8
04
2009
Desde há muitos anos que não gosto de levar trabalho para casa. Aliás, no que toca a trabalho, quanto menos, melhor. É certo que o ócio pode levar ao tédio, mas prefiro aborrecer-me a ter de me preocupar com coisas de trabalho no tempo de descanso.
Um dos meus lemas é que os horários são para ser cumpridos e, já que não se cumpre o da entrada, ao menos que se cumpra o de saída. Trabalhamos para viver. Não vivemos para trabalhar.
Aliás, se o trabalho fosse coisa boa, não era preciso ser pago.
Em todas as profissões há quem se entregue por completo ao trabalho, esquecendo refeições e fins-de-semana, e outros que cumprem o seu horário de expediente, sabendo que no dia seguinte há mais para fazer. Lembro-me de uma cena do filme Amélie Poulain, em que um mendigo recusa uma esmola ao Domingo por ser dia de folga «Pas au Dimanche, merci!».
Curiosamente, em Lisboa, no adro da Igreja de São Domingos, há pedintes profissionais que se regem pelas mesmas regras desta personagem. Parece que o sindicato faz um controlo apertado às horas de trabalho semanais e à duração das pausas obrigatórias.
Os mendigos desta igreja entram às oito e saem às cinco, com duas pausas de quinze minutos. Uma de manhã e outra à tarde. Almoçam do meio-dia à uma.
Suponho que também tenham um dia de descanso semanal e outro de descanso complementar, uma vez que trabalham aos Domingos e feriados.

Hora do almoço
7
04
2009
Há dias em que Luanda pára inexplicavelmente. Nada faz supor que o dia seja diferente do anterior, mas todas as ruas se enchem de carros que se arrastam para destinos desconhecidos. Se na véspera se demora dez minutos a atravessar o centro, hoje demora-se duas horas. Ninguém sabe porquê.
Num destes dias esquisitos, depois de quase uma hora para fazer os quatro quilómetros até casa, dei comigo a olhar para aquele céu laranja que às vezes brinda o pôr-do-Sol em Luanda. Farto do ar condicionado, tinha aberto a janela há muito e conduzia com um braço de fora. Na verdade não conduzia, avançava dois ou três metros de vez em quando.
Às tantas, pára uma mota ao meu lado. Os carros estavam tão próximos que nem valia a pena tentar furar. O motociclista reparou que estava a olhar-lhe para a mota nova. Perguntou-me, num sotaque angolano carregado, se queria trocar. Disse logo que sim, que estava cheio de saudades de andar de mota.
Respondeu-me, apontando para o amontoado de carros à frente, «E eu estou cheio de saudades do IC19…»
Rimo-nos um pouco com a comparação. O famoso IC19, a estrada mais congestionada da Europa, é um doce quando comparada com uma qualquer artéria luandense.
Uns minutos depois, os carros ajeitaram-se um pouco e ele pode seguir viagem. Parou vinte metros à frente, onde voltou a meter conversa com outro condutor. Eu fiquei nostálgico. Também tenho saudades de andar de mota, nem que seja no IC19!
6
04
2009
Uma instituição de Luanda são os engraxadores. Em cada esquina podemos contar um ou dois rapazes com uma caixa de madeira onde guardam algumas latinhas de graxa e uma garrafa de plástico com água suja.
Por cinquenta Kwanzas apenas dão novo brilho ao calçado e bainhas das calças do cliente. Preto ou castanho são as únicas opções. Convém usar calças escuras.
Umas borrifadelas de água suja. Uma passagem com um pano sujo e três dedadas de graxa no sapato. Novo pano sujo para a espalhar e uma escova com duas ou três cerdas simulam a engraxadela. Nada de puxar o lustro com aquele estalar do pano característico dos profissionais. Nada de cadeirinha para o cliente. É de pé ou sentado numa pedra ou muro.
O mais curioso é que não são só os sapatos de pele que se engraxam. Muitas vezes tenho visto engraxar ténis de pano. Quando estão a ficar com um aspecto um pouco mais coçado, dirigem-se a um engraxador, equilibram o sapato na caixinha de madeira e encomendam o serviço:
«Engraxa aí!»
5
04
2009
Depois de uns meses em Angola, passei a estar mais atento aos pequenos detalhes que distinguem os vários povos. Gosto de apreciar os sotaques de cada região e os pormenores que denunciam a origem das pessoas. Ando de olhos mais abertos, procurando fixar na memória toda a novidade que me rodeia.
No regresso a Portugal, sou incapaz de desligar este mecanismo e continuo a olhar para tudo com os mesmos olhos sôfregos. Mirando todas as coisas como se fosse a última vez que as verei. Arrependo-me mil vezes de não ter levado a máquina fotográfica, essa fiel companheira, para captar aquele detalhe ou enquadramento. A angústia passa depressa porque sei que o momento não foi perdido. Apreciei-o mais do que se o tivesse fotografado.
Esta atenção mantém-se mesmo na observação das pessoas. Agora parece-me estranho escutar africanos sem o sotaque angolano. Lembro-me depois que são a terceira geração. Os seus avós emigraram para Portugal há três décadas e agora falam com o sotaque universal emprestado pela televisão. São mais portugueses que eu, que moro em África. O mesmo acontece com os emigrantes chineses que agora têm filhos na escola. Não há ll trocados com rr e tempos verbais esquisitos.
O hábito adquirido de tentar filtrar a primeira camada de informação levou-me a esmiuçar um pouco mais a análise aos sotaques. Se esquecermos a cor da pele ou o formato dos olhos, todos falam de maneira igual. Mas esta é apenas a primeira camada. A que distrai. É como chegar a uma terra longínqua e todos os rostos parecerem iguais. É preciso observar outras coisas. Passei a observar os gestos.
Descobri que os gestos também têm sotaque. As garotas angolanas com que me cruzei na rua falavam não só com a voz. As suas mãos repetiam gestos aprendidos com as suas mães, iguais aos que vi em Luanda, mas diferentes dos que aprendi com a minha. A linguagem corporal usada tinha o sotaque angolano. Sorri para dentro. Descobri uma coisa nova.
4
04
2009
O final do dia chegou com uma luz especial. Nuvens pastel, variando entre o rosa e o laranja, faziam a luz inundar o mundo, afogando as sombras e emprestando à cidade uma iluminação digna de um filme.
Esta atmosfera mágica prenuncia uma mudança no tempo. Chuva ou trovoada, talvez. O calor abafado ao longo da tarde reforça o sentimento. Não sou o único a achá-lo. No centro da sala, quatro moscas voaram todo o dia em trajectórias estranhas, como que querendo escrever no ar uma epopeia de insectos. São as mesmas que me prendiam a atenção em pequeno. Os seus arranques e mudanças de direcção aparentemente aleatórios e intermináveis são fascinantes, do ponto de vista do entretenimento infantil e da curiosidade científica, claro.
Em Angola, habituei-me a ver as coisas como estrangeiro, a observar sem intervir. Hoje dei por mim a fazer o mesmo na terra onde cresci. A perda de memória colectiva a que assisto em Luanda, com a demolição dos edifícios que dão identidade à cidade fez-me perceber que também na minha terra isso acontece. Circulei nas ruas que conheço tão bem, arregalando os olhos e escutando conversas que sei serem familiares. Memorizei o aspecto das casas que enchem as minhas memórias, na esperança de que não tenha de as recordar apenas e que as possa ver na próxima visita.
Algumas novidades aqui e ali. Lojas fechadas. Muitas casas à venda. Árvores podadas. Um prédio incaracterístico mereceu uma placa aludindo à morada de um pintor famoso. Queluz está a ganhar memória!
Um pouco mais à frente, uma avó passeava com a neta. A neta dizia que não ia chover a avó insistia que sim. Afinal de contas, o calor que estava não enganava ninguém. Sorri para dentro e olhei para o céu. As nuvens estavam mais rosadas. Olhei para o chão. As sombras continuavam desaparecidas.
No jardim, sobre cada arbusto, nuvens de pequenos mosquitos tentavam dar sentido à sua breve vida numa orgia alada, desenhando espirais que se contorciam e faziam os corredores fechar a boca e esbracejar quando por lá passavam.
Olhei para o céu uma última vez, antes de o dia se transformar em noite, e tive a certeza de que não podia deixar escapar o momento. Estuguei o passo para chegar mais depressa a casa. Tinha um artigo para escrever.