Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

29  11 2008

Savimbi

Há uns tempos, durante uma conversa sobre escritores e livros angolanos, perguntaram-me porque razão ainda não se tinha escrito um livro sobre Jonas Savimbi.

«O Hitler também matou muita gente, mas escrevem-se livros acerca dele. O Dr. Savimbi também merece um. Não interessa o que fez. Foi importante para Angola.»

Concordo plenamente. Savimbi merece um livro. E já agora, um livro justo. É verdade que prolongou a guerra por mais uma década, mas não se pode esconder debaixo do tapete da História alguém tão importante para o país. Sabemos perfeitamente que quem escreve a História são os vencedores, mas também não vale a pena ignorar os vencidos.

Esperemos que a paz traga também a necessidade de falar da guerra e de não esquecer o que a originou.


28  11 2008

Como fazer a diferença

Cada vez mais se vê gente a pedir nas ruas, no metro, no comboio, uns porque não podem trabalhar, outros porque não têm vontade. Por uma razão ou por outra, há cada vez mais gente a pedir, a crise assim o impõe.

Regra geral não dou dinheiro porque existem tantas histórias de gente que pede na rua para sustentar os vícios ou outros que têm grandes casas e vivem uma vida de luxo. Uma coisa é pagar uma refeição quente, outra é dar dinheiro que nunca saberemos qual será a sua finalidade.

Ontem fui abordada por um sujeito que andava a pedir na Gare do Oriente, a sua abordagem foi tão original e sincera que eu abri a carteira e dei-lhe a moeda maior que tinha.

O sujeito começou de forma educada a dizer que vivia ali na rua que é seropositivo e que preferia pedir do que andar a roubar porque assim era mais bonito e pedia uma ajuda para comer alguma coisa. Eu achei que dada a sinceridade e a coragem que era merecido. O senhor agradeceu e partiu.

Hoje penso que o risco do dinheiro ter sido usado para outra coisa que não uma refeição quente é grande, mas quero acreditar que não.

Não há dúvida que a maneira como abordamos os assuntos faz toda a diferença.


28  11 2008

Verdinegro

Ainda no tempo do cacimbo, no pino do Inverno tropical, fomos à praia. Os angolanos a quem confessámos o pecado tiveram a confirmação das suas suspeitas: somos mesmo estranhos.

Como se pode ir à praia no Inverno? A água está fria, não se vê o Sol. Deixaram o juízo lá no outro hemisfério, só pode.

blog_017
Outro doido

É certo que a água, pelos padrões angolanos, está fria ao ponto de causar cãimbras quando pensamos nela. Os seus míseros 22º mantém afastados os locais. Eles, provavelmente por recearem os efeitos da água gelada em contacto com a sua masculinidade…

blog_021

Certo, certo, é que água assim, rivaliza com muita praia algarvia no Verão Setentrional. Só mesmo as ondas grandes, que se enrolam numa praia íngreme, é que nos impedem a afoiteza de entrar até ao pescoço.

Mesmo assim, molhar os pés e sentir a água a contornar-nos o corpo no seu vai-e-vem incansável é um dos pequenos prazeres da vida.

Enquanto nos deixávamos embalar pelas ondas da praia do km 55, seguindo o percurso do Sol em direcção ao horizonte, reparámos que não estávamos sozinhos na praia. Lá longe, quase no horizonte, um grupo em que se jogava à bola ou se fugia das ondas maiores enquanto tentava não molhar mais que a barriga.

blog_018
Praia no cacimbo

Um deles separou-se do grupo e caminhou pela areia na minha direcção. Parou para meter conversa. Era Mauritano e chamava-se Abu. Pensou que fosse seu compatriota. Trocámos conversa em Português e Francês. Ainda tentou Árabe, mas fiquei-me pelo Salam aleikum e Shokran. Há cinco anos deixou a Mauritânia, com um curso de economia e abriu uma loja de móveis no mercado de São Paulo, em Luanda.

Isto de ser verdinegro tem destas coisas. Já na Tunísia me confundiram várias vezes. Especialmente nos dias em que usei turbante nos mercados.

Continuaram o seu jogo de futebol e voltei a contemplar o mar.

Adoro o campo e posso passar anos sem ir à praia, mas adoro o mar. O perpétuo ritmo das ondas que lavam a terra recorda-me a nossa insignificância perante o mundo. Lembram-me que sou o culminar de todas as vidas dos meus antepassados que, tal como as ondas, foram mudando lentamente a terra. Eu serei mais uma onda. Farei a minha parte e darei o lugar a outra.

blog_020

O Sol descia cada vez mais depressa e a praia sossegada começou a ser percorrida por dezenas de pequenos caranguejos. Saiam dos seus buracos e procuravam passar despercebidos. Corriam de um lado para o outro até entrarem noutro buraco.

blog_019

Fugiam de nós e das ondas, mas não resistiam ao pôr-do-Sol. Mesmo em tempo de cacimbo, era um espectáculo de pasmar.

blog_023
Hora de partir.


27  11 2008

Praia de São Tiago

Um pouco a norte de Luanda, já no município de Cacuaco, a costa vai descrevendo curvas suaves, que criam umas baías abrigadas muito agradáveis.

No tempo do colono eram conhecidas por ter praias sossegadas, onde se podia fazer boas pescarias. Não eram muito frequentadas porque as praias famosas eram as de Luanda, onde havia esplanadas e restaurantes.

Entretanto, a Revolução dos Cravos traçou o destino de Angola, já depois do fim da Guerra Colonial em terras angolanas. Angola seria independente mais cedo que tarde, mesmo com três movimentos incapazes de se entender sobre quem formaria o primeiro governo.

No início de 1975 percebeu-se que a guerra civil era inevitável, com as três forças a importar armas e soldados. Os famosos conselheiros militares cubanos do MPLA e congéneres da UNITA e FNLA começaram a chegar ao país.

Os colonos e as tropas portuguesas deixavam África, dando lugar a militares ao serviço de outros sonhos coloniais, ditados pela Guerra Fria.

blog_104
Praia de São Tiago

Ainda antes do 11 de Novembro de 1975, numa praia isolada perto de Luanda e a coberto da noite, um navio carregado de armas encalha. A enseada abrigada de olhares indiscretos e o areal extenso e compacto são ideais para o descarregar rapidamente e sem deixar rastos. Juntamente com a carga, também a tripulação desaparece, ficando apenas o navio abandonado a enferrujar lentamente na praia. Uma concha vazia, sem préstimo.

blog_105
Nomes esquecidos

A este seguiram-se outros. Muitos outros. Armas, munições, combustíveis e fardas foram sendo descarregados nestas condições, com navios do tipo tara perdida. A ausência de manifestos de carga não incomoda os fretadores e muito menos os intermediários, que recebem a sua parte. As perguntas indiscretas e de resposta embaraçosa deixam de fazer sentido quando os navios não regressam ao porto de origem.

blog_111
Dois irmãos que se amparam, partilhando recordações

Hoje em dia, quando se menciona a praia de São Tiago, todos nos falam dos navios que lá definham. Às vezes falam do seu propósito ou do que se fez com a mercadoria que transportavam.

Agora os navios servem de sombra nos dias de praia. A eles se encostam os grelhadores onde se cozinha o peixe acabado de pescar. Os porões esventrados acabam por ser usados como latrinas mais discretas, onde se ouve o rebentar das ondas contra as anteparas, fazendo tudo estremecer e soltando pedaços de ferrugem. São apenas a passagem para as escadas com poucos degraus inteiros que dão acesso aos conveses.

blog_106
Marcas do tempo que passa

As três décadas de água salgada e sol forte transformaram as grossas chapas dos conveses em labirintos de renda fina, onde se amontoam blocos de metal que se assemelha a cascalho. Lentamente, os passadiços vão tombando. Acabam por ser arrastados para o mar pela chuva e pelas ondas que conseguem galgar os costados.

blog_107
As cores esbatem-se com o passar dos dias

Entre válvulas e tubos corroídos que já não ligam a lado algum, preenchemos os espaços e adivinhamos onde se ligariam. Pensamos no que teria transportado este navio anónimo. Por ter como destino a praia de São Tiago, o nome que ostenta no casco não é importante. Na verdade, até interessa que seja esquecido.

blog_108
Tara perdida

Mas não está só. Por entre os ferros retorcidos vislumbramos outros cascos avermelhados, de histórias silenciadas. Ao longo de toda a baía vão olhando uns pelos outros, envelhecendo e tentando adivinhar quando é que o mar os vai vencer. Lembram-me baleias encalhadas, morrendo numa praia qualquer, naquelas espécies de suicídios colectivos que são noticiados.

blog_109
Corrosão

Nos meses e anos que se seguiram ao abandono de cada navio, tudo quanto poderia ser facilmente removido e transportado, acabou por desaparecer. As mangueiras, os instrumentos, algumas portas e vidros. O resto ficou. Não há sucateiros navais em Angola. Importa-se o aço. O que está nas praias ficará até que desapareça ou mudem as vontades.

Para já, a praia de São Tiago continuará a ser a baía dos esqueletos, assombrada por fantasmas ferrugentos, testemunhos de épocas conturbadas.

 blog_110
Navio-fantasma


26  11 2008

Alembamentos, adenda

Numa terra onde o calor aperta e a roupa é pouca, é de esperar que as sociedades não sejam tão rígidas nem sigam a moral vitoriana. No entanto, em Angola não se vive num forró-bódó. Há gente respeitadora dos bons costumes ditados pela convivência em meios pequenos. É certo que a cidade grande esbate esses hábitos, mas não é de repente que acontece.

Ninguém vê com maus olhos que as pessoas namorem. É aceite e compreendido por todos. Aliás, é quase instituído que os homens tenham muitas namoradas. Mesmo que sejam casados. Pular a cerca é tolerado, mas bater na esposa é algo de muito baixo.

Caso se pretenda algo mais sério, é de bom tom que o namorado seja formalmente apresentado à família da noiva quanto antes. O célebre alembamento. Numa primeira fase, juntam-se os pais de ambos e alguns tios dos dois lados para se acertar os pormenores do alembamento. O que o rapaz tem de entregar varia muito em função das suas posses e da exigência da família da noiva.

Os valores padrão são as várias grades de cervejas e gasosas, os vinhos, os licores e os destilados, as quatro mudas de panos holandeses, os lenços e as roupas para os pais da noiva. Os volumes de tabaco e os fósforos, pormenor fundamental, são todos acertados nesta reunião.

Um outro factor que pesa bastante no orçamento do noivo, é o estado da noiva. Se a noiva estiver concebida no momento em que se faz a apresentação, é sinal que o noivo cometeu (o pecado) se a devida autorização dos pais da noiva e por isso terá de ser penalizado. Os valores a entregar no pedido de alembamento serão muito maiores porque ele não se portou bem. E a data do casamento é determinada com muito menos flexibilidade. O neto terá de nascer já na casa do casal!

No dia da cerimónia, o tio mais velho do noivo lê o pedido do rapaz, cheio de floreados típicos destas coisas, mas bastante objectivo. Afinal de contas, quer pedir a mão da rapariga (e julgo que o resto também).

Nas famílias mais tradicionais, a cerimónia termina com uma refeição que dura a tarde inteira. Ao pôr-do-Sol regressam a casa, deixando algum dinheiro debaixo da toalha. Afinal de contas, quem vai lavar a loiça também tem de comprar o sabão, dizem-me.

Nos alembamentos modernos, a festa dura pela noite dentro, acabando quando se esgotar a bebida…

Como aqui são os homens que têm de sustentar a mulher, a tolerância que lhes é dada para andar com outras, para elas é quase inexistente. Criticam-se as raparigas namoradeiras, que vivem sem pensar no dia seguinte. Dizem que se vendem por pouco, dependendo dos vários namorados que arranjam. Afinal de contas, se engravidarem passa a ser problema apenas delas, porque eles saltam para outra. Ficam com o filho e sem o rendimento, voltando, às vezes, para casa dos pais.


« Previous PageNext Page »