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07
2008
Tendo vivido sempre em Portugal, há coisas que dava como garantidas. Uma delas era água nos canos. Aqui nem sempre há. Outra era electricidade sempre que quisesse. Novamente, pode ser que não haja. Mas como não há duas sem três, o Sol não está sempre a Sul! Para complicar mais as coisas, também não está sempre a Norte.

Trópicos
Ao longo do ano o Sol vai, aparentemente, subindo e descendo no céu. Este movimento permite dividir a Terra em várias zonas. Os círculos polares (acima dos 66º de latitude) são as zonas onde é possível, pelo menos uma vez por ano, o Sol nunca nascer. Nas zonas temperadas meridional e setentrional, o Sol está sempre do lado do equador. Mas nas zonas tropicais (abaixo dos 23º de latitude) o Sol vai descendo e subindo, umas vezes indicando o Norte e outras o Sul.

Trópicos
A velocidade do tempo também é diferente. A posição do Sol no céu não nos dá muitas pistas acerca de quanto tempo passou. Ainda não estamos habituados a vê-lo tão alto durante tão grande parte do dia. Por outro lado, o lusco-fusco dura muito pouco tempo. Não há um pôr-do-Sol prolongado como no Inverno de Portugal. Agora é dia. Agora é noite. A duração dos dias também é menos variável que na zona temperada setentrional onde cresci.

Trópicos
No Inverno, os dias são um pouco mais curtos que no Verão… e com semelhante uniformidade, nem há Primavera ou Outono. É desta que se me acabam as alergias na Primavera!
4
07
2008
Comprei um abacaxi perto de casa. A vendedora pediu-me o preço habitual de 500 Kz, que era exagerado para o tamanho do abacaxi. Como era fim do dia, disse-lhe que era caro. Baixou logo para 450 Kz porque se queria desembaraçar dele. Achei que não devia regatear até ela ter de começar a fazer muitas contas de cabeça. A diferença em jogo far-lhe-ia muito mais falta do que a mim. Dei-lhe uma nota de 500. Engonhou um pouco a dizer que não tinha troco, que os 50 Kz eram uma gasosa para o menino que trazia às costas.
Ainda nem anda e já recebe gasosas! Grande lata!
O preço acordado foi de 450 Kz. Era esse que se pagava. Enquanto não vinha o troco, as outras três vendedoras tentavam impingir-me 50 Kz da mercadoria delas. Uma tangerina, umas folhas de couve, um molho de qualquer coisa. Esperei um pouco e lá apareceu uma nota de 50 Kz.
O abacaxi é docinho e não estava demasiado maduro. Ganhou um cliente.
As obras debaixo da janela finalmente acabaram. Durante a noite já há menos barulho e não acordo mais cansado do que quando me deitei. Mas sei que esta noite vai ser difícil dormir. É Sexta-feira, dia em que as angolanas casadas dormem sozinhas.

O ninho de cucos
Não sei se é por terem acabado as obras, se é por as pessoas se terem esquecido da rua, o certo é que agora é muito mais fácil encontrar estacionamento…
Tenho andado à procura de alguém que me venda um par de auscultadores para o computador, que os meus se avariaram. Parece que esgotaram. Não há à venda na rua e os das lojas têm preços de branco.
A questão dos preços de branco mostra bem como há uma sobreposição de dois mundos que quase não se tocam. No mesmo espaço físico temos duas lojas muito diferentes. Os produtos que toda a gente consome são, em geral, baratos, mas tudo aquilo que os ocidentais sentem necessidade de comprar é vendido a um preço muito superior. Café em pó ou bolachas não são necessidades básicas e são vendidos ao dobro do preço. Os pães pequeninos (e muito saborosos) vendem-se à dúzia por 100 Kz.

A cauda da noiva
Os mosquitos começam a chegar em força em meados deste mês. O R. diz que ando paranóico com eles. Deve ser porque bato as palmas aos mosquitos enquanto canto “Se não queres apanhar paludismo, bate as palmas!” Não me apetece nada apanhar malária só porque me descuidei. Antes paranóico que com febre.
Lá em casa tenho vindo a reforçar as protecções. Depois da janela foi a vez de colocar uma rede mosquiteira sobre a cama. Agora durmo debaixo de um vestido de noiva…

Mas que ricas pernas
3
07
2008
Tenho reparado que a noção de direito e avesso é aplicada de forma algo liberal pelos angolanos. É vulgar vestir a roupa com o avesso para fora. Nalguns casos nem se repara, mas quando há frases escritas já é mais difícil não sorrir.
O direito e avesso indistintos também se encontram nos autocolantes e faróis dos automóveis. Ora são os Toyota Prado que exibem autocolantes a dizer odarP atoyoT, ou as colunas da série Xplod que passam a ser as Xbloq, ou então dois faróis esquerdo no mesmo carro.
O mesmo se passa com a noção de fora-de-mão dos candongueiros. De manhã, quando saímos do centro de Luanda, o trânsito no sentido contrário está parado, São duas filas compactas que se estendem por quilómetros. Os candongueiros passam para o lado esquerdo do duplo traço contínuo e forçam que vai na sua mão a desviar-se para a berma. É por estas e por outras que a maioria das avenidas de Luanda tem um separador central em betão.
2
07
2008
Desde que a guerra terminou que o governo angolano tem feito um esforço para reduzir o número de armas ilegais em circulação. As campanhas de entrega de armas de guerra têm tido algum sucesso, mas, como sempre, apenas as pessoas de bem entregam as suas. Nos jornais oficiais apela-se à necessidade de haver um desarmamento completo da população civil, a bem da democracia. As eleições estão à porta e não convém haver ânimos exaltados e armas misturadas. Aliás, as eleições só são possíveis porque há uma melhoria das condições económicas e uma maior estabilidade social. As estradas que ligam as várias províncias já são mais seguras e os bandos armados são perseguidos.
Por outro lado, o MPLA vai ganhar as eleições com maioria absoluta. As acções de campanha têm sido eficazes e a voz da oposição está demasiado fragmentada para causar mossa. Nas minhas voltinhas por Luanda tenho visto muitas sedes nacionais dos pequenos partidos da oposição. Creio que são 98 forças diferentes a concorrer às eleições. Na Rádio Angola ouvem-se notícias que dão conta de acções de massas (comícios), a entrega de equipamento escolar e de reinaugurações (cá como lá) de centros de saúde ou de mercados.
Para que não haja dúvidas acerca dos resultados eleitorais, estão a ser criados todos os mecanismos legais de controlo e observação. A experiência do Zimbabwe mostra que a credibilidade internacional das eleições africanas não se consegue apenas com a nomeação de um governo. É preciso mostrar que foram justas. O MPLA não precisa de se preocupar. Até os homens de Savimbi, segundo o Jornal de Angola, estão com ele.
A única voz discordante que se ouve é a da Rádio Despertar. No âmbito dos acordos de paz, a VORGAN continuava a emitir, mas sob este novo nome. Pelo estilo de notícias que emite, parece-me o jornal Avante cá do sítio.
Até 2012 vão ser renovados doze mil quilómetros de estradas por todo o país. É um primeiro passo para a melhoria das condições de vida. Apesar de Angola ser um país extraordinariamente rico, não consegue tirar proveito da sua riqueza por falta de vias de comunicação e 95% do seu produto interno bruto deriva do petróleo. Com tantos recursos minerais e agrícolas, o país não deveria depender tanto do petróleo. Mas enquanto não houver estradas ou caminhos-de-ferro a funcionar normalmente, como se escoam os produtos?
Há cerca de uma semana, a ligação ferroviária de Luanda a Malanje foi restabelecida e a produção agrícola dessa zona fértil poderá chegar à capital.
A renovação da rede viária permitirá também o regresso de muita gente às suas províncias de origem, reduzindo a pressão humana sobre Luanda. Não faz sentido que metade da população de um país se concentre, sem condições, à volta da capital. Espaço aqui não falta.
Desde que cá estou já assisti a uma campanha de vacinação em massa das crianças até aos cinco anos. A doença focada, desta vez, era a poliomielite. Ainda se vêem pessoas com marcas do polio. Algumas muito novas.
Entretanto, também se estão a fazer campanhas nas rádios para explicar o objectivo dos censos que se avizinham. Numa linguagem muito simples, explicam que pretendem conhecer as condições de vida dos angolanos e que as respostas devem ser verdadeiras.
No bairro do Cassenda a criminalidade subiu e a explicação oficial é o grande número de jovens desocupados. No meio dos muitos angolanos trabalhadores, há uma minoria de rapazes que se sustentam das esmolas dos brancos, das lavagens de carros e do guardar lugares de estacionamento. Sem aspirações, o pouco que recebem equivale a um dia de trabalho esforçado dos carregadores, vendedores e condutores. Lavar carros na via pública é proibido em todo o mundo. Em Luanda faz parte da paisagem e tem sido grandemente ignorado. Há problemas piores. Mas as autoridades perceberam que é também uma fonte de sustento dos desocupados e controladores. Foi anunciado que nas Ingombotas (onde moro) a polícia vai estar atenta aos lavadores de carros.
Angola quer evitar importar mão-de-obra, mas, acima de tudo, quer evitar que apenas os estrangeiros lucrem com a riqueza do país, pelo que as empresas têm de respeitar quotas mínimas de trabalhadores angolanos. É um ponto de vista com o qual concordo plenamente. Quando se trata de técnicos especializados, é inevitável contratar estrangeiros porque ainda não há quadros nacionais suficientes. O que choca e vai contra as pretensões angolanas, é a importação de mão-de-obra não especializada. Há trabalho para fazer, muita gente ao alto e importam-se operários da China.
Há muitos exemplos deste fenómeno um pouco por Angola, mas a mim basta-me olhar para a rua onde moro. Pelas onze da noite começa-se a ouvir a máquina de cortar asfalto, que não passa de uma serra circular com rodas e que trabalha a gasolina. Faz uma barulheira ensurdecedora. Passa debaixo da minha janela, que é no primeiro andar… Habitualmente tenho de dormir com o barulho da clientela do salão de jogos do rés-do-chão (que foi uma casa de alterne no tempo do colono). Agora é a máquina. Depois vem o martelo pneumático e a escavadora. Não há sossego. Vou à janela ver quem trabalha a estas lindas horas. Um brasileiro e um chinês, nenhum angolano (não era preciso controlar). Às duas da manhã as máquinas param. O brasileiro começa a cantar. Seria uma serenata?
Cá por casa já temos bomba. Não estamos totalmente dependentes do abastecimento público. Com 3000 litros de reserva devemos estar mais ou menos descansados.
2
07
2008
Esta manhã descobri porque deixam os chineses de trabalhar por volta das seis da manhã.
É para fugir à ira de uma multidão com olheiras!