Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

12 2008

Vendedoras de mangas

Nos finais de Novembro, fomos até à Cabala, só mesmo para sair de Luanda. No regresso, parámos para comprar mangas, perto do km 40, na estrada de Catete.

As mangueiras à beira da estrada estão carregadas, mas ainda não têm os frutos todos maduros. Os que estão melhores são vendidos pelas mulheres à porta de casa.

Às vezes é uma banca isolada, mas é frequente juntarem-se meia-dúzia de mulheres para irem conversando entre cada cliente.

As mangas eram todas iguais, pelo que a escolha da vendedora tinha de seguir outros critérios que não a qualidade da fruta. Mirei as vendedoras e havia uma que se destacava. Era a mais-velha!

Num povo que envelhece devagar e morre cedo, encontrar alguém com cabelos brancos é difícil. Encontrar uma cabeça toda branca ainda é mais invulgar. Mas encontrar uma mulher de barba branca é, certamente, raro.

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A Avó Maria

Numa terra onde as mulheres mais velhas são chamadas de Mãe, é interessante encontrar uma a quem todos chama de Avó. A Avó Maria vendia um prato de mangas pequeninas a 100 Kz. É um preço que quase merecia ser regateado para cima…

Achei que não podia de lá sair ser fazer um retrato da senhora. Perguntei se podia. Disseram logo que não. Recusaram porque depois eu levava a fotografia para fora do país (o branco a explorar os recursos de Angola, novamente). No fundo, tinha de pagar os direitos de imagem.

Aceitei a recusa e comecei a guardar a máquina. Perguntaram quando é que trazia as fotos… e depois perguntaram à Avó se queria que eu lhe tirasse o retrato…

A senhora deu um passo atrás e fez uma pose militar, muito direita. Escondeu os poucos dentes que ainda tem e esperou. Mostrei-lhe como tinha saído. Sorriu.

A seguir, foi um corropio à frente da máquina. Todas as que não queriam o retrato tirado se perfilavam em frente à máquina.

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Pose militar

A mais nova agarrou numa manga e fez uma pose sensual. Deve querer oferecer a fotografia ao namorado…

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A pose sensual

A mais renitente de todas, ao ver o resultado das outras fotos, apareceu a correr. Colocou-se à frente das bancas e mostrou como as vendedoras de mangas bebem cerveja.

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Eu também, eu também

Pelo rabinho do olho ia espreitando a máquina e sorria.

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Já está?

Na outra ponta, a senhora mais envergonhada seguia esta agitação toda. Perguntei se também a podia fotografar. Disse que sim. Escondeu o sorriso atrás de uma manga e esperou.

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Mãe Juliana

Ficou prometido deixar lá umas fotografias numa das nossas próximas passagens.


12 2008

Mano-grande, o Big Brother de Angola

Um pouco depois das eleições legislativas angolanas, a fotografia do Presidente José Eduardo dos Santos começou a aparecer um pouco por toda a parte. Nos edifícios públicos já é costume ver uma fotografia emoldurada na parede, à laia de presidente do conselho, para velar pelos destinos da nação.

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Novos cartazes

Agora são cartazes gigantescos, todos com a mesma imagem seráfica do presidente acompanhada por um pequeno excerto de um discurso. Cada rotunda tem o seu cartaz. Cada cruzamento de estrada secundária também.

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Presidente dos Santos em cada esquina

Zé Dú espreita-nos os movimentos, com um olhar que nos parece seguir. Olho para os cartazes e lembro-me do livro mil novecentos e oitenta e quatro. Tento prestar atenção aos excertos dos discursos, mas acabo sempre por ler «O Zé Dú vela por ti».

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Zé Dú is watching you

A princípio, ainda me perguntei porque razão a figura do presidente andava por todo o lado. Mas depois de alguma reflexão, cheguei a uma conclusão simples: para o ano há eleições presidenciais…


12 2008

200? Não pareciam tantos…

Aproveito mais um artigo com um número redondinho para fazer um balanço deste meu registo acerca de Angola.

Fazendo as contas por alto, são quase 150’000 palavras. Quando comecei a escrever, nunca imaginei que atingisse tamanho volume. O certo é que, apesar de ser um número grande, ainda há muito por dizer.

Num dos primeiros artigos citei um escritor dizendo que o viajante, ao chegar a um país, sabe tudo; ao fim de um mês não sabe quase nada e, ao fim de um ano assume a sua ignorância. Já perdi a esperança de saber tudo acerca do país que me acolhe, mas vou procurando saber mais um pouco das pessoas que cá moram.

Entretanto, já mais de 7500 (em angolano escrever-se-ia sete mil e 500) pessoas leram o Aerograma. São visitas que me deixam muito contente, especialmente porque costumam voltar. Graças a esses visitantes, e à exposição que o Aerograma ganhou, passei a ter de assinar as fotografias, que já começavam a aparecer noutros blogues sem os devidos créditos.

Estes 200 artigos marcam também a marca dos seis meses de estadia. Tem tido altos e baixos, como seria de esperar. Há alturas em que penso ser possível viver cá para sempre, mas tem dias em que só quero voltar para casa…

As doenças propagandeadas na alarmista consulta do viajante ainda não se fizeram sentir. Não tive diarreias, paludismo, unhas encravadas ou espondilose das criadas-de-servir. A farmácia que trouxe comigo está esquecida algures num dos armários. Que continue assim!

Entretanto também andei a afinar um pouco a imagem do Aerograma. Agora está um embondeiro grande lá em cima, que foi fotografado na estrada para o Dondo. A fotografia das girafas não era minha e, sinceramente, ainda não as vi por cá… Não sei qual prefiro.

Amanhã, a programação retorna ao normal, com um pouco mais de Angola. Daqui a cem artigos volto a interromper.


12 2008

O gigante silencioso

Em Luanda, as noites de fim-de-semana próximas do fim do mês são sempre muito agitadas. Sexta-feira já é conhecida por ser a noite em que as mulheres casadas dormem sozinhas, mas Sábado, porque não se trabalha de tarde, é o dia das festas.

Por todo o lado se ouve música alta e a quantidade de grades de cerveja que se vê circular é maior que nos outros dias.

Até altas horas da madrugada o barulho é constante. Ora é a música, ora são os carros a passar depressa, fazendo chiar os pneus no asfalto quente. De vez em quando lá ocorre uma zaragata entre gente pouco sóbria. Muitos gritos, muitos puxões, algumas garrafas de cerveja atiradas pelo ar. Vão descendo a rua, empurrando e esmurrando não interessa quem.

Os seguranças juntam-se em grupos, empunhando as armas automáticas e encarando os arruaceiros com o sobrolho franzido. Há dias em que funciona, noutros nem por isso. Depende do grau de embriaguez dos rufias.

Pelo meio, passam as motas de escape livre, cujos donos gostam de usar para fazer disparar os alarmes dos carros estacionados (ou acordar quem tenta dormir).

Mas depois, lá pelas três ou quatro da manhã, tudo muda. A cidade adormece, finalmente. Os carros e as suas buzinas nervosas deixam de circular e já nem mesmo ao longe se ouvem os raters das motas. Os pesados, que costumam desrespeitar as proibições de circular na cidade, também deixam de incomodar. O rádio dos seguranças não toca e até as máquinas de ar condicionado do salão de jogos só trabalham de tempos a tempos.

Luanda adormeceu. Parece uma pequena aldeia no interior. Ouve-se um galo. O novo dia vai começar.


12 2008

Luanda dos pássaros

Luanda é uma cidade quase plana e em nenhuma altura conseguimos abarcar a sua imensidão. Cinco milhões de pessoas têm de se acomodar em algum lugar e, mesmo com as densidades populacionais africanas, é preciso muito espaço para tanta gente.

A desorganização das ruas dos musseques também dificulta as coisas, com muitos becos sem saída ou ruas que aparecem e desaparecem consoante as casas crescem ou caem.

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A famosa vala com lixo multicolor

Vista do ar, ganha uma dimensão surpreendente. Até onde a neblina começa a esbater o horizonte vemos casas cinzentas com telhados de chapa seguros por pedras. Ruas tortuosas que desembocam em estradas retorcidas vão ligando bairros iguais uns aos outros. Lá pelo meio vemos mercados mais ou menos concorridos e, serpenteando por entre isto tudo, as valas, por onde escorrem os esgotos e os sacos de plástico.

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Telhados de chapa e o pó da cidade

Ao circular nas ruas de Luanda, temos a impressão de que há muitos táxis. Lá de cima temos a certeza. São demasiados. Em cada quatro veículos a circular, dois deles estão pintados de azul e branco. O terceiro também faz serviço de táxi, mas de forma ilegal. Não que os outros estejam legais, mas estes são mais ilegais. O quarto está lá por engano.

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Mercado concorrido

A desorganização organizada da cidade de telhados de chapa começa a fazer sentido, à sua maneira, claro. Os pontos nevrálgicos surgem onde se espera. Os mercados concentram-se nos cruzamentos das estradas mais concorridas, por onde vemos escorrer um fluxo azul e branco.

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Praça de táxis do Rocha Pinto

O lixo continua a colorir a cidade baça do pó. Só a maior altitude é que passa despercebido. Até as valas, que, de perto, não escondem a sua origem, passam a ser assinaladas por manchas verde-escuro. As árvores vão crescendo e escondendo o lixo e o esgoto. Lá de cima parecem só bordejar um rio…

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Cinco milhões de pessoas…

Ao olhar para o horizonte, não podemos deixar de nos perguntar se alguma vez se conseguirá resolver o nó górdio em que Luanda se transformou.


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