28
05
2009
Quando era um petiz, aprendi que a chegada de uns pássaros pretos, de asas pontiagudas em crescente e caudas bifurcadas significam Primavera. As andorinhas regressam todos os anos no final dos dias frios, para fazer acrobacias complicadas e construir ninhos nos beirados.
Disseram-me também que vinham de África, onde passavam o Inverno. Na minha cabeça imaginava os céus africanos a despojarem-se de andorinhas, cegonhas e até flamingos.
Descobri que as coisas não são tão lineares como me contaram. No início do Cacimbo, quem olhar para o céu verá milhares de andorinhas rodopiando atrás das melgas e mosquitos. A Primavera já começou lá na Europa, mas parecem não se importar com isso. Os céus e beirados angolanos têm tudo o que precisam.
27
05
2009
Luanda é uma cidade moderna. Disso, não pode haver dúvidas.
Muitos choram a perda dos edifícios históricos da cidade, substituídos pelas torres sem alma e sem identidade. A mim também me custa ver paredes antigas serem derrubadas, mas tenho de aceitar que, na maior parte das vezes, não passam de paredes velhas.
Demasiados anos de desleixo e abandono traçaram o destino a muitas casas de Luanda. A única solução é mesmo a demolição, por muita pena que tenhamos. É verdade que se podia construir algo semelhante no mesmo lote, ou até mesmo que tivesse qualquer coisa a ver com a cidade ou com o país, mas isso não dá o lucro astronómico e rápido desejado.
Uma das novas construções da cidade é a torre dourada da China International Fund, mas ninguém a conhece por esse nome. É mais fácil perguntar pela torre o Tom & Jerry.
Os chineses, numa operação de charme, resolveram cobrir a fachada de pequenas luzes controladas por computador, como as que usaram na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Ao cair da noite, quando meia cidade está fechada nos carros, a caminho de casa, duas fachadas mostram imagens em movimento. Lá pelo meio há umas falhas, com cores trocadas ou luzes apagadas, mas deve ser para não nos esquecermos de que é material chinês…
A programação habitual consiste em desenhos animados de cores berrantes e bonecos com olhos em bico. Se tivermos sorte, podemos apanhar um episódio do gato e do rato que dão o nome à torre.
Televisor de quinze andares
26
05
2009
Há alturas em que julgo ser demasiado ambicioso insistir num artigo diário. Tenho receio de me começar a repetir por ter esgotado os assuntos interessantes. Acontece-me especialmente nos dias em que Luanda me vence, e chego a casa com vontade de mandar tudo às urtigas. Vejo a reserva de artigos a diminuir e os assuntos sem aparecer. Só me apetece escrever acerca do mau e do horrível, tudo aquilo que as coisas boas desta terra não merecem.
Mas encontrei um remédio para este desânimo. Volto atrás no tempo e descubro o que me marcou nas primeiras semanas em Angola, quando tudo era novidade e os olhos ainda não sabiam filtrar tudo. Dei por mim a ler o Aerograma como se nunca o tivesse feito, sorrindo de certas ingenuidades e corrigindo algumas ideias erradas. Descobri que ficou sempre algo por dizer. Afinal de contas, haverá sempre crianças a brincar e candongueiros a conduzir, como só eles sabem, para animar a imaginação.
Assunto azul e branco
25
05
2009
A primeira imagem que tive de Luanda foi a existirem milhares de carrinhas azuis e brancas a circular em todas as direcções. Na falta de táxis ou autocarros, o problema dos transportes públicos tinha-se resolvido por si. Alguns táxis, como lhes chamam por aqui, embora prestem serviço de autocarro, são legais. Têm licença de transporte de passageiros e motoristas com carta profissional, mas a grande maioria circula de forma ilegal, donde vem o nome mais popular de candongueiro.
É um negócio fabuloso, onde o dono da viatura apenas tem lucro. Todo o risco e despesa fica por conta da tripulação: motorista e cobrador. Ao final do dia têm de entregar uma quantia fixa, que ronda os 10’000 Kz, o depósito cheio e a carrinha lavada.
Outra coisa que salta à vista, é a decoração dos vidros traseiros. Cada carrinha tem o seu letreiro, para se distinguir das outras frotas. Se tivermos sorte, algumas alinham-se e formam frases curiosas.
De Pasta – Do mais alto nível – Vapor da Perícia
Em certos locais estratégicos, a confusão de pregões anunciando o destino do táxi e a anarquia com que estacionam, tentando cortar a saída aos demais sem ser bloqueado por outro, gera um espectáculo engraçado. Mas só para quem vê, claro.
Candongueiro famoso
Com a aplicação mais rigorosa no novo Código de Estrada, os candongueiros começaram a desaparecer. Alguns foram apreendidos, outros encostados a um canto, esperando dias melhores. Entretanto, começaram a circular autocarros. Poucos, muito poucos. E não chegam onde as carrinhas de nove lugares oficiais e dezasseis oficiosos chegam.
Parlamento nocturno
Os autocarros não fazem serviço nocturno, ao contrário dos táxis, que circulam até que se consiga perfazer a quantia a entregar ao patrão, nem têm as qualidades de todo-o-terreno das iáces, indispensáveis numa cidade cheia de buracos traiçoeiros e estradas enlameadas.
Nos dias de chuva, os candongueiros serpenteiam entre as poças de lama e as armadilhas na estrada, furando pelo meio do trânsito, nas suas habituais m’baias. Os autocarros, menos ágeis, acabam por não resistir.
Atolado
24
05
2009
A monotonia meteorológica angolana deixa-me um pouco atordoado. Não consigo medir a passagem do tempo sem recorrer ao calendário.
Habituadinho às quatro estações bem marcadas da zona temperada, aqui não me apercebo das folhas vermelhas do Outono, porque não as há, nem me apercebo muito bem quando chega a primavera.

Estação das chuvas
Os embondeiros ajudam um pouco, passando o Cacimbo de ramos nus e o Verão com uma saudável cabeleira. Já percebi que na estação das chuvas o capim cresce imitando arranha-céus verdes e que no resto do ano quase desaparece.
Apesar de me dizerem que o Cacimbo é frio e de ver muita gente agasalhada, em Luanda posso dizer que os dias mais gélidos são semelhantes aos dias do final da Primavera de Lisboa. Os angolanos que cresceram nas terras altas dizem, a luandenses arrepiados de frio, que no Inverno de Luanda se pode dormir ao relento sem problemas.

Estação das chuvas
Nas noites de insónia, um remédio santo é enrolar-me num cobertor pesado. Em Angola tenho de passar sem isso. Tenho o lençol enrolado aos pés da cama, nada mais. Nas noites mais quentes chego mesmo a ligar o ar condicionado, para não acordar alagado em suor.
As saudades que sentimos da nossa terra revelam-se nas pequenas coisas. Há umas noites, dei por mim a enrolar-me no lençol, quase como quem espera fechar os olhos e acordar em casa. Adormeci naquele aconchego, mas acordei desapontado. Ainda estava em Luanda e alagado em suor…