Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

02 2011

O sexo vende tudo, até margarina

Lembro-me de, quando era pequeno, haver um anúncio de margarina absolutamente detestável – a margarina e o anúncio, em partes iguais. Recordo vagamente uma operária fabril, complementada pela obrigatória bata azul a afirmar, com um sotaque carregado do Douro Litoral, que «lá em casa só se come Plánta!». Admito que a memória desta senhora esteja já um pouco contaminada pela imagem que guardo dos despedimentos colectivos no vale do Ave por volta da mesma altura, e que ela usasse tudo menos uma bata azul.

Mas os tempos mudam, as considerações estéticas também e, com o fim do tecido industrial português, o público-alvo dos anos oitenta desapareceu. A operária fabril não apresenta a sofisticação desejada para a agência publicitária e começaram a pensar numa nova campanha para revitalizar a marca.

A Planta é uma marca comercial relativamente antiga, mas que sempre esteve associada a produto barato. Tem uma clientela fiel, que não precisa de campanhas publicitárias para se decidir a comprá-la. Por ter uma imagem tão enraizada, encontrar uma forma de a tornar apelativa a novos consumidores é uma tarefa difícil, quase como tornar a pasta dentífrica Couto um sucesso de vendas para a geração Colgate.

Com falta de ideias, alguém se socorreu do plano B – Sexo! Porque sexo vende tudo, desde automóveis a facas e martelos. Claro que também vende margarina! E foi assim que se encheram as ruas das cidades de cartazes pirosos com umas moças em roupa interior e com um ar desconsolado. A legenda diz que têm a cama cheia de migalhas, ou que lhes roubaram as torradas. Mas ninguém sabe o que tentam vender. Lá num cantinho, quase escondido, aparece o nome da margarina – parece que agora tem um aditivo que lhe disfarça o sabor. De imediato imagino a rapariga a vestir uma bata azul e a reclamar das migalhas na cama como se fosse uma peixeira da Ribeira.

Infelizmente, não é com estas raparigas chapa-cinco que se desembaraçam da imagem datada do produto. Toda a gente sabe que estas caras aparecem apenas porque lhes pagam e que para a semana estão a dar o corpo para uma campanha de cremes de barbear ou chaves inglesas – falta-lhes a convicção genuína que a outra senhora transmitia.

Vénus
«Ainda hei-de vender margarina!»

Certamente que as vendas irão aumentar um bocadinho. Afinal de contas, fala-se na marca, mas assim que as mulheres despidas passarem para a campanha do Tulicreme, voltará ao mesmo.


02 2011

A pequena revolta do Egipto

Para quem não sabe, há duas revoltas a ocorrer no Egipto. A primeira, maior e mais visível, diz respeito aos egípcios. Querem que o regime mude e fazem as manchetes de quase todos os jornais.

A outra revolta diz respeito apenas aos portugueses, mas diz respeito ao Egipto. É muito mais discreta. Quase não se vê, mas não deixa de ser notada, nem que seja por que se passou a ouvir. É a reacção a um acordo ortográfico indesejado.

Há vinte anos tentou-se impôr um acordo ortográfico tão cretino quanto o actual, que propunha pérolas como a supressão do acento da palavra cágado, para além da perda de certas consoantes quase mudas. Dessa vez não fez muitos estragos na língua, porque a comunicação social em peso se recusou a aplicá-lo e acabou por ser esquecido.

Na altura os jornais eram mais independentes do que hoje e podiam escrever como as consciências dos jornalistas mandavam. Agora são quase todos propriedade de grandes grupos empresariais, com interesses também em editoras de dicionários e afins, que não perdem uma oportunidade para imprimir livros actualizados (devia ter escrito sem o c, mas não consegui). Por muito que tente, nunca conseguirei ler algumas palavras com a nova grafia sem imaginar um sotaque brasileiro que nada tem a ver com aquele com que deveria ler.

O acordo de 1990 nunca chegou a entrar em vigor, em grande parte graças aos jornais, que nunca o adoptaram. Agora, com a crise e as medidas de austeridade na ordem do dia, o acordo vai passando até não haver retrocesso. E agora passa também por causa da comunicação social.

Mas voltemos à pequena revolta do Egipto, porque é disso que este artigo vive. Parece que o p de Egipto é mudo, que ninguém o pronunciava, por isso, toca a suprimi-lo. Ironia das ironias, os habitantes do Egipto vão continuar a ser egípcios, com p e tudo. Também se diz que humidade perde o h, mas humanidade não, segundo critérios irregulares que mais parecem uma lista de excepções que de regras. E, com tanta confusão, até se aplica onde não devia, os espectadores, por exemplo, passaram a ser pessoas que espetam coisas, porque espetadores é como se tem vindo a escrever, mesmo que quase todos pronunciem o raio do c que entenderam ser mudo.

Atomiko Eusébio, mais ou menos
Vêmo-nos gregos com o acordo

Ora o p de Egipto passou a não se escrever, mas verificou-se um fenómeno curioso. Uma vez que se admite excepções à perda de consoantes mudas que se pronuciam nalguns países – facto continuará a ser facto em Portugal, e continuará a ser fato no Brasil – muitos jornalistas, e não só, passaram a fazer questão de pronunciar, bem pronunciadinho, o p de Egipto. Basta prestar atenção às notícias da grande revolta do EgiPto para ouvirmos a pequena revolta.


02 2011

A dúvida

Embora faça os possíveis por ir variando os temas, é quase impossível evitar repetições. Há assuntos que merecem ser revisitados, nem que seja porque na altura procurei condensar o texto e tive de deixar algumas coisas de fora. Quando isso acontece, evito publicar a continuação do artigo nos dias mais próximos, para tornar o Aerograma um pouco mais variado.

Acontece-me ficar na dúvida se já escrevi ou não sobre determinado assunto e, como as notas no caderninho costumam tornar-se ilegíveis ao fim de algumas semanas – suspeito que pelo apodrecimento da caligrafia – sempre que começo um novo artigo, tenho de dar uma volta às notas mentais e avaliar se já o escrevi ou se apenas pensei na sua estrutura. É um grande dilema. Se estiver perto do computador sempre posso vir cá dar uma espreitadela, mas raramente começo a escrever logo no teclado.

Começar a escrever é sempre o mais difícil. No início, o texto é um monte de não-frases, trechos dispersos que se cruzam, riscos, gatafunhos. A seguir ordenam-se o melhor possível, mesmo que não façam grande sentido juntos e só depois o texto começa a surgir quase polido. É trabalhoso e, pelo meio, muitas das ideias originais foram postas de parte, quer para preservar o ritmo do texto, quer para o manter no tema. Daí que eu saiba que já escrevi sobre aquele assunto, mas fique sempre na dúvida se não terei cortado o trecho.

Há até fotografias que vou pondo de parte para quando chegar a altura certa de retomar certo assunto. Descubro, da pior forma, que esperei tanto que agora já não faz sentido retomar esse texto e a fotografia, tantos meses reservada, é um epitáfio ao artigo nado-morto.

Mandioca
E agora, o que faço com esta?

Felizmente que nem tudo são más notícias. Comecei o dia a tentar descobrir se já tinha escrito um artigo que imaginei há uns meses. Quando dei por mim, até já tinha dado destino a uma fotografia guardada desde 2008. E o artigo do qual tinha dúvidas ficou adiado por mais uns dias. Afinal de contas, ainda não tinha falado do assunto.


30  01 2011

Numerações

Quando as relações humanas deixaram de se limitar à vizinhança mais próxima e começaram a incluir desconhecidos e intermediários para as comunicações, só o nome deixou de ser a forma infalível de encontrar alguém e inventaram-se as moradas, cada vez mais complexas.

O Fulano de São Miguel da Galafura tornou-se morador da Rua do Meio de São Miguel da Galafura e, mais tarde, passou-se a precisar que era na porta nº 6, porque o carteiro já não conhecia as pessoas pelo nome. A seguir teve de se juntar à morada um código postal, não fosse haver mais do que uma São Miguel da Galafura no mundo. Fulano, Sicrano e Beltrano passaram a viver em locais codificados com números de porta, códigos postais e outras inovações.

À primeira vista, a numeração das portas poderia significar apenas uma alteração fundamental na forma como se encaram as relações humanas, mas a verdade é que os vizinhos continuam a conhecer-se e os estranhos encontram quem procuram com maior facilidade. E, às vezes, podem até usar os números de polícia para se orientarem em cidades desconhecidas.

Quando visitamos uma cidade nova devemos ter o cuidado de procurar alguns pontos de referência, para o caso de nos perdermos. Nas grandes cidades europeias, quase sempre planas, as ruas podem parecer todas iguais e há poucas oportunidades de espreitar sobre os telhados à procura de monumentos importantes. As cidades portuguesas, quase todas nascidas em encostas e de uma dimensão mais humana, por assim dizer, não pecam nesta matéria.

Nestas alturas, mesmo que não tenhamos um mapa à mão ou não saibamos os nomes das ruas, os números das portas podem ajudar-nos a decidir qual o rumo a seguir. Em Lisboa, salvo raríssimas excepções, os números de polícia crescem do Rio Tejo para norte ou oeste, acompanhando o abraço do rio à cidade. É fácil seguir os números por ordem decrescente, de rua em rua, até chegar ao rio e, a partir daí, encontrar outros pontos de referência. Esta orientação é a seguida na maioria das cidades portuguesas, embora o destino de semelhante navegação numérica seja mais imprevisível.

Número de polícia
Ornamento numerado

Já em Espanha é hábito os números das portas crescerem de forma radial em relação à Plaza Mayor de cada cidade. Mesmo que estejamos perdidos, podemos sempre aplicar a mesma técnica e chegar ao caroço da cidade.

Muitos municípios limitam-se a atribuir números consecutivos, pares ou ímpares consoante o lado da rua, a cada porta. Permitem referenciar cada casa, mas há outros sistemas que acrescentam muito mais informação. Nalgumas cidades, o número da porta corresponde à distância desde o início da rua, o que permite saber imediatamente em que ponto se situa determinada morada ou, caso andemos à procura do princípio da rua, saber quanto falta percorrer. Não é possível, infelizmente, saber quanto falta para o final.


28  01 2011

As velhinhas eram doces e afáveis

O autocarro estava na paragem a meio do quarteirão, com o último passageiro a desviar-se da porta que se fechava. Na esquina mais atrás, uma velhota vestida de preto e passo despreocupado exclamou, sem grande convicção, «Espere um pouco, homem!»

Ouviu-a quem passava por perto, mas o barulho dos carros a passar abafou a interpelação anémica e o motorista, como é óbvio, nem a chegou a ouvir e seguiu a sua rota.

A velha respirou fundo enquanto fazia o ar mais indignado do mundo e subia a um pedestal imaginário do qual, num sentido germânico digno de general em dia de condecoração, gritou bem alto:

«ESTÚPIDO DA MERDA!»


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