Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

15  07 2008

Zombies

«Front stance. Pulse.»

6h45m: Toca o despertador do outro lado do quarto. Tenho de me levantar mesmo. Não vale desligar o despertador e virar-me para o lado… quero dormir até meio da tarde… bah.

«One-Two, One-Two – Hook, hook. Pulse.»

6h47m: Onde raio deixei os chinelos? Quero dormir! Encontrei o direito e calcei-o no pé esquerdo. Mais uma volta ao quarto, à procura do esquerdo. Estava atrás de mim. Calço-o no direito. Corrijo.

«Hook, hook. Side kick.»

6h55m: Cambaleio até à casa de banho, do outro lado da casa. Temos de instalar uma passadeira rolante ou um serviço de shuttle, que este corredor dilata durante a noite.

«Kata.»

7h00m: Houve um engraçadinho que colou uma fotografia no espelho. É de alguém com um ar muito acabado. Não, afinal sou mesmo eu. Quero voltar para a cama.

«Claw. Claw.»

7h02m: Esfrego a cara com uma escova de arame só para tentar tirar as ramelas. Ao fim de algum esforço lá consigo abrir os olhos. Olho-me ao espelho. Estou com cara de quem não se importava nada de voltar para a cama. Se fosse só a cara…

«Claw, claw. Pulse.»

7h03m: Lavo a cara outra vez. Pode ser que melhore.
Não melhora.

«Claw, claw. Double knee.»

7h05m: Leite em pó, café em pó, chocolate em pó. Só falta a água em pó… mas depois o que havia eu de juntar?
Clinc-clinc-clinc… maldito remoinho na caneca. Hoje ganha ele. Vai direito para o micro-ondas.

«Switch knee.»

7h10m: Pão com manteiga. O remoinho no leite ainda me pisca o olho. É melhor tirar a colher da caneca ou ainda a espeto na cara. Sinto que ainda estou a dormir. Olho em frente e está outro monte de sono a lutar com a tostadeira. Chama-se R.. Não, a tostadeira chama-se Elta e é alemã. Não, não é loura. Não, o R. também não é louro. Credo, estes monólogos interiores com uma consciência que está mais a dormir que nós são terríveis. Se calhar são os efeitos secundários do anti-palúdico…

«Knee. Kick.»

7h12m: A P. junta-se a nós. Partilha o nosso ar de Zombie. Foi por esta altura que me lembrei de escrever estes disparates…

«Jump kick.»

7h20m: Tem mesmo de ser. Toca a levantar da mesa. Ui, que difícil. Vá, outra tentativa. Pronto, agora já não vale voltar a sentar. Falta lavar os dentes e fazer barba. Vamos a isso.

«Claw, claw. Double knee. Jump kick»

7h30m: Despertei com o medo de me cortar a fazer a barba. A água a escaldar que sai da torneira também ajudou. Calças e camisa, botas apertadas e sem óculos de Sol. Estamos na época dos cacimbos e hoje é um dia menos luminoso. Ficam em casa a fazer companhia ao leite em pó. Os miúdos já não vão dizer que “o branco dos óculos negros é mais bonito”…

«Front stance.»

7h45m: Tudo fora de casa. Ainda temos mais 40 minutos a fazer pontos de embraiagem com um V6… Só em Luanda.

Amanhã repetimos tudo outra vez, só para ter a certeza de que a coreografia está bem sabida…

Dedico este pequeno desvairo à malta dos BTS. Eles compreendem-me.
Obrigado Ana Oliveira. Obrigado Vanessa Livramento.


14  07 2008

Fado dos 31

Xiii…. 31!

Ena tantos!

Parabéns, mais-que-tudo! O aniversário do fadinho… do 31.

Foi já há um mês que nos separámos. Trinta dias longe um do outro. Trinta dias sem partilhar abraços de carne e osso, a ter de nos contentar com beijos soprados a meio mundo de distância. Trinta dias sem contar música juntos. Trinta dias difíceis. Mas um mês passou depressa. Mais depressa do que poderíamos alguma vez supor. Daqui a nada estou de volta e vamos poder trocar todos os mimos que temos vindo a guardar.

Hoje é um dia especial. Gostava de o poder partilhar contigo, de te poder oferecer um presente inesperado, de te fazer rir.

Tenho andado a pensar no que escrever neste teu dia, a procurar escolher o tema apropriado e as palavras certas (as erradas também, como se vê pelo título) para te desejar parabéns.

Há pouco fui à janela e olhei para o céu. Sei que nesse instante fazias o mesmo.


A menina dança?


13  07 2008

Quem prova as águas do Rio Bengo já não regressa

Assustei-me quando vi que a água engarrafada Puríssima que bebemos é captada no Bengo. Espero que a filtragem e tratamento anunciados sejam mesmo bons, que eu quero voltar a casa.

Há um provérbio que diz que quem bebe a água do Rio Bengo já não é capaz de voltar à pátria. Eu brincava e dizia que era porque se morria de diarreia. Agora já não tenho tanta a certeza. Angola é uma experiência marcante. É uma terra cheia de contrastes e encanto. Os aborrecimentos do dia-a-dia têm de se pôr para trás. Foi assim que os angolanos conseguiram superar uma guerra que ceifou gerações. Será assim que vão ganhar um futuro melhor.

Percebo o sentimento dos que falam de África com um sorriso e uma lágrima. É uma terra de alegrias e tristezas. Comecei por ver todas as tristezas. O resto serão alegrias.


12  07 2008

O baço contra-ataca

Depois da aventura culinária de há uns dias, resolvi saber o que se poderia fazer com aquele órgão tão desdenhado. Fui à net e descobri que não é só nas prateleiras dos supermercados que se encontram coisas esquisitas. Na net também há receitas de baço…

Parece que o baço é usado não como prato principal, mas como ingrediente secreto. Raspado, serve para engrossar molhos. Mas continuei a ler umas coisas e descobri que há uns anos se deixou de vender baço, esófago e mioleira de vaca na Europa por causa de uns bovinos que andavam apanhados do clima. É sempre bom saber que em África não há destas preocupações…

Duvido que em África tenha alguma vez havido vacas com BSE. Aqui as vacas não comem rações nem são importadas de países industrializados. Menos mal…


11  07 2008

Bug informático

Há alturas em que os computadores parecem ter sido criados apenas para resolver os problemas que não existiam antes deles. Há alturas em que as operações mais simples acabam por demorar uma eternidade ou então obrigam-nos a um labirinto mental para contornar aquele pormenor.

Por vezes há umas falhas na programação que nos aborrecem, não pela sua gravidade, mas por serem um grão de areia que incomoda. Na gíria, chamam-se bugs.

Hoje encontrei o verdadeiro bug informático. Um bug que se materializou de uma forma tão concreta que me vi obrigado a arregaçar as mangas e resolver o problema à força.

Mandei imprimir um documento e oiço o papel a entrar na impressora com um barulho invulgar. Logo a seguir a impressora parou. Tinha o papel encravado. Abri a tampa e salta-me não só o papel amarrotado, como também uns pedaços de qualquer coisa castanha não identificada. Libertavam um cheiro característico, que me recordou uns agradáveis meses passados a abrir caixas de visita de esgotos na Amadora… Puxei alguns pedaços para fora e deparei-me com uma senhora barata.


Barata com curso de reparação de impressoras

Aquela barata era um peso-pesado. Julgava que daquele tamanho só se viam nos filmes de terror de série B.

A massagem que recebeu dos rolos da impressora deixou-a permanentemente fora de combate, mas deu-me uma excelente oportunidade para ver as várias peças que constituem uma barata africana.


Sobraram peças

Um bicho com uma aparência tão sólida, afinal não passa de um insecto tuning. Muita carroçaria para pouco chassis… Tirando as asas, pouco sobra.


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