Numa das nossas excursões até ao choco grelhado da Xilombo, acabámos por ir almoçar à casa de uma das suas vizinhas. A Xilombo não tinha mesa nem choco para nós.
Recomendou-nos a sua amiga Teresa, que também grelha peixe e choco num tambor de óleo velho.
Almoçámos no pátio da casa, resguardado da rua por um portão azul. Mais sossegado que o mercado de arte, mas sem o encanto da árvore da Xilombo.

Tradição
Tinha uma vida diferente. No pátio da Xilombo há uma fábrica de sofás. Aqui há uma capoeira e um depósito de correias de automóveis. Pensámos que não havia crianças, mas afinal estavam escondidas e eram muitas!

Irmãos, primos e afins
Foram elas quem achou mais piada à nossa refeição. Éramos a novidade. O primeiro a aparecer foi o Cámio. Disse-nos o nome, mas teve vergonha de dizer que só tinha três anos.

Cámio, o curioso
Depois vieram outras. A Elsa, a Ju, a Sandra, o Artur…
No chão, ao lado da mesa, mãos experientes tinham equilibrado uma panela numas pedras. As brasas tratavam de apurar a versão angolana da cachupa.

Cozendo lentamente
A mais-velha da casa tomava conta da panela.Ocasionalmente levantava a bacia de esmalte que fazia de tampa e espreitava o andamento das coisas. Ajeitava a lenha e tapava tudo outra vez.

A mais-nova
Quando o fumo da lenha começou a afugentar as moscas da mesa, achou que ficaríamos melhor se retirasse a lenha. Dissemos que não, que o fumo não nos incomodava e que assim não havia moscas. De nada valeu. A cachupa ficou a meio, o fumo foi-se e as moscas regressaram.

As pequenas coisas revelam mistérios insondáveis
O choco, temperado só com sumo de limão, estava mesmo bom. Como tudo se aproveita, a quantidade de comida é enganadora. Parece pouco quando está inteiro. Depois de cortado continua sem parecer muito, mas depois de se começar a comer, nunca mais acaba.

Choco grelhado, sumo de limão e batatas cozidas
A nossa refeição foi acompanhada de perto não só pelas crianças, mas também pela cadela que estava presa ao fundo do pátio, pelos muitos pintos que nos pisavam e pelo lagarto que se aquecia ao Sol ao nosso lado.

Observando atentamente
O R. armou-se em valente ou em herói de Shaolin, não sabemos bem, e experimentou baptizar o choco com gindungo. Passado um bocadinho, estava ranhoso, choroso e suado.
Experimentei uma minúscula gota desse picante. Posso dizer que não fica muitos pontos atrás do picante do Jaipur, em Lisboa.

«Antes o choco que eu»
Desta vez tivemos direito a sobremesa. Um pouco antes da Xilombo estava um camião carregado de abacaxis de Benguela. Comprei um dos pequenos por 200 Kz.

Só ficaram as espinhas
Era docinho e sumarento. Não podiamos ter pedido melhor.

É preciso lavar as mãos antes de comer
Entretanto a Xilombo juntou-se a nós. Quis assegurar-se de que não perdia clientes para a concorrência. Aproveitei para lhe dar a fotografia de há umas semanas. Quando a viu a, pensou logo em mandar ampliar e perguntou porque só se via a cara. A fotografia original tinha sido cortada para não haver tanto fundo, mas já ficou prometida uma cópia por inteiro.

Xilombo e tia Teresa
A Xilombo é muito vaidosa. E gosta de fotografias. Não foi preciso perguntar se podíamos tirar mais umas. É claro que sim! Agora até trazia um penteado novo… temos é de lhe trazer umas cópias!

Pose a três quartos, à modelo
A tia Teresa não nos achou europeus típicos. Aliás, até perguntou se já estávamos em Angola há muitos anos. Os brancos não costumam sair das suas rotinas e vir comer estas coisas, aos pátios das pessoas que cá moram.
«Para nós isto é normal. Desde que haja comida e uma cerveja, tudo está bem!» dizia a Teresa, entre dois tragos da garrafa de Eka.
A conclusão a que se chegou é que a maior razão de alegria eram as pequenas pernas a correr à nossa volta. Em Angola crianças é o que não falta. Assim a alegria não se acaba.
A Xilombo queria que lhe trouxessemos roupas de Portugal, porque eram diferentes, mais bonitas que as de cá… a Teresa apoiava-nos e dizia que agora eram iguais em todo o lado.

Haja alegria
Agora estamos divididos. Xilombo ou Teresa. Temos de passar a atirar uma moeda ao ar…