Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

23  05 2009

Beto, o maluco

Para que não se pense que todos os angolanos batem nos cães e apenas os usam para treinar a pontaria com a íáce, procurei alguém que fugisse à regra. A demanda foi longa e penosa, mas consegui.Chama-se Beto e esta é a sua história.

Foi na Maria Teresa, terra onde se pode almoçar por um preço civilizado e ainda se tem direito a animação. Tal como em muitas outras comunidades à beira da estrada, aqui vive-se de alimentar os que passam. Há sempre cães a rondar os restos. Ao contrário dos de Luanda, não são escorraçados à pedrada. Mas isso não quer dizer que sejam bem tratados.

Enquanto almoçávamos, reparámos no Beto, que por ali andava, ostentando um magnífico sorriso de orelha a orelha. Tinha todo o ar de quem queria pedir uma gasosa ou dizer que guardaria o carro, mas não o fez. Apreciou o teatro que se desenrolava à nossa volta. A conversa entre dois estava tão animada que nos fazia rir. O Beto não dizia nada, sorria apenas.

Nisto, uma rafeira aproxima-se dele. Ele baixa-se, com uma mão esticada e aproxima-a da cabeça da cadela. Ela encolhe-se e espera. O Beto começa a dar-lhe pancadinhas na cabeça. A cadela senta-se e estica o pescoço. As pancadinhas continuam. Depois pára e a cadela encosta-se-lhe às pernas. Desconfio que sorriam os dois.

A conversa muda de assunto por uns instantes.

«Já reparaste, os cães todos gostam do Beto.»
«Até a Branquinha…»
«É, reconhecem os malucos!»

Muitas risadas e mais uma cerveja a cada um. O Beto sorria e a Branquinha veio ver se encontrava uns ossos velhos para roer.

Beto
Os mimos

Em Angola, deve ter sido o primeiro adulto que vi fazer festas a um cão. Ainda há esperança!


22  05 2009

Remorsos eléctricos

A última vez que faltou a luz foi há tanto tempo que já nem nos lembramos bem quando ou como foi. Começámos a acreditar que a rede eléctrica nas Ingombotas se estava a tornar algo merecedor desse nome. Como sempre, quando nos esquecemos de como era, Luanda tosse e dá-nos algo para recordar mais uns meses. Estamos há dezasseis horas sem electricidade, com perspectivas para serem mais. Será que atingimos o recorde de trinta e uma?

A falta de luz, por si até nem é má. Desliga a televisão, obriga-nos a ir para a cama cedinho e tudo. O ar condicionado e a água quente desaparecem, apenas para termos uma ideia do que é a vida sem esses confortos. Não é má de todo. A grande chatice são os frigoríficos, que têm o mau hábito de não trabalhar sem electricidade.

Ao fim de algumas horas, vemo-nos obrigados a acordar a fera adormecida, a tal que dorme numa jaula lá em baixo. Quando em vigília, bebe gasóleo como se fosse água e ronca como se estivesse a dormir.

Quando fazemos as contas ao que é preciso alimentar, dois frigoríficos, um modem, um router e dois portáteis e à potência desmesurada do gerador, enchemo-nos de remorsos. Já não basta o trânsito de Luanda, onde ninguém desliga o motor quando está parado, agora somos também nós a queimar gasóleo no quintal.

Enquanto escrevia este artigo, olhando de soslaio pela janela a fazer contas à estupidez do gerador ligado, as luzinhas que indicam electricidade da rede pública piscaram umas vezes. Uns minutos depois, acenderam de vez. Desliguei o animal, comutei o quadro e acabaram-se os remorsos.

Adenda: mal acabei de publicar o artigo, voltei a ter de ligar o gerador. A luz voltou só para dar esperança…


21  05 2009

Cacimbo Blues

A minha chegada a Angola coincidiu com o início da época do cacimbo. Foi uma quase continuidade do final da Primavera meridional. Associado à novidade de uma terra desconhecida, nem me apercebi verdadeiramente do céu sempre cinzento.

Depois veio o Verão, mais quente e com céu limpo. Por vezes até de um azul luminoso indiscritível. Dias em que tudo parece correr bem e só podemos reclamar do calor.

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No Verão

No início do meu segundo ano em angola, encontrei o Cacimbo pela segunda vez, mas agora não foi tão discreto. A transição dos dias de Sol para os de luz mortiça, parecidos com os dias de trovoada que nos fazem doer a cabeça, foi demasiado rápida. O mau humor instalou-se por todo o lado. Ficamos mais impacientes, com os nervos à flor da pele, cheios de vontade de reclamar disto e daquilo. Aos polícias acontece o mesmo e descarregam nos outros, o que ainda agrava mais o estado de espírito geral.

À minha volta vejo sinais evidentes da Depressão do Cacimbo, uma coisa que desconfiava não existir, mas que é tão real como as depressões que fazem os suecos suicidar-se aos milhares a meio do Inverno. Nem o Diário da África escapou! Parece que deixámos de ser capazes de ver as coisas boas.

cacimbo_blues01
Vemos lixo em todo o lado

Agora, que já estava a esforçar-me por combater o que chamo de Cacimbo Blues, a EDEL, na sua infinita sabedoria, começou a cortar a electricidade vinte e duas horas por dia. Todos os dias. Já não estávamos habituados a ter de ligar o gerador e a contorcer-nos para conseguir encher-lhe o depósito. Pelo jornal, fiquei a saber que os cortes durarão a semana toda. Com os frigoríficos desligados, começo a pensar se terá sido sábio ter ido comprar comida no fim-de-semana.

Só há uma maneira de encarar isto: adaptar o Indigo Blue do Gilberto Gil e passar os dias a cantar

Cacimbo Blue, Cacimbo Blue
Cacimbo Bluzão! 


20  05 2009

Os provérbios preguiçosos

Contrastando com muitas outras coisas, os programas de rádio em Angola chegam a surpreender pela sua qualidade e variedade. Nunca suspeitaria, por exemplo, que Luanda tinha um programa semanal sobre os Beatles que dura há quase uma década.

Há também um programa dedicado à tradição oral angolana. Tradição essa, que quase se perdeu com a guerra civil e com a migração de metade da população para a capital. No programa, os separadores são provérbios populares.

Depois de ouvirmos uns quantos, começamos a imaginar as circunstâncias em que são empregues. Pensamos logo num grupo de mais-velhos, sentados a fumar. Um deles tira o cachimbo da boca e diz «A mulher asseada, vê-se no Cacimbo». Os outros acenam que sim, está cheio de razão. Olham para o céu e interrogam-se se ainda volta a chover até ao Cacimbo. Dois deles jogam kiela, quase ignorando os restantes, mas pensam nas mulheres a tomar banho no rio. 

Voltam todos a puxar umas fumaças, pensativos. Para quebrar o silêncio, outro acrescenta «E a mulher trabalhadora, vê-se na horta». Volta-se a ouvir um sussurro de concordância e alguns corpos mudam de posição.

Olham para as mulheres a passar com os filhos às costas, o cesto à cabeça e a enxada na mão. Puxam mais umas fumaças e pensam noutros ditos apropriados. Quase todos em torno das qualidades das mulheres, pela amostra que tive no programa de rádio.

Não consigo deixar de pensar se serão só as mulheres a trabalhar e os homens se limitam a inventar provérbios acerca disso?


19  05 2009

Dia-não

Há dias que não deviam existir. Começam mal e não se endireitam nem por nada. Ficamos com a sensação de que desperdiçámos uma dádiva.

Tudo começa com a festa no terraço de um dos prédios da vizinhança. Aqui, as festas só estão completas quando há muitas colunas grandes e amplificadores monstruosos a vomitar batuques a volumes desumanos. Acreditamos convictamente que alguém anda a experimentar técnicas de demolição por pressão sonora.

festa
Animou festas de outros tempos

As vidraças tremem, os copos dançam na mesa e os espelhos reflectem não só a luz, mas também o som que vem lá de longe. Pum, pum, pum.

As horas passam e a música vai variando de ritmo, mas as pancadas continuam. Adivinhamos o zumbido nos ouvidos dos que estão na festa, mas percebemos que esta é uma música táctil, que deve ser sentida no esqueleto e nas carnes. As orelhas servem para segurar os óculos de sol que, mesmo de noite, são fundamentais.

Do outro lado da casa, onde está o quarto, o som não chega directamente. Há, pelo menos, três planos onde é reflectido em direcção à cama. As pancadas secas sentidas na cozinha são agora empurrões arrastados e distorcidos que massam os ouvidos e o corpo.

O fim da noite aproxima-se, mas a música continua. Quatro da manhã e ainda não há sinais de que a festa esteja parar acabar. As pequenas pausas entre as músicas fazem a pressão nos ouvidos desaparecer, como se alguém nos tirasse um dedo da orelha. Mas logo a seguir regressa. Lá para as cinco da manhã acaba. Silêncio, finalmente.

Adormecemos para, cinco minutos depois, passar a primeira mota barulhenta. Muito gostam estes gajos de andar a dar aceleradelas inúteis!

Os planos feitos de véspera de acordar cedo são cancelados com voz entaramelada. Em vez das sete, partimos às dez. Ainda falta abastecer o carro, mas fazêmo-lo pelo caminho.

A estrada para Viana continua em obras. Os condutores insistem em formar cinco filas onde só passa uma. Vão-se espremendo a toques de embraiagem, tentando não cair nos buracos mais fundos que decoram a estrada. Buzinadelas e acelerações furiosas com o carro desengatado.

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Contorna buraco, mergulha na lama

Duas horas depois, chega-se a Viana, a doze quilómetros. Filas demasiado grandes nas bombas até lá. A última hipótese, a caminho de Catete, já não tem gasolina. A luz da reserva acendeu e não vale a pena arriscar ir até Catete e descobrir que também estão a seco. O dia está perdido. Regressamos à capital. Perdemos três quartos de hora para abastecer numa bomba menos concorrida perto do Palanca.

Entramos em casa derrotados. A viagem de lavar a alma e esquecer Luanda por umas horas, revelou-se um banho no que há de pior da cidade: trânsito, trânsito, trânsito!

A seguir choveu…

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Luanda debaixo de chuva


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