Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

18  04 2009

Desabafo

Há coisa incompreensíveis. Passam-se semanas em que os comentários chegam a conta-gotas, mesmo com artigos que espero levantar alguma polémica.

Mesmo nos tempos em que uma criatura andava por aí a aterrorizar os blogues de Angola com promessas de violência e de coisas desagradáveis, nunca bloqueei a publicação de comentários aos meus artigos. Bom, na verdade, retirei um do Sr. Keinteressa porque tinha excedido largamente o seu tempo de antena. Mas esse já não andava a comentar, andava a chatear.

Certo dia, vou a caminho do escritório e vejo um cão ser atropelado. Graças ao instinto, safou-se com vida e uma valente dor no corpo. O candongueiro que o atropelou nem se dignou a tocar nos travões, quanto mais olhar para trás. Infelizmente, já vi muitos cães ser atropelados em Luanda. Grande parte deles acaba por morrer no meio da estrada, de uma forma muito feia.

Publico este pequeno relato da minha vida em Luanda e não é que sou linchado? Até me acusam de racismo por ter descrito, friamente, um cão ser atropelado. E aqueles que viram o cão ser atropelado não do outro lado da avenida, como eu, mas aos seus pés e nem se dignaram a parar? Esses são o quê? E os que perseguem os cães à pedrada?

O que é bom do insulto baixo é que não podemos responder na mesma moeda. Assim temos a garantia de que não descemos ao nível “do chão sujo que pisamos e não merecemos”…

Que discordem, muito bem. Que achem que sou a pior pessoa do mundo, melhor ainda. Agora que sejam mal-educados e mal-criados é que já é forçar um pouco a mola.

Pronto, já passou.


17  04 2009

Duplo atropelado

Os cães angolanos têm todos um ar um bocado parado. Raramente os vemos a correr ou a fazer alguma coisa que não seja dormitar ao Sol. Pensando bem, os cães do resto do mundo também são assim… o melhor exemplo é o rafeiro que dorme no quintal lá de casa. Os de cá talvez sejam um pouco mais apáticos. A relação das pessoas de cá com os bichos é diferente.

Mas o ar parado não quer dizer que sejam estúpidos. Já perceberam que a maioria das pessoas com quem vivem não os grama. Tolera-os até ao momento em que lhes apetece distribuir um pontapé ou uma pedrada. É comum ver cães a fugir de rabo entre as pernas, perseguidos por miúdos pouco maiores que eles com paus e garrafas. O facto de dormirem com um olho aberto já tem salvo muitos de encontros imediatos com um calhau voador ou uma chinelada maldosa.

No meio de tantos cães atentos, há sempre um ou outro que escapa. Este tipo reconhece-se facilmente porque insiste em dormir na berma da estrada com ambos os olhos fechados. Já deviam saber que os condutores angolanos só tentam não atropelar peões, mesmo assim sem grande convicção e só porque dá muitas chatices atropelar gente. Tudo o que mexa e não reclame muito, quase pode contar com uma guinadela estratégica só para a roda ficar mesmo alinhada com o lombo. O curioso é que muitos destes sobrevivem largas semanas a desafiar a morte, sentido as rodas dos candongueiros passar-lhes a poucos palmos do focinho.

Outros, que também gostam de dormitar na berma, preferem fazê-lo entre os carros estacionados. Ninguém atropela gente ou bate em carros estacionados de propósito. É bem mais seguro e sempre há alguma sombra para variar.

Desconfio que todos eles conhecem a inevitabilidade de ser atropelado. Apenas os mais novinhos se podem orgulhar de não ter cicatrizes com o símbolo da Toyota. Lenhos na cabeça, cortes no lombo, patas partidas, caudas amputadas são a história de vida de milhares deles. E depois vêm as moscas pôr-lhes ovos nas feridas das orelhas…

blog_Mar09_17
Que bem se dorme aqui

A caminho do trabalho ouvi o já familiar baque seguido por latidos e ganidos compassados. Mais um que foi atropelado, pensei. Contava que o carro seguinte acabasse o serviço, mas fui surpreendido por manobras acrobáticas por parte do atropelado. Contorcia-se e rebolava em direcção à berma. Cada ganido equivalia a meia rotação do corpo. Primeiro as patas da frente, depois as de trás. O animal parecia estar dobrado em ângulo recto, mas rebolava como uma bola.

Cá para mim, era duplo de cinema e tinha treinado aquela manobra umas centenas de vezes. A pancada não deve ter sido meiga, mas o instinto salvou-lhe a vida. Só espero é que a recuperação seja rápida, porque seria uma pena perder um artista destes.


16  04 2009

Para ti, que me esperas

A viagem de regresso a Luanda, apesar de sem turbulência, foi feita em sobressalto. Todo o tempo procurei definir o que senti, mas descobri que não tinha palavras para tal. Todas me pareciam pequenas e desadequadas. Todas ficavam aquém do que precisava. Haverá alguma capaz de descrever o que se sente num abraço apertado ou ver os nossos passos compassados na calçada?

Isto de ver os nossos projectos crescer e ganhar formas que não sonhávamos há uns meses tem muito que se lhe diga, especialmente quando sabemos que temos de os interromper por meio ano.

Amanhã faltará menos um dia. E depois menos dois. É só um até já.


15  04 2009

Boleias

Um pouco por todo o mundo ocidental, o gesto universal para pedir boleia consiste em fechar todos os dedos de uma mão excepto um, o polegar, e apontar com ele para a direcção que se quer seguir. A excepção a este regra é a Austrália, onde o mesmo gesto é a interpretação de um outro, também universal, que se faz fechando todos os dedos de uma mão menos um, que não é o polegar. Por isso, para pedir boleia naquelas paragens e evitar o risco de insultar os condutores, é melhor usar um cartão com o destino escrito em letras grandes.

Em Angola, a boleia é uma instituição. Julgo até que deve merecer um artigo na constituição, que garanta a universalidade do direito de dar e receber boleia. Em qualquer estrada por onde se passe, todos os peões com quem nos cruzamos, quer estejam sentados ou a andar, quer se desloquem na nossa direcção ou noutra qualquer, pedem boleia.

Mas quem espera ver gente de polegar espetado na berma ou de cartão em riste, vai ter uma desilusão. Em Angola e no resto de África, suponho, pede-se boleia levantando bem alto um braço e agitando a mão para cima e para baixo, como se estivessem a dar pancadinhas na cabeça de alguém muito alto. É um gesto que faz lembrar o Benny Hill a bater na careca do velhote baixinho. Por vezes, este gesto é acompanhado por uma tradução sonora «Bôléia! Bôléia!», não vá o condutor estar distraído e pensar que apenas lhe acenam.

Na província do Bengo já dei algumas boleias. Da Cassoalala à Zenza do Itombe, da Muxima a uma aldeia sem nome, do meio do nada à Muxima. De todas as vezes fiquei espantado com as distâncias que as pessoas ainda tinham pela frente, não fosse a boleia providencial. Aqui, as distâncias são medidas um pouco como no Alentejo. É tudo já ali.


14  04 2009

Coisas de engenheiros

O mar em Cabo Ledo é daqueles de postal ilustrado. Águas verdes e quase transparentes, com ondas suficientes para não parecer um lago e uma corrente fraquinha. Só que o mar daqui não é o mar das latitudes elevadas.

Por outras bandas estamos habituados a água bem mais fria e menos salgada. Aqui não precisamos ter receio de entrar na água a correr, temos é de nos lembrar que só se mergulha de olhos fechados.

A temperatura e salinidade da água escondem outras surpresas. O hábito de saltar ondas está enraizado, já que mais não seja porque evita uns arrepios valentes quando a água chega ao peito. Mas, ao contrário do que acontece por lá, em que saltamos a onda e voltamos a ter pé assim que ela passa, as de cá parecem mais compridas.

Cabo_Ledo
Cenário de filme

Parece que a parte de maior amplitude da onda se estende por uma área maior. O comprimento da onda é diferente. Saltamos a onda e, quando esperamos tocar com os pés no fundo, temos uma surpresa. Damos por nós a esbracejar e a pontapear a água, tentando evitar um pirolito inesperado. Depois lá sentimos o fundo debaixo dos pés. A primeira vez é um pouco desconcertante, mas depois habituamo-nos.

Como engenheiros que somos, postulámos logo que o l (comprimento de onda) aqui era maior. Na verdade não é o l que é maior, porque isso apenas diria que as ondas tinham uma frequência menor, mas o trocadilho é engraçado. Engenheiros…


« Previous PageNext Page »