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2008
Há artigos que se escrevem sozinhos, sem revisões, sem cuidados de estilo ou forma. Nascem de uma emoção ou de um pensamento recorrente. Por vezes basta a inspiração de uma fotografia. Ou algumas fotografias pedem um texto introdutório que ajude a perceber como ela me tocou ou que foque a atenção em determinado pormenor.
Certas imagens vão ficando reservadas até ao dia em que as consiga usar. São aquelas que sinto merecerem ser publicadas, mas ainda não sei bem como as colocar. Podem ficar num limbo semanas ou meses, esperando o dia em que me despertam a necessidade de lhes escrever um texto.
Até agora ainda não tinha surgido uma fotografia de tal forma completa que contasse a história toda, sem a necessidade de uma única palavra. Aliás, uma boa fotografia não pode ter palavras a explicar o que transmite. Se as tiver é sinal de incompletude. Concluí que sou mau fotógrafo. Em milhares de fotografias, apenas um punhado se enquadra nesta categoria…
Há ainda os textos que dispensam imagens. São completos só por si e não precisam de ilustrações ou distracções. No entanto, poucas imagens dispensam algum texto.
Mas, desta vez, surgiu uma dessas. Durante alguns dias matutei numa maneira de a introduzir. Como começaria o texto? Como o remataria? Onde punha a imagem? No princípio? Não, teria de ser no fim.
A solução mais simples seria colocar a imagem e não escrever nada. Mas isto é um Aerograma, não é um diaporama. A escrita é a essência do meio.
Tinha de escrever algo e não podia ser acerca da imagem. Se o fizesse, estragava a surpresa ou deixava-a menos completa. Optei pela solução de recurso e contei como não consegui escrever o artigo…
E agora, esquecendo tudo quanto foi escrito acima, apresento a imagem.

Sem título
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2008
Perto do mercado de São Paulo, os carros seguiam a passo. Os peões circulavam nas bermas, bem mais depressa, diga-se.
Um desses peões passa por mim e depois, para se desviar de outro, encosta-se ao carro. Como estava a andar, achou que o tinha tentado atropelar. A culpa tinha de ser minha, claro.
Olhou para trás, furioso, e reclamou: «Ó branco!»
A pergunta dos cinco tostões é simples. Se eu fosse preto, teria ele dito «ó preto»?
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12
2008
Os padrões de beleza têm vindo a mudar em Angola. O mundo ocidental e a televisão têm obrigado a redefinir a mulher angolana desejável. A mulher da tradicição, com ancas grandes e muitas pregas roliças, foi substituída pela mulher magra e curvilínea. Angola tem mulheres para ambos os gostos. E há muitas mulheres bonitas, qualquer que seja o padrão de beleza que se siga.
Mesmo assim, apesar de agora se apreciar as mulheres magras, as de formas mais generosas não deixaram de ser cobiçadas. Aliás, como a barriga grande ainda é sinal de riqueza, uma mulher grande e redonda, alta e com ancas largas indica um bom partido (ou muita despesa, dizem).

Rainha Ginga, símbolo da mulher angolana
Percebi melhor como tudo isto funcionava no dia em que dei boleia aos nossos quatro técnicos e eles estavam a comentar o tamanho de uma mulher que passava.
J.: «Onde é que ela tem o número?»
X.: «O número!? Qual número?»
J.: «O da morada. Parece uma casa!»
X.: «Querias era uma mulher como ela…»
C.: «A minha é assim!»
X.: «Brinca, brinca…»
E nisto, a L., que tinha estado só a rir desarma todos com uma pérola:
«Alguma vez conseguias conduzir um Hummer daqueles com esse teu motorzinho tão pequeno? Só pode ser brincadeira!»
Quando o status que dá ter uma mulher grande é comparado ao que trazem os objectos de ostentação de riqueza actuais, daqueles com cromados e jantes especiais, percebemos logo onde querem chegar.
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2008
De regresso do sul, fomos informados que o aeroporto internacional de Luanda estava encerrado. Motivos presidenciais, acrescentou o controlador.

Farrapos de algodão
Pedimos uma previsão.
No meio do ruído mal filtrado do rádio ouvimos apenas «de momento…»
Pela teoria das meias palavras angolanas ficámos logo a saber que «de momento, não havia». A cimeira de chefes de Estado africanos que se realizou em Luanda obrigou ao encerramento do 4 de Fevereiro por tempo indeterminado.

Final do dia
À medida que nos aproximávamos de Luanda, o tráfego radiofónico aumentava. Pilotos pediam previsões para a reabertura das pistas, comunicavam alterações de rota e anunciavam novas estimas. A pouco e pouco, os aviões presidenciais foram descolando, enquanto submetiam planos de voo mais ou menos complexos. Com muitas repetições e rectificações pelo meio.
A lista de espera para aterrar aumentava, bem como as trocas de informações com a torre de controlo. Alguns sotaques eram familiares. Americanos anasalados e rr arrastados da francofonia davam cor ao inglês aeronáutico, cheio de LIMAS, KILOS e TANGOS.
Enquanto aguardávamos que o último chefe de Estado descolasse, fomos traçando ovais sobre Cacuaco. Durante quase uma hora vimos Luanda em carrossel, identificando ruas e avenidas entre uma teia de ruelas tortuosas.

Carrossel de Luanda
O porto cheio de navios à espera de vez para descarregar, todos a indicar de onde vinha a corrente, parece o início de uma regata.
De vez em quando conseguimos espreitar a praia de São Tiago, com os seus navios mortos. Não podemos deixar de olhar para estes e desejar-lhes boa sorte e melhor destino.

Abastecendo Angola
São dezenas de navios de todos os tamanhos e feitios, carregados com tudo o que se consiga imaginar. Numa terra que importa quase tudo o que consome, não é de admirar que o porto seja concorrido.
Mais aviões chegavam a Luanda e juntavam-se a nós no carrossel. Quase todos acima de nós. O último avião descolou e a torre informou-nos que o aeroporto estava aberto. Autorizou-nos a descer. Finalmente!

Preparando-nos para descer
«Now crossing 3’000 ft. Request final approach to Lima Uniform» informou o nosso piloto.
«3’000 ft. You are cleared to runway two-three.» confirmou um sotaque africano pelo rádio.
«Charlie, charlie. Two-three.»
Alguns segundos mais tarde, as rodas tocaram na pista com um barulho surdo. A viagem terminava. Olhei para o céu e muitos outros aviões faziam voltinhas, esperando a vez de nos imitar.
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2008
Desde cedo que percebemos que os preços do centro de Luanda são muito inflacionados. Cada intermediário tem de ganhar o seu quinhão e há muitos de permeio entre nós e o produtor. Entre as Ingombotas e o Futungo os preços chegam a triplicar.
Os mais avisados, ou os que podem, o que fazem é ir dar uma voltinha pelo sul de Luanda e abastecer-se a preços mais apetecíveis. Sacas de batatas, pilhas de beringelas, montículos de alhos e baldes com cebolas e tomates amontoam-se entre carrinhas carregadas de abacaxis envoltos em palha ou cachos de bananas luzidios.
Uma ou outra vendedora mais modesta mostra um molho de cenouras retorcidas e alguns pimentos murchos. Não pede muito pela mercadoria e, às vezes, compramos para ajudar ao negócio.

Abacaxis de Benguela
O primeiro abacaxi que cá comprei custou-me 450 Kz. Agora, que já sei onde devo ir, compro 3 pelo mesmo preço…
Coisa curiosa, os grossistas não têm preços de branco, mas os retalhistas lá insistem em acrescentar mais uns 100 Kz.