9
10
2008
Luanda, terra dos buracos e da lama, é também a terra dos todo-o-terreno. É compreensível. Um todo-o-terreno comporta-se melhor nos buracos. Não é à toa que o carro preferido dos luandenses seja o Toyota Rav 4. É aqui que acaba o bom-senso. É que esta é também a terra das jantes especiais, de preferência cromadas, daquelas que se deformam e partem quando entram num buraco mais fundo.
Luanda, terra em que se circula sempre em primeira velocidade ou não se circula de todo, é também a terra dos motores V6 a gasolina, com muitos litros de cilindrada. Já que não se vai a lado nenhum, ao menos que se vá com estilo. É também a terra dos pneus de baixo perfil, concebidos para andar depressa ou, no caso de Luanda, para melhor realçar a jante cromada que se acabou de amolgar no buraco.

A cinco quilómetros por hora…
Aliás, carro de angolano que não tenha cromados, nem sequer pode ser considerado carro. Será talvez uma carroça, com um burro lá dentro, na melhor das hipóteses. O carro de sonho do luandense tem jantes cromadas, espelhos cromados, grelhas cromadas nos faróis, frisos cromados, vidros fumados com autocolantes cromados e aplicações cromadas no interior. É o fenómeno bling-bling, importado dos videoclips da MTV. Se os candongueiros não tivessem de andar de azul e branco, aposto que já havia uma frota de iáces pretas e cromadas com jantes de raios de 18″ e pneus mais largos.
Não é por nada, mas continuo a sentir-me arrepiado quando vejo um Range Rover com pneus de baixo perfil e jantes cromadas de 24″. Serve para quê? Contornar delicadamente todas as irregularidades da estrada? No entanto, por estes lados, a qualidade de um carro é proporcional ao tamanho das jantes, cromadas, claro.

Contra-senso
8
10
2008
Para calar um pouco as saudades deste país de que tanto gosto, viemos dar um passeio até ao Alentejo profundo.
Algumas paragens para abastecer depósitos, estômagos e espíritos forma necessárias. E todas elas foram boas. Até mesmo pagar gasóleo a um preço de fugir – me fez lembrar o desperdício de energia em Angola, com combustíveis baratos.
A caminho do almoço, pude conduzir numa auto-estrada, essa invenção que entorpece os sentidos pela sua monotonia. Mas não tinha buracos nem azuis-e-brancos a circular pela berma ou a fazer manobras esquisitas.

Para sul
E é tão bom saber que basta esticar o braço para dar um carinho à Mais-que-tudo!
Primeira geocache em Pegões. Como prometi elogiar as boas e reclamar das más, esta é filha de um cabresto. Tal como a seguinte, já em Montemor.
Seguimos até Borba, a vila branca. Pelo caminho voltei a ver céus azuis, com nuvens brancas em farrapos finos. Voltei a ver um pôr-do-Sol que deixa o céu vermelho e nos cega pelos espelhos. A luz do fim de tarde criou muitas oportunidades para fotografias espantosas. Algumas das quais deixei passar por estar demasiado embriagado com o que me rodeava.
Ao contrário de Luanda, aqui as coisas têm o seu ritmo secular ainda afinado. Não há correrias nem pressas. À medida que nos afastávamos da cidade, as velocidades médias foram diminuíndo e o pedal da embraiagem descansando cada vez mais.
A Pensão Inaramos, onde já estive há mais de quatro anos, fez obras. A velha porta de madeira verde foi substituída por uma de alumínio e vidro. O Sr. Jorge continua a estar ao cimo das escadas a assustar os clientes. É cego e tem a recepção sempre às escuras. Esta pensão é uma pequena jóia. Não pode ter mais de uma estrela porque tem muitas escadas, mas tem condições para merecer mais umas quantas.
Fica de frente para uma das portas da muralha do velho castelo de Borba, isto é, do quarto até à próxima geocache são cerca de 40 metros… nada mau.
O jantar voltou a ser na cervejaria Arado, onde a sopa tinha outra vez massa. Ao contrário do choco em Setúbal, demasiado salgado, aqui tudo estava excelente.
Que saudades que tinha destas estradas a perder de vista, dos montes no cimo dos montes e das searas que fingem ser o mar e escorrem por entre as árvores.
Amanhã vai ser dia de cansar o dedo a tirar fotografias. A luz de Outono é fantástica e a terra também!
7
10
2008
Os candongueiros da Sambizanga fizeram greve!
Era Segunda-feira e não havia transportes para ninguém na zona do Porto de Luanda. Os grevistas mandavam parar os táxis que tentavam furar a greve e despejavam-lhes os passageiros, às vezes com maus modos. Acontecia o mesmo com os carros particulares que se suspeitasse estarem a fazer umas “corridas”.
O motivo era simples. A polícia estava a controlar documentos de veículos e condutores à entrada da Marginal. Como é de esperar, a maioria dos táxis circula ilegal. Não têm documentos, o condutor não tem carta nem idade, faltam luzes, espelhos e travões. Numa terra onde reina a confusão, a tolerância é nula, por ser uma forma de se expressar a (pouca) autoridade sobre alguém que não a tem.

Estradas vazias
Alguns táxis eram declarados como em condições de circular por, caso raro, terem tudo em ordem, ou, mais provavelmente, terem contribuído para o bem-estar do agente fiscalizador por intermédio de um pequeno rectângulo de papel colorido estrategicamente colocado no meio dos documentos do carro.
Como não estavam reunidas as condições de trabalho, fez-se greve. Só voltavam a circular quando a polícia deixasse de fiscalizar. Assim não valia a pena.
Pela hora do almoço, a polícia desistiu da sua missão. Não havia táxis a circular. Foram-se embora. A greve foi desconvocada.
6
10
2008
De ver o amanhecer do lado certo da cama, logo a seguir a ter dado uma cabeçada na cabeceira.
De ver o Sol baixo no horizonte a meio do dia.
De não ver seguranças armados a cada esquina.
De conduzir o Patrol.
De não ter de me certificar que a rede mosquiteira está bem fechada.
De poder beber água da torneira.
Da almofada com a altura certa.
De andar na rua sem ter de espreitar por cima do ombro.
De comer melão.
Dos ruídos que os degraus lá de casa fazem. Do chiar da porta do quintal. Do clac da fechadura do meu quarto e do interruptor do quarto com o seu som metálico.
De procurar umas geocaches. De elogiar as boas e reclamar das más.
De ter um rafeiro a morder-me as mãos e a bater-me com o rabo na cara.
Do barulho da chave a entrar na fechadura.
Dos bolos da Marianita.
De não suspeitar de cada polícia.
De ter electricidade e água todo o dia.
Dos livros! De todos eles, até dos que não gostei.
Mas, acima de tudo, do cheiro e do toque dos que mais me enchem o pensamento quando estou lá longe!
5
10
2008
Os Angolanos não percebem os Portugueses, especialmente os que viveram em Angola. Aliás, os Portugueses também não percebem os Portugueses, especialmente os que viveram em Angola.
A História recente de Portugal ficou marcada não só por uma mudança de regime político, como pela independência das suas colónias, ou províncias ultramarinas. A guerra que marcou a independência de Angola obrigou a acolher e integrar cerca de 5% da população portuguesa num país debilitado por anos de ditadura severa. Os retornados, como foram chamados, traziam um espírito diferente, educado ao sabor dos trópicos, com uma iniciativa e pragmatismo pouco comum na Europa.Trouxeram, também, uma imensa saudade da terra que os viu crescer. Todos, sem excepção, falam de África com uma lágrima ao canto do olho, com a noção de que é um tempo que não volta mais e que nunca serão tão felizes como foram. Os que viveram em Angola, por terem tido uma separação mais trágica, são os que mais sofrem.
Angola sempre foi uma espécie de Terra Prometida dos retornados. À semelhança dos Judeus, que foram expulsos de Israel e sempre sonharam em regressar, os Portugueses nunca esqueceram a terra onde todos os sonhos eram possíveis. Foram obrigados a sair e acabaram por ficar ainda mais ligados a esta terra do que se a tivessem deixado de livre vontade.
A terra portou-se mal para com eles, mas não guardaram rancor. Perdoaram assim que a deixaram e começaram a sonhar com o dia em que regressariam. Os Angolanos não compreendem este apêgo à terra que é sua. Julgam que, por terem escorraçado os colonos, eles passariam a odiar o país e as suas gentes, mas não, a imensa saudade que os retornados sentem por Angola consegue superar a saudade que nasce com os Portugueses, consegue esquecer as injúrias e os maus tratos, as perseguições em África e os olhares de desconfiança na metrópole. Os Angolanos acham estranho como pode haver alguém que ame mais o país alheio que o seu, que ame mais Angola que os Angolanos, que a queria ver livre e independente, mas sem a guerra e sem a miséria.
Durante a última guerra, havia angolanos que perguntavam, aos poucos portugueses que cá havia, quando é que esta história da Independência acabava, porque já estavam fartos de sofrer. Os portugueses não sabiam o que responder. Eu também não saberia. Antes da independência eram Portugueses de segunda, abaixo dos Portugueses metropolitanos, os “verdadeiros”. Depois da independência, foram perseguidos como colonialistas e refugiaram-se em Portugal, onde eram olhados de soslaio, como “exploradores dos pretos”. Todos prefeririam ter passado a ser Angolanos de primeira, sem distinção de raça ou cor. Independência, sim. O sofrimento era dispensável.
Os Angolanos não compreendem como pode alguém querer vir ajudar um país que o perseguiu, em detrimento do país que o acolheu. Acho que os retornados também não percebem.
Angola tem ao seu dispôr um capital humano invejável, que daria tudo para ajudar a reconstruir o país. Regressar à Terra Prometida é o seu sonho.