Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

2  06 2008

Agilização

Nas repartições públicas angolanas há sempre uma forma de as coisas correrem mais depressa. Umas vezes passa pela gasosa, outras apenas por uns contactos estratégicos que, segundo o calão burocrático, conseguem agilizar o processo…

O agilizar um processo consiste em chegar à pilha dos processos pendentes e colocar aquele que interessa mesmo no topo da pilha.

O único senão desta técnica é que toda a gente tem um contacto que promete agilizar as coisas, o que provoca um perpétuo movimento vertical do papéis na pilha, acabando por demorar pelo menos o mesmo tempo que levaria se as coisas seguissem o seu percurso normal.

No fundo, o que é preciso é que o agilizador de processos tenha acesso à pilha frequentemente e consiga manter os seus papéis quase à tona. O ideal era ter um agilizador de agilizadores!

 

Agilizemos!


31  05 2008

Mais-que-tudo!

A partida está para breve e cada vez me custa mais pensar no que deixo para trás. Acima de tudo custa-me pensar no quem deixo para trás. A minha cara-metade fica na Metrópole e eu parto para o Ultramar. Há uns anos atrás teria sido mais dramático, mas não é por isso que nos vai custar menos.

Não vão ser só as geocaches e as danças que vamos deixar de viver um com o outro. Vão ser também os carinhos e aqueles abraços que fazem sentir um quentinho dentro do peito.

Ambos sabemos que não há grande escolha. Em clima de recessão económica há que procurar trabalho onde ele houver. Passaram-se seis meses desde que trabalhei pela última vez a sério e, desde então, só tenho encontrado propostas que roçam a escravatura. Não é sobrevivendo que se vive.

Também sei que não sou o primeiro emigrante português que deixa o país à procura de melhor futuro para os que lhe dão sentido à vida. Acima de tudo, sei que podemos construir uma vida a dois mais facilmente depois deste sacrifício que é a separação física.

Bem sabemos que as comunicações agora são bem mais simples que os modestos aerogramas de há 40 anos e isso ajudará a passar o tempo. Dois anos não vão ser nada.

Amo-te Cristina!


29  05 2008

Habitua-te…

Hoje tive um gostinho do que vai ser a vida em Angola.

Tudo começou quando estava a tratar do visto. Perdi uma manhã e parte da tarde à espera de poder entregar toda a documentação. Quando chegou a minha vez, estava descansado porque tinha tudo como queriam.

Afinal, a carta de chamada não podia ser aceite. Vinha endereçada ao Consulado da Embaixada de Angola em Portugal. “Lamento, não serve. Vem mal dirigida. O resto está bem, mas assim não serve.” Tive de pedir uma nova carta, desta vez endereçada ao “Consulado Geral da República de Angola em Portugal”.

Vim a casa imprimir a nova versão que me tinha sido enviada por e-mail desde Luanda e voltei ao “Consulado Geral da República de Angola em Portugal”, onde tive de conversar com o segurança para entrar.

Foi aceite e logo a seguir apresentaram-me a conta: noventa euros!

Às vezes pergunto-me como seria se o Consulado Português fosse assim tão picuínhas na emissão de vistos…

A segunda dose de Angola tive-a mais tarde, à espera de abastecer o Patrol. Uma bicha imensa, com gente a querer furar. E isto tudo só para encher o depósito. Já me disseram que a gasolina em Angola é barata mas que há sempre filas nas bombas, porque nem sempre há. É a tal história de que ou é caro ou não há. Neste caso não há.

Por cá há, mas é caro. O Gasóleo custa trezentos escudos por litro! Não sei como, mas para uma coisa produzida a partir da parte mais badalhoca do petróleo, está estupidamente caro. Por isso, e porque faz uma diferença desgraçada ir abastecer ao Jumbo (quando fica em caminho, claro) e comprar combustível 0.09€ mais barato, tem de se suportar uma fila imensa. Há umas semanas ainda não se notava tanto e em dez minutos se estava despachado. Desta vez foram 40 minutos, mas custou-me menos 5.30€ encher o depósito do que na Galp ao pé de casa. Mesmo assim ainda ficou 3.50€ mais caro do que o abastecimento em Espanha na semana passada (e o gasóleo em Espanha sempre foi mais caro que em Portugal…).

É impressionante, mas em 5 meses, um depósito de combustível passou a custar mais 9€ do que em Espanha. No princípio do ano os preços estavam mais ou menos a par.

Portugal está cada vez mais parecido com um país africano, com uma inflação galopante, em que os preços da manhã são mais baixos que os da tarde. Dois e três aumentos semanais do preço do combustível roça o incrível. E já vamos para 24 aumentos consecutivos!

Em Angola posso apanhar bichas para abastecer, mas a consolação é que saio da bomba ainda com dinheiro para caramelos.


26  05 2008

Atestado Robustez

É complicado entrar em Angola… para se obter um visto ordinário (daqueles que cospe na rua e diz palavrões) é necessário um monte de coisas. Quando olho para a lista é esta a impressão que tenho:

  • trinta e duas arrobas de fotografias tipo passe
  • quatro requerimentos carimbados, selados e lacrados
  • certidões disto, daquilo, daqueloutro e de qualquer outra coisa de que se lembrem
  • declarações em soneto dodecamétrico perfeito
  • treze embalagens de cotonetes
  • UM atestado de robustez

Este atestado de robustez não é necessário para agora mas é uma coisa que me intriga. Por terras lusas nem sempre é requerido. Há empresas que o pedem, há outras que não.

Até mesmo o Estado é um pouco indeciso… li recentemente uns anúncios no Diário da República referentes à abertura de concursos de admissão de pessoal na Câmara Municipal de Palmela. Um deles era para uma vaga de um técnico de geografia e planeamento regional. Entre outras coisas era exigido um atestado de robustez física e psíquica para o exercício da profissão. O segundo concurso era para a admissão de um tractorista. O único requisito para esta vaga era a carta de condução de ligeiros. Não é preciso robustez para ser tractorista? Estranho…


20  05 2008

Temos acordo!

Ao fim de muitos meses de negociações, chegámos a acordo quanto às condições de trabalho em terras angolanas.
 
Agora é tratar dos vistos, das últimas compras e de começar a fechar as malas.

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