O Aerograma nasceu para servir de repositório às minhas experiências em Angola. Relata aqueles episódios que me ficarão na memória, que passarão a fazer parte de mim. Impedirá, também, que os detalhes se esbatam, que as caras se esqueçam, porque sei bem o quão esquecido sou. Mas aquilo que começou por ser uma coisa muito pessoal, depressa me fugiu das mãos. Agora, o Aerograma vai onde quer, por motivos que só ele sabe. Só as minhas memórias já não lhe chegam. Desta vez levou-me em busca de memórias alheias.
A caminho
Esta viagem nasceu no meio dos comentários que vão dando um certo colorido aos artigos. Os que mais me tocam são os de alguém que teve as suas memórias despertas com a menção a um determinado lugar e pede fotografias deste ou daquele sítio, de casas de familiares ou amigos, de pedaços da infância… Por vezes sinto que é um pedido impossível, porque o que desejam verdadeiramente é viajar no tempo, de ter uma fotografia do que já se lhes começa a esbater na memória. Invocam, com toda a naturalidade, nomes de ruas, lojas de conhecidos e pontos de referência que não existem há trinta anos. Por vezes até sei exactamente qual o sítio que gostariam de recordar, mas percebo que não o poderei fazer sem lhes arruinar essas memórias de tempos, quase sempre, felizes. Muitos anos se passaram e a realidade contrasta muito com o passado.
No caminho errado
Nunca esperaria ir de propósito à Barragem das Mabubas, não fosse um comentário deixado por um militar de Rivungo. Mesmo que existissem, os roteiros turísticos angolanos não a deveriam referir. Afinal de contas, há tantos outros sítios mais turísticos para visitar.
Num Domingo de Verão, com todo o caluanda que se preza na praia ou a beber Cucas à sombra de uma mangueira, o trânsito não estava mau de todo. Para sair de Luanda e chegar ao posto de controlo de Kifangondo, demorei apenas uma hora. São cerca de 25 quilómetros, mas foi uma excelente média, tendo em conta experiências anteriores.
Uma hora depois, estava a tentar decidir se a Barragem ficaria no caminho à esquerda ou no caminho à direita. Apostei no da direita e enganei-me. O engano não foi em vão, porque a paisagem era soberba e ainda consegui fotografar um blindado esquecido à beira da estrada. Regressei à encruzilhada e, dez minutos depois, estava a pedir informações a um polícia na aldeia de Mabubas.
Quase lá
Obviamente que não precisava de lhas pedir, mas já percebi que, se um polícia fizer algo por mim, é menos provável que eu tenha de fazer algo por ele. No fundo, o polícia sente que cumpre a sua missão dando-me informações, em vez se me aborrecer por umas horas a ver se desencanta uma gasosa ou um café…
Barragem das Mabubas
Mas ainda bem que parei. Ele estava sentado à sombra de uma mangueira a ouvir rádio. E julgo que ali perto deveria haver uma ou outra lata de Cuca amassada. Apresentei-me, perguntei-lhe como estava e respondeu-me que «mais ou menos…». Não, não estava doente, estava só mais ou menos. Conversámos mais um pouco e fiquei a saber que a Barragem era no fim da rua e podia-se andar à vontade. Só não se podia era ir para o outro lado, porque ainda estava minado.
Rio Dande
Mesmo na época das chuvas, a albufeira estava quase vazia. Os três descarregadores estavam abertos e soltavam uma torrente furiosa de encontro às rochas a jusante.
Jogo de sombras
A estrutura de betão está bastante bem conservada. Aqui e ali mostra marcas do tempo e do desleixo. Marcas da guerra também há, mas são mais visíveis nas máquinas que faziam mover as comportas. A troco de um objectivo militar obscuro, houve alguém que entendeu ser interessante colocar uma granada em cada máquina e inutilizar uma infra-estrutura fundamental. E, como tantas outras coisas em Angola, uma vez avariada, não há quem componha.
Irracionalidade
A central eléctrica, um pouco mais a jusante dependia de duas tomadas de água, equipadas com filtros para impedir a passagem de ramos e lixo. Estes filtros eram limpos regularmente com duas máquinas instaladas num edifício próprio. Estas não foram destruídas com explosivos. Foram abandonadas e lentamente desmanteladas. Todo o cobre que estava à vista desapareceu, assim como tudo o que não fosse demasiado pesado para se movido. Escusado será dizer que os filtros estão entupidos há décadas e que a central não produziria electricidade nem mesmo se os geradores ainda estivessem operacionais.
Casa dos filtros
Uma coisa que me espanta é que um equipamento destes seja deixado ao abandono. A recuperação desta barragem não seria cara, mas enterram-se milhões em projectos faraónicos como o de encher a Baía de Luanda para construir mais prédios.
A fauna local
E cheguei ao fim da barragem. Daqui para a frente, disse-me o polícia, está minado. Fiquei com curiosidade de ir ver a central eléctrica, mas regresso com o mesmo número de pernas…
Daqui para a frente está minado