13
01
2009
Um dia, ou melhor, uma noite, a caminho da Ilha de Luanda, deparei-me com uma fabulosa Lua Cheia que espreitava sobre a Baía de Luanda.
Enquanto procurava o melhor ângulo para a fotografar, sem edifícios os postes pela frente, acabei por encontrar um pedaço da nova praia que se está a construir. O novo areal, ainda limpo era um enquadramento perfeito para aquela bola alaranjada que quebrava a escuridão do céu.
Uns passos adiante e comecei a ver os navios que se acotovelam esperando a sua vez para descarregar no porto. É curioso como se tenta encher a baía de areia e metal…
Reparei que pareciam navegar na areia. Pensei noutros navios do deserto, camelos e dromedários. Que seriam estes? Dromedários, concerteza. Afinal de contas, só tinham uma bossa!

Navegando na areia
12
01
2009
O último mês do ano chegou com a promessa de chuvas de Verão e férias de Natal. A chuva têm-se mostrado tímida e ainda não veio fazer assentar o pó laranja que cobre Luanda. As férias é que estão cada vez mais perto.
Uma coisa que passámos a ter com mais frequência foram os cortes de energia eléctrica. Depois de alguns meses de relativa estabilidade, ao ponto de ficarmos com a bateria do gerador descarregada por falta de uso, agora falta todos os dias. A Lei de Murphy diz que não carregámos a bateria entretanto.
Quando falta durante a semana não nos causa grande transtorno. Estamos todos no escritório, onde o gerador, que vai arrancando a cada quebra, passa mais tempo ligado que desligado.
Os de cá dizem que todos os anos, por alturas de Dezembro, há mais falhas. Os cortes de Dezembro são uma espécie de tradição.
«Depois melhora, não se preocupem. Ano novo, vida nova.»
Se já tivesse chovido a sério ainda podia perceber a razão dos cortes. Os remendos que se vão fazendo aqui e ali não devem ter isolamentos estanques ou estar abrigados da chuva. Talvez o calor de Verão justifique um maior consumo, à conta das máquinas de ar condicionado.
«Em Janeiro melhora, não se preocupem.»
Não tenho a certeza, mas estou desconfiado que os cortes de Dezembro vão acabar por ser substituídos pelos de Janeiro…
11
01
2009
Acabadinho de regressar a Luanda e com os víveres resumidos a pouco mais que um pacote de bolachas e algumas cebolas prestes a entrar para os anais da farmacopeia experimental, vi-me forçado a ir às compras.
Os preços do novo ano cresceram, e muito. Seis cenouras por 400 Kz, um balde de cebolas por 500, três couves por outro tanto e mais 1300 Kz por uma saca de batatas. Só os ananases é que saíram em conta; três por 400 Kz.
O projecto era fazer uma sopa… e, realmente, foi o que saiu. Só que fiz a sopa à medida da panela e não à medida das necessidades. A panela era grande e agora dou por mim a olhar para um mar de sopa.
Como não a consigo comer toda antes que se estrague, a solução é guardar nas tigelinhas que guardamos religiosamente. Parecem pequenos aquários. Assim que estiver fria, vai directamente para o congelador, para fazer cubos de sopa.

O Sopanário
10
01
2009
Durante anos me interroguei acerca da origem de alguns nomes com que cresci. Tinham sonoridades estranhas e significados desconhecidos.
Percebo hoje que as referências a África, sobretudo a Angola, estão um pouco por toda a parte. Não sei se a saudade angolana é maior que a moçambicana ou guineense, mas o certo é que Angola está presente nos sonhos de muitos portugueses. A Angola colonial, isto é.

Na Avenida de Roma, em Lisboa
Perto da casa onde cresci existiu um restaurante chamado Kalunga. Contaram-me ter sido aberto por retornados. Infelizmente acabou por fechar. As crises que se seguiram ao fim da era colonial não deixavam muitos clientes aos restaurantes. Sei agora que vieram de Angola e que o nome da casa era poético. Kalunga é a deusa do Mar. Terá sido ela quem protegeu as frágeis caravelas em costas africanas? o Mar, aquele que as caravelas percorreram.
(Nota: Fui devidamente corrigido pelo comentário deixado por Denudado e pelo seu excelente artigo n’A Matéria do Tempo)
Na praça onde se cruzam as Avenidas de Roma e dos Estados Unidos da América erguem-se os edifícios que simbolizam a arquitectura portuguesa em África. Olhar para eles e não pensar em terras distantes é impossível. No rés-do-chão de um há uma pastelaria famosa. Chama-se Luanda. Em Luanda há uma pastelaria chamada Lisboa…
Quando era pequeno, uma loja de móveis tinha um nome complicado. Não o conseguia pronunciar devidamente e tampouco perceber o seu significado. Ainda hoje lá está o letreiro, marcando o regresso de alguém à metrópole.

Tanta confusão me fez este nome
Os móveis Huíla poderiam parecer apenas um acaso, uma maneira de perpetuar a memória da terra deixada, mas afinal há mais exemplos. Em Lisboa encontramos uma loja de automóveis cujo nome também simboliza essa saudade.

Espero que não venda carros importados de Angola
Alguns negócios correram mal, como é o caso do Kalunga, mas outros singraram e ainda hoje se podem ver os letreiros alusivos a esta terra.

Na Agualva
Não é só a toponímia angolana que é homenageada, às vezes são as coisas mais pequenas que marcaram quem veio, por vezes com o desejo de regressar.

Não há cajueiros em Portugal
Após alguns meses de Angola, começo a perceber o que motivou os angolanos e portugueses a perpetuar a memória da terra que os viu partir.
Apercebo-me que a eterna Saudade, aquela que é impossível explicar a quem não é Português, está viva e de boa saúde. Não é só nos poemas de Fernando Pessoa e no Fado que se mostra, é também em coisas tão inocentes como o nome que se dá ao negócio que servirá de alicerce ao futuro.
Que eu saiba, apenas um avô meu esteve em Angola, cumprindo o serviço militar durante a longínqua Grande Guerra. Morreu muito antes de eu nascer e não me deixou memórias para além de alguns factos isolados contados em terceira mão. Mais nenhum familiar meu esteve em terras africanas; no entanto, também eu sinto essa Saudade de Angola. É inexplicável, mas agora percebo os retornados.
9
01
2009
Se houvesse dúvidas acerca da vaidade dos angolanos, bastava olhar para os letreiros espalhados um pouco por toda a Luanda, anunciando barbeiros, salões de beleza e afins.

Cada recanto ostenta promessas de beleza, ainda que efémera, através de cabelo brasileiro, manicures e pedicures. A cada duas semanas as mulheres gastam uma pequena fortuna e várias horas para mudar o penteado, nada que não aconteça no resto do mundo, mas aqui pode-se dizer que é mesmo um luxo.
No Verão, a ameaça de chuva faz as mulheres correr para debaixo das varandas ou cobrir a cabeça com um lenço. A chuva não é amiga da carapinha desfrizada… e o investimento vai por água abaixo.

À beira da estrada
Os homens orgulham-se das suas trancinhas ou dos desenhos que rapam no cabelo. Na sua grande maioria, andam de cabeça rapada ou quase. Nos barbeiros é frequente ver puxar o lustro a um crânio acabadinho de rapar. O vai e vem do pano esticado é exactamente o movimento que os engraxadores de Lisboa usam para terminar o serviço. Só faltam mesmo os pequenos estalos que conseguem dar com as pontas do trapo, mas isso era capaz de aleijar.

Salão de Beleza com serviço de decoração de viaturas