Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

09 2008

A alegria do voto

O processo de votação nestas segundas eleições legislativas de Angola correu bem. O número de assembleias com problemas foi quase residual. Há quem não resista a comparações com países onde as eleições não são novidade e a experiência dita muitas regras. É preciso não esquecer que Angola é um país africano, sempre com a sua dose de desorganização natural. O modelo ocidental nem sempre se adequa da melhor forma. Mas tenho orgulho nestes angolanos cheios de esperança, que conseguiram fazer as coisas sem problemas de maior.

As poucas assembleias que tiveram de suspender a votação ou que encerraram mais cedo na Sexta-feira, reabriram no Sábado. De manhã havia alguma confusão, com muita gente que ainda não tinha votado a acotovelar-se na fila, mas ao final da tarde já eram mais os escrutinadores que os votantes.


Uma das muitas assembleias de voto

Estas eleições, ainda antes de terem terminado já estavam a dar frutos. Há uma alegria dentro dos angolanos que se vê nos olhos e nos sorrisos. O voto de cada um valeu mais que todas as estradas novas. Todos sentem que fizeram algo de importante pelo país!

Aproveitámos o Sábado para ir almoçar e fazer umas compras no mercado de arte.

Enquanto regateava, fui perguntando pelas eleições. O negócio ficava logo esquecido. Cada um queria partilhar, com gestos largos e sorrisos abertos, a felicidade que tinha tido ao votar. Perguntei se tinham demorado muito, se as filas eram grandes ou se tinha havido problemas. «Não, foi só cinco minutos. Rápido, rápido.»«Estava lá muita gente, mas andava depressa. Todos queriam votar.»«Problemas? Não! Ninguém quer problemas. Todo o mundo queria era votar. Os que queriam problemas ali não eram bem-vindos!» E depois, orgulhosos, erguiam o indicador pintado. Aquela era a prova de que estavam a lutar pelo futuro. Eles estavam a dar o seu contributo, não em estradas ou linhas de combóio, mas com uma cruz no boletim de voto.


Instruções simples

As respostas repetiram-se um pouco por todo o mercado, com mais ou menos emoção. Outros perguntavam se eu tinha votado. Eu tinha de mostrar dois indicadores em branco e dizer que a mim não me deixavam. Mas tê-lo-ia feito de boa vontade, nem que fosse para poder partilhar e melhor perceber esta alegria dos angolanos. Um acrescentou «Foi um bom trabalho. Não foi com tijolos, nem nada, mas foi um bom trabalho que fiz por Angola!»

A sombra da guerra que se seguiu às última legislativas está agora mais ténue, mas não desapareceu por completo. Os angolanos não esquecem os erros do passado e têm medo de os repetir. Sensatos. Quando pergunto se vai haver problemas são unânimes em dizer que não. «Quem ganhou, ganhou. Quem perdeu, perdeu. Não pode reclamar!»«Quem quiser armar confusão, que o faça lá na casa dele, que nós aqui não queremos!»

Todos têm consciência de que uma nova era começou. Apregoam que o voto é a arma do povo e que se o governo fizer mau trabalho, mudam a cruz de sítio nas próximas eleições. Mas garantem que, se o trabalho for bom, mantêm o voto!

Quanto ao Presidente da República / Presidente do MPLA, todos lhe perdoam os pecadilhos da campanha eleitoral e retiram a alcunha de corta-fitas que lhe deram há uns dias. O mais-velho da Nação tem feito um bom trabalho e continuado o ideal de Agostinho Neto. Todos gostam do Zé Dú!


09 2008

Ilha de Luanda para turistas

Recentemente passou na RTPÁfrica uma reportagem acerca de Angola. Mostraram muitos sítios de Luanda que já conhecemos bem. No entanto, não os reconhecemos. Os planos usados eram tão fechados que nem se via lixo ou entulho, nem as obras infindáveis.

Perguntámo-nos onde seriam aqueles lugares, em que estúdio os tinham recreado. Os locais mais emblemáticos da cidade eram mostrados com uns planos muito bem escolhidos, ou com uma árvore a encobrir as zonas degradadas. A verdadeira publicidade turística.

Até a Ilha de Luanda parecia bonita. Nos seus tempos áureos, era um local de renome. Devia dar gosto lá ir. Hoje em dia, quando se fala da Ilha, a primeira coisa que nos ocorre é restaurantes e clubes caros, rodeados de lixo e prostituição. Ainda há umas coisas bonitas para ver, mas estão escondidas atrás de muitas camadas de pó e tapumes.

Só para tirar as teimas e ver se se conseguia mesmo mostrar coisas bonitas, agarrei na máquina e tentei repetir a proeza dos senhores da reportagem. E não é que consegui um postal ilustrado da Ilha de Luanda?


Publicidade enganadora


09 2008

Tenham medo, muito medo…

Foi-me dado a possibilidade para além de ler e comentar aerogramas, poder também enviar uns aerogramas… por isso a partir de hoje contem com notícias da metrópole.

É claro que quem estava habituado a ler este aerograma vai notar grandes diferenças… o dom da escrita bateu na porta do lado… mas irei tentar fazer o melhor. Tenho a partir de hoje uma responsabilidade muito grande, espero estar à altura.


09 2008

O meu nome é… Wilson!

Cá no prédio temos um vizinho chato como tudo. Entendeu que, como somos brancos, não temos mãozinhas e precisamos que nos façam tudo. Tudo inclui trazer o saco do pão da mercearia da esquina.

Encontrou-nos uma vez a abastecer o gerador e, desde então, não nos larga. Já queria vir ver o que se passava com a instalação eléctrica, ele e a sua experiência de electricista de bicicletas.

Obviamente que o que quer mesmo é um subsídio para a cerveja. Quando não arranja pretexto nenhum para nos pedir dinheiro, vem atrás de nós a gritar «Patrão, dá-me 200 paus para comer». Nunca fui promovido tão depressa, no átrio era “amigo” no primeiro andar já era “patrão”. Não foi por isso que o Yanick foi aumentado…

O Yanick ou Lito, ainda não sabemos bem, é insistente. Já nos deu o número de telefone e tudo, não vá a gente precisar.

No entanto, já encontrei um mais chato.

Não sei como se chamava, mas vinha acompanhado de uma bela bebedeira e um cheiro a cerveja que não enganava ninguém.

Apanhou-nos a sair do carro ao fundo da rua e começou por pedir 200 kwanzas para comer. Em aritmética de bolso, 200 Kz é o mesmo que quatro gasosas ou, melhor ainda, quatro latas de Cuca bem fresquinha. Disse que não. Ficou a matutar na resposta. Fechou o punho e esperou que eu fizesse o mesmo para um cumprimento à pugilista. «Yá, tá-se fixe.» Lembrei-me de uma aventura alheia.

Avançámos meia-dúzia de passos e voltou à carga. 150 Kz para comprar uma sopa. «Não, dinheiro não temos.» Tentou o R., que lhe deu a mesma resposta. Ficou outra vez a matutar no assunto.

Quase a virar a esquina em frente à mercearia começamos a ouvir alguém chamar o Wilson. «Wilson! Wilson! Ó Wilson!» E o Wilson, nada. Dava a impressão de que o Wilson era surdo que nem uma porta.

Os gritos foram ficando mais próximos e acabei por perceber que eu era o Wilson!

«Wilson, vá lá. Dá-me 100 Kz para comer um pão.»
«Não, dinheiro não tenho.»
«Wilson, 50 Kz para ir comprar água aos seguranças…»
«Mas é fome ou é sede?»
«Dá-me 50 Kz, Wilson. Fico teu amigo.»
«É fome ou é sede?»
«É fome. Dá-me 50 Kz para comer, Wilson.»

Tinha comigo um pacote de bolachas que encetei no escritório. Se era fome, não me parecia bem recusar-lhe comida, por pouca que fosse. Dei-lhe o pacote para as mãos. Olhou para ele um pouco desanimado.

«Dá-me 50 Kz, Wilson!»
«Já te disse que não tenho dinheiro. Se tens fome, é o melhor que posso fazer.»

Ficou parado no passeio a pensar no que tinha acontecido aos kwanzas sonhados.

Entrámos no prédio e começámos a ouvir um berros lá de fora.

«Wilson! Ó Wilson! Wiiiilson!»

Mantinha uma distância respeitosa da porta do prédio, não fossem os seguranças estar mal humorados, mas não desistia dos Kwanzas.

E foi neste dia que percebi que me chamava Wilson!


09 2008

Avenida de Portugal, curioso

Como continua a faltar a electricidade cá em casa, fui dar uma volta até à marginal. Luanda respira uma atmosfera nova. Nem aos Domingos está este ambiente descontraído. É um dia preenchido apenas pelo voto, depois vai-se dançar ou ouvir música com os amigos. Bebe-se gasosas porque a cerveja já esgotou.

Coisa rara, há pessoas a passear na rua. Só a passear. Dão passos lentos e conversam. Há assembleias de voto à vista umas das outras. Aqui na rua há duas. Ambas debaixo dos letreiros de dois bancos. O processo tem decorrido sem incidentes. A grande afluência matutina foi substituída por uma acalmia ao final da tarde. Já não há filas para votar. Há muitos elementos das mesas que conversam à volta dos frascos de tinta onde se molha o dedo.

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Ao final do dia

Os amigos encontram-se à boca das urnas e perguntam se só é preciso o cartão de eleitor. Ouve-se perguntar «já votaste?»

Os candogueiros circulam quase vazios. Os poucos que se avistam nas paragens habituais, mudam o seu destino várias vezes até que apareça um cliente. «éroporte, éroporte… congolenses-praça, congolenses-praça… sanpáuló, sanpáuló…» mas os clientes não chegam.

Hoje foi o dia em que senti ser possível andar de máquina fotográfica em punho sem ser incomodado. Não a levei, claro. Pude apreciar muitos pormenores que me têm passado despercebidos.

Cruzei-me com dois bêbados crónicos, com ar de quem me queria pedir Kwanzas. Assim que me interpelaram perguntei se já tinham votado. Julgo que ficaram desarmados. Não estavam a ser bons angolanos e eu pus o dedo na ferida. Não, ainda não tinham votado… «perdermos o cartão de eleitor, mas…» começaram a agarrar as mãos, envergonhados, e foram-se embora. Quase apostava que estavam corados.

Encontrei mais uns seguranças a discutir o futuro do país. Ficou-me na memória a frase de um «Não interessa se é preto ou branco. Não interessa se fala o dialecto kimbundo ou se fala do dialecto umbundo. É angolano!»

Todas as lojas estão fechadas. Nem as zungueiras apareceram para cumprir os seus turnos de doze horas diárias com o alguidar à cabeça e o filho às costas. Não há cafés abertos.

Os problemas de organização que marcaram estas eleições nalgumas assembleias de voto já foram corrigidos, espera-se. O encerramento das urnas, previsto para o final da tarde de hoje, foi adiado paraque todos votem. O porta-voz da CNE garante que «enquanto houver eleitores para votar, manteremos abertos os locais de votamento».

À entrada do Largo da Mutamba encontrei uma placa caída. Habitualmente serve de banco e as pernas das pessoas ocultam a sua inscrição. Hoje estava desocupada. Apercebi-me de que se tratava de mais um pedaço de História. Neste caso, um pedaço de sucata com 33 anos. Trouxe-me um novo significado para o local onde habito. Afinal, segundo diz a placa, moro na Avenida de Portugal.

A electricidade foi-se ontem ao final da tarde. Tem regressado aos poucos à rua e às casas. O nosso prédio já tem, mas nós continuamos às escuras. Só uma das fases tem tensão. Tínhamos 33% de hipóteses de ter luz, mas perdemos a aposta. Tentei corrigir a situação, mas parece que o electricista que fez a ligação tinha medo que os cabos fugissem e usou uma chave de rodas para apertar os terminais. Desisti.

Como hoje é dia de folga, a EDEL não tem pessoal para acudir a todos estes pequenos problemas que vão acontecendo um pouco por toda a Luanda. A nossa única pergunta é porque raio acontecem sempre estas avarias nas vésperas de fim-de-semana?

Como a bateria deste computador já há muito passou o seu prazo de validade, estou limitado a alguns minutos de trabalho sem estar ligado à corrente. Para terminar este artigo tive de me socorrer da tecnologia antiga que nunca falha: caneta e papel. A minha dúvida era como haveria eu de publicar isto. Fazia um aviãozinho e mandava lá para a tal da internet?

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Ao papel nunca acaba a bateria

Veio a noite e ligámos o gerador. Publique-se!


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