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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

03 2009

Grua sempiterna

No Kinaxixi há um prédio famoso. Inacabado desde as vésperas da independência, o prédio da lagoa passou a ser um ex-líbris de Luanda.

Durante vinte anos esteve desocupado, mostrando apenas o seu esqueleto e as paredes de tijolo por rebocar. Com a guerra civil de 1992, milhares de novos refugiados procuraram a capital e acabaram por ver naquela estrutura um abrigo temporário.

Os andares foram sendo divididos e ocupados ao sabor das necessidades. O abrigo temporário passou a permanente num instante. A cubatização vertical instalou-se depressa.

Como não ainda não tinha redes de águas, esgotos ou electricidade, cada um se desenrascou como podia. Os geradores e os depósitos começaram a ganhar lugar aqui e ali. À noite conseguimos descortinar as luzes amareladas e trémulas que os geradores velhos e as velas produzem.

Os poços dos elevadores foram selados e transformados em conduta de lixo. Os relatos mais actuais dizem que o lixo já chegou ao décimo andar. Faltam poucos até ao topo. Todo o lixo que não cabe aqui é atirado para as traseiras, onde formou uma pilha desordenada que já dava pela altura do segundo andar. Entretanto foi removida à custa de camiões e escavadoras. Não demorou muito até que começassem a chover novas imundícies no lote acabado de limpar.

Parceira do prédio inacabado ao longo dos últimos 37 anos, uma grua amarela foi enferrujando ao sabor do clima tropical de Luanda. À medida que envelhecia, tornou-se cada vez mais um perigo, ameaçando desistir da verticalidade a qualquer década.

O edifício está bem mais perigoso e já foi causa de morte a muita gente, que caiu pelos poços das escadas sem corrimão. As próprias obras que foram sendo feitas nos vários andares e os depósitos de água e geradores espalhados um pouco por todo o lado deixaram a estrutura não se sabe bem como.

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Prédio da Lagoa

Pelo Jornal de Angola, fiquei a saber que a culpa desta situação é única e exclusivamente do colono, que nem se deu ao trabalho de terminar o prédio ou remover a grua. O culpado do costume, pelo acusador oficial do costume.

Subitamente, passou a ser desígnio nacional desmontar a grua. Jornais e televisão só falavam da grua e dos seus malefícios. Discorriam acerca de todos os sítios onde poderia cair. Faziam previsões acerca do número de mortos, feridos e assim-assim. De vez em quando falavam do prédio. Lá diziam alguma coisa acerca da demolição há muito programada mas depois mudavam de assunto. A grua era muito mais importante!

Algumas das principais artérias da cidade foram cortadas durante dias, complicando ainda mais o trânsito que já se achava impossível piorar. A grua passou a ser o centro das conversas até que toda a gente se cansou dela.

Alguns dias depois, o circo mediático cessou. A grua sumiu-se, pensei, foi desmontada e transformada em sucata. Fica só o prédio, que aguarda a mesma sorte.

É claro que me enganei. A grua continua lá, estóica, pronta para aguentar mais umas décadas ao lado do prédio da lagoa.

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XARAM!


03 2009

Siga aquele táxi!

O Huambo é, de facto, uma cidade diferente.

Qual não é a nossa surpresa quando, à saída do aeroporto, somos esperados por um táxi de Lisboa. Os famosos fogareiros com a folha de alface em cima fazem o serviço de táxi porta-a-porta, como lhes compete. Têm taxímetro e tudo. A bandeirada é de 100 Kz e, ao contrário da maioria dos taxistas de Lisboa, os do Huambo são educados e não conduzem como uns loucos.

As frotas de iáces azuis-e-brancas têm um público-alvo diferente, tal como os moto-táxis. Autocarros há, mas são poucos. Só faltavam mesmo estes táxis e o combóio para ter uma oferta completa de transportes públicos.

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Fogareiro

A frota é recente. Os primeiros quatro táxis chegaram ao Huambo em Janeiro de 2009, mas já têm clientes certos. A cidade é pequena e, a menos que se queira visitar cidades em redor, alugar um carro não compensa. O trajecto do aeroporto ao hotel mais distante fica em cerca de 500 Kz, doze vezes menos que o aluguer de um carro pequenino. Depois de se estar no centro, quase tudo se pode fazer a pé. Atravessa-se o Huambo em menos de meia-hora de passeio.

Aos poucos, os serviços normais das cidades do resto do mundo regressam a Angola. Tem de se começar por algum lado.


03 2009

Cabidela humana

A vida dá muitas voltas. Por vezes numa escorregadela na casa-de-banho ou dentro de um Land Rover fora de controlo a despencar-se por uma ribanceira.

O nosso motorista, aquele que mata leões à bofetada e assusta os rinocerontes com o cheiro dos sovacos, deu uma dessas voltas na vida. Ou melhor, primeiro despencou-se no Land Rover e saíu ileso, depois, para comemorar, armou-se em candengue e pôs-se aos pulos na casa-de-banho e partiu uma perna.

Foi direitinho para o hospital público.

Não se antevê coisa boa, ao falar em hospitais públicos angolanos. Começamos logo a pensar num barracão com telhado de chapa ondulada e moscas, muitas moscas à volta de doentes apáticos nos cantos. Não podia estar mais longe da verdade.

Os hospitais públicos angolanos em nada ficam a dever aos melhores da Europa. São limpos, bem equipados e, acima de tudo, têm bons profissionais a trabalhar.

Dentro do hospital reina a calma. Para evitar as confusões típicas dos grandes ajuntamentos de africanos, as visitas são muito controladas à entrada dos portões. Duas visitas por doente e a identificação fica na portaria, para evitar as esquivas.

O fenómeno da perna partida precisa ser operado. Vai passar a ter um cabide na perna, com uns seis ou sete ferrinhos a segurar os pedaços do fémur no sítio. Agora já sabe onde pendurar as chaves de casa. Mas, antes de ser operado, precisa de dadores de sangue, não vá ser preciso durante o corte e costura ortopédico. A crise dos bancos de sangue é igual em todo o mundo…

Na empresa encontraram-se três voluntários para uma só unidade pedida. Fomos todos para o hospital esperar a vez de nos espetarem uma agulha no braço. O primeiro foi recusado após a primeira análise. Está doente e não sabia. Nada de grave. Tem cura. Depois foi a minha vez.

Fui pesado e respondi a uma série de perguntas acerca do meu estado de saúde. No entretanto, um enfermeiro trocava de luvas e tirava uma seringa esterilizada da embalagem. Amarrou-me um elástico ao braço e procurou uma veia. Desistiu. Amarrou o elástico mais acima e voltou a procurar. Preparou a agulha. Deixei-me escorregar pela cadeira, só para ter a certeza de que não me dava uma coisinha má. Segurou-me na mão e apontou a agulha. Desviei o olhar. A agulha entrou. O sangue saíu. A agulha saíu. Comecei a ouvir vozes ao longe. Muito ao longe. Fechei os olhos com força e pensei em gatinhos e coisa bonitas. Apeteceu-me dar um pontapé nos gatinhos, estavam a fazer-me ficar tonto. «Está a ficar branco!», julguei ouvir. «Mais?», acho que respondi. Tiraram-me o elástico. Fizeram-me cócegas com uma pena no nariz. Pelo menos parecia. «Acho que se dormir um bocadinho isto passa», pensei.

Dei por mim sem sapatos e meias a ser levado em braços para a sala ao lado. Deitaram-me numa maca e tiraram-me a camisola e o cinto. A pena no nariz voltou. Percebi agora que era um algodão embebido em alcoól.

Corre o boato que ainda me deram uns estalos. Não dei por nada. Muita galhofa à minha volta. Mediram-me a tensão. Baixa, como de costume. No questionário só me perguntaram se era hipertenso…

Fui reprovado no teste. Se fiquei assim por 3 cc. de sangue, não me podiam tirar outros 450. O que tenho está todo contadinho e, pelos vistos, não sobra muito para os outros.

O último voluntário para a sangria, julgando que se safava, ria-se e aproveitou para me fotografar numa triste figura. Passados uns minutos, estava ele na maca do lado, a reclamar do tubo grosso que lhe desviava o sangue do braço para um saco de plástico.

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Já está tudo bem

No final, enquanto a enfermeira fazia uma ginástica esquisita para selar a unidade de sangue vermelho-escuro do meu colega, deixou escapar a pinça que estancava o tubo. Um esguicho vermelho sujou cadeira, chão e balança. Um cheiro ferroso encheu a sala. Ficámos todos a pensar no almoço.

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Estavas-te a rir, não estavas?

Três horas depois de termos chegado ao hospital, saímos com a sensação de dever cumprido. A operação já pode começar.

E o almoço não foi cabidela…


03 2009

A Memória do Huambo

Uma sensação recorrente que se tem ao visitar muitas cidades angolanas é a da co-existência de duas povoações e dois tempos no mesmo sítio.

Em Luanda nunca deixamos de ter a sensação de que a cidade colonial existe e que partilha o mesmo espaço com a cidade actual. Os habitantes de hoje vivem-na de um modo distinto dos de outrora e, aos poucos, a nova capital vai apagando a antiga Luanda, uma torre de vidro de cada vez.

Noutras povoações, a cidade colonial estava lá, abandonada, acabadinha de entrar em 1975. A cidade africana também estava lá, um pouco a cargo da cubatização que a cidade branca sofreu.

Mas esta sensação desaparece quando se chega ao Huambo. A cidade continuou a ser vivida como cidade e não apenas como um aglomerado de telhados. A cidade evoluíu e ganhou um rosto próprio. Parecido com o rosto colonial, é certo, mas ao mesmo tempo diferente. Nova Lisboa desapareceu. Só há o Huambo. Apesar de terem as mesmas casas e ruas, Nova Lisboa e Huambo não co-existem. A cidade não glorificou nem esqueceu o seu passado colonial. Adaptou-o e tornou-o seu.

O actual Primeiro-Ministro angolano, Paulo Kassoma, e antigo Governador do Huambo fez um trabalho meritório na preservação da identidade da cidade. Manteve os edifícios e monumentos mas, ao mesmo tempo, apagou as marcas coloniais.

Os anos de guerra que mantiveram a cidade isolada contribuíram, por estranho que pareça, para que ficasse preservada. As marcas dos tiros e das bombas não contam. Isso são apenas rugas.

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Símbolo do poder colonial

O Palácio do Governador foi reduzido a escombros. Apenas as paredes exteriores resistiram aos anos de guerra. Em vez de ser demolido e construído um edifício moderno, investiu-se tempo e saber na sua recuperação. Ganhou-se um edifício que respira respeito pelo poder que alberga.

Os brasões e escudos herdados da tradição heráldica europeia foram retirados, e muito bem, a meu ver. O Huambo tem hoje uma sede do governo que respira história, sem recordar os tempos pré-independência.

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Símbolo do poder colonial

Os vários escudos de granito retirados das fachadas foram amontoados num canto da cidade. Não foram tratados com desprezo ou vandalizados. Foram apenas esquecidos. Não fazia sentido que ocupassem ou partilhassem o lugar devido aos símbolos nacionais vigentes.

O facto de se terem retirado alguns dos símbolos do poder colonial não quer dizer que tenham escondido todos. Alguns, por terem significados mais vastos foram mantidos.

Na Praça Agostinho Neto, onde se ergue o Palácio do Governador e quase todos os grandes edifícios públicos, havia uma série de estátuas. Eram do tempo em que a praça se chamava Dr. Manuel de Arriaga. a praça dos primeiros presidentes de cada país, portanto.

Estas estátuas viveram a guerra de perto. Ficaram presas num fogo cruzado de décadas e acabaram por se tornar alvos inglórios.

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Fortaleza

Quando se recuperou a praça, estou certo que ficaram indecisos acerca do que fazer às estátuas de bronze tornadas passadores. Afinal de contas, mesmo que do tempo colonial, eram obras de arte.

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Marcas do tempo

Havia três opções. A primeira, mais simples e rápida, era simplesmente deitar fora as estátuas. A segunda, implicava tapar cada buraco de bala e devolver-lhes o aspecto original, quase que glorificando o passado. Optaram pela terceira via, mantê-las como estão.

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Nem o bronze resistiu

Aooptarem por preservar as estátuas no estado actual, criou-se um monumento aos horrores da batalha do Huambo. As estátuas perderam o seu significado e passaram a ser apenas uma recordação do que foi a guerra.

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Marcas do tempo

Os mais radicais sempre podem olhar para estas estátuas esburacadas e interpretar isto como a perseguição aos brancos que se seguiu à indepedência, mas a maioria das pessoas vai olhar para isto e lembrar-se apenas da guerra.

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General Norton de Matos

Até a estabilização que se fez da estátua do General Norton de Matos mostra que não houve preocupações estéticas quanto à preservação do significado da estátua. Um remendo rude é adequado ao tratamento rude que sofreu.

Estão agora a algumas centenas de metros do seu lugar original, em frente a uma esquadra da polícia e num canto do jardim central do Huambo. Não estão em destaque, como seria de prever, mas não são invisíveis.

Muito depois de se ter tapado o último buraco de bala das fachadas ou demolido todos os edifícios bombardeados, este monumento mostrará que a luta fraticida que assolou angola por quase trinta anos não foi apenas um facto histórico.


28  02 2009

Tempos e mundos paralelos

Nos meus passeios pelos recantos de Angola tenho encontrado sítios que nos fazem pensar na evolução das sociedades, nos modos de vida ancestrais e modernos, no futuro e no passado deste país.

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Paredes de lama e telhado de paus

Nas estradas menos concorridas, há pequenas povoações que parecem não ter saído dos primórdios dos tempos, onde as casas ainda não têm telhados de zinco e a luz eléctrica é apenas uma miragem distante. A vida é igual à dos seus avós, com as mulheres a secarem a fuba nas pedras e com os homens a lavrar os campos.

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Homenagem às mulheres, que transportam a água

Mais perto dos centros urbanos, as motorizadas e os automóveis vão substituindo os peões e até as construções passam a usar materiais mais modernos. Aqui e ali vemos as fábricas de blocos de construção, onde dois ou três homens vão enchendo um molde artesanal de cimento e deixando as peças secar ao Sol. As mulheres continuam a trabalhar no campo, mas os homens começam a ser taxistas, transportando cargas e passageiros nas motorizadas.

A alguns quilómetros da capital, a miséria e o lixo são visões raras. Como é estranho haver dois mundos tão distantes no tempo mas tão próximos no espaço.

No centro de Luanda, terra onde ninguém anda a pé, as torres de aço e vidro vão ocupando o lugar da alvenaria de pedra. Os táxis e as várias versões de motorizadas chinesas circulam por todo o lado com uma agressividade inacreditável. Os sacos de plástico a fugir do vento ocupam o lugar dos pássaros. As buzinas substituem-lhes os cantos e piados.

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Centro de Luanda

Até os negócios são feitos a correr. No curto espaço de tempo que o motorista está parado no sinal, de janela aberta, é preciso mostrar a mercadoria, regatear um pouco, avaliar a mercadoria, acertar o preço e fazer o negócio.

Lá do cimo das torres brilhantes, quem olha para as ruas não vê os que tentam sobreviver nesta selva. A janela está muito alta e os vidros espelhados tornam invisíveis quem nunca tira os olhos do chão. Como se sentem ignorados lá em cima, mandaram instalar relógios e termómetros no topo da torre ou iluminar as fachadas com desenhos animados. As pessoas cá de baixo dão uma espreitadela, quase parecendo que miram os que deles se riem, no escritório com ar condicionado.

Ao fim do dia, descem para o seu carro de vidros escuros, estofos de cabedal e ar condicionado. Só param no condomínio fechado, com mobílias importadas, relvados viçosos e muros altos para esconder os olhos cobiçosos dos que nada têm.


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