Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

26  06 2008

Nada de novo em Luanda

Está a faltar a água. A luz também, mas gerador está a trabalhar. Estamos aqui a cheirar mal ao pé uns dos outros até que venha a água. Se o gasóleo acabar, ficamos a cheirar mal ao pé uns dos outros, mas às escuras.

A mandioca que cozinhei ainda não fez vítimas. Vitória!

E como a mandioca é transportada à cabeça, dedico este artigo às mulheres que transportam tudo, mesmo tudo, à cabeça.


Pão


Água


Loiça


Telas


Cuecas


Malas de viagem


Camas de casal

Entretanto voltámos a ter água. Já tomei banho e estou desencardido. Nas voltinhas de hoje fartei-me de comer pó, mas fiquei a conhecer parte do traçado da nova circular a Luanda. Vai ser uma verdadeira auto-estrada. Se for como lá, vai ter portagens!


25  06 2008

Cada vez sei menos…

À medida que me vou ambientando a este país tão grande e tão novo, sinto que é difícil perceber o quão diferente é do sítio que me viu crescer. Se, quando cheguei, aquilo que me surpreendia eram as semelhanças, agora sou confrontado com as diferenças gritantes, com as coisas que não fazem sentido aos olhos do ocidental, com as coisas que só se percebem se se tiver crescido aqui. São uma espécie de expressões idiomáticas a que possamos talvez chamar comportamentos idiomáticos. São impossíveis de traduzir por palavras, embora se perceba parte do significado.


O Futuro

Angola é uma terra simples, mas muito complicada. Simples no aspecto em que se percebe como funcionam as coisas e qual o rumo a seguir, mas complicada porque nada tem um percurso linear. Se queremos ir do Gamek ao Benfica temos de atravessar a vala. Para o outro lado são umas centenas de metros, mas o trajecto é de vários quilómetros e varia consoante o carro e o condutor. Há ruas que desaparecem de uma semana para a outra porque se construiu uma casa no meio ou as chuvas estragaram o caminho. As compras na rua implicam regateio, embora haja um preço fixo implícito. À saída do supermercado está um segurança que assina o talão de caixa e confere os sacos…

Contrastando com a falta de condições em grande parte da cidade, devidas à sobre-exploração ou inexistência das infra-estruturas, decorrem obras de grande envergadura um pouco por toda a parte. Algumas com o objectivo de melhorar estradas e serviços públicos, outras para a criação de novas zonas na cidade. Provavelmente já alguém se apercebeu que grande parte dos problemas de Luanda se resolvem começando de raiz…


A famosa marginal de Luanda está irreconhecível

Nestas minhas deambulações pelos arredores de Luanda tenho-me cruzado com muitas pessoas. Geralmente mais novas que eu. A esperança média de vida em Angola não é conhecida por ser das mais altas. Também por essa razão, os mais velhos gozam de um estatuto especial. Há respeito até no trato. As mulheres passam a ser chamadas de Mãe e os homens de Pai a partir dos cinquenta anos. MaisVelho é usado como se fosse um título. Hoje pude conhecer um casal de Mais-Velhos. Ela com 69 anos e ele com 75. Moram numa casa que foi construída ainda no tempo do colono, no ano em que a minha mãe nasceu. À volta não havia nada, mas agora surgiu um bairro de renda controlada e uns milhares de barracas na direcção da cidade.


Fiquei de regressar para entregar uma fotografia ao casal

Aventurei-me também na cozinha com ingredientes locais. Comprei duas mandiocas, que cozi e tentei transformar, sem grande sucesso, em puré. Juntando esta papa a um refogado e uns pedacinhos de frango fiz uma espécie de coisa vermelha em pasta com um travo a mandioca e tomate. Acompanhado com arroz até parece comida. Foi o meu almoço e ainda não morri, mas aprendi uma lição valiosa: a mandioca cozida é muito quente!


Embondeiros nos arredores de Luanda


Nem sei que diga

O trânsito de Luanda é sempre mau, mas há alturas em se transforma num nó górdio descomunal. Assisti, num mercado concorrido, a duas filas de candongueiros tentarem ultrapassar os colegas de profissão que paravam à direita para largar e recolher passageiros. Estas três viam a sua progressão dificultada porque no sentido oposto havia outras três a fazer o mesmo. A rua permitia apenas duas filas de trânsito! Para agravar as coisas, havia cruzamentos e como nunca ninguém dá uma abébia, a regra é furar até que o outro já não consiga avançar sem bater. Foram longos minutos sem sair do mesmo sítio, sem sequer poder abrir a porta para sair e esticar as pernas.


Na falta de bonecas, uma garrafa

Na maioria dos bairros que tenho visitado, há latrinas públicas. Assim evita-se que os dejectos vão parar directamente a vala no meio do bairro e melhoram-se as condições de salubridade. São despejadas periodicamente por camiões com bombas. Esses camiões, por sua vez, despejam a carga no curso de água mais próximo, às vezes a montante do bairro onde foram despejar as latrinas. O sistema existe, mas não funciona.

Na zona oriental de Luanda, vi camiões-cisterna a bombear água dos rios para abastecer os tanques dos bairros. Na verdade bombeavam uma água lamacenta, cor de café com leite. Não me custa a crer que estes camiões também façam o serviço de despejo de latrinas…


À espera da água


23  06 2008

Luanda, outra vez

Depois de ter visto vender peixinhos dourados na rua apercebi-me de que seria interessante descobrir o que mais se vende nesta Luanda tão enigmática. Há coisas que me surpreendem verdadeiramente. Um artigo que se pensaria ser de luxo são os gelados, no entanto é frequente ver sair de uma saca de serapilheira pequenos copos ou cones de bolacha recheados de gelado branco ou rosa. É um prodígio com este clima! Deve ser algo muito barato porque mesmo nas zonas mais modestas há montes de miúdos a lamber gelados.

Outra coisa que se vende muito são baldes e alguidares de plástico. Como são objectos leves, as pilhas que as mulheres levam à cabeça são monstruosas. E muito coloridas. Hoje vi uma vendedora com algumas dúzias de alguidares à cabeça, dois baldes enfiados nos braços, recheados de baldes mais pequenos e pás do lixo e, para culminar, uma pilha de cadeiras amarradas às costas como se de uma criança se tratasse.


Em equilíbrio perfeito


Às costas leva cadeiras de plástico

Para além das torradeiras, ferros de engomar, auto-rádios e outros aparelhos, há um mercado fluorescente de extensões, triplas, quádruplas e cabo a metro. Pilhas de todas as formas e feitios, até mesmo as de tamanhos esquisitos, aparecem em cada esquina.

Os vendedores de cadeados transportam cadeias de aloquetes enfiados uns nos outros, como se fossem correntes. O mercado dos cadeados e fechaduras nunca será saciado. Aliás, as trancas, grades e jaulas são uma coisa a que nos habituamos em Luanda. Todas as janelas têm grades, todas as portas têm uma segunda porta que se fecha com um ou mais cadeados. Cada pátio está trancado, aferrolhado e vigiado. Até mesmo os carros costumam ostentar, como acessório de decoração, um cadeado preso debaixo do pára-choques dianteiro.

Por acaso temos alguma sorte. Onde moramos não temos grades nas janelas nem na porta da frente. Pelo menos não temos a sensação de estar numa prisão.

Entrar no carro e trancar as portas passa a ser um gesto mecânico. Tal como andar sem cinto de segurança nos faz sentir nus, andar de portas destrancadas dá-nos a sensação de que andamos mal agasalhados. O condutor que me tem levado às zonas menos turísticas costuma andar de portas abertas, mas mesmo assim há zonas em que as tranca. E ele está cá desde 1961… Anda descontraído, mas usa o relógio na mão direita, a que está mais longe da janela.

Lembro-me de, há uns anos, um algarvio dizer que não gostava de Lisboa porque se ouviam muitas ambulâncias. Luanda, nesse aspecto, é um sossego. Excepto se estivermos doentes… A maioria das sirenes que se ouve são carros blindados ou de motas da polícia.

Hoje aproveitei o final do dia para colocar a rede mosquiteira que trouxe de Portugal. Não poder abrir as janelas por causa dos mosquitos é aborrecido. Se a casa está quente, o que é natural (afinal estamos em África), liga-se o ar condicionado, não vá aparecer um mosquito carregadinho de paludismo e com vontade de nos picar. Os angolanos que passavam na rua é que devem ter pensado que os brancos deste primeiro andar piraram de vez. Em vez de oferecer uns Kwanzas para que lhes façam as coisas, aventuram-se na bricolage… Como as janelas são de correr, a rede tinha de ser colocada por fora. Para colocar a rede por fora precisei de estar de cócoras no parapeito e tive de saltar para a varanda para voltar a entrar em casa. Deve ter sido um espectáculo lindo. Felizmente que jogava a selecção e ninguém reparou em mim. Depois fui dormir uma sesta com a janela escancarada!

Vi hoje uma obra de chineses. Foram os únicos que não cumpriram a tolerância de ponto decretada. Num buraco estavam seis chineses a cavar, com mais um cá fora a olhar para o buraco. Há uma certa harmonia cósmica entre eles e os angolanos, que cumpriram a tolerância de ponto. Ainda ontem vi um buraco com seis angolanos à volta a olhar para um que lá cavava dentro. Yin-Yang?

A tolerância de ponto de hoje foi algo surreal. Um pouco antes do meio-dia soubemos que a função pública tinha tolerância de ponto a partir das 12:00 e os funcionários privados a partir das 15:00. Motivo: o jogo da selecção nacional angolana contra o Uganda, no Estádio dos Coqueiros. A capital parou. À excepção de sete chineses, claro.


22  06 2008

Fim-de-semana

Fez ontem uma semana que cheguei a Luanda. Deveria ser a altura de fazer um balanço, mas não sei se o consigo fazer.

Dizem que no dia em que se chega a um país sabemos o suficiente para poder escrever um livro, mas que ao fim de um mês o conhecimento só enche uma página e ao fim de um ano escrevemos uma linha.


A origem das águas das valas

À medida que fui vendo mais do que contava num tão curto espaço de tempo, fiquei a conhecer aquilo que só deveria ter presenciado num ano e não me sinto capaz de fazer um balanço decente. Não sei se o mais importante de Angola é a Luanda que me envolve, ou se são os pôres-do-Sol que ainda não pude apreciar. Sinto que é uma experiência enriquecedora do ponto de vista humano. Conhecer como é a vida do outro lado ajuda-nos a pôr em perspectiva muitas coisas que damos como adquiridas. Ainda não consigo imaginar como será um dia que seja de um Kaluanda do musseque, muito menos uma vida inteira. As minhas necessidades básicas são muito diferentes. Pequenas coisas para mim, são enormidades para quase todas as pessoas com quem me cruzo na rua. A falta a água é um aborrecimento, mas queixo-me porque não tenho água na torneira! Há quem não tenha água corrente no bairro! Não há electricidade? Liga-se o gerador… Não há comida em casa, almoça-se fora…


Eu abro a torneira…

Até mesmo a escala monetária com que trabalhamos é completamente diferente. Há umas semanas o R. achava que as notas de Kwanza tinha valores muito baixos, porque está habituado a começar os pagamentos com 100 Kz. Tenho assistido a conversas ao final do dia em que se discutem lucros diários na ordem dos 70 Kz, que são um pouco menos de 0.70€! Uma lata de atum custa 153 Kz…


Uma grade custa 600 Kz. Cada garrafa é vendida a 50 Kz. Lucro por grade 100 Kz. Peso da grade 18 Kg.


Tudo se transporta à cabeça

A falta de condições e a dificuldade em sobreviver fazem com que as mais variadas igrejas evangélicas vão despontando por todo o lado. Algumas foram proibidas, como a Maná, mas sobram mais umas centenas cuja principal preocupação é encolher os já magros recursos dos angolanos.

Quiosque Multiperfil Evangélico da Igreja Evangélica do Poder de Deus em Angola?!?!?

Mas ontem foi dia de esquecer os problemas dos angolanos. A bem da sanidade é preciso focarmo-nos nos nossos. Fomos ao Jumbo comprar mantimentos. Aproveitei para tirar mais algumas fotografias que ilustram os aspectos da vida em Luanda.


O lixo vê-se sempre


E as obras estão por todo o lado

Tal como a relação com o lixo, a relação dos africanos com a construção civil também é muito diferente da ocidental. As fachadas dos edifícios de Luanda apresentam-se sempre muito heterogéneas. Desde 1975 que têm vindo a sofrer alterações ditadas quer pelo gosto, quer pela necessidade de quem lá mora: janelas de tamanhos vários e cada uma alinhada com elementos diferentes, com portadas coloridas ou enferrujadas, portas com ou sem grades, varandas fechadas a tijolo ou madeira. Sempre que há a necessidade de se fazer uma alteração na casa, faz-se. Mesmo os edifícios da década de 1980 já mostram sinais de alterações profundas. Onde se nota uma maior liberdade construtiva é na instalação das máquinas de ar condicionado. As fachadas vão sendo esburacadas não interessa muito bem onde. O buraco à volta do aparelho depois é enchido com qualquer coisa.

Se durante a semana o trânsito de Luanda é caótico, ao fim-de-semana é um caos mais fluido. Há menos trânsito, mas subsistem os engarrafamentos nos pontos críticos. A fuçanguice dos candongueiros piora as coisas. Como há menos clientes, a competição é feroz. Na ânsia de chegar primeiro, circula-se pela direita para virar à esquerda, contornando todos os que se colocaram na faixa devida. Mais à frente ninguém os deixa entrar e entopem o cruzamento todo.


As frotas têm sempre nomes sonantes


Ou que demonstram orgulho


Ou usam chavões


Ou são incompreensíveis


Ou são só parvos

Infelizmente os candongueiros são necessários. Os pouco autocarros que vi circular eram mesmo muito poucos e só fazem serviço urbano. Os musseques não têm sequer ruas capazes de aceitar veículos daquelas dimensões.


O estado de conservação não é famoso

Ao longo desta semana tenho assistido à condução mais agressiva do mundo, no entanto, não posso dizer que tenha visto muitos exemplos de road rage. É assim que toda a gente conduz e não é por tentar matar o outro condutor que se vai lá chegar primeiro. Já vi alguns acidentes graves. Carros completamente desfeitos na berma da estrada ou num separador central. Geralmente acontecem por imperícia do condutor e não envolvem mais do que um carro. É tão raro não estar no engarrafamento que, à mínima nesga de estrada livre, se vai de prego a fundo. Apesar de os automóveis andarem todos batidos e riscados, os acidentes com outros carros são raros. O ocasional toque acontece, claro. Ontem vi um. Um candongueiro forçou demais e acabou por encostar ao carro de uma senhora. Ela não esteve com meias medidas, saiu do carro, deu a volta à Toyota Hiace, abriu a porta do passageiro e tentou dar um par de estalos ao condutor. Ele não replicou. As angolanas têm a mão pesada e eles não se atrevem a bater numa mulher.

As mulheres são o motor da economia angolana. Elas têm os trabalhos. Os homens querem empregos. Vemos milhares de condutores, seguranças e controladores. Há muitos vendedores de bugigangas na rua e muitos carregadores ao alto. Elas passam o dia inteiro com a loja a cabeça, muitas vezes com um filho às costas e outro na barriga. Não digo que seja sempre assim, porque já vi muitas excepções, mas por vezes penso se não era mais acertado insistir nos programas em que se entrega a gestão de recursos à matriarca…


Vendedora de fruta


Vendedora de chinelos, com mais um filho a caminho


Vendedora de bananas, com mais um filho a caminho. Terá 14 anos?

Já referi que nas ruas se compra e vende tudo. As coisas mais inusitadas aparecem nas esquinas. Mas reparei que todas partilham uma característica. São objectos úteis, têm um fim objectivo, satisfazem necessidades práticas. Vende-se comida, bebida, mobília, acessórios para automóveis, peças usadas, electrodomésticos, roupa e cosméticos. Como Luanda é uma cidade cheia de surpresas, ontem vi à venda uma coisa que diria ser impossível vender-se numa esquina de Luanda. Peixinhos dourados! Na Maianga estava um sujeito com dois sacos de plástico com água e meia-dúzia de peixinhos. Três pretos e três dourados. Fiquei perplexo. Quem é que, no seu perfeito juízo, vende peixinhos dourados em Luanda? Suponho até que a pequena fatia da população de Luanda que se pode dar ao luxo de ter aquários em casa não precise de comprar peixes na esquina… Que mais haverá à venda nesta terra?


As omnipresentes galinhas

A recente discussão do novo acordo ortográfico deixou-me cheio de comichões. A tentativa de harmonizar a ortografia de duas línguas que já não partilham a gramática nem a construção frásica parece-me, no mínimo, inútil. O argumento de que Angola e outros países africanos já o adoptaram é também estranho. São poucos os letreiros em que as coisas estão bem escritas. Fará sentido aplicar um novo acordo ortográfico quando a população nem sabe usar o antigo?


Os pintores de letreiros assinam sempre a obra


Em telas de todos os tamanhos

Como o gerador estava sem gasóleo, ficávamos às escuras da próxima vez que faltasse a electricidade. Foi preciso ir às traseiras do prédio para lhe encher o depósito. Nas traseiras existiu um pequeno pátio onde os inquilinos podiam lavar e estender a roupa. Actualmente está ocupado por uma série de jaulas onde se mantêm em cativeiro diversos geradores. Há geradores pequenos e grandes e cada um de sua cor. O nosso é azul e estava cheio de sede. O gasóleo está armazenado em jerrycans que se arrumam entre a parede e a máquina. Como a jaula é apertada e o gerador está mesmo no meio, a posição de abastecimento é um pouco ingrata e levantar os 20 kg de gasóleo à altura da cintura com os braços esticados e acertar no funil sem levar um banho é complicado. Lá consegui fazê-lo. Devemos estar descansados nos próximos meses.

Tudo o que deixa de servir é deitado para a rua. De alguma forma acabará por desaparecer. Com o lixo é assim que se processa. Com os carros, é o mesmo. Quando se abandona um automóvel ele acabará por desaparecer, quer por ser destruído por uma obra qualquer, quer por ser desmontado e vendido às peças nos mercados. Vêem-se automóveis muito recentes abandonados nas bermas. O que me faz confusão é ver carros blindados abandonados. Em Luanda já vi pelo menos três.


A decomposição já começou


Quem é que abandona um carroforte?


Até os letreiros que assistiram à independência angolana se vão sumindo lentamente


Todos os dias se varre o mesmo pedaço de estrada

Numa sociedade sem direito a luxos, de vez em quando vejo alguém a passear um cão. É algo que me deixa intrigado, especialmente porque os africanos costumam ter medo de cães. Mas não são só cães que se passeiam à trela. Ontem vi passear uma cabra…


Anda Bobby

Cada vez sei menos de Angola, mas tenho a ideia de que os ideais de Agostinho Neto estão de costas voltadas para os angolanos…


“Compra laranja doces
Compra-me também o amargo
Desta tortura
Da vida sem vida.”

In: Quitandeira


20  06 2008

Temas recorrentes

Hoje o dia foi mais calmo e tenho a oportunidade de escrever acerca daquelas pequenas coisas que foram sendo relegadas pela quantidade de Luanda que me tem entrado pelos olhos.

Numa das visitas aos musseques dei por mim a pensar que em Portugal tinha trabalhado em ruas semelhantes aquela onde seguia. Com tanto lixo e miséria como na angolana. Os bairros degradados, quer de lata, quer de tijolo são iguais em todo o lado. A principal diferença é que em Portugal sei que se andar umas centenas de metros numa dada direcção, saio do bairro e entro numa zona, não digo que normal, nem civilizada, mas menos miserável. Aqui anda-se quilómetros e a miséria mantém-se. Vai apenas variando a sua tonalidade.

Ao contrário de Portugal, aqui os cheiros esbatem-se. Apesar de haver muito lixo nas ruas e dos esgotos correrem a céu aberto, não se pode dizer que cheire mal. É certo que há sítios que emanam o seu fedor, mas o calor e a atmosfera equatorial fazem com que os cheiros passem despercebidos. Não é habituação, porque estou cá há tão pouco tempo que não posso estar habituado. Os bairros de lata portugueses têm um cheiro característico, causado pela perpétua escorrência de águas de lavagem. A saponária liberta um odor que se assemelha ao cheiro do detergente Super
Pop. É de tal maneira característico, que só o cheiro deste detergente me faz lembrar bairros degradados. Talvez por ter um cheiro muito activo e ser barato, seja o preferido nos bairros de lata. Vai na volta são apenas coincidências.

Cheguei à conclusão de que a relação do africano com o lixo é apenas um reflexo de um choque civilizacional em grande escala. A relação do africano tradicional com o lixo é simples: todo o lixo é biodegradável. Come-se e o resto atira-se para um canto. Passado algum tempo o lixo desaparece. O grande problema acontece quando adopta um estilo de vida ocidental, e o lixo que produz já não se degrada, amontoa-se e não desaparece. A relação com o lixo rege-se por princípios com 10 000 anos mas aplica-se a lixo que só se inventou há 100.

Com a migração das populações das aldeias para os arrabaldes de Luanda, os comportamentos não se actualizaram. O lixo continuava a ser lixo e era tratado como tal. Infelizmente, muitas gerações nasceram rodeadas de montanhas de lixo e aquilo que choca o branco ocidental é apenas a vida como ela é para o africano. Desde que cá cheguei já vi várias garrafas de cerveja vazias serem atiradas para o meio da estrada, onde se partiram. É banal ver alguém beber uma CocaCola e deixar cair a lata aos pés. O lixo faz parte da vida. No centro de Luanda há contentores de lixo e uma recolha mais ou menos regular, o que não impede que haja lixo por todos os cantos. Nos musseques não há contentores, ponto final. Mas entre ir deitar o lixo fora no sítio apropriado ou deixá-lo cair ao chão, a hipótese que vence é a que der menos trabalho. De qualquer das formas, a recolha de lixo limita-se a transportá-lo para uma imensa lixeira…


Os pintores de letreiros são todos artistas

Os buracos nas estradas nascem mais depressa do que se conseguem reparar e mesmo nas zonas feitas de novo, rapidamente aparecem. O calor que torna o asfalto mais fluido, associado às constantes travagens e mau estado das suspensões degrada as estradas num instante. Fica-se com a sensação que as rachas das paredes são tapadas com papel de parede…


O trânsito caótico e os candongueiros

No dia em que visitei a Fortaleza de Luanda, achei que podia ver um resquício do passado em bom estado de conservação. Afinal de contas é lá que está instalado o Museu Militar Central.

À entrada do forte há algumas peças de artilharia e dois aviões do tempo da Guerra do Ultramar. Todas as peças mais destacáveis já foram retiradas, as outras foram estragadas. No entanto ainda se consegue perceber o que eram. Espalhadas por ali há várias estátuas e pedras. Estão lá os marcos toponímicos que assinalavam a Avenida de Lisboa. Estão lá as estátuas de Camões, de D. Afonso Henriques e de outras personagens ilustres da história Portuguesa. Algumas foram retiradas do interior da fortaleza, outras foram trazidas de Luanda.

Ao contrário do que se passou nos países comunistas da Europa Central, onde destruíram todas as estátuas de Lenin e Stalin, aqui apenas se retiraram os símbolos do colonizador do sítio. Pela maneira como estão dispostas ou desmontadas, no caso das estátuas de pedra, fiquei com a sensação de que foram para ali levadas por não se saber o que fazer delas. O que representam não é amado nem odiado. É apenas indiferente.

A ânsia por apagar os símbolos portugueses passou também pelo rebaptismo de alguns arruamentos e povoações. O curioso é que o trabalho foi abandonado a meio e grande parte da toponímia subsiste.


Com algumas excepções, as únicas placas toponímicas que se vê são as pré-1975

A Angola independente optou por esquecer 500 anos de história. Existe uma Angola africana até ao séc. XV que dá um salto para o dia 17 de Novembro de 1975, com um episódio a 4 de Fevereiro de 1961. Por muito que se negue, o passado não desaparece. Faz-me lembrar um cantinho à beira-mar plantado que resolveu esquecer 50 anos da sua história recente.


Não percebo a cara feia…

Ontem chegámos a casa e corria ar nos canos. Não é raro acontecer em Luanda por isso nem sequer foi surpresa. Fomos adiando o jantar à espera da água. Acabámos por desistir e fazer o jantar com as reservas que tínhamos. As faltas de água são crónicas. As roturas vão acontecendo um pouco por toda a cidade. As canalizações são antigas e a manutenção que sofrem resume-se a ir tapando buracos. Felizmente que as reparações são rápidas (o que faz pensar que sejam um pouco atamancadas).


Condomínio fechado da praça de touros

As falhas no abastecimento eléctrico também são crónicas e só com o recurso a geradores um pouco por toda a cidade se consegue um abastecimento mais ou menos regular. O nosso está sem gasóleo…


in: Sanzala Angola

Com a partida dos portugueses, todas as infra-estruturas foram nacionalizadas e ocupadas. A praça de touros que estava a ser construída perto do aeroporto foi transformada em complexo habitacional. Tem ar de campo de concentração provisório, mas moram lá muitas famílias. O próprio Hotel Katekero, no antigo Largo Serpa Pinto, está a ser usado como edifício de apartamentos.


Parabólicas e roupa a secar na fachada do Hotel

Há uns dias perguntava-me acerca da história do refrigerante Mission of California. Julgo que já não se venda. Numa fotografia de 1970 já aparece a pintura na fachada do prédio em frente…


in: Sanzala Angola

Este fim-de-semana vou lavar os olhos a outras paragens. Talvez vá almoçar à ilha.


« Previous PageNext Page »