Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

11  06 2009

Um vintém para o barqueiro

Lá no escritório temos um jardineiro. Quer dizer, jardineiro não será bem, mas como vai varrendo o pátio e trata da relva, é assim que está classificado no contrato.

Veio da Gabela, onde diz que faz muito frio no Inverno, para Luanda, já não sabe bem porquê. Aqui, pelo menos, pode-se dormir fora, garante. Antes de para cá vir trabalhar, vivia de expedientes, guardando vagas de estacionamento e lavando carros ou transportando coisas.

Tal como muitos outros angolanos, quase que paga para trabalhar. Todos os dias tem de apanhar três táxis para vir e mais três para voltar. Cada corrida custa 100 Kz. São 600 Kz por dia só em transportes. Ao fim da semana, gastou 3’000 Kz só para vir trabalhar. E no fim do mês, já se foram 12’000 Kz. Com um salário acima da média para a função, recebe 16’000 Kz. Não sobra muito. Quando fiz estas contas, lembrei-me de Lopes Graça:

«Fui um ano à vindima,
pagaram-me a trinta réis;
dei um vintém ao barqueiro,
ai, fui pra casa com dez réis.
Dei um vintém ao barqueiro,
ai, fui pra casa com dez réis.
»

Perguntámos-lhe quanto custaria uma bicicleta para vir para o trabalho, para saber se seria incomportável. 8’000 Kz, metade do salário. Aprofundando a questão, descobrimos que não compensava comprar uma. A bicicleta cansa muito, deve ser perigoso por causa dos carros e, quando chove, chega-se todo molhado. Mas uma mota, sorriu, isso é que era!


10  06 2009

O grito da p’xeira-ê!

O colorido de Luanda não é só devido aos remendos nas fachadas e pinturas avulsas para receber um qualquer dignitário, nem só pelas diferentes tonalidades que o pó, a chuva e o lixo vão emprestando às ruas. São as pessoas que cá moram que criam esta atmosfera diferente.

As esquinas onde se aglomeram os engraxadores a disputar fregueses, sapatos e bainhas com as suas garrafas de água ludra e escovas de três cerdas fazem, certamente, parte da cidade, tal como quem zunga trastes e inutilidades por entre os carros.

Mas o colorido não é só feito de imagens. Há também o colorido sonoro. E nisso, Luanda é um arco-íris de sons e ruídos. São as ambulâncias em marcha de urgência, nem que seja a altas horas da madrugada, com as ruas desertas. São as buzinadelas furiosas porque alguém parou na passadeira, sabendo perfeitamente que o condutor atrás queria parar vinte metros à frente. São os escapes livres das motas e as aceleradelas nervosas dos seus condutores, que fazem concorrência aos batedores dos Volvo de vidros fumados a abrir caminho no meio do engarrafamento e são os gritos, os muitos gritos de gente que chama, conversa ou discute.

Pelo meio disto tudo conseguimos reconhecer sempre o chamamento das peixeiras que, de alguidar à cabeça, conseguem projectar o seu pregão mais alto que os demais.

Demora um pouco até que consigamos decifrar o peixe que vendem, mas depois de se perceber onde começam e acabam as palavras do pregão, torna-se fácil entender «Kemképêx’galo-ê», «Kemképêx’pada-ê» ou «Kemkékarapau-ê»…


06 2009

Fardado a rigor

Como em muitos outros edificios em Luanda, o nosso prédio tem seguranças à porta. Fazem os seus turnos de 24h com direito a uma refeição de arroz e frango, sentados nas cadeiras partidas todo o dia.

Ao fim de algumas semanas, começamos a conhecer um pouco cada um deles. Uns mais simpáticos que outros, outros mais educados, mas de nenhum temos razões de queixa. E não há dia em que não devolvam o cumprimento.

Cada um é responsável pela sua farda, pelo que, às vezes, vemo-los a fazer a barrela num alguidar em frente à porta. E só nestas ocasiões é que os encontramos menos aprumados.

Há um deles, que teve a sorte de lhe atribuirem uma farda mais ao tamanho do corpo, que se esmera. Anda sempre ataviado a rigor. Farda limpa e quase engomada, cinturão direito e calças enfiadas para dentro da bota da tropa com o lustro bem puxado. Não é gralha. É mesmo só uma bota reluzente. No outro pé tem um chinelo de enfiar no dedo…

Chega a ser cómico vê-lo tão aprumado e depois ir coxeando de um lado para o outro porque anda de chinelo e bota. O que terá acontecido à outra?


06 2009

Na falta de elefantes

Quando se vem a África, apesar de sabermos serem expectativas irreais, sonhamos sempre com as imagens dos documentários de vida selvagem que nos acompanharam desde pequenos. Sabemos perfeitamente que vamos estar numa cidade onde o mais próximo que há de vida selvagem são os mosquitos, que as savanas ficam longe e que, provavelmente, não têm os animais que imaginamos.

Sempre que saímos de Luanda pensamos «será que é hoje que vejo alifantes?», mas nunca é. Os bichos mais tropicais que vemos são os macacos cinzentos a atravessar as estradas em bandos ou as peças de caça expostas na ponta de um braço ao longo das bermas das estradas do interior. Alguns afortunados foram ao parque da Quiçama ver os veados importados e ouvir a história de que até há elefantes, mas estão de folga. O sindicato é poderoso.

Na falta de elefantes, temos de nos contentar com formas de vida mais discretas. O mundo dos insectos é uma boa escolha. Esses pequenos animais estão por todo o lado.

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Uma lagarta como as de lá

Nas idas à província, isto é, para fora de Luanda, encontramos coisas surpreendentes, tanto pela sua familiaridade, como pela sua estranheza. Uma dessas surpresas foi reconhecer um tipo de lagarta preta que fazia as minhas delícias enquanto criança, por se enrolar numa espiral perfeita ao mínimo sinal de perigo. Ainda me lembro do fedor que deitavam quando se enrolavam. A grande diferença para a versão portuguesa é o tamanho. As de Queluz nunca tinham mais de três centímetros, mas as de cá…

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Medem-se aos palmos


06 2009

Cumprindo o provérbio

Costuma-se dizer que a sabedoria popular, quase sempre transmitida sob a forma de provérbios, é fruto da observação directa de fenómenos ou situações. A previsão do estado do tempo é um bom exemplo, porque há dezenas de ditos, provérbios e reparos empíricos acerca do tema.

Angola não é uma terra diferente das demais neste aspecto. Os provérbios nascem da mesma maneira. Serão, talvez, a primeira forma de História inventada. São fáceis de decorar e transmitem sempre algo de útil, mesmo que não pareça.

Em Luanda, na última grande chuvada do Verão que terminou, assisti a um episódio que me lembrou um provérbio angolano.

A meio da tarde cinzenta, umas gotas tímidas começaram a pintalgar os passeios, fazendo assentar o pó. Uns minutos mais tarde, os pregões das zungueiras deixaram de se ouvir, enquanto procuravam um toldo para se abrigarem. A chuva começou a cair com mais insistência e as ruas esvaziaram-se. Tirando o ocasional carro a passar, só o choro das crianças, prontamente interrompido com uma mama na boca, perturbava o barulho da chuva quente a cair com força.

Num instante, as ruas secas transformaram-se em rios caudalosos, fazendo lembrar os rios temporários que se enchem subitamente de água castanha e lixo flutuante. Debaixo das varandas e dos toldos, as zungueiras velavam pelos alguidares ainda cheios, mostrando um dia fraco, com os clientes também fugidos da chuva.

Durante esta espera aborrecida, uma das mulheres começou a despir a filha. Pendurada por um braço, a menina não reclamava enquanto a mãe lhe puxava a roupa e a deixava nua. Entalava a roupa no pano que há pouco lhe segurava a filha e depois, sem grandes contemplações, deitou-a de costas na valeta, onde corria a água da chuva. Com uma mão segurava-lhe as costas e com a outra dava-lhe banho. A menina continuava impávida. Secou-a numa das pontas do pano, vestiu-a e pô-la às costas.

«A mulher asseada vê-se no Cacimbo», lembrei-me.


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