Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

13  04 2009

Mussulo de plástico

Vir trabalhar para Luanda e não ir ao Mussulo é como ir a Roma e não ver o Papa. Este não será o melhor exemplo, uma vez que ando a fugir ao Sr. Ratzinger.

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Praia do Mussulo

Para chegar às praias da península do Mussulo há dois percursos possíveis. Quem quiser arriscar meia centena de quilómetros em caminhos de areia que podem ficar submersos na maré alta, pode fazer o percurso de carro. Quem quiser poupar esforço e dinheiro opta por ir até ao embarcadouro do Mussulo e contrata uma lancha rápida que nos deixa em qualquer ponto da baía. Os preços, como é óbvio, variam bastante consoante o cliente e a distância. Algumas estâncias têm mesmo lanchas próprias para os seus clientes.

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A caminho do Mussulo

O preço é acordado à partida e a hora de regresso é combinada já no Mussulo. Trocam-se números de terminais, o que é o mesmo que dizer números de telefone, só para evitar desencontros. Há quem pague cada percurso ou quem acerte contas no regresso ao continente.

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Companhia na viagem

Mas o que há no Mussulo, afinal?

Aparentemente, nada de muito diferente do que se encontra na Ilha do Cabo. Bares com ar condicionado, bebidas caras, muitos rostos suados. Há talvez mais bares e restaurantes. Pelo meio aparecem casarões abandonados e aldeamentos turísticos de aspecto aceitável. Não há arrumadores ou guardadores de carros!

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Casas fechadas

Uma das coisas que faz confusão é que cada um leva a sua propriedade até ao limite da maré alta. A certas horas, a praia pública desaparece. E nas outras, não é muito extensa. Para ter praia livre é necessário ir até à ponta da restinga, à língua de areia onde se erguem algumas casas de folha de palmeira.

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Outro aldeamento

Pelo meio dos turistas circulam zungueiras de vestidos e biquinis e uns quantos miúdos que apanham cocos e os passeiam à cabeça tentando convencer os banhistas a comprar. Quando o negócio enfraquece, juntam-se a jogar à bola para passar o tempo. Festejam os pontapés mais inspirados com piruetas que acabam na água. Raramente acontece, porque a dominam bem, mas se a bola acaba na toalha de alguém, pedem desculpa antes de a ir buscar muito devagarinho. Nem parece que estamos à vista de Luanda.

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Vendedores de côcos

As zungueiras passam grande parte do dia abrigadas atrás de sebes e árvores, quase invisíveis. Dormitam entre cada ronda à praia e, sempre que uma regressa, perguntam como está o negócio nos arredores.

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Zungueira de Biquinis

Convém levar farnel porque, a menos que se conheçam os sítios mais em conta, tudo é pago a peso de ouro. Fora dos complexos mais caros vamos encontrando esplanadas e pequenos bares com uma sombra convidativa. Parece que estão à distância certa entre eles para termos coragem de andar sobre uma areia que escalda os pés até dos mais habituados, mas não tão próximos que tornem a escolha difícil.

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Sombra apetecida


12  04 2009

Já não me lembrava disto

Sempre que vou de férias a Portugal, para voltar a ver tudo e todos os que me faziam falta, começo a sentir algumas saudades de Angola. Afinal de contas, aqui nem tudo é mau. Quem o disser, mente. E quem disser o contrário, mente também!

Nesta terra de sentimentos extremados, em que todos sofremos de uma espécie de amor-ódio por tudo o que nos rodeia, há coisas de que sinto falta. Como sei que a estadia será sempre curta para conhecer tudo o que quero, sinto falta de percorrer novas estradas nesta imensa Angola.

Mas há uma coisa que não sentia falta nenhuma. As obras a horas cretinas, por exemplo. Quem é que se lembra de andar a brincar com um martelo pneumático à uma da manhã?


11  04 2009

Regresso a Luanda

Depois de uns meses em Luanda, o caminho entre as capitais Portuguesa e Angolana já começa a ser rotina. A indiferença quanto à companhia aérea em que viajava foi substituída pela escolha da que me oferece os melhores horários.

Agora escolho sempre o voo da noite para o regresso. Por pouco que durma, sempre chego mais descansado e menos aborrecido a Luanda.

No fim do Verão Austral, quando as nuvens descarregam as últimas gotas grossas sobre África, há pouca turbulência nas altitudes a que circulam os jactos. Nestas condições, viajar de avião ou dormir numa cadeira em casa é quase o mesmo.

Pela primeira vez escolhi um lugar na coxia. O meu objectivo não era ver a paisagem, porque era de noite. Queria mesmo descansar e poder esticar as pernas de vez em quando. À janela temos sempre de incomodar o vizinho…

No embarque em Lisboa achei estranho não haver um mar de gente a acotovelar-se na sala de espera. Estranhei não haver fila para o controlo de passaportes. Estranhei que se embarcasse em menos de dez minutos. Estava tudo demasiado calmo. Tenho de vir mais vezes nos voos a meio da semana.

Dois ou três autocarros chegaram para levar toda a gente ao avião que nos esperava no outro lado do aeroporto. Muitos lugares estavam vazios, principalmente na fila central. Alguns sortudos tiveram direito a uma cama ao longo do voo todo. Bastou-lhe levantar os braços das cadeiras.

Lua sobre a asa
A Lua Cheia que vimos juntos em Lisboa

A rotina a bordo é sempre a mesma. Resume-se a ler, comer, ler, dormir, ler, dormir, comer e pensar em quanto tempo falta. Um pouco antes de nos servirem o pequeno-almoço espreita-se pela janela e vemos uma fabulosa Lua Cheia sobre a asa. Como um pouco de trabalho consigo fazer uma fotografia menos má. Registei mais um momento especial.

Perto das cinco da manhã, o Sol começava a colorir o céu com manchas de laranja e amarelo. Pouco depois, com o avião a descer para o aeroporto de Luanda, começaram a avistar-se as luzes dos barcos e das casas da periferia. Mais um pouco e aterrávamos. O céu estava mais claro, mas os trópicos enganam e, quando saímos do avião, o Sol já tinha nascido. Nunca me habituarei a mudança repentina do dia para a noite.

Pouco antes da aterragem, fomos informados que a temperatura em Luanda era já de 25º. Dentro do avião, como de costume, estava gélido. É uma boa maneira de fazer as pessoas dormir. Mal nos aproximamos da porta sentimos o calor de uma atmosfera densa e húmida a bater-nos na cara. O cheiro a chuva vem logo a seguir.

Na gare, temos as formalidades do costume, desta vez com uma inovação. Duas funcionárias experimentavam o sistema novo. Olhei para elas e só pensei em Bucha e Estica. Não só pela sua aparência, porque uma fazia quatro da outra, mas também pela maneira como se comportavam. Uma dizia para experimentar assim e depois rodar o passaporte. A outra dizia que ela é que sabia. Mas nenhuma sabia bem o que fazer. Depois ao contrário. Outra vez da primeira maneira. O computador mudou alguma coisa e iniciou-se a discussão para saber o que se fazia a seguir. Acabadas as verificações, foi necessário levar o meu passaporte para outro balcão, porque ali não tinham carimbo… Escusado será dizer que fui o último a sair daquela sala.

A grande surpresa foi a sala das malas. Esperava a confusão do costume, mas encontrei a minha mala carregada de livros à espera, solitária, ao lado da esteira. Desta vez ainda passei pela alfândega, onde me abriram a mala sem grande convicção e mandaram seguir.

O motorista já me esperava lá fora e levou-me direitinho para o escritório.


10  04 2009

O ego dos pilotos

Segundo fonte informada, há dois tipos de pilotos: os que têm o ego grande e os que têm o ego gigante. À primeira vista, não se distinguem uns dos outros. Ambos têm propensão para ser barrigudos, dizer mal dos controladores, gostar do cheiro de querosene e sofrer de hemorróidas.

Na verdade, estes dois tipos até se distinguem com relativa facilidade. Basta entrar no avião e esperar a comunicação aos passageiros. Se a tarefa for delegada a um comissário de bordo ou se se resumir a meia-dúzia de palavras, o piloto tem o ego grande porque o piloto de ego gigante adora falar aos passageiros. Fala da viagem, do avião, da temperatura no destino, na origem e nas cidades que se sobrevoa. Fala das nuvens à esquerda e das nuvens à direita, fazendo umas centenas de pescoços contorcer-se para espreitar pelas escotilhas mal posicionadas.

No meio de tanta conversa, esquece-se do que disse e acaba por repetir tudo numa ordem diferente. Depois esforça-se para traduzir para outra língua e acaba por contar uma versão nova e com outros pormenores.

É claro que um ego grande não significa exactamente que seja um grande piloto. Por vezes acontece que os mais pavões são os mais aselhas, que fazem aterragens espalhafatosas só para mostrar que sabem voar.

Mas como não há regra sem excepção, o piloto mais falador que encontrei foi também aquele que fez a aterragem mais suave de que me lembro…


04 2009

Contemplação

Na estrada da Camama, a caminho de Luanda, o trânsito escorria como podia pelo meio dos candongueiros que davam m’baias a tudo e todos. Os mais pacientes aguentavam o pára-arranca já sem fazer caso do quanto tempo faltaria para chegar a casa ou ao cruzamento seguinte. Haveriam de chegar.

O Sol foi descendo devagar no céu, quase que acompanhando o fluir do trânsito. Lentamente, o horizonte começou a ganhar a cor do fogo e as nuvens a cobrir-se de ouro.

De dentro da minha jaula com ar condicionado pude observar o jogo das escondidas que o Sol fazia com os postes e fios que riscavam o céu. Primeiro tocava um lado; depois, muito devagarinho, escondia-se atrás do poste. A seguir, como quem espreita timidamente numa esquina, começava a mostrar-se do outro lado. Depois fugia e procurava outro poste para se esconder.

Eu ia avançando aos poucos. Pensava no espectáculo que não seria este pôr-do-Sol num qualquer local onde o pudesse contemplar em paz. Por causa do trânsito não o estava a apreciar devidamente.

Mas depois emendei. Graças ao trânsito lento de Luanda pude estar ali a ver aquela brincadeira. Graças àquela brincadeira, pude pensar num monte de coisas em que já não pensava há anos. Aulas de astronomia. Posições aparentes dos astros. Trigonometria Esférica. O quão pequenos somos comparados com o resto e o quão importantes nos julgamos. A efemeridade da vida. É melhor avançar antes que o candongueiro se enfie!


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