Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

19  07 2008

Candongueiros

Tal como prometi há uns tempos, tinha de publicar mais um artigo dedicado aos mantém Luanda a funcionar. Se as ruas e avenidas se podem comparar com artérias, os taxistas podem muito bem ser os glóbulos vermelhos do sangue da cidade.

Apesar de serem todos azuis e brancos, cada frota procura ser distinta das restantes. Não pela qualidade do serviço oferecido, mas pelo volume do rádio ou pela decoração.

Como uma imagem vale um candongueiro carregado de palavras, aqui ficam alguns exemplos.


Agradece a Hiace ou a carta? Nenhuma é famosa

Logo de manhã, quem sai do centro da cidade depara-se com o trânsito compacto em sentido contrário, com duas filas a ocupar o espaço de uma. É vulgar ver uma terceira fila azul e branca a circular bem depressa já para o lado contrário do duplo contínuo. Quem vai na sua mão, que saia da frente, um candongueiro tem prioridade até sobre as ambulâncias.


Extintores vazios usados como decoração

A concorrência é feroz e há grandes discussões nas praças de táxis acerca de quem chegou primeiro. Acaba por ganhar aquele que conseguir enfiar a frente da carrinha de tal maneira que o outro não consiga passar sem bater.


Voltamos aos nomes parvos

As rotas seguidas são mais ou menos fixas, admitindo algumas variações de percurso consoante o trânsito. Não causa espanto a ninguém quando um táxi destinado à Mutamba faz meia-volta no Largo da Maianga (geralmente fazendo inversão de marcha sobre um duplo contínuo, semáforo vermelho, sem piscas e a ocupar quatro faixas).


Colhem peões nas passadeiras?

Para além dos passageiros, há também lugar para a carga, que é sempre variada. Desde molhos de couves até cabras vivas e um caixão, já vimos passar de tudo.


Ainda chegamos lá vivos

Algumas frotas insistem em levar umas colunas extremamente potentes, que fazem estremecer os bancos dos carros à volta. Tenho a impressão de que deve haver enjoos muito frequentes nesses táxis.


A solução pode ser nova, mas a carrinha é tão antiga quanto o problema

Os consumos destas Toyota são coisas espantosas. Há algumas que devem gastar, seguramente, 4 litros por cada 100 km. 4 litros de óleo, claro. O consumo de combustível é algo a que nem se olha por estas bandas, mas não deve andar muito longe dos 30 litros. A avaliar pelo fumo negro que a maioria liberta, devem todas trabalhar a ramos verdes…


Nem sei que diga

Apesar de serem a melhor maneira de ir de um lado ao outro de Luanda, há alturas em que são (mais) perigosos. Nas épocas festivas, é vulgar haver taxistas bêbados, a conduzir de forma ainda mais temerária que a do costume. Nestes dias, a frequência de táxis também diminui e os preços sobem. A assiduidade e pontualidade do proletariado luandense devem decrescer de forma assustadora.


Este é o meu favorito!


18  07 2008

Ilha de Luanda

A Ilha de Luanda é hoje uma península que engorda a cada dia que passa. A sul vai alargando em direcção à nova marginal que passa mesmo abaixo do Palácio Presidencial e ao lado do monumento que se está a construir. Parte deste alargamento foi absorvido por um bairro de auto-construção, digamos.


A parte sul da Ilha de Luanda

A parte norte é a Ilha de Luanda mais turística. É aqui que ficam os restaurantes e clubes mais famosos. E mais caros também. Vir à Ilha é quase como ir ver a torre Eiffel. A comparação não será justa, mas mal cá cheguei disseram-me que tinha de ir à Ilha… Por esta ordem de ideias, ir ao Mussulo deve ser como ir ao Louvre.

Mesmo na ponta norte há um farol que guia as centenas de navios que esperam a sua vez para entrar na barra de Luanda. Alguns devem estar no mesmo sítio em que os vi quando cheguei de avião. É uma luz de esperança. Um dia chegará a sua vez.


Confesso que fomos ver as vistas

Mesmo sendo Inverno, com uns modestos 25 graus, que aqui quase equivalem a uma vaga de frio, havia gente na praia. Malucos diriam os kaluandas. Não cabe na cabeça de ninguém ir para a praia na época dos cacimbos. Curiosamente, em Luanda ainda não apanhei nenhum, mas ouvi dizer que em Malanje já há semanas que se anda no meio da sopa.


Estive mesmo lá

Aproveitei para espreitar a praia. Nada de ir enfiar os pés na água. Na consulta de medicina tropical tiveram o cuidado de referir quatro vezes que banhos de mar em Luanda são proibidos. Cinco milhões de pessoas sem um sistema de tratamento de esgotos a funcionar convenientemente é capaz de tornar a água um pouco insalubre. Fiquei-me por um pequeno passo para o homem, mas um salto gigante para a minha curiosidade.


Enquanto uns vão a banhos, outros ganham a vida

À volta do farol há, como não podia deixar de ser, um mercado informal. Para além das vendedoras com a mercadoria à cabeça, há também umas bancadas montadas com artesanato e comida. Como é um ponto mais turístico, as coisas parecem mais organizadas.


De várias maneiras

A bandeira nacional está presente em todo o lado, até nas embarcações mais modestas. Nos dias em que os Palancas Negras jogam, toda a gente traz uma.

No meio de todas as coisas estranhas que se vendem, por vezes há algo que nos capta a atenção e que nos leva a pagar alguns Kwanzas. Desta vez foi a ginguba. Amendoins torrados, vendidos a copo. Como é habitual, há dois tamanhos à venda. Copo grande (cerca de 250 ml) e copo pequeno (cerca de 150 ml). Perguntámos o preço. Deram-nos o preço para branco. Dissemos que era caro. Baixaram para metade. Ainda era caro, mas comprámos. Eram bons!


Ginguba: 100 Kz o copo pequeno, 200 Kz o copo grande. Depois de regateado

O próximo passo é ir até ao Mussulo. Já nos fomos informar dos preços dos barcos, mas é certo e sabido que nos vão fazer os da época alta…


17  07 2008

Passeio por Luanda

Nos últimos tempos a internet luandense mostrou que padece dos mesmos males que a água e a electricidade. Nem sempre há e quando desaparece não se sabe quando volta. Mas, ao contrário do que se passa com os outros dois serviços, para este não temos uma segunda linha. Não há nas traseiras um gerador de internet a gasóleo ou três metros cúbicos de pesquisas no Google. Quando não há, não há mesmo. Para contornar eventuais falhas no serviço, tenho-me desenrascado com a publicação programada de artigos e com alguns minutinhos de net cravados aqui e ali. Por isso os próximos dias já estão assegurados.

Nesta passada semana acabei por não ver muitas coisas novas de Luanda. As visitas aos arredores parecem ter já terminado e agora aparecem outras coisas para fazer. Aproveitei uma tarde de Domingo para ir conhecer, finalmente, o que rodeia a nossa morada.

A dois passos da porta de casa, está o antigo Cinema 1º de Maio, onde agora que se tiram as cartas de condução, na escola de condução Tropical. Mesmo ao lado está um edifício que diz “Assembleia Nacional” mas à porta tinha um sujeito atravessado, a curtir uma monumental bebedeira… Em frente está um pedestal vazio. Em eras passadas teve umas inscrições. Agora estão apagadas e não consegui identificar nem uma letrinha. Lá no tempo do colono deve ter sustentado uma estátua importante.


A expansão marítima Portuguesa

Fiz meia volta e subi até ao antigo Liceu. Está com um ar usado mas não tão degradado quanto alguns edifícios da sua época. O painel de azulejos continua imponente.

Não levei máquina fotográfica. Primeiro quis saber como era o ambiente. Não me senti inseguro e só fui abordado por controladores uma vez. Vim sozinho para uma voltinha de quase uma hora, em que pude apreciar melhor uma cidade que se apresenta tão diferente a cada novo olhar. Comprei pão e voltei para casa. Lanchei. Não havia net.


16  07 2008

Mandioca, outra vez

Hoje não resisti. Fui à rua e comprei uma mandioca.

Fui ver a receita sugerida pela Ana Pereira (nos comentários à aventura do Baço) e atirei-me de cabeça ao tubérculo!


Mandioca nua

Cortei-o ao meio e comecei a descascá-lo. Como não sabia muito bem de que tamanho havia de cortar os pedaços, preparei um sortido. Logo saberia quais seriam os melhores.

Cozi tudo em água e sal por uns minutos. Depois escorri-os e atirei meia-dúzia para a frigideira. Não devia ser preciso mais.


Palitos, rodelas e cubos

Quando achei que já deviam estar fritos, tirei um e provei. Que delícia! Toca a enfiar mais na frigideira.

Já deu para perceber que se descasca um pouco mais porque a casca frita fica muito dura e que o tamanho ideal é um pouco superior ao de uma batata frita. Logo à noite arranjo mais duas cobaias para experimentar.


Já estou com água na boca

Estou a ver que nos vamos safar bem em termos de comida.


16  07 2008

Ritmos

Luanda têm um ritmo muito próprio. Durante o fim-de-semana é uma terra pacata, sem pressas, com bom tempo e que dá vontade de se ficar numa esplanada a praticar a arte que os lagartos tão bem dominam.

Durante a semana, transfigura-se. Desde que o Sol nasce, tudo corre e tudo mexe. Anda toda a gente com pressa de chegar a todo o lado. Não se deixa o carro do lado entrar na fila porque assim ele chega ao fundo da rua primeiro que nós. São os pregões gritados ao dobro da velocidade. É o acelerar a fundo para travar a fundo vinte metros à frente. É o virar já aqui porque assim não dou a volta lá à frente. Quero lá saber do duplo contínuo e dos que vêm na contra-mão. Corre. Acelera. Vai. Depressa. Já!
Os pregões em Luanda acompanham este ritmo e são disparados. Ao contrário do bem português “É fruuutóóóóóchicolaaaaaateeeee!” que se arrasta até ao fim do fôlego, por estas bandas o objectivo é dizê-lo o mais depressa possível.

Assim que o Sol passa abaixo do horizonte muda tudo outra vez. Aparecem os mosquitos. Desaparecem os carros. As ruas estreitas tornam-se avenidas espaçosas onde se pode passear a pé, sem pressa. Os seguranças à porta dos prédios adormecem nas cadeiras e são acordados pelos rádios da central lá pela hora do jantar.

Lá mais para a noite vem o camião do lixo, com os seus ruídos peristálticos metálicos. Um pouco mais tarde passa o gajo da mota com o escape aberto que faz disparar os alarmes mais sensíveis. Os mosquitos acompanham o ritmo e adormecem também. Eu vou fazer o mesmo.


« Previous PageNext Page »