19
10
2008
Agora que me estava quase a habituar às férias é que se acabam…
A mala já está fechada e as despedidas já estão a ser ensaiadas. Sei que esta foi a fase mais dífícil. O primeiro período em Angola permitiu calibrar as expectativas e as próximas temporadas vão custar menos.
Partir para o desconhecido e não saber muito bem como se supera a distância e o tempo longe do que nos é familiar é complicado, mas as férias de vez em quando ajudam.
Há que aproveitar os últimos bocadinhos!

Recordações
18
10
2008
O melhor remédio que há para curar as saudades da civilização e reavivar as memórias dos pormenores da cidade com a luz mais bonita do mundo, é dar uma voltinha por Lisboa.
Há milhares de pormenores que habitualmente passam despercebidos, mas só quando não os temos por perto é que sentimos a sua falta.

Ferro forjado em Telheiras
A arquitectura que enche Luanda aparece também nas Avenidas Novas. As varandas e as cores que me recordavam Lisboa, revi-as de perto, apreciei-as como não o fazia há muito tempo.

Avenida de Roma
Os edifícios que foram ignorados durante anos têm tido mais atenção. As fachadas são pintadas, as cantarias limpas e novos inquilinos ocupam os andares.

Avenida de Roma
Mas a História de Lisboa não começa nos anos 1940. Onde melhor podemos apreciar a luz que traz fama à cidade é na Baixa, rodeados de velhas pedras que assistiram a tanta coisa.

Terreiro do Paço
A cada esquina temos relances do que há mais para ver. E quando lá chegamos, espreitamos para outra rua e somos atraídos para algo novo.
Já percorri aquelas ruas centenas de vezes, mas desta vez pareceu-me especial. Apeteceu-me comprar um guia turístico e tudo.

D. Pedro IV
Pude relembrar a história da estátua do Imperador Maximiliano do México, que, quando este caíu em desgraça, foi comprada e usada para honrar D. Pedro IV. Por isso o pedestal é tão alto. Ainda se pode adivinhar a emenda que um dos braços sofreu para lhe retirar o ceptro imperial.
Já sei porque sou um unhas-de-fome. Está-nos no sangue. Até compramos estátuas à sucata…

Tradição
Os beirados arranjados e contrastar com um céu azul são a moldura perfeita para as ruas com ambiente calmo, onde mímicos executam a sua arte para os turistas.

Ventania
Mas aquilo que mais gosto, é de procurar os pequenos pormenores, aquelas coisas que passam despercebidas, mas que são essenciais para compôr a atmosfera da cidade.

Igreja da Graça
Entrei pela primeira vez na Igreja da Graça. Achei-a parecida com a de São Domingos, na Baixa. Esta não ardeu, mas tem a mesma atmosfera.

Calma
Por ser ao final do dia, as sombras que se alongavam lá fora conseguiam chegar ao interior, espereitando pelas janelas e vitrais. Os poucos fiéis partilhavam o espaço com igual número de turistas.

Fim de tarde
De regresso à Baixa, fui ver como estava a fachada da Estação do Rossio, que esteve fechada anos a fio, para obras de recuperação. Está com bom aspecto.

Recebendo os passageiros
O velho casario nas traseiras da estação, a caminho do Carmo e do Bairro Alto, também está mais cuidado do que há uns anos.

Calçada do Carmo
O ritmo decresce ao fim do dia. Os pombos e as pessoas desaparecem. O jantar avizinha-se e só mais tarde é que começa a vida nocturna.

Prelúdio para a noite.
Este lavar de olhos vai-me acompanhar nos próximos meses de Angola!
17
10
2008
Em Portugal, depois de muitos anos a maltratar o património que serviu de pano de fundo à História, começou-se, finalmente, a olhar por ele.

Palácio de Belas (séc. XI)
Não são obras de vulto que refiro, são os pequenos retoques que impedem a degradação das coisas. Às vezes resumem-se a uma limpeza e uma pintura, mas são o suficiente para afastar o ar de abandono que já começava a ser habitual.

Mãe d’Água da Serra de Carnaxide (séc. XVIII)
As igrejas já deixaram de ser decoradas com as luzinhas de Natal e cada paróquia se esforça por mostrar o que de melhor tem. Até as obras de gosto duvidoso se tornaram mais raras. A conservação ganhou.

Igreja de Porto Salvo
Não são só as velhas pedras dos monumentos que têm sido cuidadas. Alguns edifícios mais recentes, sem pó e com as mazelas tratadas, devolvem um ar digno às terras e demonstram que o futuro do património nem sempre é a ruína.

Belas
E se a degradação atrai a degradação e o vandalismo, a conservação pode ter o efeito contrário, não é? Espero que sim!
16
10
2008
Nos últimos dias tenho retomado o contacto com os que deixei na metrópole. Todos me pedem novidades, querem saber como me estou a adaptar, se estou a gostar.
É óbvio que acabei por repetir muitas vezes as mesmas palavras. E, de cada vez que as dizia, ouvia-as. De tanto as ouvir, passei a prestar mais atenção ao seu significado. Porque teria eu escolhido aquelas palavras? Porque não outras?
Se é verdade que aprendemos mais quando ensinamos, consolidei o que já conheço de Angola de cada vez que descrevia a minha experiência de expatriado.
Porque me fartei de citar os maus exemplos, a pouco e pouco, dei por mim a odiar Angola e a sua arrogância oficial mesquinha, o racismo omnipresente e as retaliações terceiro-mundistas de um país que ainda não pode servir de exemplo para muitas coisas.
Venho mais branco. Por fora e por dentro. Por fora porque não tenho apanhado Sol. É ridículo, mas fui para África e volto menos queimado do que se estivesse cá. A insegurança leva-nos a ficar mais fechados nos nossos casulos – a casa e o carro. Os dias passam-se a trabalhar dentro de quatro paredes e o Sol só o vemos de manhã ou ao fim da tarde.
Venho mais branco por dentro porque a todo o momento sou recordado da minha condição de Pula, de representante do colono, de laton. O racismo que se respira em Angola é terrível e contagioso, da mesma maneira que sou visto como um mealheiro com pernas, às vezes dou por mim a pensar «pretos dum raio…»
No esforço para mostrar que não há racismo em Angola, há quem aponte que dos cinco escritores angolanos mais lidos, dois são pretos, dois são brancos e um é mestiço. Não seria mais simples dizer que são cinco escritores angolanos?
Maus exemplos há em todo o lado, concluí. Em Angola há gente boa e gente menos boa. Oportunistas e vigaristas. Corruptos e honestos. Tal como noutras paragens, são sempre os maus exemplos que se destacam.
Depois de uns dias a odiar Angola e todas as suas coisas más, caí em mim. Não me posso focar nos podres. Tenho de passar a apreciar mais os frutos doces de uma terra maravilhosa que, como tudo, tem as suas imperfeições. Tenho de deixar de encolher os ombros de incredulidade com os complexos de inferioridade africanos que se traduzem em prepotência. Em vez de escolher as palavras negativas, de relatar os polícias que se subornam com 500 Kwanzas ou das burocracias supra-kafkianas, tenho de passar a usar as que mostram os bons exemplos. E depois talvez dê por mim a pensar na razão que me levou a escolher aquele bom exemplo e não outro qualquer.
Os técnicos angolanos lá da empresa são o nosso orgulho. São a prova de que a próxima geração não está perdida. Sempre que penso neles, retomo a esperança no país. Sinto-me com vontade de lutar pela terra que é deles.
Os esforços desenvolvidos na reconstrução nacional, mesmo que às vezes envoltos num faraonismo inconcebível, hão-de dar frutos. As estradas que se vão recuperando de forma expedita e pouco duradoura irão aumentar os níveis de exigência das populações, que não aceitarão que a situação volte ao tempo da guerra. Uma vez reaberta a estrada, terá de ser mantida.
África marca fundo. É uma experiência de vida incrível. Lá não há situações a preto e branco, nem mesmo no racismo. Tudo são matizes e gradações. Uma aparência simples esconde complexidades extraordinárias. Começo a compreender os que falam dela com o olhar no infinito e o coração cheio de saudade. Os poucos meses que lá passei já me mudaram. Sei que sou diferente do que fui.
Angola, terra de contrastes. Até no meu âmago me deixa dividido.
15
10
2008
A liberdade ortográfica angolana é muitas vezes motivo de interesse. As palavras ganham ou perdem letras conforme as necessidades.
A habitual descontracção face aos problemas mecânicos dos automóveis e subsequentes soluções engenhosas aplica-se também à maneira como se enfrentam as dúvidas ortográficas.
Há quem ache sinal de ignorância ou de estupidez. Julgo que seja ao contrário. É melhor que a mensagem passe do que ficar presa numa indecisão da escrita. Como dizia um professor meu, quando vemos escrito «xourisso» não lemos linguiça…
Não se julgue que só em Angola é que vemos as marteladas na ortografia das palavras. Lá os erros poderão ser mais frequentes, mas cá também os há. Aliás, cá nasceu a língua que exportámos para África. É natural que os erros também tenham tido o mesmo caminho.

Pelo menos sei o que querem dizer
A grande diferença que noto é a falta de graciosidade nos letreiros. Sinto falta do toque do artista pintor, que decora a fachada do estabelecimento com mestria. Por cá uma folha de papel basta.

Whisky é estrangeiro, tem desculpa