13
05
2009
Diz o ditado popular que quem não tem dinheiro não tem vícios. Quem conhece, sabe bem que não se aplica a Angola.
Grande parte da população sobrevive com ordenados abaixo de miserável, socorrendo-se de todos os expedientes para poder esticar o dinheiro até ao fim do mês. Poderíamos pensar que os vícios seriam esquecidos, mas a verdade é que se souberam adaptar.
Apesar de ser barato, quem fuma raramente compra um maço de tabaco. É muito mais simpático comprar um cigarro de cada vez. Sempre se pode ir mudando de marca e, se chover, o tabaco não se estraga no bolso da camisa.
Da mesma forma, quem gosta de beber para se embriagar tem muitas alternativas bem mais baratas que a cerveja. Logo para começar, há as pequenas bolsas de whisky industrial que se parecem com amostras de cosméticos. Garantem uma piela rápida e sem a chatice de se pagar pela garrafa.
Os mais apertados de dinheiro também podem comprar um saco de plástico transparente cheio de líquido incolor, quase sempre uma aguardente arraçada de decapante ou coisa parecida. Uma dentadinha no canto do saco e pode-se pensar que se bebe vodka de um côco. É tudo uma questão de imaginação.
Mesmo o jogo, que parece ser um vício dispendioso, tem lugar aqui. Em cada rua encontramos salões de jogos onde se pode gastar uns kwanzas nas máquinas…
Quem vende já percebeu que é nos trocos que se ganha fortunas e passou a fornecer todos os vícios em doses baratinhas, que não fazem mossa nem na carteira mais vazia.
E os que gostam de dar uma escapadinha com qualquer uma das suas milhentas namoradas, não precisa de se preocupar em gastar muito dinheiro com a pensão. Há para todos os gostos e carteiras!

Pensão de uma estrela
12
05
2009
Os meios de comunicação em Angola surpreendem-nos todos os dias. Umas vezes é pelos seus imensos contrastes, outras vezes é com a normalidade com que passamos a encarar certas coisas.
Desde que comecei a escrever regularmente que me tenho sentido um pouco constrangido com a falta de fiabilidade do serviço de internet. A princípio, o que mais estranhei foi a velocidade de acesso. Aqui ainda se mede a velocidade em kbps. Depressa passamos a rejubilar com este conta-gotas de informação porque sempre é melhor do que quando as luzes do modem se apagam, numa tentativa de imitar a electricidade e a água de Luanda.
Toda a gente anda de telefone móvel. Dois, pelo menos, porque é pouco provável que alguém consiga fazer uma chamada à primeira para qualquer um deles. Há demasiados assinantes para a rede e, como os telefones funcionam mal, as pessoas compram mais telefones, agravando ainda mais as coisas.
Os telefones móveis, ou terminais, como são por aqui chamados, são tão omnipresentes que poucos se lembram que ainda há alguns telefones fixos a trabalhar no país. São tão poucos que temos de os encarar como uma relíquia e tratá-los com a reverência que uma máquina de telex nos mereceria, por exemplo. Olhamos para eles como se alguém usasse pombos-correio em vez de mandar mensagens de texto.
A transição para a telefonia celular foi tão abrupta que quase acreditamos nunca ter existido um único telefone fixo no país. Até as empresas importantes quase sempre indicam apenas um número móvel. É quase um sinal de status poder entregar um cartão de visita com o indicativo de Luanda, o 222. As linhas são ruidosas e, quase sempre, nos apetece ter ligado para o celular…
A confusão dos nomes das ruas fez até as transportadoras internacionais mais persistentes desistir da sua missão. Quem espera receber uma encomenda, é melhor começar a contar ir levantá-la aos armazéns da transportadora, que eles não fazem a mínima ideia de onde fica a morada.
Os Correios de Angola também não entregam cartas. Não há carteiros e as cinquenta a oito estações de correio espalhadas pelo país não garantem uma cobertura eficaz, muito menos quando uma dúzia delas está em Luanda. Os Correios limitam-se a gerir apartados e pouco mais.
O hábito de mandar cartas perdeu-se. Hoje em dia, o e-mail faz as vezes de postal ilustrado. É uma solução deselegante e sem charme nenhum, mas foi o melhor que se encontrou resolver o problema. A solução poderá ter ido um pouco longe demais, porque se achou que o inverso também era verdadeiro. Hoje em dia, em Angola, enviam-se cartas por e-mail e, o que é mais curioso ainda, e-mails por carta. Para um apartado, claro!
E-mail dos dias em que a net falha…
11
05
2009
Uma volta por Luanda, olhando os telhados e o céu, é uma actividade perigosa. Afastar os olhos do lixo do chão é arriscar enfiar a pata numa qualquer poça cheia nem queremos saber de quê.
Não são só desvantagens. Os telhados das casas também contam histórias engraçadas. Ou, pelo menos, contam como mudou o mundo por estas bandas.
Hoje, cada fachada está salpicada de máquinas de ar condicionado, que pingam na rua, ou crivada de buracos e remendos. Cada telhado ostenta a sua dúzia de antenas de todos os feitios, tamanhos e estados de conservação. Há antenas de ondas curtas tombadas, antenas de televisão torcidas e muitas, muitas antenas parabólicas para captar as transmissões via satélite. Destas últimas, há milhares fora de serviço. Grandes antenas colectivas, quais passadores de lata que avariaram e nunca foram reparados. Muitos outros milhares de pequenas antenas brancas, exclusivas de cada casa, espalham-se por todo o lado. E quando avariam, põem-se uma nova. Se a velha incomodar, talvez se retire…
Os telhados de Luanda escondem muito mais que sucata tecnológica e poluição visual. Há também as cadeiras velhas, as pedras e os buracos. De vez em quando encontramos umas pérolas, sinais de tempos que parecem bem mais longínquos do que realmente são.
Desde quando soa esta melodia?
Hoje em dia, quando se vê um telhado, pensa-se logo na maneira de lá instalar a parabólica. A atracção dos milhares de canais em línguas avulsas exerce um fascínio semelhante ao da Torre de Babel. Infelizmente, nunca passa nada de jeito.
Antes das parabólicas
No antigamente, não havia televisão. Mas os telhados existiam e havia quem os julgasse um pouco despidos. Alguém se lembrou de usar cata-ventos!
De sentinela
São instrumentos muito úteis, para quem gosta de saber para onde sopra o vento sem ter de sair de casa e apanhar com ele na cara. Tirando os pescadores, os moleiros e mais um ou outro curioso, não passam de uma solução à procura de um problema ou de um objecto de decoração disfarçado de máquina útil.
Gato em telhado de zinco quente
Suponho que o primeiro tenha sido desenhado por um engenheiro e tenha indicado a direcção do vento apenas com uma flecha. Lá pelo meio vieram os artistas e subverteram completamente a coisa. Os cata-ventos deixaram de indicar a direcção do vento com um boneco engraçado, passou a ser um boneco engraçado que se move ao sabor do vento. Nalguns casos, ainda sobraram os pontos cardeais. É pena que estejam quase sempre a apontar para direcções esquisitas…
Sinais de um vento que já passou
O tempo dos cata-vento já passou. Terminou quando entrámos na época DP – Depois de Parabólica. Já não se querem ornamentos. Quer-se a MTV e a novela.
10
05
2009
O mais-velho chegou sem se fazer notar. Vinha ver o que fazíamos. Demos por ele quando começou a ler em voz alta o número de telefone da empresa, que temos nas portas do carro.
«Dois… Dois… Dois…»
Agachou-se e entreteve-se a copiar, um a um, os algarismos para a areia. Lia o número, escrevia-o e lia-o de novo. Acabou de escrever o número e voltou a ler os algarismos, lentamente. Acenou para si mesmo, como que satisfeito pelo seu trabalho. Por esta altura já nós olhávamos todos para ele, esquecendo a tarefa que tínhamos entre mãos. Os calções e a camisa assentavam-lhe mal no corpo ossudo e seco. Parecia uma criança, com roupas demasiado folgadas. Quase esperava que se sentasse nas cadeiras com as pernas a abanar. Só faltava ter uma bola debaixo do braço e o nariz ranhoso para se parecer com os miúdos que jogam à bola lá na rua.
Meteu conversa e reclamou dos assaltantes que agora rondava por ali. Falou do primo, que ainda era rijo e tinha andado à porrada com dois ladrões, ali perto. Tinha apanhado um enxerto, mas os bandidos também levaram para contar como foi.
A hora da despedida veio cedo demais para saciar a curiosidade, mas pode ser que tenha a oportunidade de regressar e continuar a conversa.
9
05
2009
A História das cidades não está nos monumentos erigidos pelos vários regimes nem nas torres de vidro das empresas ou nos negócios que mudam de nome todas as semanas. Está nas paredes das casas que absorveram um pouco das pessoas que lá viveram. Está nas lojas que, muito depois de terem desaparecido, ainda dão nomes às ruas. Está nos largos e praças que surgiram naturalmente, sem projecto definido.
Pedaço de História
Luanda não é diferente das demais cidades do mundo. A sua História vive escondida nas grossas paredes de alvenaria de pedra que agora se derrubam, dando lugar a uma qualquer construção desproporcionada e desenquadrada. Num pequeno passeio conseguimos ter uns relances de épocas distintas, quer seja no desenho de uma janela, no que resta de um letreiro ou num degrau muito gasto.
Memória da cidade
Ao fim de algum tempo, começamos a desconfiar que poderemos ser as últimas testemunhas destas marcas da História de Luanda, que vão desaparecendo a um ritmo surpreendente, atropeladas por máquinas de rastos e afogadas em betão. Desconfiamos também que somos os únicos a preocupar-se com isso. Se a maioria dos angolanos nem pensa duas vezes no que acontece à sua Memória colectiva, porque haverá de ser um estrangeiro, sem nenhuma ligação especial a esta terra, a sentir-se angustiado?
Marca do passado
Algumas semanas sem passar em determinada rua e quase acreditamos que nos enganámos. Temos de escolher novos pontos de referência, que os antigos são agora lotes vazios.
Aqui nascerá uma torre
Não se trata de saudosismo do tempo colonial, até porque nasci depois da independência angolana e França absorveu quase todos os emigrantes da família. Trata-se mais de incredulidade ao ver séculos da História de um país serem arrasados porque alguém viu lucro fácil. Ver o que acontece ao centro de Luanda faz-me compreender o que aconteceu a Queluz, onde cresci.
Queluz era uma pacata povoação, com algumas centenas de villas espalhadas de forma harmoniosa em frente ao Palácio. A dada altura, entendeu-se que se devia fazer de Queluz uma terra moderna, com edifícios altos. O lucro fácil fez arrasar as pequenas vivendas e construir caixotes todos iguais até ao limite do terreno. Parou-se quando Queluz desapareceu. Tornou-se uma terra feia, com ruas demasiado estreitas e desagradáveis. Hoje em dia resta meia-dúzia de casas da Queluz antiga, quase todas em ruína. O resto da cidade é incaracterístico, sem Memória, sem identidade. Luanda segue-lhe as pisadas.
Quase julgamos que progresso é sinónimo de esquecimento. Resignamo-mos ao ver paredes cheias de segredos desfazer-se em pó. Procuramos não pensar nas histórias que contariam, se falassem. Parece que o Futuro procura amordaçar, a todo o custo e à força de escavadora e martelo pneumático, as histórias do Passado. Vergonha, talvez?