Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

05 2009

Hora da sesta

Morar com vista para uma das artérias mais movimentadas de Luanda não é sorte que inveje a ninguém. É muito bonito ver os carros parados debaixo da janela, com os rapazes a zungar desodorizantes e pilhas e as mulheres a gritar «Quem quer Carapau ê?».

Só que, passada a hora de ponta, quem quer atravessar a cidade para ir para a farra, lá na Ilha ou noutros sítios onde fazem farras, tem de passar aqui. E nunca passam devagar. Até mesmo os pesados, proibidos de circular nesta parte da cidade, fazem de conta que o escuro da noite esconde o sinal à entrada da rua e dão uma corridinha até à marginal, com as caixas de carga a bater a cada solavanco. A recolha do lixo também é feita depois da meia-noite, o que ajuda a manter a falta de sono em dia.

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Este primeiro andar é um Calvário!

Lá mais para a noitinha, especialmente ao fim-de-semana, gente animada pára os carros na rua e abre as portas para que todos possam ouvir a música que insistem em partilhar com os moradores. Se não são estes, são as corridas à volta do quarteirão com a mota de escape livre. Felizmente que os alarmes que disparavam com barulhos altos já avariaram todos. Ou então deixei de os ouvir.

De manhã, com toda a gente afogueada para chegar ao trabalho, o coro de buzinas quase faz lembrar as cigarras. Também é difícil dormir debaixo de uma árvore que tenha cigarras…

Como as noites não são muito repousantes, habituei-me a uma pequena sesta ao final do dia. Começou por ser uma necessidade, mas agora é parte da rotina. Aproveito o único período verdadeiramente descansado, das cinco, quando chego a casa, às oito, quando começam a chegar os primeiros carros com música alta.

Não sei porquê, mas o cansaço dos condutores torna-os um pouco mais tolerantes com os demais e as buzinas soam menos.

Em França, o período das cinco às sete é conhecido como a hora dos amantes. Para mim, em Angola, é apenas a hora da sesta.


05 2009

Memórias alheias

O Aerograma nasceu para servir de repositório às minhas experiências em Angola. Relata aqueles episódios que me ficarão na memória, que passarão a fazer parte de mim. Impedirá, também, que os detalhes se esbatam, que as caras se esqueçam, porque sei bem o quão esquecido sou. Mas aquilo que começou por ser uma coisa muito pessoal, depressa me fugiu das mãos. Agora, o Aerograma vai onde quer, por motivos que só ele sabe. Só as minhas memórias já não lhe chegam. Desta vez levou-me em busca de memórias alheias.

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A caminho

Esta viagem nasceu no meio dos comentários que vão dando um certo colorido aos artigos. Os que mais me tocam são os de alguém que teve as suas memórias despertas com a menção a um determinado lugar e pede fotografias deste ou daquele sítio, de casas de familiares ou amigos, de pedaços da infância… Por vezes sinto que é um pedido impossível, porque o que desejam verdadeiramente é viajar no tempo, de ter uma fotografia do que já se lhes começa a esbater na memória. Invocam, com toda a naturalidade, nomes de ruas, lojas de conhecidos e pontos de referência que não existem há trinta anos. Por vezes até sei exactamente qual o sítio que gostariam de recordar, mas percebo que não o poderei fazer sem lhes arruinar essas memórias de tempos, quase sempre, felizes. Muitos anos se passaram e a realidade contrasta muito com o passado.

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No caminho errado

Nunca esperaria ir de propósito à Barragem das Mabubas, não fosse um comentário deixado por um militar de Rivungo. Mesmo que existissem, os roteiros turísticos angolanos não a deveriam referir. Afinal de contas, há tantos outros sítios mais turísticos para visitar.

Num Domingo de Verão, com todo o caluanda que se preza na praia ou a beber Cucas à sombra de uma mangueira, o trânsito não estava mau de todo. Para sair de Luanda e chegar ao posto de controlo de Kifangondo, demorei apenas uma hora. São cerca de 25 quilómetros, mas foi uma excelente média, tendo em conta experiências anteriores.

Uma hora depois, estava a tentar decidir se a Barragem ficaria no caminho à esquerda ou no caminho à direita. Apostei no da direita e enganei-me. O engano não foi em vão, porque a paisagem era soberba e ainda consegui fotografar um blindado esquecido à beira da estrada. Regressei à encruzilhada e, dez minutos depois, estava a pedir informações a um polícia na aldeia de Mabubas.

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Quase lá

Obviamente que não precisava de lhas pedir, mas já percebi que, se um polícia fizer algo por mim, é menos provável que eu tenha de fazer algo por ele. No fundo, o polícia sente que cumpre a sua missão dando-me informações, em vez se me aborrecer por umas horas a ver se desencanta uma gasosa ou um café

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Barragem das Mabubas

Mas ainda bem que parei. Ele estava sentado à sombra de uma mangueira a ouvir rádio. E julgo que ali perto deveria haver uma ou outra lata de Cuca amassada. Apresentei-me, perguntei-lhe como estava e respondeu-me que «mais ou menos…». Não, não estava doente, estava só mais ou menos. Conversámos mais um pouco e fiquei a saber que a Barragem era no fim da rua e podia-se andar à vontade. Só não se podia era ir para o outro lado, porque ainda estava minado.

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Rio Dande

Mesmo na época das chuvas, a albufeira estava quase vazia. Os três descarregadores estavam abertos e soltavam uma torrente furiosa de encontro às rochas a jusante.

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Jogo de sombras

A estrutura de betão está bastante bem conservada. Aqui e ali mostra marcas do tempo e do desleixo. Marcas da guerra também há, mas são mais visíveis nas máquinas que faziam mover as comportas. A troco de um objectivo militar obscuro, houve alguém que entendeu ser interessante colocar uma granada em cada máquina e inutilizar uma infra-estrutura fundamental. E, como tantas outras coisas em Angola, uma vez avariada, não há quem componha.

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Irracionalidade

A central eléctrica, um pouco mais a jusante dependia de duas tomadas de água, equipadas com filtros para impedir a passagem de ramos e lixo. Estes filtros eram limpos regularmente com duas máquinas instaladas num edifício próprio. Estas não foram destruídas com explosivos. Foram abandonadas e lentamente desmanteladas. Todo o cobre que estava à vista desapareceu, assim como tudo o que não fosse demasiado pesado para se movido. Escusado será dizer que os filtros estão entupidos há décadas e que a central não produziria electricidade nem mesmo se os geradores ainda estivessem operacionais.

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Casa dos filtros

Uma coisa que me espanta é que um equipamento destes seja deixado ao abandono. A recuperação desta barragem não seria cara, mas enterram-se milhões em projectos faraónicos como o de encher a Baía de Luanda para construir mais prédios.

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A fauna local

E cheguei ao fim da barragem. Daqui para a frente, disse-me o polícia, está minado. Fiquei com curiosidade de ir ver a central eléctrica, mas regresso com o mesmo número de pernas…

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Daqui para a frente está minado


05 2009

Sotaque nativo

Se há coisa de que gosto, é de estudar sotaques, de imaginar de onde são as pessoas só pela maneira como falam. Cada região tem o seu cunho característico, as suas expressões idiomáticas ou as sílabas pronunciadas de maneira diferente dos outros sítios.

É engraçado ir para os lados do Douro e ouvir dizer "«o meu cuárro anda qu’mó carago» ou coisas parecidas. Mais curioso ainda, é encontrar alguém a falar assim no meio de Angola, como já me aconteceu. E não, não era um português. Era um angolano de gema, um mais-velho que dizia «Angola é vossa!».

Até mesmo nas reuniões de trabalho com estrangeiros, onde todos temos de falar Inglês, a língua pobre que todos dominam, vou dando por mim a deduzir a origem dos intervenientes só pelos seus RR austríacos ou pelos ING ditos à francesa. Espanhóis a falar Inglês ou Alemão não contam, porque fico sempre com vontade de rir.

Num mundo cada vez mais igual, os sotaques dão um cunho pessoal a cada falante e mostram que na variedade é que está a beleza. Quem quereria viajar se todas as terras fossem iguais áquela onde se mora? É como vir trabalhar para Luanda e morar num condomínio privado, ter motorista que nos leve ao escritório numa torre moderna e dizer que Angola é a mesma coisa que Estocolmo, mas com calor.

Não posso dizer que já tenha corrido o mundo. Mas sinto que aproveitei bem as viagens que fiz para ficar a conhecer um pouco o que distingue aqueles lugares dos demais. Procurei conhecer, pelo menos, o que há em cada terra que molda as gentes. Será o cinzento do Báltico, o ondular da planície Alentejana ou o sabor dos maboques que fazem as pessoas ser diferentes umas das outras?

Às vezes temos surpresas. Na Tunísia conheci um guia turístico, de seu nome Adel. Diziam que nos falaria em Castelhano, mas a verdade é que falava Português. E melhor que o de muitos nativos do cantinho à beira-mar plantado. Por vezes conversava com alguns dos turistas em Francês, com sotaque europeu. A grande surpresa era quando falava com turistas franceses. Imediatamente mudava para um sotaque africano, parecido com o de Marselha, pois era esse que eles esperavam ouvir. Sempre emprestava uma cor mais local ao discurso…

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Sotaque nativo

Já passei pela mesma situação em Lisboa, numa loja chinesa, ao tentar conversar com uma senhora chinesíssima, desde os olhos rasgados até à maneira de vestir, que falava com o sotaque de Alfama. Não era o que eu esperava. Não sei porquê, mas aqueles produtos chineses, começaram todos a parecer-me imitações baratas…

Em Luanda ouve-se muita gente a brincar com os angolanos que viveram em Portugal. Dizem que já não sabem falar, que perderam o sotaque Mwangolê…


30  04 2009

As praias de Luanda

Sempre preferi o campo à praia, pelo que não é de estranhar que tenha sido preciso quase uma ano em Angola para visitar as praias mais famosas em redor de Luanda.

As primeiras incursões à praia foram tímidas. Um pulinho ao km 55 para ver as ondas espancar a areia enquanto molhava os pés, uma escapadinha rápida à Barra do Dande, para experimentar as águas mornas e escuras da baía. A praia da Ilha do Cabo não, obrigado. Só de pensar no destino dos esgotos de Luanda, fico com arrepios.

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O que banha a Ilha de Luanda

Entretanto, dei um pulinho ao famoso Mussulo. Sinceramente, para frequentar bares com ar condicionado e ver mansões com piscina,a viagem não vale a pena; mais vale ir à Ilha. O Mussulo das histórias já não existe. Não digo que lá não volte, mas não será uma das minhas prioridades.

A viagem de barco até é engraçada, mas muito cara.

O próximo destino lógico era Cabo Ledo. Fora da Provincia de Luanda, a meio caminho de Porto Amboím, é a praia mais distante da cidade. Logo à primeira visita se tornou a minha praia favorita.

Uma baía abrigada, de águas quentes e limpídas, com tudo o que poderia fazer parte dos postais ilustrados, incluíndo a areia branca, é a melhor descrição que posso fazer de Cabo Ledo. Como disse, até nem sou muito de praia, mas aqui eram capazes de me convencer a gostar.

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Postal ilustrado

Em termos de paisagem, estou muito mais ligado à imponência agreste da Costa Vicentina ou das pequenas praias perto do Cabo da Roca. Mas aí vou por causa das rochas e dos passeios, não por causa da água onde apetece ficar o dia todo ou do restaurante simpático onde comemos o que os pescadores acabaram de trazer.

Quem conhece Cabo Ledo só teme que se transforme noutro Mussulo desordenado, em que as estâncias vedadas e os casarões milionários destroem tudo aquilo que motivou a sua construção.


29  04 2009

Ortografando

Nos primeiros dias em Luanda, cada letreiro ou cartaz me fazia sorrir por causa da ortografia.

Aos poucos, a novidade foi desaparecendo e não foram poucas as vezes em que dei por mim a escrever da mesma forma, acentuando as vogais que deveriam ser fechadas mas em português de Angola são abertas. Sei que não sou o único, uma vez que até o Consulado Português tem um horário de «Segunda à Sexta».

No entanto, mesmo com uma maior habituação ao fenómeno, há algumas coisas que não passam despercebidas. Anúncios de canalizadores, por exemplo.

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Ortografamos-me assim-assim


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