Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

09 2008

Tudo corre bem…

Há mais de doze horas que não temos electricidade. Esta manhã liguei o gerador para manter o frigorífico a trabalhar. Aproveito e ligo o computador à internet. Já tenho as primeiras impressões das eleições. Aqui na rua, pelo menos.

As urnas abriram às 7 horas, antes disso, a partir das 5, votaram todos os funcionários e polícias das assembleias de voto.

Pouco trânsito, poucos gritos, nada de ânimos exaltados.

Ao fundo da rua há uma assembleia de voto, no balcão do BFA. Em frente há um BPC, mas como é banco do Estado, escolheu-se um privado para abrigar a assembleia.

Como estamos isolados do mundo, sem televisão ou rádio, à conta da falta de energia, só posso descrever o que se passa aqui na rua.

Sereno. Tudo sereno.

Há autocarros que trazem os eleitores até à mesa de voto, esperam que todos exerçam o seu direito e partem com votantes satisfeitos.

Carreiras especiais

Os autocarros que vemos no dia das eleições são mais numerosos que os dos dias normais… estranho.

As filas para votar são um pouco desorganizadas, à boa maneira angolana, mas vão funcionando sem incidentes. Formam-se grupos de homens e mulheres, tal como acontece no fim do mês, para levantar a reforma.


Esperando para desenhar a cruz no quadradinho devido

Entretanto soube a razão da queixa do segurança quanto ao preço da cerveja. As latas de Cuca costumam custar 50 Kz, mas a fábrica fechou esta semana, por causa das eleições, e a lei da oferta e procura ditou o aumento para 70 Kz. Se ainda houver alguma, já deve custar mais de 100 Kz!

Já agora, o boletim de voto que os angolanos vão encontrar vai ser parecido com este:

14 partidos, uma cruz

Há um pormenor curioso no boletim. Todas as forças políticas são identificadas com o nome do partido, a sigla e o símbolo. A única excepção é o Movimento Popular para a Libertação de Angola , que vem identificado como MPLA – MPLA – bandeira vermelha e preta com a estrela amarela. MPLA não precisa de tradução, certo?


09 2008

Previsões

O vencedor das segundas eleições legislativas de Angola está anunciado há muito. Resta apenas saber qual será a margem da maioria absoluta do MPLA.

O processo eleitoral foi tratado com muito cuidado, tendo-se implantado todos os mecanismos necessários para garantir transparência. Acima de tudo, é preciso evitar comparações ao exemplo de falta de democracia vindo do Zimbabwe.

Se houve um aproveitamento da posição de governo por parte do MPLA ou não, não me cabe a mim julgar. Nesta terra já aprendi que a cultura vigente não é a mesma em que cresci. Tenho de aceitar as coisas como são. Em Roma sê romano e em Angola, não queiras fazer dos angolanos romanos.

Daqui a umas horas começa-se a votar. Que não haja problemas. As primeiras eleições culminaram numa guerra civil que todos querem esquecer e evitar que se repita.

Espero é que o esforço de reconstrução nacional não abrande com o fim da campanha. Este país ainda tem muito para fazer!


09 2008

Ora bolas…

Na véspera das eleições voltámos atrás no tempo. Não há internet. Não há electricidade. Não há água. A rede de telemóvel prega partidas. Acabei de ser informado que o papel higiénico se está a acabar… só pode ser uma conspiração!

Felizmente que fui à mercearia comprar mantimentos para o fim-de-semana pós-acto eleitoral, não vá o Diabo tecê-las.

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Qualquer dia temos de ir buscar água à vala

Para aproveitar o final desta Semana Santa, preparava-me para transformar o meu quarto outra vez num ginásio, mas fiquei-me pelas preparações. A bateria do portátil não se aguenta muito tempo com a música a altos berros… e logo hoje que ia memorizar mais uma faixa do BC29….

Baah…

Não vamos ligar o gerador só para alimentar os computadores ou ver televisão. Ainda temos consciência do desperdício, ao contrário dos senhores do edifício ao que têm as luzes acesas dia e noite e o gerador é ligado só porque sim.

Vou passear pela casa, a encadear os colegas com o meu super-hiper-giga-turbo-ninja-mega-zhord frontal. Tenho de me divertir com alguma coisa, não é?


09 2008

Semana Santa, parte II

Ontem, último dia da campanha eleitoral, foi decretada tolerância de ponto todo o dia, para que a população pudesse assistir aos comícios de encerramento.

Na verdade, julgo que Luanda parou porque o Presidente do MPLA precisava de inaugurar umas coisas na capital e, como para onde ele vai fica tudo cortado ao trânsito, decidiu-se que ninguém trabalhava.

No dia das eleições, Sexta-feira, ninguém trabalha, é feriado. Na Quarta-feira houve tolerância de ponto. Foi mesmo uma semana santa para o trabalho. De tal maneira que até começámos a chamar ao dia do acto eleitoral a “Sexta-feira Santa”.

Mas toda a gente sabe que a véspera da Sexta-feira Santa é a Quinta-feira Santa. Se o dia é santo, porque há-de ele ficar atrás da Sexta e da Quarta?

O Governo, na sua infinita sabedoria, resolveu corrigir a situação. Tolerância de ponto a partir das 12 horas de Quinta-feira, para reflexão!

Esta é a verdadeira Semana Santa do trabalhador!

Na verdade, a medida não é tão descabida como poderia parecer. Com o “feriado” na Quarta-feira e o fim-de-semana prolongado tão próximo, poucos iriam trabalhar na Quinta-feira. E os que fossem, a meio da tarde voltavam para casa. Em vez de se ter de arranjar desculpas para as faltas, mais vale tornar a coisa oficial. Por outro lado, é preferível que os apoiantes dos vários partidos se embebedem nos arredores de Luanda, onde será mais fácil conter os eventuais desacatos provocados por ânimos quentes.


09 2008

Vias de facto

Quando cheguei a Luanda disseram-me que a violência nas ruas era algo de normal. Aqui pelas Ingombotas tem-nos passado ao lado, mas sabemos que na Maianga e noutros municípios da grande Luanda vai havendo umas lutas e noutros sítios é frequente ver alguns jovens, daqueles que nunca chegarão a velhos, ostentar cicatrizes de um desporto conhecido como luta com cacos de garrafa.

Não se ficando pela luta corpo-a-corpo, há sempre quem recorra ao que estiver à mão para ganhar vantagem. Pedras, paus e garrafas são boas armas. E garrafas de cerveja vazias é coisa que não falta em Luanda. As marcas deixadas não se resumem a cortes. Há tendões, nervos e vasos cortados que incapacitam membros e vidas permanentemente.

Até agora ainda não tive o desprazer de assistir a nenhum destes eventos, mas já vi o resultado de uma zaragata. Dois sujeitos, com um ar embrutecido por muita cerveja e muita pancada cambaleavam pela rua rodeados de miúdos a rir e a gritar.

O mais franzino andava só de cuecas, descalço e com a carapinha desgrenhada. Arrastava um pano que já poderia ter servido de camisa ou de calções. Estava rasgado e sujo de lama.

O mais encorpado, trazia a t-shirt torcida e rasgada, com marcas de puxões. Tropeçava nas próprias pernas e tinha os lábios inchados e ensanguentados. Muitas cicatrizes na cabeça rapada mostravam não ter tido uma vida fácil e de esta não passar de mais uma luta.

Ambos mantinham os olhos no chão, espreitando o rival pelo canto do olho no outro lado da rua.

Julgo que não tenha havido vencedores. Apenas dois vencidos pensando que teriam ganho qualquer coisa se não tivessem sido separados a tempo.

As crianças mostravam sorrisos imensos. A pancadaria deve ter dado um bom espectáculo.

Com as eleições à porta, não pude deixar de pensar se não teria sido o culminar de uma discussão de simpatizantes de partidos diferentes. Espero estar enganado e que isto não seja um prelúdio para o dia 6 de Setembro.


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