Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

29  03 2009

Tintin au Congo

África está cheia de mistérios. Um deles é a tremenda popularidade de Tintin, especialmente a sua aventura africana, que é de tal maneira racista que até o autor se viu forçado a censurar edições mais recentes, reduzindo a espessura dos lábios com que tinha desenhado os pretos (sim, desenhou pretos, não desenhou congolenses) e retirando algumas cenas que desagradaram os defensores dos direitos dos animais (aqueles que não perceberam que aquilo era apenas banda desenhada).

Numa terra onde os mais inocentes comentários são encarados como uma expressão de racismo e de neo-colonialismo latente, é curioso como se encara esta banda desenhada. Se calhar é mesmo por ser exageradamente racista que ninguém a leva a sério. É tomada, julgo eu, como uma sátira aos estereótipos da época.

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Tintin nos pretos, trabalhando para a Sonangol

Quem diria que o Tintin havia de andar a vender óleos da Sonangol montado num Ford T?


28  03 2009

A riqueza da terra

Num fim de tarde qualquer, numa qualquer povoação à beira-rio, longe da capital, risos e correrias são frequentes.

Grupos de miúdos mostram os seus tesouros uns aos outros. Garrafas de plástico cheias de girinos moribundos ou gafanhotos quase cozidos são passadas de mão em mão.

Minutos atrás, saltavam de um pneu de camião para a parte funda do rio ou procuravam equilibrar-se numa câmara de ar enquanto os amigos os empurravam.

Mas está na hora de voltar para casa. O cheiro do carvão a arder anuncia a chegada da refeição da noite, que ainda é tomada de dia, por causa da falta de luz eléctrica. E a barragem ali ao lado…

Entretanto passam pelo branco, que tira fotografias aos telhados e às árvores, que procura respirar mais um bocadinho da paz que lhe falta em Luanda.

Riem e pedem retratos. Primeiro um, que sorri quando lhe pergunto o nome. Depois o outro, que responde carrancudo, na pose dos cartazes dos músicos. Outro tenta saltar à frente dos demais, para ficar só ele na foto. Acabam por se juntar todos na pose preferida e partem, alegres, sem querer ver o resultado.

Mais à frente, a cena repete-se e acabo por esquecer os nomes por detrás de tantos sorrisos…

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Vindos das brincadeiras no rio


27  03 2009

Solta o pequeno ditador que há em ti!

Num fim-de-semana em que fugimos a Luanda, esse monstro, fomos almoçar a um cotovelo do Kwanza. O do Dondo, para ser mais exacto.

O almoço custou a módica quantia de 1’000 Kz e fomos infinitamente mais bem servidos que numa mísera refeição de 50 dólares na Ilha do Cabo.

Mesmo em frente ao restaurante, ergue-se a estação de caminhos-de-ferro do Dondo. O edifício nem é dos mais bonitos da cidade, mas não deixa de ser um marco. Desta vez fomos fazer umas fotografias do lado do cais, para completar as que já tinham sido tiradas noutras ocasiões.

Do outro lado da linha, debaixo da copa frondosa de uma gigantesca árvore, cinco pessoas conversavam, refasteladas em cadeiras de plástico partidas e troncos caídos. Um deles interrompeu a conversa e levantou-se assim que viu as máquinas fotográficas.

Era um polícia. Alto e de óculos escuros que lhe abraçavam a cara de tal maneira que pareciam crescer da pele. Deve ter nascido já com eles.

Vi-o chegar, mas não fiz caso.

Enquanto fotografava o letreiro com o nome da estação, oiço-o perguntar, num tom de voz semi-autoritário, como se lhe estivessemos a entrar em casa:

«Há algum problema?»

Enquadrei o relógio da estação, que está certo duas vezes por dia desde há anos. Apertei o botão e esperei pelo TLAC do prisma. O silêncio começava a perturbar o guarda.

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O próximo combóio chega às dez e meia

Voltei-me para ele e respondi «Não sei. Diga-nos você. O senhor é que veio ter connosco!»

Antes que pudesse pensar numa resposta espertinha e se lembrasse de exercer o seu pequeno poder da forma mais arbitrária que houvesse, perguntei-lhe por um colega dele lá do Dondo, que conheci noutra viagem. Demonstrei preocupação por não o ter conseguido encontrar nesse dia e pedi-lhe notícias do seu paradeiro. Disse que não o tinha visto, que não sabia de nada e acabou por se esquecer de nos explicar qual era o problema de fotografar a estação…

Eram horas de ir ver outras coisas. Deixámos o polícia ao Sol, sem saber muito bem o que fazer. Acabou por voltar para debaixo da árvore e nós fomos à nossa vida.


26  03 2009

Uma chuvinha

O dia amanheceu cinzento e quente, como a imitação de um dia de cacimbo, mas mais escuro. O trânsito do costume fez perceber que a ameaça de chuva ainda não tinha sido cumprida. Ninguém acredita que uns minutos de chuva possam paralisar uma capital, mas tudo é possível é Luanda.

Perto do meio-dia, gotas grossas agrediam as vidraças e abafavam o ruído da vida lá fora. As conversas habituais no parapeito ficaram mudas, com os intervenientes a procurar abrigo e até mesmo os lagartos que costumam percorrer as paredes se deixaram ficar nas árvores mais frondosas, esperando que passasse.

Quem vem da rua reclama da molha que apanhou. Vou até à porta ver chover. Suspiro por não poder ir correr para a chuva. Há trabalho para fazer e todos iriam pensar que o pula tinha pirado de vez. O ar está quente e pastoso. Estendo a mão. A água está igualmente quente. Na verdade, bem mais quente do que aquela com que costumo tomar banho.

Ao fim do dia, e depois de mais umas chuvadas, pensei que tinha sido má ideia pedir para lavar o carro. Mas o jardineiro tinha aproveitado a última aberta para lhe passar um pano por cima. Reparei nos baldes que tinha deixado debaixo das caleiras do edifício, colocados estrategicamente para apanhar a água que caía lá de cima e, ao mesmo tempo, obrigar a um slalom quem queria sair.

O trânsito no regresso a casa estava um pouco mais lento que o normal. A chuva miudinha que me fazia ligar as escovas a cada par de minutos não parecia estar a aumentar a fluidez. Nas bairros populares do Prenda, Cassenga e Rocha Pinto via-se muita gente a baldear água dos pátios e das casas.

Miúdos só de cuecas e cabeça rapada, baldeiam com ar resignado a água lamacenta em que estão enfiados até aos joelhos. Cuecas castanhas em pele castanha sobre a água castanha. Gotas de água e suor escorrem-lhes pelo corpo abaixo, até se juntarem ao charco onde lhes desaparecem as pernas e os pés. Por um momento julgamos que surgem da água e que se tentam baldear a si mesmos para fora da miséria que é ver a casa inundada a cada chuvada.

Os buracos da estrada estão todos cheios de lama. É impossível adivinhar quais são os fundos. Temos de nos socorrer da memória para tentar identificar os perigosos, mesmo sabendo que o mapa muda a cada hora.

Já no centro da cidade, os peões caminham apressados, ultrapassando os polícias de trânsito que hoje ostentam os seus impermeáveis imaculadamente brancos. A habitual protecção branca que usam no chapéu cresceu e agora cobre-os até aos pés. O mundo todo parece passar por nós em ritmo acelerado. Demora-se cerca de meia-hora para percorrer três quarteirões. Grande parte do tempo estive de motor desligado, mas voltei a ficar com a sensação de que fui o único.

Nas paragens habituais, as pessoas esperam, resignadas e cabisbaixas, pelo candongueiro que os há-de levar a casa. A ausência de abrigos é encarada como mais uma contrariedade da vida e quem quer ir cedo para casa tem de se sujeitar à chuva. Alguns improvisam um guarda-chuva com um saco de plástico enfiado na cabeça ou segurando um jornal dobrado ao meio. O segundo abrigo dura até que as letras se começam a desfazer e a escorrer para o cabelo do dono, como uma espécie de caspa alfabetizada.

Poucos minutos depois de chegar a casa, a chuvada anunciada ao longo de todo o dia desaba finalmente. Fá-lo com intensidade suficiente para interromper o sinal de televisão que chega à nossa antena. O trânsito abranda ainda mais e agora só se conseguem distinguir escovas a esfregar furiosamente os pára-brisas. Assim consegue-se ver melhor o carro parado à frente.

A água que escorre pelas valetas evita as sarjetas entupidas e continua pela rua abaixo. Acaba por transbordar e ir enchendo a rua até que tudo pareça um rio. Passada a hora de ponta, os poucos carros que circulam fazem-no deixando uma esteira. Parece que estamos a assistir a uma regata. Não fosse a chuva que ainda caía e os cobradores dos candongueiros seguiriam, como de costume, de rabo à janela, imitando os velejadores pendurados de fora do barco numa curva apertada.

Mais um pouco e alguns relâmpagos e trovões anunciaram o fim das hostilidades. A água que escorre das partes altas da cidade ou que é baldeada das casas continua a correr pela rua, não mostrando sinais de abrandamento. Parece que continua a chover.

Horas depois da chuva ter parado, as valetas ainda têm pequenos regatos a serpenteam os montes de pedras, lama e areia que foram sendo arrastados. Nos bairros mais pobres, a chuva arrastou mais do que lama. Todo o lixo que se acumulava nos cantos foi arrastado para as ruas e casas. Amanhã a cidade vai estar parada por causa da lama que deixou muitas ruas intransitáveis. Depois de amanhã vai continuar parada por causa do atraso na limpeza. Talvez para o fim-de-semana os cantoneiros consigam domar, finalmente, a lama e a areia e tudo volte à normalidade possível.

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Regos e valas abertos nas estradas


25  03 2009

Uma odisseia de 12 anos

É obra. Levei um pouco mais de uma década para acabar um livro. Como até nem leio devagar, ou o livro era grande, ou era difícil.

Na verdade, era um pouco dos dois. Muito grande, com alguns capítulos de mais de duzentas páginas. E muito difícil, com passagens quase incompreensíveis a menos que se lhes dedicasse toda a atenção. Mesmo assim, ficamos com a sensação que com cada leitura nos iríamos aperceber de mais e mais coisas, de pormenores que nos passaram despercebidos nas primeiras vezes. Um pouco como os filmes de Jacques Tati, que nunca nos deixam de mostrar algo novo.

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Fama merecida

Foram três tentativas para domar o Ulisses de James Joyce. A primeira, ainda antes do virar do século terminou com uma desilusão. A tradução brasileira era francamente má. Depressa me abstraí da diferente ortografia, mas fui incapaz de aturar uma tradução tão miserável. O tradutor substituía as expressões que não conhecia por palavras portuguesas de som semelhante. Havia parágrafos inteiros de não-frases. Aguentei a tortura até ao final do segundo capítulo porque sabia que o livro era difícil. Se o tivesse terminado, teria ficado muito mal impressionado com uma obra tão famosa.

A segunda tentativa, uns anos mais tarde, foi com a tradução de Palma Ferreira, sustentada por muitas notas e referências a obras que estudaram o livro e o autor. No final do sétimo capítulo percebi que ainda não era a idade certa para o fazer. Precisaria de mais vida para o poder ler.

Ler não é só saber encadear letrinhas umas atrás das outras e decifrar palavras e frases. Ler é conseguir decifrar ideias por trás dessas palavras.

Agora, ao fim de mais de uma década depois da primeira tentativa, voltei a lançar-me à odisseia de Leopold Bloom. Em dois meses li-a de fio a pavio. Houve partes mais difíceis que outras, como já esperava, mas compreendo agora porque é considerada uma das obras mais importantes de sempre.

Como em qualquer tradução, houve alguns pontos em que discordei do tradutor. Uma expressão aqui e outra ali, mas nada que se comparasse à outra, em que só podia concordar com os pontos finais parágrafos.

Gostaria de, um dia, ter a coragem de enfrentar a versão inglesa, para poder apreciar melhor a riqueza do livro. James Joyce não fez bluff quando disse que escreveria um livro que demoraria séculos a dissecar completamente.


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