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10
2008
Depois de muitos meses de cacimbo em Luanda, com céus cinzentos e o Sol escondido, já começava a sentir saudades do clima português.
A voltinha pelo Alentejo serviu para voltar a ver um pôr-do-Sol a sério, daqueles em que o horizonte esconde a bola de fogo que deixou o céu cor de fogo.
No segundo dia, a chuva fez-nos companhia até Vila Viçosa. Depois foi-se embora, despedindo-se com um arco-íris duplo.

A dobrar é bem melhor
Uns minutos depois, veio um céu azul com nuvens de postal ilustrado. A maneira perfeita de apreciar o final do dia que se aproximava.

Farrapos brancos
Um dos meus assuntos favoritos para fotografar são portas. Essas máquinas espantosas que fazem a ligação entre o mundo exterior e a vida privada. Em Angola não o tenho podido fazer, embora haja lá muitas que mereçam ser fotografadas. Ter de espreitar por cima do ombro antes de enquadrar a fotografia não é a melhor maneira de apreciar a porta.
Felizmente que aqui não preciso de ter tantos cuidados e há muitas portas bonitas.

Porta do Sol
A luz do fim do dia, com um céu límpido e tudo lavadinho pela chuva, empresta um ar mágico às velhas pedras do castelo bem cuidado.
Os calipolenses têm orgulho na sua Vila Viçosa e o estado dos monumentos da vila é espelho disso.

Nas ameias
Do cimo das ameias temos um horizonte quase infinito. Noto algumas semelhanças com as paisagens angolanas, que parece nunca acabarem. No entanto, temos a sensação de que aqui é diferente. O suave ondular dos montes até à linha azulada que toca nas nuvens diz-nos que aqui não há embondeiros nem terras vermelhas.

Paisagem calipolense
O Alentejo é sempre um lavar de alma. Tudo faz sentido. As coisas funcionam como devem e sem sobressaltos. A famosa preguiça alentejana não é preguiça. É um ritmo constante e seguro, que se ajusta à paisagem. É mantendo esta cadência que se consegue falar a cantar e ter gestos que poderiam ser uma dança. É um ritmo que nasce com todos os alentejanos e se sente quando se sentam no café, provando uns petiscos e conversando em cante.
É este ritmo que faz as pessoas gostar das suas ruas e praças como das suas casas. Não atiram lixo para o chão. Não escrevem nas paredes. Tão diferentes dos angolanos médios.
Por vezes penso se toda a azáfama do mundo moderno não é um esforço inglório. Tentar cumprir prazos impossíveis, correr, correr e depois terminar tarde, com muitas coisas para corrigir. Porque não optar pela sabedoria milenar dos alentejanos, que são os herdeiros de todos os povos que por cá passaram e se apaixonaram pela terra. As coisas têm um ritmo delas. Pode parecer lento, pode parecer que não se chega a lado nenhum, mas é preciso ir fazendo. Como o varredor que admiro em Luanda, que varre dez centímetros de cada vez, o que importa é manter o ritmo. Os quilómetros que faltam varrer não importam. O que interessa é que estes dez centímetros já estão limpos.

As sombras
O lusco-fusco tropical é breve. Ora está um dia radioso, ora está uma noite cerrada. No princípio do Outono, com o Sol já baixo no horizonte, o lusco-fusco alentejano dura algumas horas. As sombras movem-se lentamente pelas fachadas e pelas ruas. Revelam detalhes que são invisíveis durante o resto do dia.
Já tinha saudades de ver sombras. Em Luanda, com o cacimbo, não há sombras. Uma luz uniforme invade todos os recantos e ilumina as esquinas. O Sol só está baixo ao final do dia e apenas por alguns minutos. As sombras correm e a noite invade tudo enquanto piscamos os olhos…

As sombras
Não há tempo para apreciar as coisas mais singelas, como um contraluz num céu de fim de dia. Quando reparamos nele, já acabou.
Esta visita ao Alentejo mostrou-me que tudo isto ainda existe. Sei que a grandeza de Angola também se revela na imensidão das paisagens monótonas e que contrasta com a imensa variedade de paisagens deste recanto a que chamo Pátria.
Portugal é pequenino, mas tão variado!

Lusco-fusco
13
10
2008
Afinal não.
Quando me mudei para este primeiro andar das Ingombotas, passei algumas noites mal dormidas por causa de umas obras de Santa Engrácia debaixo da janela.
Durante umas semanas tive chineses e brasileiros a abrir uma vala de cada lado da rua e a repavimentar as bermas. Só trabalhavam de noite, porque de dia o trãnsito não podia parar. No final da obra lá perceberam que o trânsito tinha mesmo de ser cortado ou então nunca mais acabavam mas, no entretanto, pegavam perto da meia-noite e largavam um pouco antes das seis, para não serem alvo da ira de gente com olheiras e mau humor.
Lembro-me de ter achado bizarro que se tivesse recuperado uma faixa de um metro de largura de cada lado e que os lancis continuassem partidos. Já tinham reabilitado passeios noutras ruas, mas parecia que se tinham esquecido da nossa.
Parecia, porque não esqueceram. Três meses depois, a sinalização provisória e as proibições de estacionamento regressaram. Começaram a partir os lancis antigos para dar lugar aos novos. E sim, tal como em Portugal, a primeira coisa que fizeram foi rebentar com a faixa de asfalto nova. Já nem pergunto porquê. Tal como o sonho, é uma das constantes da vida. Asfalto novo implica vala nova!
Mas por falar em constantes da vida. Parece que as constantes da vida são mutuamente exclusivas. Não consigo sonhar quando, às duas da matina, está um senhor a manobrar, cheio de mesuras, um martelo pneumático. Felizmente que partir o que está feito é rápido e num ápice foi incomodar outras janelas.
Suspirei de alívio e virei-me para o outro lado. Agora podia dormir em paz. O barulho já tinha acabado. Pensava eu.
Nem dez minutos se passaram até chegar um carro com o rádio em altos berros. Música cheia de batuques e letras de ganstâ com bwé d’estilo. Estacionou no lugar que antes estava ocupado pelo lancil. Os passageiros saíram e ficaram o resto da noite a beber cervejas em frente ao salão de jogos, o tal que fica debaixo da minha janela, e a ouvir o rádio do carro. Como a música estava alta, gritavam uns com os outros. Que mal fiz eu? Foram-se embora às cinco e meia. Levantei-me às sete…
Desta vez nem fui capaz de apreciar as propriedades hipnóticas do leite em pó. Já o misturo de olhos fechados. Uma colher de açúcar, duas de café, duas de leite e água q.b. Um minuto no micro-ondas e depois é só beber.
Quando saí, havia latas de Cuca por todo o lado. Entre a porta do prédio e o carro, que estava mesmo em frente, contei dezasseis! Mais haveria, mas as olheiras não as deixaram ver.
12
10
2008
A relação de Angola e dos Angolanos com Portugal e com os Portugueses é algo de muito esquisito.
Por um lado, há um ódio institucional à potência colonial, ao colono e a tudo o que remeta para os cinco séculos que antecederam 1975. Muitos Angolanos dizem que o colono era feio, mau e comia criancinhas. Alguns dizem mesmo que Angola só está assim, neste buraco, por causa do colono, que só cá veio roubar.
Por outro lado, dizem-me que no tempo do colono é que as coisas funcionavam. Que não havia assaltos nem bandidos. Que, nessa altura, Luanda estava limpa e a electricidade não faltava todos os dias. Dizem-me que os Portugueses calculavam tudo e que as casas não caíam.
Portugal continua a ser uma referência para muitas coisas. Os restaurantes em Luanda quase todos servem comida portuguesa. O vinho é considerado bom se vier de Portugal, mesmo que seja o pior carrascão do mundo. Para temperar a comida, é frequente ver latas de azeite e óleo com a inscrição “Tempero Português”. Os supermercados abastecem-se de produtos portugueses e, às vezes, sul-africanos.

Carrascão Tuga
Há Angolanos que foram doutrinados desde pequenos a odiar Portugal e o tempo colonial. A sua maioria tem agora perto de vinte anos. Sabem de cor e salteado todas as atrocidades cometidas pelos portugueses desde que Diogo Cão chegou ao Rio Congo e são incapazes de apontar coisas boas. É um pouco à semelhança daqueles que apenas são capazes de apontar os defeitos do regime de Salazar.
Os mais velhos são críticos dos dois períodos. Apontam defeitos e virtudes ao regime colonial e à Angola independente. Falam dos contratos, que roçavam a escravatura. Falam da falta de condições actual. Lamentam que a política se tenha sobrepujado ao bem-estar das pessoas.
Durante a campanha eleitoral, havia uma candidata, a “Mamã Coragem”, que fazia uns discursos saudosistas do passado, elogiando o tempo colonial e criticando o Governo. Dizia que, se os angolanos soubessem como era a vida no tempo colonial, se revoltariam por viver no meio do lixo e da pobreza. É uma figura histórica da libertação de Angola e acabou por não ser eleita. Talvez tenha sido demasiado incómoda.
Depois da Independência, muitas cidades mudaram de nome. As cidades brancas ficaram com o nome das cidades negras que as rodeavam. Algumas passaram a ser chamadas pelos dois nomes. A ordem com que são referidos ainda é um pouco aleatória.
O Português, como branco, é visto como explorador. Como Português, é um símbolo de tempos menos difíceis. É uma dicotomia interessante…
Mas, às vezes, no meio de tanto mal-dizer do colono, há coisas que me deixam boquiaberto. O antigo governador da província de Cabinda foi destacado para o Bié, no interior. Lançou uma campanha de obras para recuperar a cidade do Cuíto, que foi destruída na guerra de 1992-2002. Em Outubro de 2002, o Presidente da República foi lá ver o andamento das obras. Fez um discurso onde prometeu que o Cuíto havia de voltar a ser como Silva Porto! Em que ficamos, Zé Dú?

in Semanário Angolense nº281
11
10
2008
Quase a cair para o outro lado do Guadiana, onde Espanha diz já não ser Portugal, mas onde os Oliventinos são orgulhosos do seu passado Português, está o Castelo da Juromenha.
Como tantos outros, o seu estado não é famoso e só a reconstrução para a comemoração do centenário o deixou com um ar mais viçoso.

A marca da campanha
Um baluarte com duas igrejas e várias construções em estado de conservação variável. Algumas com um ar habitável e pormenores interessantes. Outras são pedaços de História com muitas histórias.

Transpondo o portão principal
A Igreja Matriz sofreu obras de conservação. Puseram-lhe um telhado novo e começaram a limpar as coisas antes que se degradem mais. É uma bela surpresa transpor a porta lateral e entrar numa atmosfera de penumbra com umas colunas inesperadas.

Pedras seculares
A subida até à torre sineira não é fácil. Muitos degraus estão em falta e às vezes é preciso dar um passo quase maior que a perna.

O Guadiana ao fundo
Depois da visita ao castelo, veio o almoço, onde se pode matar as saudades de bacalhau!

Até comi o feijão verde
10
10
2008
Ai vou, vou.
Ao fim de quase quatro meses voltei ao ginásio. Foi só para matar saudades, mas tinha de vir fazer umas aulas daquelas boas, mesmo boas.
Na primeira hora, Powerjump. As saudades do trampolim eram muitas e quase me faziam esquecer que a falta de treino se paga com a bela da dor-de-burro. Faixas bem escolhidas fazem a diferença!
Uma horinha de intervalo e depois o Body Combat (Mortal Kombat, como lhe chama o Lopes). Novamente uma excelente aula da Vanessa, com aquelas músicas mais antigas, que nos fazem recordar movimentos e permitem ir piscando o olho a quem sabe aquilo tudo de cor-e-salteado.
Agora sinto-me um pouco maçado. Ou se calhar, amassado. Amanhã é que vão ser elas. Vou andar pelos cantos todo torcido e a resmungar sempre que mexer uma perna.
No entanto, os treinos a solo que tenho feito lá em Luanda têm compensado. Não ando a tentar acompanhar as coisas como quem nunca fez ou já se esqueceu.
Para a semana há mais. Depois vai ser mais um longo jejum…
Mas tudo isto é compensado pelo facto de poder fazer companhia à Mais-que-tudo. Isso e de lhe estar sempre a perguntar quando é que ela aceita a proposta indecente dos professores…