Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

18  01 2009

A Memória, Jean Michel Jarre e Descartes – que grande salganhada!

A memória humana é algo de muito complexo. Funciona de maneiras estranhas e imprevisíveis. Lembramo-nos das coisas mais inusitadas e esquecemo-nos das que julgávamos importantes. Não o deviam ser assim tanto, porque as acabamos por esquecer.

Há quem tenha jeito para decorar datas e números, quer seja por mnemónicas que exigem treino, quer seja por aptidão natural. Outros decoram milhares de factos, muito provavelmente inúteis.

Fui abençoado com uma memória cheia de personalidade. Que se lembra só do que quer e não do que eu desejo. E muitas vezes dou por mim a agradecer o facto de ser esquecido. É certo que por vezes me surpreende e me relembra coisas que já dava por perdidas.

O que despoleta certas memórias são sempre as coisas inesperadas, os estímulos dos sentidos menos usados conscientemente. Durante todo o dia usamos os olhos para nos enquadramos no mundo, a todo o momento lemos letras e situações. Poder-se-ia quase dizer que os olhos estão tão saturados de informação que a filtram de modo a que tenhamos apenas a necessária para funcionar. Já o tacto, a audição e o olfacto passam despercebidos grande parte do tempo. Ouvimos e sentimos, mas não lhes prestamos atenção.

Mas há determinadas alturas em que um pequeno estímulo num destes sentidos desprezados desencadeia uma reacção violenta na memória que habita cá dentro, a tal com vida própria. Pedaços da nossa vivência são despejados violentamente dentro de nós, fazendo-nos, por um momento, perder a noção da realidade que nos rodeia e viver intensamente aquela explosão de emoções.

O cheiro dos sabonetes Feno de Portugal transporta-me, de imediato, à minha infância mais recôndita, para a época em que começava a ter consciência de mim e do assombroso que era o mundo, das descobertas e do deslumbramento com as coisas mais pequenas.

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A mercearia do Lobito, que me trouxe de volta o Depósito do Sabugal

Em Angola os cheiros são diferentes. São exóticos e desconhecidos. Para já, ainda os estou a descobrir, mas tenho a certeza de que daqui a alguns anos serei despertado para um qualquer episódio em África graças a um qualquer aroma com que me cruze.

Qual o sabor de uma palavra? Não sei bem, mas um paladar traz-nos de volta o sabor de uma determinada palavra sem que o sonhemos. Percebi que as palavras também vêm em vários paladares, à medida que fui descobrindo o que despertava a memória. Mesmo quem ainda não se apercebeu disto, dá por si a fechar os olhos e a rebuscar na memória qualquer coisa longínqua, quando prova algo que lhe é familiar de há muito tempo. É a tentativa de resumir todo o paladar numa única palavra que, provavelmente, não fará sentido para mais ninguém. E depois, basta pensar nessa palavra para senti-la desfazer-se na boca…

O mesmo se passa com o tacto. Por vezes basta uma textura na ponta dos dedos para entrarmos naquela fabulosa máquina do tempo que é a memória e rever todos os pormenores de uma situação tão antiga que já nem parece ter sido vivida por nós.

Por vezes dou por mim a pensar se aquilo que somos é, na verdade, real. Somos moldados pelo que nos rodeia e, em última instância, essas situações só nos afectam hoje porque nos recordamos delas. E que acontece quando tentamos imaginar se tudo isso não passa de um exercício criativo da nossa memória? Será que somos o que julgamos ser? E se todas as nossas memórias forem apenas fantasia? E se tudo não passar de um sonho? Com um pequeno estímulo recordamos o que já tomávamos como definitivamente perdido e que, por isso, pode nunca ter existido. Temos períodos na nossa vida em que somos incapazes de saber ao certo o que aconteceu, mas a dada altura, recordamos com absoluto rigor um qualquer episódio. Este problema afectou Descartes, que resolveu a questão com a elegância de três palavras apenas. Mas a questão persistia em mim e, durante anos, tentei encontrar uma falha no seu raciocínio.

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Ainda mal andava quando parti a cabeça nesta mesma rua, mas em Portugal

Parti do princípio que tudo era um sonho, que dormia sem parar e todo o Mundo que conhecia não passava de uma construção minha, tal como os sonhos complicados que por vezes temos. E depois interroguei-me se seria possível sonhar que sonhava. Ou sonhar que sonhava um sonho. Acabei por dar a mão à palmatória e assumir que, de duas, a explicação mais simples para o mesmo facto é, habitualmente, a verdadeira. Sem estímulos do mundo que nos rodeia seríamos incapazes de sonhar, por falta de matéria de sustento do sonho. Penso, logo existo parece-me uma explicação mais que satisfatória.

No entanto, isto levou-me a outro problema. Será que o tempo existe? A nossa sensação de tempo deve-se à capacidade que temos de recordar o que já foi e de prever o que será com base na nossa memória. Mas isto pressupõe que a memória seja verdadeira. Não sou o mesmo de há instantes, nem serei quem sou daqui a pouco. Talvez me recorde de como fui, mas isso é mais uma experiência que me molda. Na verdade, o tempo não passa de uma ilusão porque só posso ter a certeza do Presente. Será que tudo aquilo que aprendemos não o sabíamos já, mas estava à espera de ser relembrado? Talvez por isso sejamos incapazes de idealizar períodos de tempo muito superiores à duração da nossa vida ou até mesmo isso explique porque nos parece o tempo acelerar à medida que envelhecemos. Cinco minutos de criança podem ser uma tarde inteira, na idade em que o tempo se mede em pedaços determinados pelos braços abertos ou por dois indicadores esticados à frente da cara. Mas o curioso é que na altura, não parecia ter sido uma tarde inteira. Seria porque a noção de tempo das crianças está associada à quantidade de memórias? Aliás, as tardes não tinham fim e os anos demoravam um ano inteiro a passar. Agora demoram só doze meses.

Tenho a certeza de que a minha mãe também se recorda dos pedaços de tempo medidos entre os dedos. Partilhamos memórias em tempos diferentes. E aqui reside mais uma falha na minha teoria de que tudo não passa de um sonho. Será possível sonhar as memórias de outros?

Não sei se envelheci de repente, mas o tempo em Angola passa muito mais depressa do que em Portugal. Estes primeiros meses voaram.

E o que me levou a escrever tudo isto? O panorama radiofónico angolano não nos surpreende só com o seu programa semanal sobre os Beatles. É Domingo e os seguranças estão a ouvir o programa desportivo da rádio nacional. A música de fundo é Jean Michel Jarre (Equinoxe V)… já só me faltava falar das memórias despertadas pela audição, não era? Fui transportado para os primeiros anos de escola, quando era frequente ouvir Jean Michel Jarre na rádio. Lembrei-me do vai-e-vem Challenger que explodiu após descolar e da música que foi dedicada aos que lá morreram (Rendez-vouz IV).

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Será um sonho, esta brisa que recordo?


17  01 2009

O esquivo mexerico

Durante semanas corri os mercados à procura de um pau de bater o funge, que isto de o fazer com uma colher de pau é muito bonito, mas é como remar com um garfo.

Perguntava às mulheres, naturalmente mais conhecedoras dessas coisas, onde se poderia comprar um. Na maior parte das vezes não sabiam. Não se compra, manda-se fazer. Aqui não se vende. O meu foi a minha mãe quem mo deu. Fiquei frustrado. Em cada casa há um, mas ninguém sabe como lá apareceu. A única coisa que aprendi é que o seu nome habitual é mexerico. Aprender coisas novas é sempre bom, mas continuava de mãos a abanar…

Um dia vi um homem a zungar colheres de pau e mexericos. Infelizmente ia do outro lado da via rápida e não pude fazer negócio.

Acabei por ter sorte. Num visita ao mercado de arte, um artesão aproveitou uma sobra de madeira para talhar um. Alguém lho tinha encomendado, mas parecia esquecido e ignorado no meio das peças de madeira pintada. Acabei por fazer negócio. 200 kz e uma cerveja para o Soba do mercado foram o suficiente para ser agora o orgulhoso proprietário de um mexerico!

As mulheres, de volta dos fogareiros e dos panelões de funge fartaram-se de rir quando me viram com ele na mão. Fiquei a pensar se não estaria a cometer alguma falha grave de etiqueta. Será que há uma qualquer tradição que diga que os homens não podem tocar no mexerico, assim como os muçulmanos não podem comer porco?


16  01 2009

Evolução

O Aerograma começou pequenino, dedicado apenas à família e aos amigos mais chegados. Apesar de ter começado a escrever alguns meses antes da minha partida, foi só depois de chegar a Angola que o dei a conhecer.

Nos primeiros tempos, nem os motores de pesquisa o mostravam e quase todos os visitantes me conheciam de nome ou partilhavam amigos. O seu endereço foi-se espalhando por publicidade de boca.

Mais algum tempo se passou e os visitantes passaram a ser mais heterogéneos e a chegar de paragens distantes, através de outros blogs ou de pesquisas mais ou menos imaginativas na internet. Muitas das vezes por procurarem coisas inusitadas, como bolo de banana-pão

Curioso, curioso é que o Google ordena os resultados de acordo com a relevância e importância do site e o Aerograma tem aparecido nos primeiros lugares. Não acredito que o Aerograma seja a página mais relevante de toda a internet no que toca a jantes cromadas de 18 polegadas ou beringelas, mas o certo é que vêm cá dar enquanto procuram embelezar o carro ou cozinhar as ditas. Curiosidade? Falta de concentração no tema em questão? Outras razões?

Deixo aqui algumas das pesquisas que resultaram numa visita ao Aerograma. Nalguns casos criei a ligação para a página de destino.

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banana pão

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a barata diz que tem sapatinhos de veludo
angolanas nuas(fiquei espantado com a quantidade de vezes que se procurou angolanas nuas na internet e, pelo menos duas vezes por dia, se encontrou o Aerograma – será que tenho cá angolanas despidas sem saber?)
índios, cães magros, bug informático
amo-te cristina, aqui há tramoços e minuins
experiencias das testemunhas de jeová na africa
A fé é ver as coisas em q que se acredita antes mesmo

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mecânico automóveis angola, serralharias em luanda
riscos de nuvens nos céus quando passa o avião

E, para terminar, esta pérola:
Modelos de festa para senhoras de idade


15  01 2009

Os tempos estão a mudar

Na última visita que fiz à Cabala, aquela terra que nos prende ao rio de uma forma estranha, fui recebido com um chorrilho de impropérios digno do Capitão Haddock, mas mais vernáculo.

«LITO, MEU FILHO DA PUTA! CABRÃO, ANDA CÁ! ANDA CÁ, CARALHO! LITO!»

Mas o Lito não vinha.

«ANDA CÁ, CABRÃO!»

E o Lito continuava parado, lá ao longe, receoso.

«SE NÃO VENS CÁ VOU FAZER QUEIXA À POLÍCIA E ELES DEPOIS FODEM-TE, MEU GRANDE CABRÃO! ANDA CÁ! AQUILO NÃO SE FAZ À MIÚDA, CABRÃO DE MERDA!»

O Lito continuava indeciso. Eu esperava por quem me vendesse gasolina e estava um pouco a mais naquela conversa. Nisto, o sujeito que tanto gritava, virou-se para mim e num tom muito polido e em voz baixa pediu-me desculpa.

«Peço desculpa, mas isto é mesmo assim. O que ele fez não se faz a ninguém.» E, sem qualquer intervalo, virou a cabeça e continuou. «ANDA CÁ, FILHO DA PUTA! VOU CHAMAR A POLÍCIA E ELES TRATAM DE TI!»

Juntou-se mais gente. Queriam saber o que se passava.

«Aquele cabrão encostou uma faca à barriga da miúda. FILHO DA PUTA! Ameaçou que a matava. Mas isto não fica assim. Isto agora é crime. Vou à polícia apresentar queixa e o cabrão vai preso. LITO! VEM CÁ, CARALHO! FODA-SE QUE ÉS ESTÚPIDO!» Novamente, num tom muito calmo pediu desculpa. «Peço desculpa, mas uma pessoa emociona-se e depois só saem disparates…»

A sobrinha do senhor, que fazia umas três vezes o tamanho do Lito, estava envergonhada a um canto. Quase diria que estava corada, não fosse a pele escura não deixar perceber. O Lito, quando bebe, dá-lhe para isto… os restantes participantes concordavam e aprovavam a ideia de chamar a polícia, para ver se ele aprendia.

Os vinte litros de gasolina que comprei já estavam no depósito e achei por bem ir-me embora, antes que desatasse a rir.

À saída da Cabala, tive a certeza de que os tempos estão mesmo a mudar. Já não se faz justiça pelas próprias mãos, recorre-se à polícia. Pelo menos nalguns assuntos, confia-se na autoridade. E isto é um bom sinal. Os tempos incivilizados da guerra civil estão a terminar.

Mas não sei se o Lito foi ter com o tio da rapariga…


14  01 2009

Outra vez?

A principal diferença que notei ao chegar a Luanda, depois de uma vida inteira na Europa, foi a relativa instabilidade no fornecimento de água e luz. Os cortes diários fazem parte da rotina.

Às faltas de luz acabei por me habituar depressa, por saber que há outras coisas para fazer, como avançar mais um pouco na leitura de um ou outro livro mais maçudo ou dar um passeio. Aproveito também para pôr o sono em dia, já que não há distrações.

Já com as faltas de água, as coisas são diferentes. Em casa temos um depósito e nem chegamos a notar, mas na empresa não há desses luxos. Se a água é cortada, as torneiras ficam secas e não há volta a dar.

Durante umas semanas não houve água no bairro inteiro. Estavam a instalar um novo sistema de distribuição de água potável. Para não haver confusões, desligaram o antigo e só depois do novo estar no sítio é que abriram as válvulas. A cada semana um camião-cisterna abastecia um depósito provisório e com ele nos governávamos.

A população do resto do bairro desesperava com a falta de água. A única disponível era distribuída por camiões que a iam bombear ao Bengo (sem filtragem nenhuma).

Lá acabaram as obras e as torneiras voltaram a ter água. O abastecimento passou a ser bem mais estável que antigamente, de tal forma que já parecia normal abrir a torneira e lavar as mãos.

Acontece que um dia, pela hora do almoço, abro a torneira para lavar as mãos e só que ocorre dizer «Atão…?» É isso mesmo, faltou outra vez.


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