Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

24  03 2009

Sinais exteriores de ostentação

Óculos escuros de marca cara, a condizer com as etiquetas da camisa apertada mas muito decotada, das calças justas ou da saia curtinha. Sapatos de salto agulha a fazer conjunto com a mala italiana e telefone de última geração, dourado ou preto brilhante. Jóias com diamantes e muito ouro ornamentam pulsos, pescoços e orelhas. Cabelo desfrizado e comprido, maquilhagem, manicure completam um sorriso perpétuo nos lábios. Tudo respira estilo. Tudo respira dinheiro.

O ar fresco e leve com que nos encaram aqueles pouco mais de vinte anos de mulher é fruto do perfeito sistema de ar condicionado e do conforto que um Land Cruiser V8 pode oferecer. A caixa automática, os vidros escuros e a perfeita insonorização até fazem com que Luanda seja uma cidade onde é agradável passear de carro entre a Ilha do Cabo e o Centro Comercial.

A casa cara num qualquer bairro fino, recheada de pequenos luxos e mobília importada garantem o ar repousado e uma vida sem preocupações. Sinais de dinheiro, riqueza e ostentação. Mas ostentação de quem?

O Land Cruiser diz tudo. Mulheres novas e sozinhas a conduzir um todo-o-terreno topo de gama ganham logo a fama de serem amantes de alguém que as pode sustentar com luxo.

Em Angola, onde quem tem dinheiro se pode dar ao luxo de comprar casas, carros e aviões que nunca usam, que melhor maneira de exteriorizar a sua riqueza senão comprar a beleza de uma mulher cobiçada pelos outros? Os muito ricos dão-se ao luxo de comprar pessoas. Escravizam-nas dando-lhes dinheiro porque sabem que nunca terão outra oportunidade de ter aquela vida.

E sim, na maior parte das vezes, são apenas para mostrar. Quem colecciona amantes fá-lo como se de carros se tratasse. Se o vizinho comprou um carro novo, para a semana venho com a amante nova, para ele ver quem é mais rico!


23  03 2009

A força do Kwanza

O angolano tem orgulho do seu país. Orgulho exagerado, dirão alguns. Mas cada povo gosta da sua terra de maneira diferente.

Têm orgulho nas riquezas minerais inexploradas, na quantidade de petróleo que o país exporta. Fecham os olhos à pobreza endémica, à riqueza que as reservas minerais não trazem até serem exploradas e à riqueza que nunca chega ao povo depois de o serem.

O orgulho nacional estende-se também aos seus símbolos. As cores nacionais adornam janelas, fachadas, candongueiros e são usadas em bonés, camisolas, cachecóis e calções. Da mesma forma se venera a palanca negra gigante e a fenda da Tundavala.

E depois há a moeda, o Kwanza. Ao fim de muitos anos lá estabilizou e ganhou a confiança dos angolanos. Agora já é motivo de orgulho. No entanto, ainda há uma ou outra expressão que sobrou de tempos mais conturbados.

Durante anos, o dólar funcionou como moeda de facto e o Kwanza, em perpétua desvalorização, apenas para os trocos. Actualmente, a situação é outra. A moeda oficiosa é o dólar e a oficial o Kwanza. O Governo esforça-se por diminuir a utilização da moeda americana, mas a excessiva liquidez do Kwanza leva a que as pessoas optem por usar os dólares como maneira de não gastar os Kwanzas.

Voltemos à questão do orgulho na moeda. Há uns dias assisti a uma cena caricata. No trânsito caótico de Luanda, aconteceu o nada improvável – um carro avariou, atrapalhando ainda mais a circulação. O coro de buzinas não se fez esperar e cada condutor que passava pelo carro de capô aberto gritava um impropério qualquer.

Mas houve um em especial que me ficou marcado na memória. Até o dono do carro avariado sorriu quando ouviu um candongueiro gritar-lhe:

«Compraste essa merda em Kwanzas?»


22  03 2009

A caminho de casa

Numa manhã de Verão, que acordou a pensar ser dia de Cacimbo, com as moscas peganhentas por julgarem que vai chover, levantei-me eu também, julgando serem horas ainda de sonhar.

Mesmo assim, a perspectiva era animadora. Algumas horas de espera no aeroporto internacional de Luanda antecederiam uma longa viagem de regresso a casa. Umas semanas de férias após alguns meses de trabalho.

Maravilhas da tecnologia, o check-in já estava feito da véspera e o lugar escolhido numa janela estratégica. Em vez das cinco horas de antecedência habituais, era-me permitido estar na gare uma hora antes. Fui com duas, não fosse o diabo tecê-las.

As peripécias do 4 de Fevereiro já são tão conhecidas que até aborrecem. Os agilizadores, que prometem facilitar isto e aquilo reconhecem-se à distância. Desta vez, por ser um voo numa data pouco concorrida, o seu número quase superava o dos passageiros.

Antes sequer de entrar na sala de espera, já tinha dois agilizadores a prometerem-me uma espera dentro da sala de embarque, ao invés de uma espera irmamente repartida entre a fila da entrada e a sala de embarque. Não o disseram, mas seria a troco de alguns kwanzas… Perguntei-lhes se o avião partia mais cedo se me ajudassem a passar a fila. Pois, bem me parecia. Prefiro esperar aqui, obrigado.

Uma dúzia de pessoas na fila, meia-dúzia de malas. Dez minutos, talvez menos. Foi menos. Ainda não tinha acabado de ler a página do livro que trazia e já estava na sala do check-in. Teria mudado de página se não tivesse sido interrompido por mais quatro agilizadores desesperados pelo negócio fraco.

Sem bagagem de porão e com o bilhete impresso de véspera, o check-in foi o mais rápido de sempre. Não havia ninguém na fila.

No controlo seguinte verificavam se tínhamos o canhoto do talão da emigração que se preenche à entrada do país. Se não tivermos, não há problema, dão-nos um novo para rasgar a meio e fingir que é o original…

Antes de me carimbarem a saída do país no passaporte, tive de aguardar enquanto o guarda atendia uma chamada urgentíssima de alguém. Profissão? Férias? Trabalho? Carimbadela. Leva moeda nacional? E se levasse? Não é aqui que se faz a declaração de valores. Mas não há como tentar a sorte e ver se os viajantes deixam algum.

No Raio-X, a cena repete-se. Lá me perguntam pelos benditos kwanzas. Aqueles que deixei em casa, prontos para o meu regresso. O passageiro que me antecedia é que teve menos sorte. Levava um frasco de perfume caro. Ficou retido porque era um líquido inflamável, que podia rebentar em voo e não podia entrar no avião. O passageiro acabou por se resignar e fazer de conta que o perfume não fazia parte dos objectos permitidos.

Mais à frente, outra visão familiar. Um polícia com o ar de ditador do quarteirão estala os dedos, com uma mão na anca e a boina de lado.

«Plisse! Fáchavor!»

Aponta para a declaração de valores, fazendo os passageiros entrar no confessionário dos kwanzas, euros e dólares.

Desta vez, por confiar nos sistemas bancários europeus e não levar dinheiro nenhum comigo, enfureci o fiscal. A cada pergunta acerca dos montantes que levava respondia-lhe «Nada!». Insistiu que me queria ver a carteira. Mostrei-lha, mas não achei muita piada a partilhar a sala com um outro passageiro que também declarava o que levava.

Em menos de meia-hora venci aquilo que costuma ser um pesadelo. Agora restava-me esperar. Sentei-me nas poucas cadeiras que há na sala de embarque, fora da zona vedada. Lá em cima há mais, mas está sempre tudo cheio de mosquitos.

Os passageiros reclamavam que não havia cadeiras suficientes na sala de embarque. O funcionário encolhia os ombros e não tirava os olhos do telefone onde escrevia uma mensagem. Com a mão livre apontava para as cadeiras já ocupadas.

Dois Sul-Africanos, exasperados com tantas burocracias e complicações, contavam o sétimo controlo de bilhetes e passaportes. «Another check-in. These guys are too complicated. And all for nothing!» Antes que perguntem, não, não eram brancos. Meti-me na conversa e acrescentei que todo o país é complicado. «Yes! Too much.»

À sala de embarque chega uma Espanhola, que telefonava para casa pedindo que lhe cancelassem os cartões de crédito. Tinha sido roubada já no aeroporto, ao tirar o passaporte de mala. No meio da confusão de passageiros, agilizadores e ladrões da entrada, alguém lhe levou a carteira. Curioso é que a senhora estava coberta de jóias. Brincos, anéis e relógio grandes e dourados chamam a atenção em qualquer lado. Aposto que não é a maneira mais sensata de andar em Luanda.

O avião aterrou. Deu umas voltas na pista e parou em frente à sala de embarque. Daqui a uma hora estamos a embarcar. Mais umas tantas e desembarco em Lisboa.


21  03 2009

Para o Papa ver

No Largo Serpa Pinto, perdão, Amílcar Cabral, havia uma rotunda. Um dia resolveram que passaria a ser apenas meia rotunda. Refizeram passeios, mudaram os sentidos de algumas ruas e a rotunda sumiu-se.

Agora está lá um conjunto de semáforos, na tentativa de regular o trânsito ingovernável de Luanda. Funcionam a energia solar, para precaver as constantes falhas de energia a que a cidade já se habituou. Mesmo assim, as luzes passam mais tempo avariadas do que a funcionar.

A torre que fica em frente ao antigo Hotel Katekero foi pintada de amarelo casca d’ovo e vermelho tijolo. Para receber o Papa, dizem. O contraste entre os dois edifícios é abissal, porque o hotel continua com o aspecto de que não vê obras de conservação há décadas. Parece que o Papa só precisa de ver o que está em frente e o Hotel fica fora de vista.

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É pena que sejam só obras de fachada

Aproveitaram também para pintar os edifícios mais antigos do lado oriental. Dois edifícios baixos, que fazem esquina com a Rua do Carmo, perdão, Tipografia da Mamã Tita e com a Rua Flávio da Cunha, que não sei se é nome actual, antigo ou assim-assim porque esta rua não tem placa com o nome, ao contrário de outras, que têm duas diferentes.

Pintaram-nos, mas não taparam os vários buracos de balas que pintalgam as fachadas. As manchas que os escondiam desapareceram e agora parece que os buracos se multiplicaram.

Um pouco antes das eleições legislativas também se pintaram fachadas pela cidade. Os edifícios escolhidos estavam quase todos localizados entre o aeroporto e a Cidade Alta, onde fica o Palácio Presidencial.

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Na rua de trás

Mas parece que o Papa quer ir à missa a São Paulo e isso implica passar por outras artérias. Aquelas que não fizeram parte dos planos cosméticos das eleições.

Já estou a imaginar um plano maquiavélico para que Luanda fique toda pintadinha de novo… Vamos convencer umas dezenas de altas figuras a visitar um qualquer cantinho da cidade. As fachadas daí até ao aeroporto vão passar a ostentar uma nova camadinha de maquilhagem.


20  03 2009

Chamem-me Zandinga!

O Professor Zandinga, que previu tudo excepto a sua própria morte, ficaria orgulhoso de mim.

Quando soube que o Papa vinha a Angola expressamente para me ver, previ que lhe haveria de trocar as voltas e arruinar-lhe os Divinos Planos. Isto passou-se há uns meses, mais ou menos na altura em que estudei o plano de férias e tratei de marcar o voo de ida para 20 de Março, logo de manhã.

O Papa também já confirmou a sua chegada a Luanda. Ainda tentou apanhar-me antes do fim-de-semana, mas a Alitalia só lhe arranjou voo para o meio-dia. Não nos cruzamos por três horas.

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E agora? E agora?

Desde que não haja atrasos ou cancelamentos de última hora, ainda sou capaz de escapar ileso da confusão que vai ser Luanda neste fim-de-semana. Visitas papais e tal ainda vá, mas o funcionamento do 4 de Fevereiro está para lá das minhas modestas capacidades de previsão.


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