8
05
2009
Somos feitos de tudo aquilo que vivemos. São as experiências e as memórias a elas ligadas que nos moldam e tornam quem somos. Algo em nós muda a cada coisa que aprendemos e sentimos e, à medida que crescemos, vamos criando um Eu cada vez mais bem definido.
Temos recordações que nos alegram ou entristecem e ainda outras, que recordamos sem saber bem porquê, talvez apenas porque sim. Lembro-me perfeitamente do pai de um colega, à porta do velho ginásio do bairro, a recitar a Lei de Arquimedes: «Um corpo imerso sofre uma força, de baixo para cima, igual ao peso do volume de líquido deslocado». Ficou-me na memória e nunca mais me largou, tal como o Teorema de Bolzano e cor dos olhos de uma menina com quem viajei de autocarro em Lisboa, nos meus quatro anos, ou o cheiro do sabonete Feno de Portugal.
Mas as melhores recordações são as partilhadas. Dei por mim a pensar numa ementa de um jantar a dois, à sombra do Convento das Trinas, com scaloppine ai funghi porcini, saltimboca a la romana, tiramisu e uma surpresa…
E que tal o dia em que fomos ver veados e reparámos num avião saltava sobre a Lua?
Pedaço de nós
7
05
2009
Por esse mundo fora tenho reparado na relação que as pessoas têm com o dinheiro. Com as notas, especialmente. A maioria costuma ordenar as notas na carteira por valores ou tamanhos. Dá jeito para se procurar a nota certa. Quem não usa carteira adopta outros sistemas. Em França costumavam-se dobrar ao meio e espetar-lhes um alfinete. Mesmo nos dias que correm, não é invulgar encontrar notas de euro com uns quanto furinhos a indicar a sua proveniência. Em Angola, como as notas têm valores desajustados à maioria das transacções, opta-se por fazer molhos de notas embrulhados nelas próprias.
Outro hábito que as pessoas têm quando estão a organizar o dinheiro, é de orientar as notas todas para o mesmo lado. Pessoalmente, gosto de virar a faixa do holograma para cima quando estou a juntar notas de euro. Quase sempre de cinco, infelizmente.
Em Angola, porque as pessoas não são diferentes das demais, também se orientam os Kwanzas todos da mesma maneira. O Morto e o Vivo ficam sempre do mesmo lado. Há quem chame às notas de Kwanza as notas do Morto e do Vivo, em alusão às efígies dos dois Presidentes da República desde a independência, Agostinho Neto, o Morto e Zé Dú, o Vivo.
O dilema vem a seguir. Toda a gente dobra os maços de notas a meio, porque circula mais dinheiro nos bolsos e nas pontas dos panos do que nas carteiras. Mas para que lado dobrar? Para dentro, tentando asfixiar o Mais-Velho da nação, como se se quisesse fazer uma nota com dois Mortos, ou para fora, expondo os Chefes de Estado à indignidade de serem esfregados entre as mamas das zungueiras?

E agora, para dentro ou para fora?
6
05
2009
Angola é, de facto, um país rico. É nos pequenos pormenores que se nota.
Cheguei a esta conclusão depois de ouvir um episódio recontado pela sétima ou oitava pessoa. Sei bem que quem conta um conto, acrescenta um ponto, mas julgo que o cerne da história e a sua moral ainda lá estão.
Conta-se que uma delegação Colombiana, composta por funcionários do Governo e alguns empresários, visitou uma cidadezinha na Aústria. Nessa cidade, numa voltinha turística que deram, encontraram uma ilha de metal no meio do rio. Tinha sido construída para servir de palco para concertos no Verão. Estive nessa mesma ilha e desconfio que deve ser um local muito agradável para se ouvir música. É um pequeno anfiteatro onde se sentarão umas dezenas de pessoas confortavelmente, com espaço para uma orquestra de câmara ou uma pequena banda de música ligeira. O murmulhar das águas abafa totalmente o ruído da cidade, que até nem é muito, comparado com o de Luanda.
Voltemos aos colombianos que ficaram a apreciar a ilha. Depois de muito mirar aquela pequena sala de espectáculos, comentaram entre si «Se se dão ao luxo de construir uma coisa destas, nesta terra já está tudo feito!»
Por essa mesma ordem de ideias, Angola é uma terra ainda mais rica que a Áustria. Eles gastaram dinheiro numa pequeníssima ilha de aço, no meio de um rio que, comparado com o Kwanza, é anão. Luanda dá-se ao luxo de atulhar uma baía inteira, a la Dubai ou, como se diz agora, Dubai-style, só para criar uma nova marginal, com seis faixas para cada lado, bares e discotecas da moda, com uma grandiosidade que dignifique a capital da Nação! É que a deixada pelo colono só era digna para uma capital de província…
Os coqueiros morreram, mas a obra avança
5
05
2009
Com a entrada em vigor do novo código de estrada, entretanto suspensa por um mês, os táxis começaram a circular menos. O medo da multa por não poderem cumprir as novas regras tem obrigado muitas pessoas a ir para o trabalho a pé, por falta de alternativas.
Os taxistas reclamam, e com razão, que os seus carros foram inspeccionados quando entraram no país, para garantir que cumpriam a legislação em vigor e agora exigem-lhes que cumpram também as novas alterações ao código, incluíndo cintos de segurança para todos os passageiros.
«Quem sofre é a população», diz-me um angolano, «têm de andar bwé a pé para chegar ao serviço».
A caminho
Perguntei se as bicicletas não seriam a solução, uma vez que Luanda até é uma cidade simpática, em termos de declives, para se andar de bicicleta.
«Não dá. O povo não está habituado. Vinham o caminho todo a caloriar e depois precisavam de mais uma muda de roupa quando chegassem ao serviço!»
Fiquei a pensar se vir num candongueiro, apertado entre mais de uma dezena de corpo e no clima de Luanda, não faria as pessoas suar mais. Cheguei à conclusão que o problema não é a bicicleta, é mesmo o pedalar.
4
05
2009
Os estrangeiros que vêm trabalhar para Angola, geralmente para desempenhar funções para as quais ainda não há angolanos suficientes, mas não só, que já vi chineses a varrer ruas de Luanda, deparam-se com uma realidade muito para lá do que alguma vez tenham imaginado.
Todos eles sabiam que o ritmo do trabalho é diferente. Vêm preparados para esperar uma semana por uma tarefa que demoraria um dia, se tudo corresse mal. Acabam por ficar essa semana, e mais duas, à espera de um qualquer detalhe fundamental que só poderá ser resolvido por alguém que faltou ou que não se consegue encontrar. Depois disso, há mais três ou quatro coisas que fazem a engrenagem emperrar. O choque é grande, mas só acontece uma mão-cheia de vezes. Num instante se habituam a estabelecer metas mais flexíveis e não pensar muito nos prazos. Há-de ser feito. Talvez.
A caminho do trabalho
Por todo o lado se ouvem histórias de trabalhadores que só vão em dias alternados ao serviço e parecem não se preocupar muito com o assunto. Encaram aquilo como um emprego, que o trabalho faz mal.
Esta situação poderá parecer algo de anormal, quando se sabe que os ordenados são muito baixos e o custo de vida, mesmo para os angolanos, é alto. O que não está imediatamente à vista é que, nalguns casos, compensa muito mais não trabalhar do que ter a chatice de ir ao serviço fazer coisas aborrecidas.
Obviamente que há excepções. Nem todos os angolanos são assim, felizmente. Mas os cumpridores e zelosos do seu trabalho passam despercebidos no meio dos outros todos, que até devem ser menos.
Na varanda
Não há alojamento nem para uma ínfima parte dos expatriados que cá vivem. As empresas mantém quartos de hotel arrendados ao ano e montam casas para os seus empregados. A maioria não se socorre dos condomínios milionários da Talatona, mas sim de andares e vivendas no caroço da cidade. Estas casas não estão desocupadas, até porque semelhante conceito não existem em Luanda. O prédio pode não ter paredes nem tecto, mas é certo que lá habita alguém.
A solução que se encontra é arrendar as casas a quem lá vive que, com o dinheiro da renda, vai morar para a periferia ou, como acontece nalguns casos, constrói um anexo no quintal e passa a viver lá.
A lei da oferta e da procura dita preços exorbitantes para as rendas, ao nível de metrópoles como Nova Iorque, Paris ou Londres, mas sem o resto das condições ou charme. As rendas são pagas anualmente, uma vez que todos os angolanos desconfiam de caloteiros. Largas dezenas de milhar de dólares trocam de mãos e trabalhar passa a ser uma actividade supérflua. Que hei-de eu pensar quando o senhorio, que agora vive num anexo improvisado com uns toldos, lá nas traseiras, recebe de renda mais do que os ordenados anuais de todos os seguranças que temos à porta? Haverá algum incentivo para ir ao serviço?
Mal pagos
Se a casa não estiver em condições, o problema é do inquilino. Se quer água na casa-de-banho e o cano está roto, que trate de o arranjar. Quando vagar a casa, a bemfeitoria já está feita e o senhorio pode até cobrar uma renda mais elevada.
Quer ir de elevador, arranje-o!
Um grande monte de notas nas mãos de quem não está habituado e ver muito dinheiro pode deslumbrar. Se antes de arrendar a casa era preciso contar os tostões porque a vida não era fácil, depois de mudar para uma casa de chapa na periferia, a vida volta ao que era, mas agora sem dinheiro para a comida e, especialmente, a gasolina do Land Cruiser novo. No ano seguinte virá mais dinheiro…
O Land Cruiser está na garagem