coincidências, comecei a escrever um artigo, onde deixava em aberto o que aconteceria se trouxesse bolachas.

Hoje, finalmente, trouxe bolachas. A sobremesa foi… Bolo!


12  06 2009

Kafkiano

Josef K. veio para Angola. Passou pelas habituais desventuras consulares com que o país brinda quem o visita. A primeira carta de chamada, que vinha endereçada aos Serviços Consulares da Embaixada de Angola, foi recusada. Tinha de ser dirigida ao Consulado de Angola.

Durante um ano trabalhou numa seguradora famosa, num escritório com vista para a Baía de Luanda. Aliás, foi devido à sua experiência com processos complicados que foi enviado para Angola.

Tinha chegado a altura de renovar o visto. Informou-se do que era necessário e dirigiu-se à DEFA. Apareceu lá bem cedo, bem antes de abrirem as portas. Aos poucos, a confusão foi-se instalando. Empurrões e vozes altas a reclamar da lentidão. Um pouco antes da hora do almoço, conseguiu entrar. Pelo meio ainda deu uma gasosa ao segurança, que aceitou dizendo que «só a aceitava para que não julgasse que tinha se negligenciado alguma forma de acelerar o Processo». Esperou que os funcionários que «ainda não tinham regressado do almoço» ou os que «estavam quase-quase a chegar» regressassem. Depois esperou mais um pouco, dando-lhes tempo de pôr a conversa em dia.

Atenderam-no a meio da tarde. Ao primeiro relance, recusaram-lhe o processo. Lamentavam muito, mas era necessário apresentar uma cópia autenticada de uma qualquer certidão obscura. Sem ela, não poderiam dar andamento ao processo. Josef K. bem tentou argumentar que semelhante certidão só se poderia obter em Praga e que em lado nenhum estava escrito que aquele documento era necessário. Foi inútil. A dificuldade estava criada, mas seguramente lhe poderiam vender uma faciilidade…

Recusando-se a ceder a esta táctica, no dia seguinte procurou maneira de obter a certidão. Telefonemas para casa, conversas com amigos e desabafos com conhecidos fizeram-lhe chegar uma cópia do documento pretendido às mãos. Agora só precisava de a autenticar.

Depois de muitas tentativas frustradas, resolveu atacar o problema de outra maneira. Com um carimbo e umas assinaturas pomposas transformou a sua cópia da certidão num documento de ar oficial, que nunca passaria por verdadeiro.

Regressou à DEFA. Perdeu mais um dia, mas apresentou o documento. Foi recusado. O original não serve, tem de entregar uma cópia autenticada pelo Ministério das Relações Exteriores.

No dia seguinte, foi ao MIREX, para autenticar o documento semi-verdadeiro. Esperou a manhã inteira. Foi atendido e explicou o que queria. Não era ali que tinha de se dirigir. O MIREX só autentica depois dos serviços consulares do país de origem lhe autenticarem uma cópia do documento…

Josef K. estrebuchou. Reclamou porque nunca lhe diziam onde devia começar o processo. Só o informavam do passo imediatamente anterior. Aborrecido, foi à procura do consulado.

Chegou perto da hora de fecho, perguntou ao segurança onde poderia autenticar o documento. O segurança disse-lhe logo que tinha de voltar na semana seguinte, porque – apontou para o letreiro na parede – «Autenticações só às Segundas-feiras». Josef K. esmoreceu, mas entrou na mesma, com esperança de se cruzar com alguém a quem explicar a situação. Encontrou uma porta encostada e não se fez rogado. Entrou mesmo, como se fosse da casa. A funcionária no gabinete disse-lhe que já não atendiam, mas ele acabou por lhe explicar que só queria mesmo autenticar aquela cópia para levar ao MIREX por causa da complicada burocracia angolana. Com estas palavras ganhou uma aliada e a funcionária disse-lhe que abria uma excepção. Até abriu outra excepção e fez a fotocópia no consulado. O pagamento dos dez dólares de taxa é que tinha de ser feito no banco da esquina e aí não podia ceder. Os pagamentos têm de ser sempre feitos por transferência bancária.

Josef K. correu até ao banco da esquina e sorriu quando viu que estava vazio. Confiante, avançou até ao caixa, que o olhou nos olhos e lhe disse, com toda a calma:

«Não há sistema…»
«Mas só quero fazer um depósito para o consulado.»
«Não há sistema, não posso fazer nada.»
«Quanto tempo demora até voltar?»
«Depende. Talvez meia-hora, talvez mais…»
«Mas é só um depósito. Só preciso de um talão em como depositei e esse pode fazer à mão.»
«Depois eles não aceitam…»
«Aceitam sim. São só dez dólares. Já alguma vez ouviu alguém dar um golpe de dez dólares?»
«Não sei. Com o sistema, eles confiam mais…»
«Se tiver um carimbo do banco têm de aceitar. Se não aceitarem eu venho buscar o outro, pode ser?»
«Eu faço, mas eles vão recusar…»

Mas não recusaram. E Josef K. conseguiu autenticar uma cópia da sua certidão semi-original. Já podia ir ao MIREX. Mas isso teria de ficar para o dia seguinte.

Logo pela manhã, esperou umas horas até ser atendido. Disseram-lhe que podia autenticar a certidão, mas tinha de fazer um requerimento em papel de vinte e cinco linhas. Estava explicado o mistério de toda a gente ter uma folha azul na mão.

«Onde posso comprar aquele papel?»
«Lá fora, nos miúdos.»

No exterior, tentou regatear uma folha de papel azul e a estampilha fiscal sem sucesso. O preço está tabelado: 150 Kz.

Copiou a minuta para a folha e apresentou o requerimento, depois de mais algumas horas de espera, claro. Assistiu à funcionária conferir a cópia, carimbar, assinar e marcar com o selo branco o documento que tinha sido autenticado na véspera pelo consulado. Logo a seguir, colocou a cópia e o requerimento num cesto ao lado. Josef K. perguntou se já estava. «Sim, está pronto.» Então porque não lho entregava? «Tem de esperar 24h. Está na lei. Amanhã pode vir levantar.»

Bulldozer com árvore no meio
Vítima do Processo

Inconformado, mas resignado, esperou até ao dia seguinte. Levantou a certidão duplamente autenticada e dirigiu-se à DEFA. A confusão do costume no exterior fê-lo pensar que tinha sido boa ideia guardar a senha de atendimento de há uns dias. Acenou-a à frente do segurança que faz as vezes de porteiro e disse-lhe que a menina só o tinha mandado ir fazer uma fotocópia. Foi mandado entrar. Entregou os documentos todos, não deixou de sorrir por ver a sua certidão ser aceite. Não comprou a facilidade, mas as dificuldades foram muitas.

Josef K. regressou a Praga no mês seguinte, onde o esperava um Processo que lhe diziam ser muito complicado. Riu-se à gargalhada. «Venha ele!»


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