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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

16  09 2008

Guerra Civil

A guerra civil marcou gerações de angolanos. Antes dessa, já a guerra contra o colono tinha deixado cicatrizes profundas.

Saber que Angola esteve 41 anos em guerra não quer dizer nada. É apenas um número. 41 anos é tanto tempo que pode ser a duração de qualquer coisa, não somos capazes de abarcar tanto. Não temos noção nenhuma do que isso significa para as vidas dos angolanos.


Marcas de guerra numa sede do MPLA

Há uns tempos conheci um segurança já grisalho, sinal de muita idade. Os seus 47 anos oficiais não contemplavam os anos de guerra, que dizem contar a dobrar. Enquanto conversávamos sobre as eleições e sobre o futuro de Angola, falámos também sobre o seu passado. Houve uma frase que me ficou na memória e não me largou. Passei a ter uma noção do que os 41 anos de guerra realmente significavam.

«Nasci com a guerra, cresci com a guerra, envelheci com a guerra. Não tinha esperança que acontecesse, mas vou morrer na paz.»

Tinha nascido em 1961, julgo que na província do Zaire, com o início da guerra colonial. A mãe andou com ele às costas a fugir aos combates.

Aos 15 anos, Angola tornou-se independente e ele entrou para o exército, nas FAPLA. Lá passou 14 anos, até 1989. Combateu contra a UNITA e contra os Sul-Africanos. Foi ferido. Feriu e matou. Aprendeu que os mais impetuosos morrem nas emboscadas e armadilhas. «Os burros morrem depressa». Deixou dois filhos em Ondjiva. Nunca mais os viu. Recorda-se das bombas, dos mísseis e das chacinas. Encolhe-se quando fala dos aviões que sobrevoavam os combates. Fala do napalm nas aldeias…


Cicatrizes de guerra

Combateu ao lado dos Cubanos, que achavam estranho haver Angolanos a lutar contra Angolanos. Primos a matar irmãos e sobrinhos, mães divididas por terem filhos a lutar em campos adversários.

A filha mais nova pergunta quem são os da UNITA. Não acredita que seja contra aqueles que o pai combateu. «Aqueles não são brancos, pai!»

Está confiante no futuro de Angola. Já não volta a haver guerra entre os Angolanos. A coisa melhor que fizeram foi juntar as tropas todas num só exército, as FAA. Agora há soldados da UNITA com soldados do MPLA e da FNLA e são todos irmãos. Não vão lutar uns contra os outros.


A Revolução custou demais

Com 47 anos, viveu mais que muitos angolanos. Mas teve a vida sacrificada em prol de uma guerra que ninguém queria. Conheceu a paz no final da vida e está grato. Tem a certeza de que vai durar!


15  09 2008

Lobito

A algumas horas de viagem para Sul, a caminho de Benguela, fica um dos maiores portos de Angola, o Lobito.


Na ponta da Restinga

A Restinga do Lobito tem uma orientação semelhante à da Ilha de Luanda, mas as comparações ficam-se por aí. Os edifícios do tempo colonial demonstram que a zona mais exclusiva do Lobito era esta.


Um dos monumentos mais curiosos

As casas são todas bastante grandes, mesmo para os dias de hoje e os pormenores arquitectónicos revelam cuidados adicionais.


Anos 50

A cidade colonial não está tão degradada como Luanda. A menor pressão humana é dos factores principais.


Marca do passado

Angola é uma cápsula do tempo. As construções novas são muito poucas e a cada esquina surgem exemplos da arquitectura que marcou uma época. Os painéis de azulejos, as as decorações das fachadas, as varandas e os remates são pequenos pormenores que distinguem a época.


Motivos da terra

A zona escapou à guerra. Nunca foi um local estratégico do ponto de vista militar. Isso explicará a ausência das marcas de guerra que se fazem notar noutras cidades.


Uma varanda agradável

Nem todos os edifícios escaparam. Há alguns telhados que desistiram e ruíram. Os materiais das casas neste estado começaram a ser reciclados e hoje em dia sobram apenas as paredes. Mas já começaram as obras de reconstrução na maioria deles.


O abandono também existe


Anos 50

Nalguns recantos, apenas um pormenor contemporâneo nos traz de volta à actualidade, tal como uma antena parabólica no quintal.


Mais uma varanda agradável

Tal como aconteceu em Luanda, os monumentos coloniais foram saneados. As estátuas foram removidas e os pedestais passaram a servir de pouso aos pombos. Hão-de ser ocupados.


Pedestal vazio

A igreja à entrada da restinga aparenta ter sido recuperada recentemente. Tal como o resto da cidade, a sua arquitectura marca uma época.


Igreja recuperada

Já a caminho do centro da cidade, abandonando a restinga, vemos alguns dos sítios emblemáticos que acrescentam colorido às histórias dos retornados.


Tamariz do Lobito

O casino aparenta ainda funcionar.


Cine-teatro Impérium

As actividades culturais do cine-teatro foram retomadas e o edifício está a ter utilização, ao contrário de muitos exemplos por todo o país.


Cinema Califórnia

O cinema Califórnia parece estar habitado, mas não sei se mantém a actividade.


Arquitectura do Estado Novo

Aquilo em que mais reparamos é na relativa ausência de lixo nas artérias principais da cidade.


Quase parece outra época (clique para ver o original)

Há edifícios que estão num estado tal, que nos fazem crer ter entrado numa máquina do tempo. Um pouco mais perto descobrimos que os últimos quarenta anos não passaram sem deixar marca.


Chapas nas janelas, cicatrizes das máquinas de ar condicionado, infiltrações

Já na cidade, a vida decorre como decorria. Os cafés mais conhecidos continuam a ser locais de encontro e têm um ambiente descontraído.


Café que faz lembrar um barco

A cidade não tem só moradias. No centro há alguns prédios mais altos, com fachadas características. Em Lisboa ainda há alguns parecidos.


Avenidas Novas, ou Lobito

Nalguns recantos voltamos a ter a sensação de ter entrado no estúdio de cinema onde se vai filmar um filme de época.


Marcos de correio e padrões de eras passadas

Os edifícios mais importantes, como sejam os edifícios públicos ou as igrejas são exemplos típicos da arquitectura do Estado Novo com a sua monumentalidade, tentam mostrar a grandiosidade do Império. Uma fórmula importada da Alemanha.


Porta da Sé do Lobito

Outros edifícios, bem mais discretos, são também representativos da sua época.


Uma bomba de gasolina do tempo do colono

Outra coisa que ficou do tempo do colono, foi a publicidade nos telhados. Lojas e fábricas ostentavam os seus letreiros, para serem vistos ao longe. Os negócios fecharam. Os donos partiram. Os edifícios e os letreiros ficaram.


O whisky não devia envelhecer em cascos de carvalho?


14  09 2008

Estou livre!

O R. e a P. partiram de férias. Foi ontem, logo pela fresquinha. Enfiaram-se no avião e rumaram a Portugal. Vão ver a família, tal como muitos outros emigrantes o fizeram este Verão. O tempo da mala de cartão já passou, mas há rituais que se perpetuam.

A sua partida relembra-me que muitos antes deles, fizeram este percurso, deixando toda a sua vida para trás. Abandonaram a terra onde nasceram, às vezes só com a roupa que tinham no corpo. Mas isto é uma história triste, que hoje não merece espaço.

Estão felizes por regressar a casa. Estão felizes porque não têm de me aturar todos os dias. E para mim também vai ser um alívio. Já andavam tão cansados que, de vez em quando, me tratavam por amor… Um mesinho inteiro sem nos vermos, que fixe!

Como tinham de fazer o check-in ainda antes do aeroporto abrir as portas, levantaram-se cedo, acordaram as galinhas e verificaram se as malas estavam fechadas. Eu bem queria ter ficado na ronha, mas calhou-me a sorte de ter de fazer de motorista…

Quando é que eles voltam? Já lhes sinto a falta…


13  09 2008

Os Kwanzas são estranhos

Já várias vezes referi que a moeda nacional é algo desajustada à maioria das transacções. As notas pequenas fazem um grande volume para pouco valor. As notas grandes esgotam os trocos.

Infelizmente, quando troco dólares, só me dão notas de 1000 Kz e 2000 Kz. Dou por mim a fazer molhos de notas de 10 Kz e 50 Kz, para poder ir comprar coisas às zungueiras. Elas nunca têm troco das notas grandes.

Em Angola circulam três moedas diferentes:

  • os Kwanzas pequenos, que servem para o dia-a-dia do povo;
  • os Kwanzas grandes, que servem para as contas maiores, mas não são comuns na vida diária das populações;
  • os dólares americanos, que servem para quebrar a liquidez demasiado fluida dos Kwanzas, que escorrem pelos dedos, ou para o pagamento de valores elevados.

Até há bem pouco tempo, julgava que os Kwanzas eram uma moeda só, mas depois de ouvir o comentário a uma fotografia do Jornal de Angola, mudei de ideias. Nessa imagem, o Presidente do MPLA inaugurava um supermercado e, como primeiro cliente, pagava um cabaz de produtos essenciais por 4500 Kz.

«Olha pró Zédú, a pagar com notas de 2000…»

Só para termo de comparação, um segurança ganha algo como 15000 Kz mensais, ou seja, o cabaz custava cerca de um terço do vencimento e estava a ser pago com notas que nunca se usam por serem demasiado grandes. Para pagar aquele cabaz, um engraxador teria de puxar o lustro a 90 pares de sapatos!


Usam Kwanzas pequenos

O mais caricato é que quem pode usar estas notas, geralmente gasta mais e acaba por ter de pagar com um molho de notas grandes. A solução é usar a moeda oficiosa, o dólar. Aliás, tal como já referi, os negócios avultados são acertados em dólares, mesmo que o pagamento seja feito em Kwanzas. Foram muitos anos a usar uma moeda estável de referência para agora se passar a confiar cegamente no Kwanza. O mesmo se passou na mudança de Escudos para Euros, lá em Portugal. Apesar de já termos noção de quanto valem 100 €, ainda fazemos uma conversão rápida para escudos para saber quanto custam as coisas.


Usam Kwanzas pequenos

As desigualdades e assimetrias revelam-se até nas notas em que se mexe.


Usam Kwanzas grandes ou dólares, muitos

Mas, tal como nos disse a tia Teresa, não é o dinheiro que traz a felicidade. É feliz sem precisar de se rodear de objectos fúteis. A felicidade não se mede pela quantidade de coisas que se tem ou pelo que se ostenta. Segundo ela, não se pode comparar os padrões de vida ocidentais com os angolanos. Aqui, Bastavam-lhe a alegria dos pequenos, alguma comida na mesa e uma cerveja fresquinha para poder sorrir.


Nem Kwanzas, nem dólares… sortudos


12  09 2008

O jacaré tem fome

O jacaré que mora num buraco na berma da Avenida Revolução de Outubro tem ameaçado, nos últimos tempos, deixar de apenas borbulhar na água escura, saltar cá para fora e comer uma criancinha.

Hoje foi o dia. Mas ninguém suspeitava que tivesse tanta fome. Comeu um candongueiro!

A ânsia de chegar ao destino cinco segundos mais cedo que a concorrência fez com que o condutor da iáce arriscasse demais e metesse uma roda na cratera. Ficou lá. O mais estranho é que aquele buraco está assim desde que cheguei, mas tem aspecto de já lá estar há mais tempo. Será que o candongueiro se esqueceu dele ou achou que os jacarés não gostam do azul-cueca?

Já estamos habituados a que dêem cabo das suspensões só para ganhar meia-dúzia de metros, que circulem fora de mão, que buzinem aos carros, aos peões e às árvores, que acelerem a fundo até à próxima paragem, onde travam, também a fundo. Estão sempre cheios de pressa, mas nunca chegam mais cedo ao destino por causa destes percalços com jacarés e outros buracos. Curioso, não é?


As pressas, as pressas…


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