Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

04 2009

Produtos de referência

De há uns anos a esta parte, uma organização internacional qualquer dedica-se a estudar o custo de vida nos vários países. Como primeira aproximação, fazem a conversão das moedas nacionais para uma moeda de referência e comparam salários, custo de bens essenciais e mais algumas coisas, mas depressa concluíram que as políticas monetárias de cada país desequilibravam este raciocínio. Há moedas mantidas artificialmente mais caras ou baratas que o devido, para fomentar exportações, por exemplo. Outro factor que perturbava estes cálculos era a grande variabilidade dos produtos tidos como essenciais nos vários países.

Foi necessário encontrar um produto comum a todos os países em estudo que, pelas suas características, fosse tido como idêntico em todo o lado e de consumo quase universal.

A resposta estava numa das marcas mais famosas no planeta, a Mac Donald’s. Os principais produtos vendidos são iguais em todo o lado, têm custos de produção semelhantes e, acima de tudo, são acessíveis a todas as camadas da população. Seria de esperar que, depois de convertidos, os preços fossem sensivelmente os mesmos por todo o lado.

Mas não são. Descobriu-se, por exemplo, que na Malásia a moeda tem um valor desajustado. Um estrangeiro ficará com a impressão que lá as coisas são muito baratas. A política cambial do banco central malaio assim o determina.

Tentei aplicar o mesmo princípio a Angola, para descobrir até que ponto o custo de vida é assim tão diferente do de outras paragens. Mas deparei-me com um problema. Não há Mac Donald’s em Angola.

Mas haverá, certamente, um qualquer produto que eu possa comparar.

Pensei nas minhas últimas compras em Luanda. Andei a regatear pequenos molhos de cenoura enfezadas. Os preços exorbitantes quase me faziam crer estar a comprar trufas da Toscânia ou uma outra iguaria reservada aos que não sabem o que é contar tostões.

Cenouras comem-se em quase todo o mundo… O produto de referência estava encontrado. Aproveitei uma estadia em Portugal para comprar um molho de cenouras semelhante ao que regateei em Luanda. Sete pequenas cenouras. Nacionais, em ambos os casos.

Em Luanda paguei 200 Kz. Em Portugal paguei 0.16€, o equivalente a cerca de 15 Kz. Tinha ideia de que o preço de Luanda era exagerado, mas nunca julguei ser treze vezes o de Portugal. Meses a pagar fortunas pelas coisas mais básicas deixam-nos com as referências todas trocadas.


Sete pequenas cenouras

Graças à rede global, fui dar uma voltinha pelas bolsas de produtos agrícolas do mundo. No Canadá, os preços eram menos do dobro dos portugueses. Em Tóquio, recentemente galardoada com o título de capital mais cara do mundo, as mesmas cenouras, mas congeladas e entregues em casa, ficavam-se pelos 170 Kz.

Afinal, parece que se enganaram. Luanda é que é a capital mais cara do mundo!


04 2009

Acordo ortográfico, made in China

Anda tanta gente preocupada com a ortografia de uma ou outra palavra e depois não se liga aos atropelos na gramática ou à diferente maneira como cada povo trata a língua de Camões.

As diferenças entre o Português que se fala no Brasil e o que se fala em Portugal não se ficam apenas pelas consoantes mudas ou pelas marcas diacríticas.

São línguas muito próximas, cujos povos se entendem mutuamente, mas são como dois irmãos que cresceram em casas diferentes.

Mas depois temos a versão chinesa do Português, baseada apenas na tradução directa de ideogramas para palavras isoladas. Um pouco por esta Angola tenho-me dado conta de centenas de não-frases made in China. Bem sei que o público-alvo não é a comunidade lusófona, mas sim os conterrâneos do escriba, mas, mesmo assim, há limites para tudo.

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À esquerda há qualquer coisa…


04 2009

Holocausto

Há livros que se lêem com prazer ou por prazer. Mas há outros que necessitam de uma grande dose de masoquismo para se chegar ao fim.

Não falo dos que são maus livros, que esses, nem vale a pena começar. Falo daqueles livros que, a cada página, abalam as nossas convicções morais, que nos oprimem e fazem sentir impotentes.

O livro Holocausto em Angola é deste tipo. Cada página é mais dolorosa que a anterior, mas não podemos deixar de o ler. Crimes bárbaros contra pessoas e povos inteiros são enquadrados na anormalidade da época. Nomes, datas, testemunhos e suplícios preenchem páginas a fio. Memórias de desaparecidos são recordadas.

O mais chocante é saber que carrascos, torcionários, traidores e mandantes são hoje chamados de heróis em Portugal, Angola, Cuba…

A minha estrutura moral levou um safanão desgraçado. Perdi a inocência. Nunca mais serei o mesmo.


31  03 2009

O luxo das calças a cair

As companhias aéreas bem nos tentam convencer que voar é uma experiência reservada às pessoas de bom gosto, que apreciam os pequenos detalhes e o conforto. Fazem-nos crer que nos proporcionam uma amostra do que é a vida da gente rica, por uma fracção do preço.

Não importa que depois se tenha de viajar com os joelhos na boca e que não se possa inclinar a cadeira o suficiente para ficar confortável. Não importa que nos ofereçam uma escotilha minúscula para espreitar lá para fora. Não importa que, geralmente, não esteja alinhada com a cadeira e nos faça torcer o pescoço para conseguir vislumbrar o que nos parece ser o céu, nem que haja companhias que queiram cobrar as idas à casa de banho.

Não me conseguem convencer que uma experiência tão exclusiva tem de começar por ver pessoas com as calças a cair porque tiveram de tirar o cinto e juntá-lo ao tubo de pasta de dentes dentro de um saco de plástico enquanto esperam que lhes radiografem os pertences.

Sinceramente, não me lembro de me ter de descalçar da última vez que andei de combóio…

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Combóio Viana-Luanda


30  03 2009

A Rusga

A noite estava quente e o sono era constantemente interrompido para voltar a almofada ao contrário, na esperança que o outro lado estivesse mais fresco. Nunca estava. A rede mosquiteira enrolava-se nos pés e nas mãos que fugiam ao calor. O lençol enrolava-se às pernas e aos braços húmidos e peganhentos. Lá fora, a ocasional mota barulhenta fazia disparar os alarmes histéricos dos carros. Nada de novo, portanto. Uma noite de Verão em Luanda igual a tantas outras.

Mas, eis que há novidades! Às dez para as cinco da matina, há um anormal (na altura chamei-lhe e à sua digna mãezinha uma série de outros nomes) que se lembra de desatar a buzinar como se não ouvesse amanhã ou gente a dormir.

Duas, três, quatro, dezasseis vezes. Será que alguém trancou um carro? Aqui na rua não é costume. Começam a ouvir-se vozes na rua e nas escadas. Pancadas na porta e nas grades de alguém. «Ó vizinho, ó vizinho!». O vizinho devia estar surdo, porque nunca mais aparecia para tirar o carro.

Levantei-me e fui à janela, de mau humor, cheio de vontade de perguntar ao buzinador de repetição se achava bonito acordar as pessoas àquela hora. Na rua estava um Land Cruiser branco do «Serviço de Migração e Estrangeiros – Fiscalização». Perdi a vontade de reclamar. O condutor aplicava-se a fundo no botão da buzina, espreitando de vez em quando pela janela.

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Filho de uma grandessíssima santa

«Bonito, uma rusga de madrugada…», pensei.

As vozes e os barulhos acalmaram, mas a buzina continuava em grande. Até que parou. O condutor saíu do carro e arrastou-se até à porta do salão de jogos. Achei estranho. Talvez fosse do sono. Passado um bocadinho, regressou, segurando uma lata de cerveja e encostando-se aos carros estacionados. Vem para uma rusga podre de bêbado. Mas que bela imagem dá do país.

Buzina mais meia-dúzia de vezes e depois arranca fazendo chiar os pneus. Não estava mais ninguém no carro. Será que perdeu os colegas? Será que só me queria acordar?


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