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Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

15  02 2011

As casas inclinadas

Os centros históricos das cidades holandesas são muito característicos, com as suas casas de tijolo escuro quase sempre inclinadas para um lado e encostadas à casa vizinha. O solo pouco consistente é propício a que haja assentamentos inesperados e, talvez por isso, as casas tenham quase sempre fachadas pequenas, uma vez que os edifícios maiores necessitariam de fundações muito mais caras para assegurar a estabilidade das paredes. Também devido à própria configuração dos canais, as casas tendem a crescer em comprimento, com um longo corredor encostado a um lado e os quartos do outro.

Casa inclinada
Casa a descansar encostada

As casas são de tal forma estreitas que até as caixas de correio são colocadas ao alto. E há portas tão pequenas que nos parecem completamente desajustada à estatura e porte dos holandeses que ainda hoje se parecem com os de Reubens.

Catedral de Delft
Catedral inclinada – nem as grandes escapam

Como é mais fácil perceber algo novo estabelecendo comparações com o que se conhece, procurei descobrir o que me lembravam estes edifícios compridos e estreitos. A resposta chegou depressa – o Porto. A mais burguesa cidade portuguesa também tem fachadas pequenas e casas que se estendem perpendicularmente à rua. Há muito tempo foi decidido que as fachadas do Porto poderiam ter apenas seis metros. Não terá sido, seguramente, pela fraca qualidade dos solos para fundações. Terá sido para imitar as cidades holandesas?

Caixas de correio
Caixas de correio verticais


13  02 2011

Os Seis da Benedita

Durante séculos, a importância das terras media-se pelas feiras que estava autorizadas a realizar. As cartas de foral atribuíam quase sempre o privilégio de realizar uma feira regularmente na cidade.

Com a crescente facilidade de deslocação trazida pelas vias férreas e o incremento dos transportes rodoviários, e consequente movimento das populações para o litoral, as feiras perderam parte da sua importância ao longo do último século. A sua imagem continuou associada à ruralidade e a tempos passados, à antítese dos tempos modernos. No entanto, ainda não passou o seu tempo. Para muitas localidades, o ponto alto do calendário coincide com a feira tradicional e a afluência de visitantes de perto e de longe. As feiras exercem uma atracção diferente das lojas, talvez por não serem permanentes, talvez por nunca se saber exactamente o que estará à venda ou até mesmo por ser ainda um dos poucos sítios onde ainda é costumeiro regatear.

Por outro lado, há feiras especializadas que atraem compradores e vendedores de todos os pontos do país. Quase sempre pouco conhecidas pela maioria, são tratadas por «tu» por quem a elas está associado – as feiras de gado, por exemplo. Nestes casos, uma pequena alteração pode ter grandes implicações, nem sempre previstas por quem é de outro meio.

Em 1906 criou-se a feira de gado da Benedita, perto de Alcobaça. Durante mais de 100 anos realizou-se no sexto dia de cada mês, pelo que era conhecida pel’Os Seis da Benedita. Nos últimos anos atraía principalmente criadores e compradores de ovinos e caprinos. Já ninguém quer burros e as vacas, ao que parece, vendem-se em pacotinhos – esperma congelado para inseminação artificial.

Há cerca de dois anos, a feira foi suspensa, para que no recinto onde se realizava fosse instalada outra estrutura. A transferência rápida da feira para outro espaço foi o compromisso da altura, mas os dois meses prometidos parecem ser medidos em tempo geológico.

Não nos podemos esquecer que é uma situação recorrente em Portugal, esta de prometer a nova obra para imediatamente a seguir à destruição da velha. Estraga-se o que existe, assobia-se para o lado e fica tudo em águas de bacalhau. Sem grande esforço, lembro-me do ramal ferroviário da Lousã, desactivado para dar lugar a um metro de superfície que acabou cancelado. A ligação ferroviária desapareceu e o novo transporte esfumou-se na névoa habitual das promessas eleitorais. Há também o caso da Igreja do Socorro e a antiga Mouraria de Lisboa, demolidos no final da década de 1940 para dar lugar a alguma coisa. Ainda hoje o Largo do Martim Moniz parece um estaleiro sem futuro.

A feira de gado deu lugar a uma escola, mas não arranjou lugar para si. A Benedita não é uma terra muito conhecida, mas era importante para quem vendia e comprava gado, que não é mercadoria para que os compradores a andem a mostrar de porta em porta ou para os vendedores andarem a passear pelo país à procura dos melhores animais ou preços.

Antigo Mercado de Gado de Évora
Antigo Mercado de Gado de Évora

Há quem defenda um rápido regresso da feira, salientando que não traria benefícios apenas para os ligados ao gado, porque os visitantes gastam dinheiro noutras coisas. Uma feira é um estímulo ao negócio e à vida económica da região onde se realiza. Mesmo assim, há vozes que se opõem, quase de certeza aqueles que acham não vir a ganhar nada com a feira. Invocam argumentos pequeninos de quem está mais preocupado com o quanto os outros ganham do que com a sua própria bolsa.

Mas a verdade é que se esta feira deixar mesmo de se realizar, será apenas mais uma das muitas que não resistiu à mudança do tecido produtivo nacional, cada vez mais virado para o sector terciário do que para os primário e secundário – os mais importantes.


11  02 2011

Bicho esquisito do facebook

Qualquer dia sinto-me como a Mafalda, a personagem de Quino, que era vista como um bicho raro por ser a única criança da escola sem televisão.

Bem reparo nos olhos arregalados que me miram de alto abaixo quando admito que sou o tal de quem se fala mas que todos suspeitam não existir. É verdade, não tenho facebook. E nem sequer sinto vontade de ter.

Dizem-me que é divertido, que se encontram amigos esquecidos e que tem uns jogos bestiais com galinhas e nabos. Encontro algumas falhas neste raciocínio, no entanto. Prefiro não esquecer amigos a reencontrá-los no facebook e não saber o que lhes dizer nesse sítio tão divertido e limitar-me a falar dos nabos virtuais que se cultiva ou dos últimos anúncios que se viu.

Agora que confessei o meu pecado, só tenho de passar a ter mais cuidado na rua, porque estou sempre sujeito a que me comecem a atirar amendoins…


02 2011

Já sinto saudades de comida

O conceito holandês de almoço é um pouco estranho. Dêem-lhes dois pedaços de pão com um ovo estrelado e uma salsicha em cima, acompanhados por um copo de sopa de ervilhas e mais salsicha e ficam todos sorridentes, como se semelhante miséria os fosse capaz de satisfazer pelo dia fora. É óbvio que não e, por isso, às seis da tarde, que é o mesmo que dizer, noite cerrada, já estão a jantar sofregamente.

Se alguém tenta jantar a horas civilizadas, prepara-se para uma grande surpresa. Às sete e meia, hora a que ainda não desconfiamos que o estômago exista, as cozinhas dos restaurantes começam a fechar. Os empregados dobram a farda debaixo do braço e vão para casa uma hora depois.

No hotel recomendam-nos restaurantes franceses e italianos, na universidade dizem que os bons são os etíopes e indonésios, mas que os chineses e argentinos também são dignos de uma visita. Restaurantes holandeses parecem não existir ou então vender apenas bom pão e dois tipos de salsichas: quentes e frias.

Amsterdam
Restaurantes Italianos, Libaneses, Cubanos, Chineses, Russos…

Não admira que a primeira coisa que nos dizem quando chegamos seja «Ah! De Portugal! Lá come-se bem!»


02 2011

Exportação temporária

Há decisões que tomamos sem saber muito bem que portas abrirão. Sabemos apenas que devem ser acertadas, ou intuímos alguma lógica no raciocínio que as justifica. A história do meu Mestrado enquadra-se perfeitamente nesta categoria.

Depois de alguns anos em trabalho de campo, que me permitiu conhecer grande parte dos caminhos de cabras do interior e cruzar-me com muita gente interessante, senti que estava a ficar com o cérebro "enferrujado". O trabalho era apenas rotina e não havia nada de novo a descobrir. Tinha de voltar a estudar alguma coisa.

Inscrevi-me num curso de Mestrado em Geofísica. Não era exactamente a minha área, para aprender muitas coisas novas, mas era suficientemente próxima para que não me sentisse totalmente desamparado. Na verdade, durante alguns anos, o curso de Engenharia Geofísica partilhou os três primeiros anos com o meu. Pelo menos teria a garantia de que falaríamos a mesma língua.

Durante um ano fui ao Porto todas as semanas. Sexta-feira de manhã apanhava o primeiro Alfa e Sábado à noite apanhava o último Intercidades. Foi cansativo, mas voltei a sentir a cabeça ocupada, mesmo que não soubesse qual a utilidade do novo grau académico. Seria uma etapa interessante.

Aprendi muito e passei mais um ano e meio a estudar a aplicação de técnicas pouco usuais para a medição de deformações dos terrenos. Defendi a dissertação num Sábado e no dia seguinte aterrei em Luanda. Tinha concluído o mestrado e continuava sem saber para que serviria.

Dois anos mais tarde, um conhecido enviou-me o anúncio para uma bolsa de investigação exactamente na área em que tinha trabalhado para a dissertação. Concorri e fui integrado numa equipa pequena, com alguns dos nomes mais sonantes da Geofísica em Portugal.

As últimas semanas têm sido uma verdadeira corrida para recuperar a velocidade de cruzeiro. Muitos livros para ler, muitos artigos para analisar e matérias para reaprender, porque quem não resolve integrais durante dois anos tem de os aprender a resolver outra vez.

E agora, para aprender coisas novas numa das outras instituições envolvidas, exportam a equipa inteira para a Holanda durante uma semana. A decisão tomada há cinco anos revelou um caminho insuspeito – ir apanhar frio na terra das túlipas.


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