28
04
2009
A História está cheia de enganos e embustes, uns pequenos, outros grandes e outros imensos, dignos de monumentos e tudo.
Um destes enganos está no centro de Lisboa, no Rossio. Na Praça D. Pedro IV, que deve o seu nome a uma das figuras mais curiosas da História de Portugal.
D. Pedro nasceu no Palácio de Queluz, a poucas centenas de metros do local onde vivi desde que nasci. Durante as invasões francesas, partiu para o Brasil com o resto da Família Real. Foi Imperador do Brasil e abdicou em nome do filho. Foi Rei de Portugal e abdicou em nome da filha, D. Maria.
Evoramonte
D. Miguel, seu irmão, começou a governar como rei absoluto, o que desencadeou uma guerra civil em Portugal, entre Absolutistas (ou Miguelistas) e Liberais. As forças de D. Pedro venceram os partidários de D. Miguel e, numa modesta casa de Evoramonte, foi assinada a Convenção onde se estabeleceram os poderes dos soberanos e se exilou o rei absolutista. D. Pedro morreu alguns dias depois de D. Maria II subir ao trono.
Mas onde está o embuste? Está na Praça do Rossio, pois claro. Mas começou do outro lado do Atlântico.
Como forma de homenagem a tão insigne figura, haverá melhor que uma estátua? Provavelmente não. O certo é que só se decidiu encomendar a dita trinta anos depois de D. Pedro ter morrido. Já ninguém se lembrava muito bem de como ele era, muito menos o escultor.
Mas como o mundo está cheio de coincidências, por essa altura o Imperador Maximiliano do México estava a ser fuzilado. O curioso é que tinha encomendado uma estátua anos antes e que seguia agora para o México. Com a súbita morte do cliente, a estátua acabou por ficar em Lisboa, a ganhar pó.
Como ambos tinham barba e um certo porte real, alguém pensou se não se poderia reciclar o pobre Maximiliano. Bem dito, bem feito. Só foi necessário cortar-lhe o braço direito, que segurava um ceptro imperial e colocar-lhe um novo braço que segura a Carta Constitucional. Antes de lavarem a estátua e a cobrirem com silicone anti-caca-de-pombo, o braço novo tinha uma cor diferente. Agora nem se nota.
O logro funcionava à distância, mas quem observasse mais de perto percebia que alguma coisa estava mal. A solução encontrada foi simples e eficaz: construíu-se um pedestal altíssimo, para que todos vissem a estátua ao longe.
D. Pedro IV ou Maximiliano I?
Da próxima vez que acharem que aquele pedestal é demasiado alto, lembrem-se que é assim para que ninguém desconfie.
27
04
2009
Uns quilómetros a sul de Luanda, a estrada cruza o rio Kwanza. Dos milhares de rios em Angola, este é o mais importante, até mesmo a nível político.
O Kwanza é o maior rio angolano, dá o nome à moeda nacional e, durante anos, as suas margens eram reduto exclusivo das forças do MPLA.
Hoje em dia, com a guerra quase esquecida, o Kwanza é o rio da ponte bonita, a tal que tem a portagem. Foi construída no princípio da década de 1970 e, felizmente, foi evitada a sua destruição, como aconteceu com quase todas as outras, no tipo de guerra em que se prefere destruir a defender, porque dá menos trabalho.

A ponte do Kwanza
A povoação de Barra do Kwanza ganhou uma fama triste no final da mesma década, a acreditar no que se conta. Mas esse é um tempo que já passou e uma questão que os angolanos têm de resolver sozinhos. Falemos da actualidade.
A estrada a sul e a norte estende-se por uma savana com muito capim e poucas árvores, numa paisagem quase árida, mesmo na época das chuvas. Junto às margens do Kwanza, temos uma verdadeira selva tropical, luxuriante e com um verde indescritível.
As águas do rio correm calmas, num rio muito largo, fluindo devagar até à foz que espreita no próximo cotovelo, mas a calma que o Kwanza mostra é só aparente. Do lado norte, quase no tabuleiro da ponte, está um velho carro blindado, que nos aponta os canos das metralhadoras às costas. Mesmo cheio de ferrugem e coberto de pó, nunca nos sentimos à vontade. Do lado sul, já no parque da Quiçama, julgamos ter deixado esse sentimento desconfortável para trás, mas estamos enganados.

Pouco barulho, não vá acordar
Do lado esquerdo da estrada, no meio da mata e do pântano que se segue, há um campo minado não assinalado. As minas foram colocadas para proteger um oleoduto que se avista de vez em quando. Não foram as minas que o protegeram. Está avariado há anos, provavelmente por falta de manutenção.
Do lado norte, mesmo junto às portagens, podemos ter a sorte de avistar avisos brancos e vermelhos, muito sumidos, pintados nos embondeiros. Também ali deve haver minas.
26
04
2009
O Aerograma é sempre escrito com alguns dias de antecedência, para precaver eventuais percalços com a ligação, faltas de electricidade ou de inspiração. As férias são sempre um período crítico, em que a reserva de artigos se vai esgotando à medida que os dias passam.
Descobri que a escrita sobrevive do hábito. Se o fizermos todos os dias, torna-se mais natural e não é preciso estudar com tanta atenção o parágrafo seguinte. Mas não é como andar de bicicleta. Paramos por uns dias e é necessário recomeçar. Algo dentro de nós adormece profundamente.
De novo em Luanda
Nos dias bons, os artigos escrevem-se a si mesmos. O seu fio condutor é, por vezes, uma ideia pequenina ou um fragmento de pensamento que acaba por nem aparecer no texto final. Gosto destes artigos, que apenas precisam de mim para carregar nas teclas.
No final das últimas férias, estive quase a quebrar a cadência de um artigo por dia. Tinha os rascunhos quase prontos, mas nenhum deles me compelia a terminá-lo. Foi quase um mês sem escrever, sem me embrenhar na vida de Luanda e dos seus habitantes.
Dias depois, ainda há notas que teimam em não querer ser promovidas a rascunhos e rascunhos que insistem em ficar a fermentar, mas muitos outros já foram publicados. Um deles, que tomou o freio nos dentes e só parou quando se cansou, marcou o regresso ao ritmo. Agora é continuar!
25
04
2009
Em meados da década de 1980 foi feito um filme que contava a história de um grupo de homens especiais. Viviam sem medo da morte ou da doença e até mesmo as feridas mais graves lhes eram indiferentes.
O seu único receio era que lhes separassem a cabeça do resto do corpo. Nessa altura morriam, finalmente. Os Imortais, como lhes chamavam, por vezes lutavam entre si. Sabiam que o último sobrevivente destes duelos conseguiria poderes e conhecimentos extraordinários.
O Imortal mais famoso é, concerteza, Duncan MacLeod, mais conhecido por Highlander, uma vez que nasceu nas terras altas da Escócia.
A maioria dos imortais passava despercebida. Viviam como pessoas normais, tinham empregos, amores e dissabores. A história contada pelos filmes diz que no fim sobrou apenas um, mas quem vive em Luanda sabe bem que isso não é verdade. E sabe também que aquilo que se acreditava serem personagens de ficção é apenas a realidade. Os Imortais existem. E estão todos em Luanda.
A esposa de um amigo, espírita encartada e capaz de descobrir estas coisas facilmente, reconheceu-os logo nos primeiros dias na capital angolana.
Deslocam-se a alta velocidade, equilibrados em minúsculos ciclomotores ruidosos e irritantes, fazendo razias, tangentes e até secantes a tudo quanto circula na estrada. Por vezes são comparados, em temeridade, aos motoristas dos candongueiros, mas o sorriso com que encaram a morte certa mil vezes por dia, coloca-os numa classe à parte. Com o total desrespeito que têm pela vida só podemos concluir que não temam a morte, que sejam imortais, os verdadeiros Imortais!

Imortal!
Agora, sempre que um kazucuta passa na estrada a fazer malabarismos na roda traseira ou a buzinar furiosamente enquanto passa, em contra-mão, entre duas filas do engarrafamento perpétuo de Luanda, só me ocorre dizer «Lá vai um Highlander!»
É pena que estes não estejam informados acerca das tradições dos Imortais. Se desatassem a cortar as cabeças uns aos outros, no fim sobrava só um e esse incomodaria muito menos.
24
04
2009
Se estiverem a pensar em ir a Cabo Ledo nos próximos tempos, apresento-vos uma série de boas razões para ficar em casa.
Em primeiro lugar, a viagem é muito longa. Cento e vinte quilómetros para cada lado, sendo que os primeiros trinta na ida e os últimos trinta no regresso são dentro de Luanda e demoram uma eternidade a ser percorridos. O acesso à praia é feito por uma longa picada enlameada. É preciso sair muito cedo ou então chegamos à praia na hora do regresso. Quem quiser evitar cancro de pele e voltar antes das onze, é bom que conte com uma viagem de noite, nada recomendável nas estradas angolanas.
Um por quilómetro
Depois, cruzamos duas vezes a única portagem em Angola. Na Barra do Kwanza aliviam-nos os bolsos de 420 Kwanzas. Nas outras praias não há destas modernices. Não contentes com a portagem, ao longo da estrada é certo encontrar umas dezenas de polícias, sempre prontos a aligeirar os bolsos dos motoristas consoante uma qualquer interpretação do código de estrada ou do estado do tempo.
Entre a praia e as arribas há fábricas de peixe seco, ou melhor, há tabuleiros com peixe a secar e a apodrecer espalhados por todo o lado. Palhotas e cubatas espalham-se no meio do peixe, que enche o ar com um cheiro acre, e pequenos montes de lixo.
Nas arribas
Os miúdos já perderam a inocência que o seu tamanho faria adivinhar e só sabem dizer «Amigô! Amigô! Dá gasosa!». Podem estar a brincar uns com os outros ou a dormitar, mas assim que presentem brancos, começam a ladainha.
Quem espera encontrar bares agradáveis como os da Ilha do Cabo, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Aqui não há ar condicionado. As motas de água que fazem as delícias de alguns lá no Mussulo também estão ausentes. Em vez delas, há barcos de pescadores. Alguns a remos.
A água é tão quente quanto a do Mussulo, mas muito mais agitada. Há quem vá molhar os pés e acabe por voltar todo molhado. Ainda por cima, há, que eu vi, uns sujeitos que entram na água até à cintura e depois ficam muito quietinhos, antes de fazerem uma cara de alívio… Já não bastava o fedor do peixe.
É preciso ter cuidado onde se pisa
Há dois ou três sítios onde comer, mas a ementa é só à base de grelhados. Se tivermos sorte, podemos comer umas batatas fritas a acompanhar. Os bancos de madeira envernizada da Barra do Dande foram substituídos por uns paus grossos que forramos com as toalhas para não aleijar o rabiosque, enquanto comemos. As mesas são velhas bobines de cabos eléctricos, cheias de buracos por onde nos pode cair o copo.
A sério, não vão lá. Se começa a ir muita gente, estragam aquele pequeno paraíso!
É aproveitar, antes que se estrague