Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

24  07 2008

Garoupa

Para recuperar de uma longa semana no gabinete, combinei com os colegas a ir experimentar outra comida para além da que habitualmente nos é servida nos restaurantes.

O choco grelhado no Futungo de Belas pareceu-nos a escolha lógica já que, sempre que lá passamos, o cheiro nos deixa com água na boca.


Choco grelhado, cozinheira e candongueiros

Aproveitámos e demos uma vista de olhos pelo mercado de arte. Estava cheio das peças que habitualmente imaginamos quando se fala de arte africana. Esculturas em madeira e chifre, pinturas, tecidos e cestaria.

Nas ruas só se vendem produtos feitos na china, frescos e bebidas. A maioria das mercadorias provém de lojas geridas por chineses, árabes ou libaneses, que compensam margens de lucro baixas com facturações elevadas. Não se vê artesanato africano. Parece um pouco estranho, mas a explicação é simples e demonstra capacidade de adaptação dos mecanismos legais às especificidades de uma economia paralela bem enraizada.

Para combater a falsificação, as peças de artesanato só podem sair do país se tiverem um selo de autenticidade colado. Sem selo, há a confiscação imediata da peça. Os selos numerados são atribuídos aos artesãos e custam 50 Kz. É uma quantia simbólica, que não encarece a peça. Isto implica o registo dos artesãos e um controlo sobre o número de peças exportadas. As peças sem selo destinam-se apenas ao mercado interno, que não é expressivo.

Estas limitações à exportação reduzem a produção e mantêm os preços elevados. Como a oferta é pequena, há apenas dois ou três mercados especializados em arte africana.

Associado ao mercado de arte do Futungo há muitas bancas a vender comida. São um pouco mais sofisticadas do que os sítios modestos onde almocei anteriormente. Propõem choco grelhado, espetadas de moelas ou peixes assados na brasa. O acompanhamento pode ser salada ou legumes cozidos. De entre as várias opções disponíveis, escolhemos uma garoupa para os três. Foi logo posta no grelhador. Mandaram-nos passar à sala de refeições, ali ao lado. No fundo era um quintal murado com umas chapas onduladas a proteger do sol. Segundo os padrões africanos era um sítio limpo.


Sobrava peixe para tão pouco prato

A garoupa estava magnífica. O peixe era muito fresco e saboroso. Podia estar um pouco mais assada, mas comemos bem e depois pagámos o preço acordado à entrada: 1500 Kz. Um pouco menos de 15 € por um peixe que custaria uns 30 € em Portugal – cru.


Depois da autópsia pouco sobrou

Voltei a reparar que as moscas africanas são particularmente educadas e só pousam na comida depois de se ter terminado…


23  07 2008

Noite

As noites às vezes são complicadas. A vontade que temos de dormir não está em sintonia com alguns espíritos mais foliões que resolvem gritar serenatas à minha janela, ou partir garrafas de cerveja no pátio em frente a altas horas da madrugada. Temos tido a sensação de que as noites são muito curtas. Acordamos com o tal ar de zombie e com a cara cheia de vincos.

Depois de estudarmos o problema, descobrimos que a questão não assenta propriamente na duração da noite. O amanhecer é que chega estupidamente cedo, a uma hora que não lembra a ninguém.

Tem sido de tal forma, que já houve um dia em que sonhei que dormia…

Adiante.

Esta noite até estava a começar bem. Deitei-me quando ainda não tinha começado o dia seguinte e esperavam-me umas sete horas de luta com a almofada. Tudo corria lindamente. Uma hora depois os seguranças do prédio resolvem abrir, à bordoada e pontapé, uma porta metálica perra… Estava difícil mexê-la, pelo que posso concluir que também ela dormia profundamente.

E isto leva-me a falar da noite luandense, que foi uma experiência nova, descoberta quase por acaso.

No Sábado da última Lua Cheia resolvi ir ver um pôr-do-Sol lá para os lados do Mussulo. Já estou há tanto tempo em Angola e ainda não tinha tido a oportunidade de apreciar um dos famosos entardeceres africanos.

Como é a época dos cacimbos, não há um verdadeiro pôr-do-Sol. Há uma bola amarela que vai descendo e ficando cada vez mais laranja. Quando está quase a chegar ao horizonte, desaparece na neblina.

É um verdadeiro anti-clímax…


30 segundos de intervalo. Depois desapareceu sem tocar no horizonte

Depois foi o regresso a casa, a horas menos indicadas para andar na rua (segundo me disseram). Se na ida não demorei mais de 45 minutos a chegar ao Mussulo, o caminho de volta tomou-me mais de duas horas. Entre candongueiros avariados, obras intermináveis e condução agressiva, os engarrafamentos sucediam-se.

Por causa de um qualquer acidente na Estrada da Corimba, que passa junto ao mar, tive de vir pelo meio do Bairro Rocha Pinto. Já de dia não é recomendável e de noite ganha um aspecto tenebroso. Não faço ideia se é mais perigoso ou não, mas o certo é que o escuro esconde os perigos e realça os receios. Nem tudo foi mau, porque pude assistir à abertura dos mercados nocturnos.

À noite os mercados também funcionam. São abastecidos pelas vendedoras que não despacharam a mercadoria diurna e ainda não têm lucro suficiente para regressar, por aqueles que vendem à porta de casa e pelos que cozinham para vendedores, clientes e candongueiros. A confusão é semelhante à diurna, mas com um aspecto fantasmagórico. Para vencer a escuridão densa de Luanda, todas as bancas têm uma garrafa de cerveja ou lata velha com parafina a arder. Ver as bermas a bruxulear durante quilómetros é algo de indescritível. Atrás de cada chama surge uma cara distorcida pela luz laranja do fogo e o negro profundo da noite. Dois olhos esbugalhados surgem sobre um nariz brilhante e um sorriso aberto que grita o pregão. Do breu surge uma mão sem rosto, que se estende sobre as brasas de um grelhador feito com uma jante de automóvel, vira o cabrité e volta a desaparecer.

Uma maior concentração de pequenas chamas ondulantes indica zonas de trânsito mais lento ou cruzamentos importantes. Para quem vem ao volante significa mais uns minutos a passo de caracol. Os candongueiros continuam a entrar e a sair da estrada sem aviso ou cuidado e a ânsia de andar mais três metros que seja fá-los cortar a passagem a tudo e todos.


Um embondeiro ao pôr-do-Sol é um excelente conversador

Contrastando com o centro de Luanda, onde a noite é sossegada, os arrabaldes vibram com tanta azáfama. Quase se diria que os mercados nocturnos são tão vivos como os diurnos. Não são tão coloridos porque o lixo desaparece nas sombras. Há vultos cansados que vão aparecendo e desaparecendo na escuridão, iluminados pela dança desencontrada dos faróis e das lamparinas. São os vendedores que ganham o dia no meio das filas de trânsito, que se juntam aos carregadores no regresso a casa, para descansar e retomarem na madrugada seguinte.

Antes de me deitar ainda fui à janela ver quem me chamava. E lá estava ela!


Linda, como sempre!


22  07 2008

Não se apanham coisas do chão

Quando fui comprar a mandioca para experimentar a receita que me deixaram num comentário, tive de perseguir umas duas ou três vendedoras até fazer as compras todas. Estes mercados dinâmicos ainda me fazem alguma confusão. É preciso esperar pela mandioca das 15:05, que faz a ligação com o expresso do abacaxi das 16:10 para a Mutamba, só para se poder comprar as bolachas das 16:15 que partem para o Gamek. Antes de perceber o esquema quase que julgava que fugiam de mim. No entanto, não dei este tempo gasto a perseguir hortaliças como mal empregue, muito pelo contrário. Já consigo perceber um ou outro pregão. Segui uma peixeira por quase dois quarteirões a tentar decifrar o que gritava. Só quando vi os chicharros é que descobri o que significava o KARAPAWÊÊÊÊ


Um dos muitos mercados dos arredores

Os kwanzas não são a moeda mais prática do mundo. O baixo valor das notas mais usadas implica que, para ter uma quantia com que se possa comprar alguma coisa, seja preciso andar com um maço de notas monstruoso. Não é tanto o volume que incomoda, é ter de contar muitas notas de 10 Kz e 5 Kz. Para contornar este problema, os angolanos arranjaram um método que quase se podia descrever como digno de figurar ao lado do ovo de Colombo: fazem maços de notas embrulhados nas próprias notas. Tal como há quem faça um maço de notas e as prenda com um elástico, os angolanos fazem um maço com uma quantia pré-definida e usam a última nota para amarrar as restantes. Como o dinheiro anda sempre dobrado em quatro, está sempre tudo organizado. Já muitas vezes me deram 100 Kz de troco num único maço.


100 Kz em notas de 5 e de 10

Com os buracos e valas que se abriram para instalar mais candeeiros, percorrer os passeios tornou-se num exercício de perícia. É preciso ir navegando num labirinto tridimensional e sincronizar o movimento dos restantes peões com os buracos, os montes de entulho e as águas que escorrem por todo o lado. Estar atento a onde se põe os pés é absolutamente necessário. E, às vezes, até tem vantagens insuspeitas. Já muitas vezes reclamaram comigo por apanhar coisas do chão “que é sujo, que é porcaria, que cheira mal”. Mas encontram-se tantas coisas boas no chão! Eu encontrei uma coisa da qual só tinha ouvido falar. Um conhecido de alguém tinha ouvido um primo dizer que lhe contaram que havia moedas em circulação. Agora já acredito. Encontrei uma. Do meu ano!


Depois de limpa até ficou apresentável


21  07 2008

Daqui a nada volta…

Como ainda havia meia mandioca por cozinhar, voltei às frituras. Aquilo é mesmo um petisco. Proibi-me de ir à cozinha nas próximas horas ou acabo com ela e depois queixo-me que comi demais. Acabei de almoçar e comecei a ouvir os geradores a trabalhar na rua. Faltou a electricidade. Não há internet. Tudo normal.

Com a falta de electricidade, os vizinhos largaram a máquina de soldar e no prédio em frente há muitas pessoas à janela. Vejo uma mãe a fumar no último andar. Tem os cabelos muito brancos e usa óculos de massa pretos. Vê os poucos carros que passam na rua.

Admiro as remodelações feitas nos vários apartamentos, desde as máquinas de ar condicionado espalhadas um pouco ao acaso pelas fachadas até às janelas que se vão fechando e abrindo consoante as necessidades.


Para não haver uma corrente de ar, fecha-se a janela

Escrevo sentado numa lata de leite em pó vazia, como tenho visto muitos engraxadores e vendedoras fazer. Não sei se foi intencional, mas os senhores da Nestlé acertaram na altura da lata.

Apesar de haver mesas e cadeiras bem confortáveis cá em casa, no meu quarto não tenho secretária, mas só aí é que há uma janela com rede mosquiteira (a tal que me obrigou a acrobacias na fachada). Optei pela lata do leite e a mesinha de cabeceira, para poder escrever embalado pela banda sonora de Luanda.

O passeio da manhã levou-me até perto do Kinaxixi, onde o antigo mercado foi encerrado e se começou a construir um centro comercial. Começou-se… talvez nunca se venha a terminar.

Aproveitei para ir à casa de câmbios desfazer-me de alguns dólares. Também eu já os uso como maneira de poupar. Os kwanzas servem para as compras do dia-a-dia, mas fogem mais depressa do que uma moeda que não se pode trocar tão facilmente. A menina do outro lado do vidro blindado conta sempre o dinheiro duas vezes à frente do cliente, mas custa a ver o que faz, porque o vidro é muito grosso…

Nas voltinhas que tenho feito até à marginal e ao Estádio dos Coqueiros, já me pude aperceber dos preços de alguns produtos que me vão servir de referência para regatear outros. As bananas são uma boa escolha. Há bananas de 50 Kz e de 100 Kz. As mais baratas são vendidas três-a-três e estão muito maduras, comem-se até ao dia seguinte ou então vão fora. As de 100 Kz vêm aos cachos de cinco e estão mesmo no ponto. Tenho comprado destas. O ideal é comprar a uma vendedora que tenha alguém a vender o mesmo a alguns metros, porque a margem de manobra para inflacionar o preço de branco fica mais reduzida.

As bolachas podem ser compradas mais baratas que no supermercado, é só questão de encontrar a vendedora certa no momento certo. A partir do meio da tarde, perto das paragens de táxi mais concorridas, os preços vão baixando gradualmente. Tenho sorte, há cinco cruzamentos importantes nas ruas à volta de casa.


20  07 2008

Rosa

Por uma razão ou por outra, fiquei uns dias sozinho em casa. Aproveitei para por em dia umas sestas que estavam já dadas como incobráveis e para engomar a pilha de roupa que tinha vindo a adiar. As sestas correram muito bem. Superaram mesmo as minhas expectativas. Já a parte do ferro de engomar teve uns resultados mistos, para não dizer que não foi mau de todo. A roupa ficou passada, mas há um ou outro vinco que acabou por me derrotar. Com barulho das luzes ninguém nota.


Um Toyota na publicidade

Aproveitei também para fazer mais uns passeios higiénicos pelo bairro. Voltei a visitar o edifício da Assembleia Nacional que no Domingo tinha um sujeito atravessado à porta. Nos dias de expediente ganha uma nova dignidade, imposta pelos dois polícias. Em frente da escola de condução tropical (no Cinema 1º de Maio) havia uma dúzia de vendedores de estampilhas fiscais e impressos para outra dúzia de candidatos a condutores. Havia também uma vendedora de livros. Dei uma espreitadela aos títulos e achei piada à disposição das obras. “Noções de Mecânica”, “Código de Estrada”, “Código Penal Angolano”, “Bíblia Sagrada”.


Vendedora de água fresca

A venda na rua aparenta ser estática, mas não é. Os rapazes que vendem entre os carros estão sempre a andar. Fazem vinte metros contra o trânsito e depois regressam depressa ao ponto de partida. As vendedoras de fruta estão quase sempre sentadas, mas de vez em quando agarram no alguidar, põe-no à cabeça e mudam a loja para uma esquina mais movimentada. É um pouco ingrato mirar um abacaxi com bom ar e, quando se regressa, uns minutos depois, o abacaxi foi-se com a vendedora. Até mesmo as vendedoras de ovos cozidos, bolos e sandes estão sempre em movimento. Param apenas para atender um cliente ou para aproveitar um local concorrido. Só mesmo quem depende dos fogareiros para cozinhar é que se mantém, dia após dia, no mesmo local.


Peixaria

O panorama fora do centro da cidade é muito diferente. No Morro Bento, lá mais a Sul, as bancas de fruta e hortaliças são imensas. São verdadeiras lojas. As margens de lucro destas vendedoras já não são consumidas pelo táxi de volta a casa e a variedade de produtos aumenta muito as vendas.


Mercearia

No fim-de-semana fomos dar uma voltinha para fora da cidade. Já nos estávamos a armar em portugueses típicos, que vão passar o fim-de-semana ao centro comercial. Apercebem-nos do ridícula que estava a ser a nossa vida quando demos por nós a cumprimentar outros portugueses que só conhecemos de vista do centro comercial.


Vida de cão

Soube tão bem arejar o espírito e ir ver uma Luanda sem casas e sem gente, com o Mussulo a molhar os pés ao nosso lado. Mas isto é tema para outro dia. Hoje é para falar da Rosa.

No regresso a casa tínhamos de ir às compras. Havia já muitas falhas em casa. Como as cebolas do supermercado tinham aspecto de já ter tido uma juventude preenchida algures no século passado, seria melhor pensar em ir a outro sítio. Resolvemos parar numa das muitas bancas de verduras. O critério de escolha foi inexistente. Parámos na primeira que não tivesse clientes. Os produtos estavam com muito melhor aspecto. Os tomates viçosos, os pimentos brilhantes e as cebolas tinham aspecto de cebola. Não eram aquelas coisas moles que vimos lá no supermercado.


Cada par de laranjas 50 Kz

Ao contrário das vendedoras do centro de Luanda, que vendem duas laranjas de cada vez, aqui vende-se em maior quantidade. À excepção dos pimentos, que estavam empilhados quatro a quatro, o resto era vendido a balde. Apesar de não sermos, claramente, angolanos de gema, os preços não reflectiam o imposto de branco. O preço que a vendedora nos fez para o balde de tomates foi o mesmo que fez ao cliente anterior.

Um balde de tomates era muito. Somos só três e não gastamos assim tanto. A vendedora bem insistia para que levássemos um balde inteiro, que não se estragava no frigorífico, mas era realmente muito tomate. Resolvemos comprar só duas mãos cheias. O preço foi um pouco regateado, mas depressa se chegou a acordo: 200 Kz por 8 tomates com excelente aspecto. Mais um balde de batatas e outro de cebolas, quatro pimentos (uma pilha) e uma dezena de maracujás. Ficou tudo por 2500 Kz. Pode parecer caro, mas no supermercado só havia coisas podres ao mesmo preço.

“Se as coisas forem boas, voltamos para comprar mais” avisou a P..

“Sim, é tudo bom.”

“Como se chama?”

“Rosa!” e brindou-nos com um sorriso.

Até à próxima!


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