Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

28  10 2008

TAAG

As atribulações da companhia aérea de bandeira angolana com as autoridades europeias são já sobejamente conhecidas. A habitual arrogância com que Angola encara críticas, esperando que se adaptem as leis internacionais à realidade angolana e não o contrário, apenas tem dificultado mais o processo de certificação da TAAG que a autorizará a voar para a Europa de novo.

Tudo o que um estrangeiro possa dizer de Angola é passível de ser mal-interpretado e distorcido, por isso, mais não digo, com receio de que tudo isto seja lido e interpretado como o devaneio de um estrangeiro branco em Angola. Na verdade, prefiro ser apenas porta-voz do que os angolanos pensam da situação da TAAG, que reconhecem haver uma certa desorganização e informalidade na maneira como a companhia opera.


Pintem os aviões de azul-e-branco…
in: Semanário Angolense nº286

Eu, da minha parte, sempre voei para Angola pela TAAG. É certo que eram aviões fretados à South African Airways, mas o resto era tratado pela empresa angolana. À excepção de atrasos nas bagagens e alguma dificuldade em confirmar reservas, não tenho queixas do serviço.


27  10 2008

Mistelas

Corre o boato de que em Angola se come Kizaka e Funge. Consta também que já comi disso algures.

A receita é um segredo bem guardado. Sempre que se pergunta como se faz, as mulheres riem-se. Não sei se é por ser branco e querer saber como se faz a comida angolana porque gostei do sabor, se é por ser homem e estar proibido pela tradição de me aproximar da cozinha ou se é por ser segredo de Estado, que tem de pagar imposto para ser exportado. Um pouco à semelhança da arte, que tem de levar um selo de autorização de saída.

O certo é que o mais próximo que estive de uma receita foi um sorriso envergonhado a acompanhar um «é fácil…». Mas daí não passou. Talvez seja daquelas coisas que nasce com as pessoas, que é óbvio como se faz, mas não se consegue explicar. Passamos pelo mesmo problema quando tentamos explicar a sensação de andar de mota.

Como as indicações que tinha eram muito vagas, resolvi inventar. Para a Kizaka, os ingredientes básicos são óleo de palma, folhas de mandioca, cebola, água e coisas indeterminadas. Talvez esteja redondamente enganado, mas parti daqui.


Óleo de palma no tacho. Talvez muito, talvez pouco.

Comecei a aquecer o óleo de palma. Como a cozinha angolana também se miscigenou com a portuguesa, as hipóteses de começar com um refogado são grandes.

Ainda havia umas granadas de gás lacrimogéneo no cesto. A Lucinda tem de começar a vender cebolas mais mansas.


Aspecto inofensivo.

Não há faca molhada, óculos ou outros truques que valham. A história que estas cebolas contam é sempre de ir às lágrimas.


Cebola picada e pronta a saltar para o tacho

O óleo de palma é mais discreto que o azeite quanto à temperatura a que se encontra, pelo que ia tendo uma surpresa quando lá pus a cebola. Nota mental: não demorar tanto a picar a cebola.


Refogado com óleo de palma, quem diria?

Como não encontrei folhas de mandioca à venda, nem sei bem como as hei-de escolher, optei por uma solução de recurso: uma lata de espinafres.


Pode não parecer, mas são folhas de mandioca

Não demoraram muito a ir para o tacho.


Mais um pouco de água e deixa-se apurar

Entretanto, deparei-me com um problema. O que seria o ingrediente secreto? O que seriam as coisas indeterminadas?

Abri o armário e procurei algo com um rótulo sugestivo. Encontrei várias latas de atum. Seria isto um bom candidato a coisa indeterminada?


Hmmm… acho que já estou a aldrabar demais…

Escorri o óleo, desfiz os pedaços maiores e deparei-me com uma tigela cheia de coisas.


Nem sei que diga…

Não pedi licença e juntei o atum, perdão, a coisa indeterminada às folhas de mandioca, à cebola e ao óleo de palma.


Valente mixórdia. Ainda me arrisco a passar fome

Uns minutos de tacho semi-destapado, só para evaporar alguma água, e o panorama era parecido com as kizakas que tenho visto.


Kizaka aldrabada

Como a kizaka não se come sem acompanhamento, e estava numa de cozinha angolana, deitei mãos à obra para tentar fazer um funge.

Os ingredientes já conheço, mas não sei as proporções. Arrisco outra vez.


Água a ferver

O funge é farinha de mandioca, milho, batata-doce ou outra, cozida. Nada mais. Tem muitas vitaminas mas, acima de tudo, enche a barriga.


Fubá de bombo

Serão estas as proporções? Não eram, tive de acertar a farinha e a água algumas vezes, até conseguir algo parecido com o funge que já comi.


Depois de batido, consegui um funge com borbulhas

O funge tem de ser muito bem batido ou então fica com grumos, a que se chamam borbulhas. O processo habitual é segurar a panela entre os pés e, sentados, tentar furar o fundo usando um pau comprido.

Como não tinha pau-do-funge, nem me apetecia sentar no chão, acabei por usar uma colher de pau e suei as estopinhas para conseguir um funge demasiado líquido e com borbulhas… Estava destinado a comer do meu veneno.

Depois de juntar a kizaka ao funge, até nem parecia uma imitação barata. Provei e recomendo!


Et voilá!


26  10 2008

Mudanças

Uma das primeiras coisas que mostrei quando cheguei a Angola foi a vista da janela do meu quarto.

Durante meses contemplei o todo-o-terreno sem uma porta, o lixo que escorregava pela encosta e os esgotos que formavam charcos num dos lados do lote desocupado onde as crianças jogam à bola.

Meses a fio vi o lixo crescer em montes coloridos. As crianças continuavam a jogar à bola, alheios ao monstro. No prédio acima, as mesmas lâmpadas fluorescentes acesas dia e noite.

Julguei que seria sempre assim. E foi, até ao dia em que a lâmpada azul deixou de acender. Ninguém a mudou, mas a outra continua a funcionar. O resto ficou na mesma. Talvez mais lixo, já nem sei. A certa altura já nem vemos o lixo. Está lá, mas parece que aquela confusão de cores dos plásticos rasgados e embaraçados já não estimula o cérebro. É o valor médio que temos de subtrair para obter as diferenças.


Foi assim que conheci este lote vazio

Entretanto fui de férias. Estive duas semanas longe de Luanda. Esperava encontrar tudo na mesma quando voltasse. Se durante quatro meses nada mudou, porque razão haveria de mudar nestas duas semanas.

Na primeira manhã em Luanda, espreitei pela janela. A lâmpada azul continuava fundida. A branca aguentava-se. Os miúdos corriam atrás de uma bola que, de tantas vezes ir parar ao charco fedorento, está muito suja. O lixo continuava a escorregar pela encosta. Aparentemente, tudo igual. No entanto, tinha a sensação de que algo estava diferente…

O carro sem porta tinha desaparecido! Era isso! Fiquei mais descansado.

Uns dias depois vejo dois infelizes, de fato-macaco verde e vassouras na mão, a empurrar o lixo da encosta cá para baixo. O monte de lixo, que tinha vindo a engordar ao longo dos tempos, dava-lhes pelo joelho. Empurravam sacos e latas para o campo do jogo da bola. Não o faziam com muito vigor, mas o lixo amontoava-se cá em baixo. Não lhes invejei a sorte. Havia ali umas valentes toneladas de porcaria.

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Há que começar por algum lado

Uns minutos depois, aparece uma pá carregadora, que arrastava o balde pelo chão, recolhendo o lixo. Depositava-o num atrelado que se escondia atrás do prédio vizinho. Mais cantoneiros surgiram, empurrando o lixo.

261008-0000-mudancas2 Parece bem encaminhado

Quando regressei do trabalho, as crianças jogavam à bola com a lâmpada e o charco a assistirem. O lixo deixou só o lugar. Ainda há quem não tenha perdido a esperança na luta contra o lixo. Mesmo que tenha demorado uns meses valentes, agora tem tudo outro aspecto. Um lote já está, agora é continuar!

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Trabalho concluído


25  10 2008

Xiiiiiii…. PUM! Azelha!

Em Luanda o trânsito não flui, vai escorrendo. Para todos os lados há engarrafamentos e os carros andam encostados uns aos outros. Circula-se em primeira durante a maior parte do tempo. Os luandenses são os reis do ponto de embraigem!

Mas às vezes surge um troço de estrada livre. Pode variar entre os dois metros e os vários quilómetros. Condutor de Luanda que se preze não pode deixar de acelerar a fundo, nem que seja para testar os travões uns segundos mais tarde.

Como o clima é quente, o asfalto nunca chega a solidificar verdadeiramente. Ganha ondulações num instante, mas está sempre demasiado liso e os pneus não agarram bem. A qualquer travagem se ouvem pneus a chiar. E muitas das vezes terminam com um toque no carro da frente e uns insultos de parte a parte.


Correntes de neve em Luanda? Proibido buzinar?

É óbvio que a interpretação que cada um faz do código é muito subjectiva. Esta subjectividade parte da própria cidade, por isso não podemos só acusar os condutores. Todos os que cá conduzem sabem que há ruas de sentido único não sinalizadas e manobras ilegais ou não consoante a hora do dia ou da cor do carro (e condutor, diga-se).

O certo é que há muitos acidentes. Na sua maioria não passam de toques, espelhos partidos ou portas metidas dentro. Nas ultrapassagens de filas compactas, também é frequente ver uns radiadores a verter depois de um embate frontal.


Publicidade com público-alvo?

Os candongueiros, em grande parte condutores kamikase, entram na sua quota-parte de acidentes. Geralmente pouco graves, embora com grandes discussões e regateio de reparações.

Habitualmente não há vítimas mortais ou feridos que não saiam pelo seu próprio pé dos carros. Não percebo muito bem o fenómeno.


Agora espera-se por quem nos reboque

Os automóveis que não voltam a andar costumam ficar abandonados onde morreram. Se for no meio da estrada, que seja. Alguém se encarregará de os empurrar para a berma ou de os ir desmontando aos poucos.


Ficou aqui duas semanas

Os acidentes com pesados são sempre mais aparatosos. Culminam quase sempre com a destruição completa de veículo e mercadoria.


Nem a cisterna escapou

Fora da capital, há menos acidentes com ligeiros. Aqui são os pesados as estrelas da sinistralidade. Apesar da velocidade máxima permitida para os pesados ser de 80 km/h fora das localidades, é raro vê-los a circular abaixo dos 120 km/h. A estas velocidades, se batem, o condutor raramente escapa.


À saída de Viana. Escapou a carga.


24  10 2008

Luzes de Luanda

Luanda, essa terra de contrastes, até de noite surpreende.

É um pouco estranho ver crianças descalças a usar os esgotos que correm nas ruas como rios para lançar os seus barquinhos feitos com garrafas de plástico, lado a lado com jipes de várias dezenas de milhar de dólares.

À noite, as crianças desaparecem e os jipes, cheios de cromados e luzes coloridas deslocam-se para o parque de diversões. Onde poucas coisas funcionam com normalidade e tudo é caro, há um Luna-park cheio de luzes a trabalhar. Luanda tem cada contraste…

Outro contraste interessante é que, paredes-meias com o local de diversão nocturna, está um templo evangélico. Religião-espectáculo ao lado do espectáculo da fé na integridade estrutural da roda gigante.

A escuridão de muitas ruas da capital é exactamento o oposto do que se passa nos vários templos do Edir Macedo, com luzes fortes e salões brilhantes. Milagre da fé! Ou dos geradores, porque é preciso contar com as falhas…


A sumptuosidade do templo contrasta com a pobreza dos fiéis.


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