Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

14  03 2009

A preferida

Há algumas palavras que sentimos mais que outras. Como em tantas coisas na vida, temos as nossas preferidas e as nossas preteridas. Há palavras pelas quais nos apaixonamos, que se enrolam na nossa língua e na alma como amantes perfeitas, que dizem muito mais que o seu significado, que são, à sua maneira, mais do que palavras. Há palavras indomáveis que nos trazem memórias e sonhos. Há sonhos e memórias que nos trazem palavras.

Das palavras detestadas, quase todas entram na categoria dos “eufemismos politicamente correctos que mascaram hipocrisia”. Mas não falemos delas. Falemos das outras, das que nos tocam cá dentro e nos fazem sorrir, nem que seja disfarçadamente.

Sinto-me previlegiado em ter crescido com uma língua riquíssima, complicada, cheia de quase-sinónimos opacos para os estrangeiros, mas perfeitamente distintos para os nativos. É tão bom brincar com as palavras. É tão bom vê-las dançar à volta do que queremos dizer, umas vezes fugindo, outras vezes tocando na essência do nosso pensamento.

Tenho muitas palavras preferidas. Gosto de as usar. Gosto de usar os seus sinónimos. Uso a riqueza desta língua para evitar a monotonia e a repetição. De entre todas essas, há uma que se destaca. Tem uma simplicidade complicada ou uma complicação simples (haja línguas pobres capazes de traduzir isto), uma leveza etérea e uma perfeição como nenhuma outra. A melhor maneira que tenho de a descrever é onomatopeia visual. Consegue explicar melhor o que se vê do que as palavras que convencionámos simbolizar as cores.

Em quatro sílabas, arranjadas em rima de pé-quebrado, conseguimos descrever de forma completa e absoluta, aquilo que poetas, pintores e fotógrafos procuram captar, em vão, desde sempre.

Aqueles breves momentos entre o ocaso e a chegada da noite, quando o dia perde a cor e só nos apercebemos das sombras das coisas, em que sentimos a luz fugir-nos e tentamos agarrá-la, abrindo mais os olhos, desesperadamente. As coisas ganham um tom cinzento-azulado cada vez mais escuro, indefinido.

Por muito que tente, nunca conseguirei descrever o verdadeiro significado da palavra. As suas variações, embora todas iguais, são imensas. Nunca haveria tempo nem palavras capazes de o fazer. Até mesmo os sinónimos ficam aquém do esperado. Falta-lhes tudo o resto para além do fenómeno físico. São estéreis e angulosos. Estão mortos. Não têm alma.

Haverá palavra mais bonita que Lusco-fusco?


13  03 2009

Pára. Arranca.

Sete e meia. Um zumbido electrónico irritante. Acorda. Adormece. Novo zumbido irritante. Acorda. Levanta-te. Procura os chinelos. Encontra um. Encontra o outro. Esfrega os olhos. Casa-de-banho. Espelho. Mira-o de volta. Lava a cara. Atrás da orelhas também. Não te barbeies. Amanhã. Talvez. Cozinha. Caneca com um fundo de água. Filtrada. Café. Ou imitação. Em pó. Duas colheres. Das de chá. Açúcar. Só uma. Leite. Em pó. Marca nova. Duas colheres. Das de sopa. Mistura. Papa grossa. Castanho-escuro. Mais água. Continua a mexer. Lambe a colher. Pousa-a. No prato. Caneca no micro-ondas. Um minuto. PLIM. Caneca no prato. Ao lado da colher. Algumas bolachas. No prato. Ao lado da colher. Ao lado da caneca. Casa-de-jantar. Golo no leite. Dentada na bolacha. Repete até ao fim. Cozinha. Lava a caneca. Lava a colher. Lava o prato. Casa-de-banho. Escova-de-dentes. Molha-a. Espreme o tubo de dentífrico. Ainda tem um bocadinho. Escova os dentes. Bochecha. Seca-te. Quarto. Calças. Meias. Sapatos. T-shirt. Das que não precisam de ferro.

rotina
Ferraduras

Oito. Fecha a porta. Degraus. Duas dezenas. Para baixo. Bom dia. Ok, sim, sim, obrigado. Onde está o carro? Ali. Chave na porta. Roda-a. Destranca-se. Entra. Chave na ignição. Fecha a porta. Tranca a porta. Roda-a. Está a trabalhar. Volante para a esquerda. Marcha à ré. Trinta centímetros. Volante para a direita. Avança. Quarenta centímetros. Volante para a esquerda. Marcha à ré. Quarenta centímetros. Volante para a direita. Avança. Já sai. Espera que te deixem entrar. Não deixam. Força. Não deixam. Um candongueiro muda de faixa. Fica a meio. Tranca todos os que estão atrás. Entra. Buzinadela furiosa.

Oito e dez. Solta o pedal. Devagar. Avança. Mais três metros. Pisa dois pedais. Pára. Semáforo. Espera. Verde. Ninguém anda. Amarelo. Ninguém anda. Vermelho. O da frente avança. Meio metro. Verde. Mais meio metro. Já cabe. Vira à esquerda. Desce a rua. Vermelho. Tudo parado. Verde. Tudo parado. Amarelo. Tudo parado. A/C. Botão. Luz verde. Ar fresco. No vidro. E nos pés. Vermelho. Avançam todos. Dez metros. Talvez menos. Talvez mais. Repete até ao cruzamento. Vermelho. Polícia. Mão no bolso. Bloco de multas na outra. Passeia. Para lá. Para cá. Espreita os condutores. Abanica-se. Com o bloco. Chega outro. O bloco troca de mãos. Duas mãos nos bolsos. Afasta-se. Verde. Ninguém anda. Cruzamento fechado. Abanica-se. Olha para as horas. Afasta-se. Buzinas. Muitas. Insistentes. Amarelo. O cruzamento abre. Dois carros avançam. Vermelho. O polícia volta. Ninguém avança. As motas não contam. O cruzamento volta a fechar. Verde. Ninguém avança. Ninguém pode. Toque. Discussão. Dois condutores. Saem dos carros. Zaragata. Junta-se gente. Multidão. Berros. Gritos. Buzinas. Sirenes. O polícia desaparece. O bloco de multas vai com ele.

Oito e quarenta. Há acordo. Um condutor paga o arranjo do seu carro. O outro faz o mesmo. Mas do seu. Buzinas. Cada um entra no seu. Toyota Corolla. Vermelho. Azul. Amassados. Muito. Arrancam. O cruzamento abre. Lei da selva. Volta a fechar. Buzinas. Berros. Verde. Amarelo. Vermelho. Fura. Fuça. Buzina. Ponto de embraiagem. Colado à traseira do da frente. Toyota Corolla. Vermelho. Mais ou menos. Amassado. Muito. Avenida. Três filas. Para cada lado. Cabem duas.

Oito e cinquenta. Segunda velocidade engrenada. Túnel. Semáforo. Passadeira. Candongueiro. Azul. E branco. Atravessa-se. Muda de ideias. Pára. Arranca. Desiste. Éroporto. Éroporto. Jacaré. Morreu. Assassinado. Afogado. Comia criancinhas.

Nove. Desce buraco. Sobe buraco. Desce cratera. Sobre cratera. Salta vala. Acerta em pedra. Pó. Desvia-te. Caixa de visita. Sem tampa. Armadilha. Cabe lá uma roda. Toda. O de trás já sabe. Ganhou experiência. Foge. Para a berma. Lama. Cinzenta. Fede. Foge. Do buraco. Acerta na pedra. Outra vez. Pisca. Pára. Pó. Vermelho. Cancela. Arranca. Pára. Desliga. Sai. Vai trabalhar.

Cinco. Abre a porta. Entra. Fecha a porta. Liga o carro. A/C. Botão. Luz verde. Ar fresco. Gélido. Na cara. Nos pés. No vidro. Na cara. Arranca. Cancela. Boa tarde. Até amanhã. Sim, sim. Obrigado. Desce buraco. Sobe buraco. Acerta na pedra. Acerta na lama. Vendedor de tapetes. Não quero. Vendedor de pilhas. Não quero. Buraco. Lama. Vendedor de desodorizantes. Pinheirinhos. Com a bandeira americana. Não quero. Irra. Buraco. Vala. Lama. Vendedor de cabides. Não quero. Carro avariado. Foge. Berma. Lama. Reboque no local. Novidade. Lama. Vala. Entulho. Tapa o buraco. Vendedora de bananas. Corre. Ao lado do cliente. Regateiam. As bananas entram. E saem. Tornam a entrar. Sai uma nota. Buraco. Pedregulho. Lama. Cada vez mais. Buraco. Buraco. Buracão. Asfalto. Buraco. Cratera. Pó. Buraco. Foge. Para o buraco. O mais pequeno. O mais fundo. Crianças. Correm. No meio da estrada. Quatro piscas. Braços. De fora das janelas. Arranca. Kinguilas. Na berma. Agitam notas. Muitas. E saldo. Para os telefones. Aliás, terminais. Buraco. Candongueiro. Lama.

Cinco e meia. Buzinadelas. Verde. Cruzamento fechado. Polícia. Mãos nos bolsos. Olha para as botas. Admira o seu brilho. Buzinadelas. Uma mota sobe a rua. Em contra-mão. Depressa. Cada vez mais depressa. O polícia dá dois passos atrás. A mota passa. Sobe o passeio. Continua. Tira as mãos dos bolsos. Limpa as unhas. Amarelo. Vermelho. Verde. Cruzamento fechado. Ainda. Buzinadelas. Aconchego. Avança um. Fura. Passa. Vão passando. Mais um pouco e já cabe. Unhas limpas. Mãos nos bolsos. Mira as botas. Brilhantes. Bonitas. Adeus.

Cinco e quarenta. Dá a volta ao quarteirão. Procura um buraco. Estaciona. Onde couber. É pequeno. Felizmente. Cá está ele. Entra de frente. Sobe o passeio. Com uma roda. Da frente. Desce. Está bom. Desliga. Abre a porta. Sai. Fecha a porta. Tranca-a. Dobra o espelho. Levanta o puxador. Trancada. Confirmado. Meu kamba, meu kamba, gasosa para o puto. Tem juízo. Homem feito. Não, não há. Eu guardo o carro. Não precisa. Depois aparece estragado. Depois sei que foste tu. Desiste.

Cinco e cinquenta. Roda a chave. Estalidos. Abre a porta. Entra. Fecha-a. Cozinha. gaveta. Colher. Frigorífico. Iogurte. Banana. Boa escolha. Senta-te. Tampa. Levanta-a. Lambe-a. Coisa de pobre. Raspa o fundo do copo. Acabou. CLIC. CLAC. TLAC. Tudo às escuras. Foi-se. Outra vez. Não há gasóleo. Outra vez. Há-de voltar. Outra vez.


12  03 2009

Decidam-se de uma vez por todas!

Dizem as más línguas que gente saudosa do passado colonial insiste em não deixar cair no esquecimento os antigos nomes das ruas. É aquele tipo de gente que emenda todos os que mencionam a toponímia pós-independência com um ar superior, ou que se faz desentendida quando ouve o novo nome.

Há ainda os que fazem o contrário, reforçando a toponímia actual e desprezando a antiga, como se nunca tivesse existido.

Pelo meio há muitos outros tipos de pessoas menos fundamentalistas nesta questão, que se vão entendendo como podem nesta confusão de nomes que é Luanda.

Mesmo conhecendo os nomes novos e os antigos, nunca se tem bem a certeza onde começam ou terminam os arruamentos porque a transição não ocorre nos mesmos cruzamentos. Os números de polícia deixaram de fazer sentido na maioria dos casos e, nos bairros populares não os há, nem nomes de ruas.

Deixemos as indecisões do cidadão comum e passemos ao mundo oficial.

Regularmente, os serviços de finanças fazem inspecções às casas para a determinação dos valores a inscrever nas matrizes prediais. Isto permite actualizar os impostos a cobrar. A casa em que moramos não é excepção. O senhorio combinou connosco e com os inspectores das finanças uma data para a inspecção.

No dia combinado, apareceram e fizeram algumas perguntas acerca do número de quartos e casas-de-banho. Tudo muito rápido e anotado num bloco pautado, de aspecto muito pouco oficial. Confirmaram a morada. Usaram o nome de rua colonial. A P. tentou emendar, mas o inspector disse logo que era no nome antigo que estava registada e era nesse que tinha de ficar.

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Não, não fica na Avenida Lenine

Ó caramba, mas se a placa na esquina diz que agora se chama outra coisa, porque não se altera a matriz? E depois admiram-se que as pessoas não se orientam na cidade. Imagino alguém que queira mudar o registo de propriedade de um edifício. Dirige-se à conservatória, diz que tem uma casa na rua tal e tem o azar de só conhecer o novo nome. Está tramado. Aquela casa não existe nos registos. Será que imagina que é necessário saber o nome antigo? Eu não imaginava…


11  03 2009

Ortografe ao acordar

O Acordo Ortográfico que se diz já vigorar em todo o mundo lusófono chegou em força a Angola. Creio que ninguém prestou muita atenção às regras que se alteraram. No fundo, memorizaram o resumo breve do texto: escreve-se como se diz. E mái’nada!

Por iço, ôje acurdei xeio de vontáde de chcrever com o sutak lisboeta asserca de kem chcreve com o sutak mwangolê.

Chega! Não sou capaz de continuar! Que cretinice! Queiram ignorar a frase acima.

É bem preferível que se escreva, mesmo que com erros, do que ter receio de mandar uns pontapés na ortografia, gramática e aritmética. Não faço juízos apressados quando vejo erros da pena de quem pouca instrução teve. A mensagem passa e isso é que interessa.

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Não exite, alugue o seu fato com calda

No Huambo, encontrei um cartaz de um negócio novo. Uma empresa que aluga vestidos de noiva e fatos de cerimónia para os noivos espalhou publicidade pela cidade inteira. Inicialmente pensei «He! He! Exite! Que grande bacorada!» Mas depois reflecti um pouco e achei que até nem devia estar a gozar. Numa terra onde muita gente não sabe escrever o nome, aquele cartaz até estava muito bom. Um cartaz bem concebido graficamente e com apenas duas ou três mazelas ortográficas. Parabéns!


10  03 2009

Manifestações culturais

O fim da guerra civil permitiu que as energias do povo angolano não se focassem só na sobrevivência do dia-a-dia. As dificuldades continuam lá, mas agora há tempo para fazer outras coisas.

Todos os dias surgem novos músicos, tentando conquistar um lugar num mercado cada vez mais concorrido. Para além dos músicos e animadores, pequenas companhias de teatro, cheias de gente jovem, vão completando o cartaz cultural do país.

Até mesmo o cinema já dá sinais de ressurgir. A série Assaltos em Luanda promete mais edições e as salas de cinema já contam com programação nacional regularmente. Normalmente não são obras-primas. A ingenuidade de actores, realizadores e público, aliados à falta de meios e financiamento também não prometia mais.

Os enredos centram-se no quotidiano de Luanda. É aqui que está o dinheiro e a maioria das salas, afinal de contas.

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Realizador: Brigadeiro 10 Pacotes – Produtor: Independente Universal Produções


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