Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

03 2009

Lei de Murphy, aplicada aos geradores

Ao fim de alguns meses de bateria do gerador descarregada, já nos tínhamos resignado à escuridão, ao calor e ao frigorífico desligado sempre que faltava a luz. Sonhávamos com um providencial carregador de baterias que se pudesse levar à jaula da fera a que chamamos gerador. É que a bateria é das grandes e custa a tirá-la de lá.

O desejado aparelho acabou por aparecer. Curiosamente, numa manhã em que voltou a faltar a luz. Pensei que seria quase o mesmo que ter velas e fósforos, mas não ter lixa. Mas mais valia deixar tudo preparado e esperar pela electricidade. Sempre se adiantava serviço…

No momento em que afastei a protecção dos bornes, um cabo grosso e coberto de pó e gasóleo soltou-se. Na ponta descarnada havia umas dezenas de finos fios de cobre muito amassados e o que sobrava do terminal. Caídos ao lado da bateria, estavam mais dois pedaços maltratados.

Queres ver que isto tudo era só um brutal mau contacto na bateria? Toquei com o cabo no borne e saltaram algumas faíscas. Apertei-o com força e, com algum contorcionismo, carreguei no botão de arranque. O motor começou a girar e a engasgar-se. Uns segundos depois, estava a funcionar, com o seu trabalhar certinho. Toca a espreitar os painéis indicadores. Tensões normais em todas as fases. Velocidades constantes. Nada de luzes avisadoras acesas. Parece que os meses de descanso não lhe fizeram mal. Espreitei novamente a bateria. A malandra afinal estava cheia de electricidade. Até parecia que ia transbordar, mas não o fez, ou não fossem os senhores da Tudor bestialmente diligentes e avisados, que até se lembraram de apertar bem as tampas da dita.

Todos lampeiros, gozámos a falta de electricidade seguinte embalados pelo som do gerador e o fresquinho do ar condicionado. A nossa felicidade durou precisamente dez minutos, até ao momento em que se acabou o gasóleo…


03 2009

Cicatrizes

Quem chega a África traz sempre consigo uma ideia do que irá encontrar, formada por tudo o que ouviu, leu e viu nos programas de vida selvagem. É, geralmente, uma ideia errada. Toda a imensidão que idealiza não chega a encher aquela nesga enfezada de horizonte que nos espreita a cada momento.

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David Attenborough, rói-te de inveja

Os horizontes imensos de Angola marcam indelevelmente todos os que por cá passam. Compreendo agora os sonhos dos retornados, que giram sempre em torno da terra, nunca do trabalho ou das coisas. Dizem sempre que lá deixaram muita coisa, mas não se lembram dos objectos. Recordam os cheiros e os paladares, recordam os montes e as matas, as gentes e os amigos.

A sensação de esmagamento que temos quando contemplamos a vastidão de África deixa uma cicatriz funda. Daquelas cicatrizes que se fazem notar com uma comichão quando muda o tempo.

Mais funda cicatriz deixa a ameaça das minas. Um pouco por todo o lado se vão assinalando zonas minadas ou suspeitas. Os paus vermelhos e brancos a bordejar as estradas ferem-nos a vista e a alma. Os horizontes que contemplamos passam a ser de outro planeta. Terra proibida. Sonhos proibidos.

A sensação de esmagamento da paisagem africana é apagada quando comparada com o sentimento de opressão que as minas trazem. E nem vale a pena pensar que muitas delas nunca serão retiradas, por falta de interesse económico.

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Máquina blindada da desminagem

As operações de desminagem avançam lentamente. O trabalho tem de ser minucioso. Para as obras de reabilitação de infraestruturas, como sejam as linhas de caminho-de-ferro e pontes, é necessário limpar os terrenos antes de se começar a trabalhar. A área desminada é inversamente proporcional à velocidade de avança da obra. Há linhas de combóio que só são seguras até dois metros para cada lado da plataforma… E se o combóio descarrila e é necessário levar máquinas para o local?

Infelizmente, apesar de haver muitos cuidados nas operações de desminagem, nem sempre se levantam todas as armadilhas. De vez em quando lá se ouve o relato de um carro que foi pelos ares numa zona acabada de desminar. Os horizontes acabam de ficar um pouco mais suspeitos…


03 2009

Apartheid de esplanada

De vez em quando sabe bem poder ir almoçar fora. Não sempre, porque isso acabava por chatear.

Quando o trabalho é fora de Luanda, não há grande escolha. Almoço e jantar são fora. Sempre que possível, fujo dos sítios mais caros. Não é por me cobrarem 50 dólares que a comida vai ser melhor que os pregos da Escurinha, no Dondo, a 200 kz cada.

Estando no Huambo e com algum tempo para ver ementas e perguntar preços, acabei por ficar numa simpática esplanada, virada para o jardim central da cidade.

A esplanada era mesmo agradável. Dentro do restaurante, só os empregados. Cá fora, mais seis brancos almoçavam.

Os preços eram bem mais baixos que os de Luanda. Quase diria que civilizados. Uma refeição completa e muito bem servida ficou por menos de 2000 Kz. Para os padrões de Portugal é caro, mas para estrangeiro em Angola, uma pechincha.

Para além do mais, o serviço era bestialmente rápido. Contava com uma meia-hora ou mais até ser servido, mas nem tive tempo de abrir o caderninho onde vou deixando umas notas para o Aerograma. A comida chegou num instante.

Enquanto apreciava o panado com arroz de legumes, pus-me a pensar na segregação que se fazia sentir na esplanada. Sete brancos à sombra, almoçando, enquanto dezenas de negros passavam no passeio e deitavam o rabinho do olho às mesas. Não com cobiça, ou com inveja, mas com pesar, talvez.

De vez em quando passava um grupo de miúdos com bujigangas para vender. Não diziam nada. Paravam apenas em frente às mesas e esperavam um pouco. Não agitavam a mercadoria, não olhavam para ninguém em especial. Depois seguiam caminho.

Habituado aos preços de Luanda, estava a gastar uma quantia irrisória. Para quem passava era uma pequena fortuna. Não duvido que haja negros que tenham posses para ali comer mas, se bem começo a conhecer esta terra, devem preferir sítios mais caros, onde tudo se paga em múltiplos de 100 dólares.

Pretos ao sol, suando. Brancos à sombra, comendo. Apartheid à refeição, limitado à esplanada…

O que pagam 2000 Kz no Huambo? 100 Mangas. 200 bananas-macaco. 400 pastilhas elásticas. 30 latas de cerveja. Quanta mercadoria despacha a vendedora? Algumas dúzias de bananas e mangas. Uma dezena de pastilhas ou uma grade de cerveja. E quanto disso é lucro? 10%? 30%?

Um quase-nada de dinheiro faz toda a diferença. Irritei-me com os brancos barulhentos e cheios de soberba, que olham os pretos como pretos. Se calhar também sou assim. Espero olhar para eles mais vezes como gente do que como pretos. Quero esquecer que somos de cores diferentes, mas sem disfarçar que somos diferentes, cada um com a sua bagagem cultural.

Senti-me mal na esplanada. Senti-me na pele do branco-explorador esterotipado. Quero acreditar que estou cá por outros motivos. Quero acreditar que deixarei o país mais desenvolvido e um monte de amigos de todas as cores.

Paguei a conta. Fui à procura de gente com quem conversar. Encontrei-os a jogar Kiela.

Entretanto, já voltei a almoçar mais vezes naquele restaurante. Não fiquei mais na esplanada. Mas encaro a porta, resistindo à tentação de não encarar o receio de ter medo de olhar lá para fora e sentir vergonha da segregação que um pouco de dinheiro traz.

A grande divisão não é ser-se branco ou preto. A divisão é entre pobres e, neste caso, remediados. Suponho que os ricos me encarem da mesma maneira. Só que aqui, em Angola, é muito mais difícil encontrar brancos pobres que pretos pobres…


03 2009

Caligrafia dos Meandros

Para quem gosta de imaginar a História das coisas que nos rodeiam, nada melhor que ver o curso de um rio.

Perto da nascente, qual adolescentes irrequietos, muitos rápidos e quedas violentas. Cheios de ímpeto, correm para as planícies, levando tudo o que puderam à frente.

Alguns morrem em estuários calmos, como os velhos que adormecem uma última vez. Outros saltam para as águas do mar de supetão, como que apanhados de surpresa pela morte, num qualquer acidente ou doença súbita. Outros, poucos, perdem-se nas areias do deserto, sonhando com uma foz no mar…

Pelo caminho, atravessam as crises existenciais, dos ‘intas, dos ‘entas, da meia-idade. Indecisões sobre o rumo a tomar, que as curvas fazer ou até se vale a pena continuar a correr.

Nas zonas mais planas, os rios começam a fazer curvas. A física diz que a velocidade da água do lado de fora da curva é maior que do lado de dentro e, por isso, as curvas vão ficando mais apertadas. A seguir à curva, a corrente encarrega-se de inflectir o curso das águas para a direcção oposta e a linha traçada pelo rio na sua infância começa a meandrizar, contorcendo-se como uma serpente gigante.

Às vezes acontece que uma sucessão de curvas aperta tanto que as margens se tocam e desaparecem. O braço de rio acaba por ficar desligado do curso principal, que agora galga aquela praia entre as margens. Nas águas com menos corrente é frequente encontrar-se os nadadores-salvadores rasteirinhos da Lacoste.

Com o passar dos anos, o rio sem corrente acaba mesmo por ficar desligado do rio, formando um charco em forma de ferradura. O resto do rio continuará a contorce-se, podendo voltar a interceptar estes vestígios de épocas passadas.

Vistos do céu, os rios parecem escrever a sua História com uma caligrafia muito especial, ditada pela força das águas e adornada com vegetação luxuriante.Huambo_20090202-120902-S12-16364_E015-60960_06
Contando a sua História


03 2009

Comichão no rabo

Se os hospitais públicos angolanos não ficam a dever nada aos hospitais europeus, as medicinas tradicionais também não se envergonham diante dos demais. Na verdade, têm cura para quase tudo, excepto bolsos vazios.

Nas cidades é frequente encontrar murais anunciando farmácias, ervanárias e curas mais ou menos imaginativas para qualquer doença. Um modelo recorrente é o de enunciar todas as doenças, macacoas e aflições que se imagine. Em vez de anunciar um especialista em doenças infecciosas, relata-se todos os sintomas e sinais das doenças. O povo é hipocondríaco e nalguma se há-de rever.

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Não concebe? O mano Zeca resolve

Actualmente, até o governo persegue quem anuncia a cura da SIDA, mas não é raro encontrar quem anuncie ser capaz de o fazer.

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Tem SIDA, nas suas mais variadas formas e feitios? O Mano Zeca trata

As doenças de transmissão sexual atingem porções preocupantes da população. Mais preocupante ainda é que são encaradas com naturalidade…

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Corrida ao xarope

Um dos nossos colegas entalou um polegar num tambor de combustível. O dedo inchou e o destino da unha ficou traçado. Correu a comprar analgésicos. Pediu os mais fortes que tivessem porque as dores eram muitas. Pagou 150 Kz. No dia seguinte disse que tinha ficado muito contente com o preço, mas o efeito tinha sido de exactamente 150 kz…

Há farmácias um pouco por todo o lado. Durante anos foram o mais próximo que houve de serviço de saúde. Nalguns sítios até há farmácias com pernas. Rapazes novos carregam tabuleiros com medicamentos sortido, vendendo uma carteirinha aqui, outra ali. O curioso é que grande parte destes remédios são para ser guardados em sítio fresco.

Nesta história, é caso para dizer «Em caso de agravamento ou persistência dos sintomas consulte o seu médico ou farmacêutico».


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