10
07
2008
Hoje tive algum tempo livre ao final do dia. Sentei-me a ler uns jornais atrasados. Acho muito mais piada ler jornais antigos do que os do dia. A distância a que se está dos acontecimentos dá uma nova perspectiva às coisas e as notícias têm um sabor diferente.
Para além das gordas e de uma ou outra notícia mais interessante, também dei uma olhadela pelos classificados. Tentei perceber o que é preciso no país através das ofertas nos jornais. O ramo imobiliário começa agora a dar os primeiros passos e grande parte da habitação é subsidiada ou propriedade do Estado, pelo que ainda não se vê muitos anúncios de compra e venda de propriedades. Há alguns condomínios privados e habitação de luxo à venda, claro. Tal como no resto do mundo, há classes sociais que não sabem o que é a crise ou a pobreza.
Num país em reconstrução, há muitas ofertas de emprego. A maioria das empresas procura técnicos qualificados, de preferência angolanos. É sinal que já começa a haver quadros nacionais capazes de suprir as necessidades do país. Desde engenheiros até canalizadores e gestores de recursos humanos, a oferta é grande.
No entanto, foi outro tipo de anúncios que mais me despertou curiosidade. Em cada jornal que abria havia pelo menos três avisos com o título “Abandono de posto de trabalho”. Ainda é um problema sério, este de um dia deixar de apetecer pôr os pés no emprego… lembra-me as descrições de Luanda que Pepetela faz. Agora não será tão grave, mas não deixa de ser sintomático que logo o segundo artigo da Lei Geral do Trabalho contemple esta forma de rescisão com justa causa. Duas semanas de ausência sem aviso dão direito a um anúncio em jornal de circulação nacional dando três dias para apresentar justificação. O curioso é que não são só as grandes empresas que fazem estes avisos, são também as pequenas. Ao lado de um anúncio da TAAG está outro de uma padaria num dos bairros pobres de Luanda.

A construção parou, mas não deve ter sido por falta de operários
Será que as condições de trabalho são assim tão más que é necessário procurar outros meios de subsistência? Ou será aquele inconveniente do horário de trabalho ter de ser cumprido?
Por falar em horários de trabalho… tive um colega que afirmava categoricamente “que os horários são para se cumprir. Já que não se cumpre a hora de entrada, ao menos que se cumpra a de saída!”

A caminho do trabalho
Mas iniciativa e gente trabalhadora é o que não falta em Angola. Há centenas de ofertas de trabalho para cada aviso de abandono. Por todo o lado se vêem oficinas de serralharia, marcenarias, canalizadores e electricistas. Cada Kaluanda procura preencher um nicho de mercado no seu bairro.

Fábrica de tanques de lavar roupa, à beira da estrada
A publicidade imaginativa é sempre um bom meio de angariar clientes

Futebolistas e construção civil
Ainda falta percorrer um longo caminho, mas as coisas melhoram a cada dia que passa.
9
07
2008
A quantidade de energia usada em Luanda é incrível. São cinco milhões de pessoas a conviver com energia barata. Para além dos automóveis que gastam rios de combustível, a electricidade também está presente até nos bairros mais pobres.
Os postos de transformação, pintados de branco, contrastam com o cinzento das habitações. O número de contrato está escrito a tinta azul nas paredes exteriores das casas. Achei curioso não ver contadores eléctricos. Aliás, cá em casa não temos contador, mas o andar em frente já tem. Parece que os angolanos são hábeis a fintar os contadores e a fazer puxadas bem escondidas. A empresa que fornece electricidade optou por não tentar combater uma guerra perdida à partida. A contagem dos consumos é feita por estimativa e em função do número de divisões da casa. Estamos lixados!
Por outro lado, as instalações eléctricas assim não precisam de ser tão artesanais e perigosas como eram. Continuam um pouco artísticas, com muita fita isoladora a fazer a vez de tampa de quadro e com seis emendas por cada metro de cabo, mas não é necessário improvisar tanto só para as esconder.
A produção de electricidade depende quase exclusivamente de centrais termoeléctricas. As barragens angolanas são quase todas de eras passadas e duvido que haja alguma a produzir electricidade de forma fiável. Tenho lido notícias de projectos de recuperação e modernização de algumas barragens. No entretanto vão-se inaugurando novas centrais eléctricas à volta das capitais de província. São mais poluentes, mas cumprem o seu propósito bem mais depressa.
O hábito de escrever nas paredes está por aqui bem inculcado até nos órgãos oficiais. Não é só a distribuidora de electricidade que escreve o número do contrato nas casas, os próprios municípios usam este método para comunicar o embargo de uma obra. No Prenda foi embargada a construção de um edifício de três andares. Em vez de se embargar a obra e esperar que os trabalhos parem, escreve-se a tinta vermelha e letras garrafais que está embargado pela administração municipal. Não há maneira de disfarçar.
8
07
2008
Quando cheguei a Luanda disseram-me que os buracos cá fazem parte da vida, como tudo o resto. Em vez de perguntar se vai fazer bom tempo (que aqui faz sempre), mais valia perguntar se haverá buracos novos, ou se os nossos velhos conhecidos receberam alguma atenção e desapareceram.
Alguns buracos coincidem com as câmaras de inspecção da rede de esgotos. Isto quer dizer que às vezes desaparecem tampas e grelhas. Na maior parte dos casos, estes buracos vêem-se bem, mas quando os esgotos entopem, só se vê uma poça inofensiva… De vez em quando lá cai uma roda e é o cabo dos trabalhos para de lá tirar os carros.
Há buracos pelos quais ganhamos um carinho especial, que os vemos nascer, crescer, ir à escola, fazer-se buracões e depois vir alguém matá-los. Outros têm uma personalidade própria. Há um que deve estar armadilhado. Está tapado por uma poça de água escura e tem sempre um borbulhar suspeito, como se lá estivesse um jacaré à espreita… Qualquer dia salta lá de dentro e leva uma criancinha.
6
07
2008
Foi com estas palavras do R. que se iniciou mais uma aventura gastronómica deste primeiro andar das Ingombotas.
“Não será melhor levar duas?” Acrescentou, enquanto segurava numa embalagem com meio quilo de carne congelada. “É bife de vaca!”
“Não, deixa estar. Seiscentos gramas chegam bem para três pessoas. Não te esqueças do acompanhamento.”
Desde esta fatídica Quinta-feira no Jumbo, que a carne acabou por ficar no congelador à espera de destino.
Esta noite fui ver o que havia no frigorífico para cozinhar. Para além dos croquetes, rissóis e pastéis de bacalhau congelados dos dias de menos imaginação, havia ainda filetes de pescada e o tal pedaço de “Bife de Vaca” congelado. A pescada foi posta de parte. Tinha sido o nosso almoço e jantar da véspera. Teria de se fazer ou uns bifes, ou um arrozinho de carne.
Limpei o gelo do pacote e li o rótulo. “Baço de Vaca”. Mas que raio? Quem é que se lembra de comprar baço? Não tinha vindo bife? O R. escolheu bife… pelo menos disse que era bife.
O pedaço de carne em questão custava apenas 76 Kz, mas a esquizofrenia dos preços angolanos faz-nos acreditar em tudo e perder a noção da realidade. Não há sítio nenhum no mundo onde se venda bife de vaca tão barato. Aliás, julgo até que a carne para animais era mais cara.
E agora, como se cozinha isto? Descongela-se e logo se verá. Um refogado é capaz de ajudar a disfarçar um eventual travo característico.
Entretanto informei as restantes vítimas do que se passava e do que os esperava. Agarraram-se aos telefones e falaram com as mães. Eram unânimes, aquilo era intragável, incomestível e imprestável. As expectativas eram baixas, portanto.

A população preparou-se para o pior
A textura da carne e a quantidade de sangue fizeram-me acreditar que talvez se conseguisse uma cabidela medíocre ou uma surra-burra sofrível. O refogado lá se encaminhava, mas a carne… tinha um aspecto cada vez menos convidativo, à medida que a ia cortando, limpando e atirando para o tacho.
Fui proibido de juntar arroz à mistela que ganhava aroma. Teria de se cozer esparguete, só para o caso de o baço se revelar mesmo incomestível. Vinho branco espanhol, uma cenoura pequenina e tomate pelado acabaram por ser sacrificados ao deus do Baço, na esperança de um milagre.
Já na mesa, serviram-se os pratos. O R. provou e cuspiu a carne. A P. provou e disse que não conseguia engolir aquilo. Eu provei e até nem achei mau. Bem próximo da surra-burra sofrível antecipada. Sabia e tinha a textura de fígado. O tempero até estava aceitável. Recebi a queixa do costume: Pouco sal.
Acabei por repetir enquanto os dois companheiros de prato se entregavam aos prazeres do esparguete no molho.
Rematámos a refeição com pêssego em calda. Nem tudo tinha de ser mau…
Da primeira vez que cozinhei cá em casa preparei o puré de mandioca com frango, hoje faço baço no tacho. Qualquer dia, com medo, proíbem-me de entrar na cozinha.
Enquanto escrevia mais este episódio das nossas aventuras angolanas, o homem-do-pijama-de-uma-risca-só lavava a loiça e não me deu tempo de fotografar o resultado. Por isso sou obrigado a improvisar com uma coisa que nunca imaginei existir: um todo-terreno funerário.

Uma carreta funerária para as ruas de Luanda
6
07
2008
A crise política no Zimbabwe não tem deixado os jornais indiferentes, em especial os independentes. Os títulos variam desde os mais contidos “Governo avalia a situação do Zimbabwe” até aos mais coloridos “Mugabe pifou de vez”.
Mesmo com processos eleitorais fraudulentos, Robert Mugabe lá se tem mantido no poder. Nem mesmo a indignação dos chefes de estado africanos a União Africana conseguiu levar a uma decisão na Cimeira do Cairo. O medo de mais uma guerra falou mais forte.

Liberdade
Nestas alturas só me lembro de uma coisa de uma lenga-lenga zimbabweana que reza assim:
Kumé Mugabe, Zimbas há muito?
Yá, já Zimb’há bué!