Corre o boato de que em Angola se come Kizaka e Funge. Consta também que já comi disso algures.
A receita é um segredo bem guardado. Sempre que se pergunta como se faz, as mulheres riem-se. Não sei se é por ser branco e querer saber como se faz a comida angolana porque gostei do sabor, se é por ser homem e estar proibido pela tradição de me aproximar da cozinha ou se é por ser segredo de Estado, que tem de pagar imposto para ser exportado. Um pouco à semelhança da arte, que tem de levar um selo de autorização de saída.
O certo é que o mais próximo que estive de uma receita foi um sorriso envergonhado a acompanhar um «é fácil…». Mas daí não passou. Talvez seja daquelas coisas que nasce com as pessoas, que é óbvio como se faz, mas não se consegue explicar. Passamos pelo mesmo problema quando tentamos explicar a sensação de andar de mota.
Como as indicações que tinha eram muito vagas, resolvi inventar. Para a Kizaka, os ingredientes básicos são óleo de palma, folhas de mandioca, cebola, água e coisas indeterminadas. Talvez esteja redondamente enganado, mas parti daqui.

Óleo de palma no tacho. Talvez muito, talvez pouco.
Comecei a aquecer o óleo de palma. Como a cozinha angolana também se miscigenou com a portuguesa, as hipóteses de começar com um refogado são grandes.
Ainda havia umas granadas de gás lacrimogéneo no cesto. A Lucinda tem de começar a vender cebolas mais mansas.

Aspecto inofensivo.
Não há faca molhada, óculos ou outros truques que valham. A história que estas cebolas contam é sempre de ir às lágrimas.

Cebola picada e pronta a saltar para o tacho
O óleo de palma é mais discreto que o azeite quanto à temperatura a que se encontra, pelo que ia tendo uma surpresa quando lá pus a cebola. Nota mental: não demorar tanto a picar a cebola.

Refogado com óleo de palma, quem diria?
Como não encontrei folhas de mandioca à venda, nem sei bem como as hei-de escolher, optei por uma solução de recurso: uma lata de espinafres.

Pode não parecer, mas são folhas de mandioca
Não demoraram muito a ir para o tacho.

Mais um pouco de água e deixa-se apurar
Entretanto, deparei-me com um problema. O que seria o ingrediente secreto? O que seriam as coisas indeterminadas?
Abri o armário e procurei algo com um rótulo sugestivo. Encontrei várias latas de atum. Seria isto um bom candidato a coisa indeterminada?

Hmmm… acho que já estou a aldrabar demais…
Escorri o óleo, desfiz os pedaços maiores e deparei-me com uma tigela cheia de coisas.

Nem sei que diga…
Não pedi licença e juntei o atum, perdão, a coisa indeterminada às folhas de mandioca, à cebola e ao óleo de palma.

Valente mixórdia. Ainda me arrisco a passar fome
Uns minutos de tacho semi-destapado, só para evaporar alguma água, e o panorama era parecido com as kizakas que tenho visto.

Kizaka aldrabada
Como a kizaka não se come sem acompanhamento, e estava numa de cozinha angolana, deitei mãos à obra para tentar fazer um funge.
Os ingredientes já conheço, mas não sei as proporções. Arrisco outra vez.

Água a ferver
O funge é farinha de mandioca, milho, batata-doce ou outra, cozida. Nada mais. Tem muitas vitaminas mas, acima de tudo, enche a barriga.

Fubá de bombo
Serão estas as proporções? Não eram, tive de acertar a farinha e a água algumas vezes, até conseguir algo parecido com o funge que já comi.

Depois de batido, consegui um funge com borbulhas
O funge tem de ser muito bem batido ou então fica com grumos, a que se chamam borbulhas. O processo habitual é segurar a panela entre os pés e, sentados, tentar furar o fundo usando um pau comprido.
Como não tinha pau-do-funge, nem me apetecia sentar no chão, acabei por usar uma colher de pau e suei as estopinhas para conseguir um funge demasiado líquido e com borbulhas… Estava destinado a comer do meu veneno.
Depois de juntar a kizaka ao funge, até nem parecia uma imitação barata. Provei e recomendo!

Et voilá!