7
11
2008
Quando se chega a Luanda, uma das primeiras coisas em que se repara é na quantidade incrível de vendedoras que andam com a loja à cabeça.
As zungueiras, hoje em dia, são um elemento fundamental da economia popular, no entanto, são um fenómeno recente.
Até meados dos anos 90 não havia vendedoras ambulantes a zungar pela cidade. Havia pequenas bancas aqui e ali, lojas modestas e pouco mais. Entretanto, para se juntar à guerra civil angolana, o Congo entrou também num período violento. Milhares de refugiados congoleses procuraram Luanda como porto seguro. Grande parte deles cá ficou. Acabaram por formar uma comunidade fechada, com costumes um pouco diferentes dos Luandenses. O local onde foram instalados tem agora o seu nome, que é gritado pelos cobradores dos candongueiros que circulam para aqueles lados: Congolenses! Congolenses!
Como não tinham meios de subsistência alguns para além do apoio das organizações internacionais, voltaram-se para o que sabiam fazer. As mulheres pegaram nos alguidares de plástico e puseram-se a percorrer as ruas, regateando numa língua que não dominavam. Deram-se bem e, pouco depois, as angolanas passaram a seguir-lhes o exemplo. É certo que as margens de lucro são mínimas, mas é melhor que não fazer nada.
A moda das zungueiras vei para ficar!
Adenda (28/12/2011): O leitor Pedro Paulo acrescenta que o bairro já tinha o nome de Congolenses no tempo colonial. Suponho que se deva também à instalação de refugiados do antigo Congo Belga, mas aguardo confirmação. Em qualquer caso, em 1977, as Nações Unidas registam um movimento de 220’000 refugiados do Zaire para Angola.
6
11
2008
A toponímia angolana, tal como muitas outras coisas, é complicada. Não se deve só ao facto de haver milhões de pessoas a morar em ruas sem nome, nem à falta de oportunidade para conhecer algo mais que o trajecto para o trabalho. É também a aparente esquizofrenia que reina nos nomes dos arruamentos e números de polícia que salpicam as fachadas.
Após a independência angolana, houve a necessidade de alterar nomes de ruas. Não interessa muito bem se para fazer esquecer o nome colonial ou se para homenagear alguma figura importante para o novo país. O certo é que muitas ruas viram as suas placas toponímicas emendadas. O grande problema é que as pessoas não deixaram de conhecer o nome antigo da rua. E muito menos aprenderam o novo. Não foi de um momento para o outro que todos souberam da mudança e houve a necessidade de perpetuar o nome colonial. Este foi o primeiro passo para a confusão.
O segundo passo foi dado quando, de duas ruas, se fez apenas uma. A numeração de cada uma manteve-se, como é óbvio. Agora temos números repetidos ou a crescer em direcções contrárias a cada quarteirão.
Outras vezes, retirou-se a placa e nunca se chegou a colocar a nova. A rua ficou anónima. É claro que o nome colonial persiste nestes casos, mas habitualmente com a menção de que é a ex-Rua.
Por vezes nem sequer há consenso acerca da grafia do novo nome. Perto da Mutamba há uma loja que tem as duas nomenclaturas da morada. Mesmo ao lado está a placa toponímica. Todas as versões estão erradas!
A antiga Avenida de Portugal é referida como Rua de Portugal. A Actual Frederich Engels aparece como Frederich Inglês no letreiro da loja e como Frederico Engels na placa.

Confusão
Para complicar mais as coisas, há quem não conheça nenhum dos nomes da rua e se socorra do seu nome popular. Em geral, estes estes nomes identificam pontos de referência (Rua da Total, Rua do Anghotel, Largo do Atlético). Há até mesmo empresas que se identificam com três moradas diferentes: a ex-rua colonial, a rua oficial e a rua popular!
Com semelhante confusão, não é de admirar que os correios não funcionem e que as cartas raramente cheguem ao seu destino. O que é de espantar é que haja uma empresa que entrega pizzas ao domicílio…
5
11
2008
Nas esquinas mais movimentadas, nos mercados ou nos locais onde se pode encostar o carro com mais facilidade, é comum ver homens ou mulheres, sentados ou de pé, a agitar maços de notas de Kwanzas e cartões telefónicos. São kinguilas, ou, como prometia a UNITA chamar, caso ganhasse as eleições, instituições bancárias populares.
Os kinguilas são agentes cambiais informais, verdadeiras casas de câmbio modernas, com cotações actualizadas segundo a evolução dos mercados, de acordo com as leis da oferta e procura.
O maço de notas que agitam é, por vezes, uma verdadeira fortuna, mesmo que seja em Kwanzas. A brincar, dizemos que usam uns leques bem caros para afastar o calor. Apesar de tudo, não temem assaltos. Os poucos que há terminam quase sempre com a morte dolorosa do ladrão (e às vezes do kinguila).
Ao contrário das casas de câmbio oficiais, a cotação das várias moedas não está afixada. Na verdade, só trocam dólares e Kwanzas. Se nos bancos temos uma taxa que varia entre os 74 e os 75 kwanzas por dólar, os kinguilas, tal como os restantes vendedores, regateam os preços. Começam sempre por fazer o câmbio a 7400 – o negócio faz-se em notas de 100 dólares. Não anda longe da cotação oficial. No Jumbo, a casa de câmbios faz essa taxa. Depois de bem conversado, consegue-se subir para os 7500. A casa de câmbio aqui da rua faz-me a 7510. Se tiverem muitos kwanzas, podem mesmo subir até aos 7600 ou mais, mas é raro. A compra de dólares é sempre feita um pouco acima, pelo que vivem de margens entre os 200 e os 300 kz por cada 100 dólares trocados.
É dos poucos negócios onde não se praticam os preços de branco, porque se consegue negociar ao preço do banco. Ou, se calhar, os preços de branco são os dos bancos…
4
11
2008
Já anteriormente tinha gabado a calma da cidade ao fim-de-semana. Luanda transfigura-se. Passa a ser uma pacata cidade de província, com pessoas a conversar às esquinas, sem buzinas ou ânimos exaltados atrás dos volantes.
Quando os feriados calham num Domingo, são gozados na Segunda-feira seguinte, pelo que os fins-de-semana prolongados até são frequentes. Hoje foi um desses dias.
Acordei particularmente repousado, sem o barulho das máquinas da obra perpétua que decorre debaixo da minha janela.
Virei-me de barriga para cima e pus-me a contar os carros que passavam. Eram poucos. Ao terceiro, desisti. Estava aborrecido. Resolvi fazer ronha. Virei-me para o lado e apreciei o silêncio. Passou uma mota barulhenta. Voltou o silêncio. Fui adormencendo.
Algum tempo depois, pareceu-me muito, mas deve ter sido apenas um fechar de olhos, fui acordado com uns estalidos. A porta da varanda, a apanhar com o Sol directamente, dilatava e reclamava. Voltei-me para o outro lado. Fiz cócegas aos lençóis com os dedos dos pés. Abracei o colchão, pendurando as mãos de fora da cama. Virei-me, rebolei, espreguicei-me. Lá em cima estava a armação da rede mosquiteira, velando por mim. Uma mancha vermelha na parede e outra na rede faziam a vez de memorial aos mártires da malária. Cocei a barriga e lembrei-me de Fausto. Comecei a trautear a música e adormeci.
Farto de ronha, procurei a abertura na rede. Levantei-me. Fui à janela. Nada. Nem os pássaros se viam. Só a roupa a acenar nos estendais denunciava haver ainda gente em Luanda.
Que silêncio!
3
11
2008
Angola é um país de contrastes a todos os níveis. No meio da miséria vemos sorrisos abertos e crianças a dançar, ouvimos música e risadas. Por entre as valas, onde escorre o que já ninguém aproveita, há quem retire o seu sustento. No meio dos candongueiros ferrugentos surge um carro de vidros fumados e muitos cromados, pago a pronto em dólares. Na anarquia que é o trânsito, os semáforos são obedecidos e as passadeiras, largamente ignoradas, passam a ser respeitadas sempre que alguém estende a mão de fora da janela – crianças a atravessar!
Mas o pormenor mais surreal que encontrei até agora, é um programa de rádio inesperado. Na rádio Luanda Antena Comercial, há sete anos que é emitido um programa de uma hora semanal dedicado, imagine-se, aos Beatles! Um programa com sete anos é uma raridade em qualquer parte do mundo, especialmente com um tema tão específico. O certo é que, mesmo depois de esgotarem o reportório do quarteto várias vezes, agora passam gravações pouco conhecidas, concertos ao vivo e reportagem acerca dos Beatles todos os Sábados, das 18h às 19h.
O indicativo do programa é um excerto do Yellow Submarine e o programa tem o curioso nome de Submarino Angolano.
Esta terra, definitivamente, não pára de me surpreender.