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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

18  05 2009

A farda da razão

Os polícias angolanos são conhecidos por todo o mundo. E não é pelas melhores razões. Estou convencido de que haverá uns quantos que não se deixam corromper ou que não anseiam pela gasosa fácil. Infelizmente, acho que ainda não vi nenhum.

Começo a conhecer algumas das tácticas de fim-de-semana, altura em que a caça à multa tem como alvo principal o expatriado, por causa da cor dos carros, imagino. Ora são os que invocam uma qualquer ilegalidade numa manobra lícita, como fazer a inversão de marcha numa rua de dois sentidos e sem trânsito, ora são os que acham ser proibido conduzir de óculos de sol.

Há ainda os que nos tentam intimidar, debitando todos os valores das multas conhecidas, desconhecidas ou prestes a ser inventadas, na esperança que se opte pela via mais fácil. Retêm os condutores horas, se for necessário, fazendo-os acreditar que o seu calvário só terminará com uma gasosa de valor ligeiramente inferior ao da multa escolhida. A facilidade vende-se à medida da dificuldade.

A farda dá-lhes poder. A farda dá-lhes razão. Ora teimam que um sinal diz uma coisa, ora teimam que diz exactamente o contrário na frase seguinte, mas têm razão. A farda diz que são especialistas. O Código de Estrada pode dizer uma coisa e eles podem teimar noutra. À falta de argumentos, invocam a precedência das ordens dos agentes sobre tudo o resto. Eles têm razão, nem que seja porque querem. Têm farda, têm razão.

Os mais incautos poderiam julgar que era arrogância destilada enfunada em pano azul e chapéu com capa branca. Puro engano. É razão em estado puro, daquela que nenhum argumento vence. A razão fardada vale mais que a razão civil. A razão tem armas, cassetetes e mão pesada, se for preciso.

Já há muito que nos decidimos a optar pelo talão da multa ao invés da saída fácil em forma de suborno acompanhado por um sorriso amarelo nosso e um sorriso rasgado e fardado, mas cheio de razão. Dá mais trabalho, que se lixe. Sai mais caro, que se lixe. A razão não se fica a rir com o bolso cheio. Ri-se e achincalha, porque o dia ainda não está ganho. Será o Estado a receber o fruto do trabalho da razão. Mas o Estado não se esquece da razão e dá-lhe 10% de gasosa, perdão, comissão.

Contesta-se e somos obrigados a entrar no covil da razão. Com muitas fardas cheias de razão que analisam o nosso protesto e nos fazem saber que não temos razão nenhuma. Elogiam a nossa argumentação, mas eles é que são os especialistas. Eles estão de farda. Eles é que têm razão. Têm precedência sobre tudo e fazem questão de nos lembrar disso quando suspeitam que começamos a julgar que temos uma pontinha de razão. Abrimos os olhos e vemos que sim, estão cheios de razão, perdão, fardados.

Seria tão mais fácil reconhecer que a razão estava certa e pagar a porcaria da multa. Mas isso seria reconhecer que tínhamos estado errados o tempo todo. Não, a razão está do nosso lado. É preciso que a razão fardada se habitue a que as pessoas reclamem. É preciso que a razão se habitue a tratar as pessoas com dignidade.

Desistimos da razão. Telefonamos às pessoas certas, que aparecem na altura em que a razão se vangloriava de estar cheia de razão e ajeitava as mangas da farda. Afinal, há razões mais fortes. O pedido vai ser analisado. Vamos ver o que se faz. Sorrimos e despedimo-nos. Acabamos sem razão nenhuma, mas de consciência tranquila!


17  05 2009

Futuro desfocado

Vivemos presos entre o passado e o futuro, num instante a que chamamos presente. Tudo quanto está para trás pode ser interpretado e avaliado até que comece a fazer algum sentido. O futuro é intuido com base na experiência. Umas vezes adivinhas-se, outras não.

Há alturas em que fazemos planos e seguimos uma linha de rumo nítida. Sabemos para onde queremos ir, como lá chegar e conhecemos todos os pontos de passagem de antemão.

Noutros momentos, a imagem que temos do porvir perde a nitidez. O que nos pareceu ser uma viagem tranquila começa a ter os seus contornos esbatidos e a transformar-se num borrão escuro. Receamos ter feito planos com base em premissas erradas. Duvidamos de tudo e refazemos as contas. As somas não batem certas. As subtracções também não. Não encontramos o erro, mas o Futuro já não é o que sonhámos.

Há também os momentos em que a viagem corre de acordo com o planeado, mas começamos a suspeitar que ainda não nos apercebemos de perigos importantes. Tememos que a Lei de Murphy ataque em força, sem dó nem piedade.

A minha condição de expatriado em Luanda deve-se, sobretudo, aos planos de um futuro melhor, de uma vida a dois sem tantos sobressaltos, de conseguir a estabilidade que a tantos falta. Mas a capital angolana tem o condão de nos fazer sentir impotentes. Atropela sonhos, destrói memórias e abafa sentimentos. A pouco e pouco, a linha de rumo que se parecia com um fio de prumo começa a contorcer-se, tentando fugir a esta teia. Novos planos se traçam sobre os antigos, sempre com o mesmo objectivo. Começamos a perceber que teremos de os ajustar um pouco mais à frente. As coisas nunca são assim tão simples…

Os dias como os primeiros, de olhos esbugalhados, começam a alternar com os dias em que apetece mandar tudo às urtigas, de chamar os bois pelos nomes, de dizer palavrões. Pensamos no rumo e tentamos ajustar tudo outra vez. Sonhamos com o fim-de-semana, em que se foge da cidade e se pode arrumar a cabeça, esquecer os dias maus e lembrar que há um objectivo a atingir.

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O Futuro nem sempre é nítido


16  05 2009

A guerra das zungueiras

Não percebo bem as políticas micro-económicas de Angola. Por um lado, o Estado queixa-se que as trocas informais têm um peso demasiado grande na economia do país. Não fossem o petróleo e os diamantes, a mossa seria bem maior.

Na verdade, apesar de tanta preocupação oficial, ninguém liga ao que as zungueiras vendem ou deixam de vender. É certo que se publicam regulamentos estipulando isto e aquilo, mas só são aplicados de vez em quando, quase sempre justificados pelas necessidade de alguns fiscais colmatarem os seus rendimentos pessoais.

Curioso, curioso é que, por um lado, tenta-se combater os lavadores de carros selvagens, mas, ao abrigo dos programas de fomento do auto-emprego, são distribuídos carrinhos para lavar carros. Continua a ser proibido lavar o carro na rua. Continua a ser economia informal, mas o carrinho indica que é um profissional do ramo. A polícia fecha os olhos. A sério que não percebo.

Os rapazes que vendem gasosas e garrafas de água de dentro de um saco de plástico fundo, cheio de gelo, estão sempre de olho nos polícias, não vão eles começar a confiscar a mercadoria. Ao seu lado, outros rapazes empurram um carrinho em forma de lata de refrigerante, cheio de gasosas e águas. Vendem o mesmo produto, ao mesmo preço e nas mesmas condições. A polícia incomoda-os menos. A sério que não percebo.

As zungueiras percorrem Luanda com a loja à cabeça, juntando-se nas encruzilhadas mais importantes, os verdadeiros centros comerciais da cidade. Enquanto vendem, espreitam por cima do ombro, não venha lá um combóio, com polícias de bastão em punho, multando e confiscando. Ao mínimo sinal de confusão, os alguidares sobem à cabeça e a loja ganha, literalmente, pernas.

Lá para os lados do São Paulo, verdadeiro centro económico da cidade, no meio do pó e dos montes de terra das obras, o Verão trouxe também lama, muita lama. Lama fina, escorregadia e peganhenta, que suja tudo e não há maneira de sair da roupa e da pele. Nas poucas zonas secas ou menos húmidas, as zungueiras amontoam-se, deixando pouco espaço para as mercadorias e para os clientes passarem. Quando vêm os fiscais, não há maneira de sair depressa. As zungueiras viram-se encurraladas e a polícia aproveitou esta desvantagem, tornando mais frequentes as operações.

Desconfio fortemente que algumas mulheres andaram a ler a Arte da Guerra. Fizeram das suas fraquezas forças e usaram o terreno para vencer o adversário. Ao primeiro sinal de pânico causado pelo combóio, enfiam os pés em sacos de plástico que amarram às pernas, colocam o alguidar à cabeça e entram, confiantes, no lamaçal. Avançam alguns metros em equilíbrio precário, afundando um pouco a cada passo, até terem lama pelos joelhos.

Ficam a salvo dos polícias, que não querem sujar a farda. Atiram lama e pedras aos que tentam alcançar uma mulher mais próxima da zona seca. Gera-se um impasse ruidoso, com gritos e insultos de parte a parte. Os polícias ameaçam bater, elas acusam-nos de hipocrisia porque as suas esposas também zungam.

A situação andou muito tensa durante umas semanas. Um polícia, frustrado com a guerra da lama, desferiu uma bastonada na nuca de uma mulher e matou-a. Ficou estendida na lama, com o filho às costas e o alguidar tombado. Parece que os ânimos acalmaram um pouco, porque deixou de se ouvir falar de rusgas para aqueles lados.

Que estranho país é este, onde se paga com a vida pelo crime de fuga ao fisco ou ofensa à autoridade…


15  05 2009

A piada do herege

Apesar de agnóstico convicto, o que por si já é uma contradição das grandes, por vezes ponho-me a pensar no que é a religião e na necessidade que temos de acreditar em algo mais para além do que somos e sentimos.

Há quem diga que a magia da vida se resume ao facto de um dia acabar. Talvez por isso procuremos dar um significado ao que experimentamos e tenhamos a necessidade de acreditar que há algo mais, que este caminho não foi em vão. No fundo, não é o medo da morte, mas sim o medo da insignificância.

A religião deve ter nascido desta crise existencial, procurando respostas para o receio de não sermos assim tão especiais como nos julgamos. Acreditar que algo mais para além da morte existiria foi apenas um pequeno passo.

Se começarmos a analisar as várias religiões do mundo, percebemos que têm mais em comum do que os crentes de cada uma querem admitir. No fundo, são apenas versões e subdivisões de crenças mais antigas. O islamismo vai buscar muito ao cristianismo e ao judaísmo que, por sua vez, vão buscar muito ao hinduísmo ou outras religiões mais antigas. Até mesmo o sinal da cruz, com que os cristãos se benzem, pode ser comparado com a posição de alguns chakras hindu.

Crença comum a quase todas as religiões é a existência de vida após a morte. Umas dizem que a vida passa a ser imaterial, num qualquer paraíso ou inferno idealizado pelos teólogos.

Os que acreditam na roda da vida perceberam que não é necessário inventar infernos ou paraísos para castigar ou premiar os comportamentos tidos em vida, face à moralidade vigente. A qualquer momento podemos desejar ocupar o lugar de outrém ou de não invejar a sorte alheia. O inferno e o paraíso existem à nossa volta.

Se te portares mal, renasces para uma vida pior. Se te portares bem, subirás de escalão. Até é uma teoria interessante e evita ter de puxar demasiado pela imaginação ao tentar idealizar o que acontece depois da morte, que desconfio ser absolutamente nada.

Acreditando na reencarnação nos moldes do hinduísmo, podemos voltar à vida sob as mais variadas formas. Nesta vida sou gente, na próxima posso ser um jacaré angolano ou até mesmo uma pequena bactéria que nunca se afastará muito do charco onde surgiu. Se me portar mal, pode ser que regresse na forma de vírus da gripe… Será que a consciência que tenho agora se manifestará quando noutra forma? Será que os jacarés acreditam na vida depois da morte?

Todo este paleio foi desencadeado por ver um cão correr na praia, ou não fosse eu ir buscar inspiração aos sítios mais estranhos. O sol na moleirinha também é capaz de ter ajudado. O certo é que vi o cão a correr no refluxo das ondas e pensei que seria feliz.

Stitched Panorama
Cão ledo no cabo Ledo

Mais tarde, ao ver as fotografias, reparei num pequeno pormenor que me intrigou. O cão não tocava com as patas no chão. Fiz umas piadas fáceis acerca do caminhar sobre as águas, o cão e o JC, que fez uma proeza semelhante lá para o Rio Jordão, mas depois pus-me a pensar nestas coisas da religião. Por momentos, a Roda da Vida não me pareceu uma ideia assim tão descabida. Usufruir da experiência de reencarnações anteriores até seria algo de interessante e a prova de que não estamos cá em vão e caminhamos todos para a perfeição.

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Tão feliz que flutua

A piada herética que contei, deixo-a à vossa imaginação…


14  05 2009

Os espectadores

Mesmo depois de quase um ano a viver neste hemisfério, ainda há coisas que não aceito como naturais. O ciclo das estações e o que esperar de cada época ainda precisa de tradução por parte de quem cá nasceu. Acredito piamente quando me dizem que ainda não choveu o suficiente ou que o cacimbo começou com duas semanas de atraso. Tudo me parece normal até me dizerem que não costuma ser assim.

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Chuva de Verão

Em Luanda, a diferença entre o cacimbo e o Verão não é assim tão grande. Em meio ano pode chover, no outro meio não. Começo a reparar que as pessoas andam mais agasalhadas e de sapatos fechados, embora não  compreenda bem a razão. Está sempre quente, mesmo de noite.

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Está na altura de ir buscar agasalhos

Esta monotonia meteorológica é auxiliada por dias sempre iguais. Não há cá aqueles dias de Verão que se prolongam até às dez da noite. Às seis horas, Verão ou Inverno, o Sol pica o ponto e vai-se embora. Felizmente que não é como alguns angolanos e regressa no dia seguinte ao serviço.

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Depois da chuvada

E a velocidade com que nos deixa também custa a acreditar. Um piscar de olhos e já se foi. O que me leva a questionar porque razão de vêem tantos quadros de pôr-do-Sol no mercado de arte. É um fenómeno que, ao contrário do que acontece em latitudes mais elevadas, dura apenas quatro minutos bem medidos. Será que o pintor tem tempo para conseguir pintar tudo no mesmo dia?

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Os macacos

No entanto, mesmo com esta brevidade, não sou capaz de resistir a um pôr-do-Sol no Miradouro da Lua. E descobri que os humanos não têm o exclusivo no apreciar do pôr-do-Sol. Com um pouco de atenção, lá no meio das arribas fósseis, conseguimos ver outros convidados para o espectáculo. Um bando de macacos cinzentos escolhe lugar no anfiteatro. Depois aguardam.

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No Miradouro da Lua

E, se olharmos para cima, podemos ver porque se chama a este sítio Miradouro da Lua. Ela também vem cá ver o pôr-do-Sol.

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Espectadora atenta

É nestas alturas que compreendo porque razão o céu foi tão importante para a Humanidade. É pena que agora olhemos só para o chão.


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