Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

09 2008

Semana Santa

Mal saí de casa dei de caras com mais decorações partidárias. O último dia de campanha serviu para gastar os últimos milhares de bandeiras da UNITA e do MPLA.


Ambiente festivo

A caminho do trabalho, achei estranho não haver muito trânsito. Apenas os candongueiros circulavam. Quase vazios, na sua maioria.

O escritório também estava vazio… perguntei o que se passava. Tolerãncia de ponto decretada pelo Governo para que a população melhor pudesse assistir aos comícios de encerramento de campanha das várias forças políticas.

Voltei para casa.

Dei uma volta pelos quarteirões perto da Mutamba, para ver como estava o ambiente. Vi partidários da UNITA ajudar a erguer pendões do MPLA. É bom ver que se convive com as diferenças.

Passei o resto da manhã a conversar com os seguranças da porta do prédio. Têm os olhos abertos para a situação política do país e são críticos de muitas coisas, mas esperam que a vida melhore. Estão ansiosos pelas próximas eleições, para ver o sistema democrático a funcionar, querem alternância sem saber muito bem o que é. Fazem perguntas acerca de quem é o Presidente de Portugal, mostram-se espantados quando ouvem dizer que o Presidente não manda nada e que é o Primeiro-Ministro que tem o poder. Perguntam pela idade o Mário Soares. «84 anos? Yá, já é mais-velho… E o Cavaco agora é Presidente? Foi com ele que se assinou o acordo de Bicesse, aquele que o Savimbi não cumpriu… Em Portugal há desemprego? E os salários? E no resto da Europa? Aqui ganha-se mal… mas quando aumentam o salário, tudo sobe de preço. Uma cerveja a 70 Kwz, onde já se viu?»

Um dos seguranças cabeceava. Dois turnos de 24 horas dão nisto. Passado um pouco foi fazer umas contas de cabeça lá dentro. O colega ficava de plantão.

«Luanda havia de estar assim todos os dias», comentava um, «sem engarrafamentos, sem trânsito. Mas os ministérios estão todos aqui. Quem quer fazer alguma coisa tem de aqui vir. Haviam de os mudar para fora da cidade. Havia menos confusão…»

Chegou um jornal com notícias das últimas obras inauguradas pelo JES. Desta vez tinha sido um supermercado.

A recente febre de inaugurações do Presidente da República / do MPLA o fez ganhar um cognome: Zé Dú, o Corta-fitas. Um dos seguranças brincava e dizia que, quando acabasse as obras no quarto-de-banho, convidava o Zé Dú para o ir inaugurar.

Veio o almoço. Fui para cima e deixei-os comer à vontade.

Amanhã não há tolerância de ponto decretada, mas estou a adivinhar que muita gente não irá trabalhar…


09 2008

Centenário

Comecei a escrever pequenos aerogramas ainda antes de partir para Angola. Na altura ainda nem sabia bem se havia de torná-los públicos. Acabei por fazê-lo. Não me arrependo. Ganhei hábitos de escrita que me fazem reviver e melhor apreciar as novas experiências.


Experimentando Luanda

A princípio escrevia com alguns dias de intervalo, mas depois comecei a ser mais regular e a escrever para quem ficou na metrópole. Os minutos de telefone ao fim do dia nunca chegam para descrever tudo e há sempre pormenores que ficam esquecidos.

Prometi-me passar a publicar todos os dias à meia-noite, sem saber se encontraria assunto apropriado, mas o certo é que este é o centésimo artigo publicado.


Brincadeiras

Temas não hão-de faltar. Até porque ainda há muito para dizer acerca dos meus angolanos preferidos, as crianças e os seus sorrisos inocentes.

Graças a este pequeno vício tenho descoberto novas perspectivas de Angola e do mundo, a partir das visões de expatriados que também escrevem para os outros. A eles e aos que têm a paciência de ir comentando artigos, um grande bem-haja.


A caminho

O próximo centenário já está a caminho!


09 2008

O Zé Dú zunga bwe

A figura do Presidente da República de Angola / Presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos é omnipresente. o Mais-velho da nação aparece em cartazes um pouco por toda a parte, afixado pelos simpatizantes do MPLA, aparece no Jornal de Angola quando é publicado um discurso seu e vai aparecendo na televisão de vez em quando. No entanto, na maioria dos dias, nem damos por ele.

Sabemos que mora perto da fortaleza, no Palácio Presidencial, que não se pode fotografar. Ou se calhar até pode, mas a probabilidade de vir um senhor de farda pedir o pagamento de uma qualquer taxa por falta de autorização, é grande e não se arrisca.

Acontece que o JES (José Eduardo dos Santos, em abreviatura jornalística) não vive confinado aos muros do Palácio. De vez em quando sai de casa e vai dar uma volta. Como já conhece Luanda inteira, vai sempre para fora da capital. De avião, claro.

Nos dias em que vem à rua, Luanda enche-se de militares e polícias. Na Avenida Revolução de Outubro, que liga o centro da cidade ao aeroporto, surge não só um número anormal de polícias de trânsito, como também umas largas centenas de militares vestidos de camuflado. Todos ostentam um cartão cor-de-rosa ao peito. Alguns trazem granadas e todos têm a AK-47 em ordem de marcha. Outros trazem metralhadoras pesadas, dignas que um qualquer Rambo cinematográfico, com muitas caixas de munições. Pesam uma tonelada e, compreensivelmente, estão encostadas a um muro. Fazem cara de mau a todos os condutores que sequer pensem em empatar o trânsito. Do cimo dos viadutos e nos passeios fazem gestos para apressar as coisas.

Apesar de não serem polícias, mandam avançar nos sinais vermelhos e nas perdas de prioridade. E quem somos nós para discutir as subtilezas do código de estrada com um sujeito que sabe usar um pau-que-cospe-fogo?

O Zé Dú, como é também conhecido pelas pessoas, manteve-se afastado da campanha eleitoral até quase ao fim. Não apareceu nos tempos de antena e raramente discursou como Presidente do MPLA. Já no final da campanha, deixou o papel de árbitro do processo eleitoral para a Comissão Nacional de Eleições. Começou a aparecer nas inaugurações das grandes obras. Declarou-se jogador.

Nos cartazes espalhados um pouco por todo o país, a fotografia do Presidente da República é sempre identificada como Presidente do MPLA.

A propaganda eleitoral espalhada um pouco anarquicamente acaba por dar azo a situações curiosas. Na Ilha de Luanda, à volta do monumento da peixeira, havia umas largas centenas de fotografia do Presidente do MPLA. Não sei porquê, mas lembrei-me do Paulo Portas a fazer as visitas às lotas…

 
Interpretação angolana da obra mais famosa de Andy Warhol, a tal da Marilyn

Com as eleições a aproximarem-se, as viagens do Presidente da República de Angola tornaram-se mais frequentes. As do Presidente do MPLA também. O Zé Dú farta-se de viajar ou, como cá se diz, zunga bwe!

Um foi a Pequim, para os Jogos Olímpicos. O outro foi às Províncias. Ambos moram no Palácio Presidencial e viajam de avião. Tem sido um corrupio de fardas verdes ao longo da estrada. Dá a impressão de que ali estão todos os dias, tipo controladores, mas sem as cadeiras.


09 2008

Ó não, outra vez embondeiros!

Já tenho falado muitas vezes dos patriarcas arbóreos de Angola. Dominam a paisagem, têm uma personalidade muito intrigante e tudo, mas não estou a ser justo para outro dos ícones de África.

Quem pensa em paragens tropicais, mais depressa se lembra das palmeiras do que dos embondeiros.

O seu ar desgrenhado, como quem acabou de acordar ou tem muitos remoinhos no cabelo chama a atenção. Estão para o embondeiro como a gazela está para o elefante.


As gazelas a fugir de quem se aproxima

Os seus troncos finos e flexíveis animam a paisagem com a mais pequena brisa. É engraçado ir ver o mar lavar a areia e sentir que as palmeiras acompanham o ritmo das ondas.

As palmeiras, tal como os embondeiros, também têm serventia para a vida humana. Não servem só para dar uma sombra rala ou animar o horizonte. Os frutos permitem fazer o óleo de palma – que seria da muamba sem as palmeiras? – e as folhas podem servir para os telhados das casas à beira-mar, na falta de capim.

 
Crise existencial na adolescência

As palmeiras não dão só óleo de palma. Há muitas espécies diferentes. Umas dão tâmaras, outras dão côcos, outras dão frangos assados. A sério, foi um feiticeiro que mo assegurou!

Como não são umas árvores muito esquisitas e crescem em terrenos arenosos e salobros, é costume vê-las à beira-mar, onde já não se dão outras árvores.


Um fruto muito apreciado das palmeiras é o postal-ilustrado


31  08 2008

Nervosismo

Os seguranças lá em baixo costumam ter uma vida regalada. Durante a maior parte dos dias nada acontece.

Nas últimas duas Sextas-feiras de cada mês, tudo muda. Desde manhã cedo que ostentam uma nova ferramenta de trabalho, a AK-47 ou uma pistola-metralhadora ligeira.

As confusões que se geram nos estabelecimentos de diversão nocturna costumam intensificar-se com a chegada do dinheiro dos salários. Mais vale prevenir que remediar.

Na última semana do mês, o turno da noite traz sempre a arma. Os coletes à prova-de-bala passam a estar visíveis e fazem-me pensar se serão só para compôr a figura, ou se terão mesmo justificação.

Quando os dias para o fim do mês se começam a contar com os dedos de uma mão, o nervosismo aumenta. Ao passar um grupo de arruaceiros barulhentos a disparar alarmes de carros, gritar e a comportarem-se como rufias de baixa categoria, as risadas habituais dos seguranças cessam. Ao longo de toda a rua se vão vendo as cadeiras a ficar desocupadas e os passeios cobertos de fardas castanhas. Uns tiram a arma do ombro e deixam-na na ponta do braço caído. Outros embalam-na com o dedo apoiado na guarda do gatilho. Fazem caras fechadas e sérias. A tensão cresce e o barulho no meio da rua esmorece. O grupo avança um pouco mais depressa. Assim que mudam de quarteirão, o problema passou para os seguranças seguintes. A arma de cada um volta a repousar na bandoleira que dá a volta ao ombro. As cadeiras, que ainda não arrefeceram, voltam a ser ocupadas e os jogos e conversas são retomados. Até ao próximo grupo. Hoje, ou daqui a uns dias.

Uns minutos depois voltam-se a ouvir as risadas e as histórias que, imagino, são contadas com um grande sorriso.

Mais tarde, só o cacarejar intermitente dos rádios interrompe o silêncio.

Amanhã é outro dia. Pode ser que o fim do mês já esteja longe outra vez.


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