Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

26  01 2011

Abstenção

Em Setembro de 2008 assisti, com expectativa e um pouco de apreensão, às segundas eleições legislativas angolanas. A ocasião histórica, de eleições em tempo de paz, justificava a expectativa e a apreensão surge naturalmente assim que recordamos o epílogo da primeira volta das eleições de 1992.

A melhor memória que guardo destas eleições foi a extraordinária afluência às urnas que, nalguns casos chegou aos 105%, mas isso é ponto de partida para outras histórias. O certo é que, nos dias seguintes, toda a gente mostrava, orgulhosamente, o indicador direito pintado de preto, sinal inequívoco de que haviam votado. Alguns, muito poucos, respondiam com vergonha e olhos postos no chão, desejando que a tinta desaparecesse depressa dos dedos dos vizinhos e escondesse a sua falta.

Na altura conversei com muita gente, e o assunto eram sempre as eleições. Ninguém acreditava que a abstenção pudesse ser tão alta em Portugal. Se havia a possibilidade de eleger governos e representantes, como se podia abdicar desse direito para ir à praia ou ficar a ver televisão?

A infeliz verdade é que por cá se elege um Presidente com cerca de 25% dos votos porque metade dos eleitores achou que estava demasiado frio para votar, ou que o filme de Domingo à tarde era imperdível. Boas notícias, apenas a surpreendente votação nos candidatos independentes. Parece que os portugueses estão fartos de ver as mesmas caras no poleiro.

Voto secreto
O voto é um direito nem sempre exercido

Apesar de tudo, para o papel quase decorativo que um Presidente da República desempenha, se calhar um Rei não era nada mal pensado, nem que fosse porque um Presidente da República reformado continua a pesar aos cofres do Estado com salário e segurança – neste momento temos quatro (Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva). Um Rei, em princípio, quando se reforma custa apenas um funeral de Estado.


24  01 2011

Lixo noticioso

Quanto mais vejo noticiários, mais chego à conclusão de que o nivelar por baixo impera, que o ruído se sobrepõe ao conteúdo e de que o botão de desligar é, de facto, o mais útil na televisão.

A tendência não é recente, mas a aposta na quantidade de notícias ao invés de em notícias de qualidade obriga as redacções a encherem cada vez mais espaço com fait-divers, quadrilhices, emissões em directo de nenhures para aparentar trabalho incansável em busca do único facto que ainda não foi comunicado naquela notícia que não interessa a ninguém.

Todos os dias somos bombardeados com as notícias para encher, que acabam por sufocar todas as que mereciam mesmo ser noticiadas. Os jornalistas, que deveriam ser os primeiros a reclamar desta falta de brio, sabotam-se a si mesmos, repetindo os comunicados das agências noticiosas sem os analisar, cumprindo a meta diária de palavras que têm de produzir, não interessando muito se são boas ou não.

Será que os jornalistas e editores não se perguntam a si mesmos se haverá notícias que não mereçam esse nome? Parece que cederam todos ao sensacionalismo puro e duro. O que importa não é a importância da notícia, é o sangue e a histeria que a rodeiam. Falar de coisas importantes mas aborrecidas não vende jornais, mas mexericos de cabeleireiro, isso sim, garante horas de antena.

O caso do momento chama-se Renato Seabra, que ganhou os seus quinze minutos de fama ao matar uma das figuras de referência dos mexericos e agora está a contas com a justiça de outro país. Já se chamou Carlos Cruz, Vale e Azevedo, José Tallon e por aí fora. Em comum, só o sangue, o crime, o espiolhar em directo os pormenores sórdidos para encher os directos.

A notícia foi dada e acabou. Ponto final. Deixem o resto para a justiça e, se for mesmo importante, comuniquem a sentença. Não percebo porque razão, duas semanas depois, ainda é notícia de abertura o diz-que-disse em relação ao caso. Alguém se está a marimbar para a história?

O governo toma uma medida que terá influência directa nas vidas de todos nós? Não é preciso alardear muito a questão, mostra-se mais uma vez a história da viagem a Nova Iorque ou fala-se de futebol. As pessoas gostam mais.

Os que não gostam, têm bom remédio, comem o que lhes põem à frente, porque as verdadeiras notícias já não conseguem furar a barreira do ruído e, alegremente, desligam a televisão e vão ler um livro.


22  01 2011

De olhos postos no chão

Aproveitei uma tarde soalheira para descer a Avenida da Liberdade com os olhos postos no chão. Da última vez que o fiz, as árvores perdiam as folhas em cascata e os cantoneiros da Câmara não conseguiam domar os montes de folhas castanhas e vermelhas que teimavam em juntar-se nos passeios.

Estrela
Assinatura

Na altura, lembrei-me dos calceteiros anónimos que deixam uma marca muito pessoal na sua obra, alterando ligeiramente o desenho aprovado. É uma assinatura, talvez só reconhecida por uma mão-cheia de pessoas. São as pequenas marcas que passam despercebidas a quem se deslumbra com a floresta mas não perde tempo a observar as árvores.

Contrastes
Contrastes

Estas fugas ao padrão, quase uma rebeldia em surdina, da qual o mestre só se aperceberá depois da calçada bem batida e varrida, encontra-se quase sempre nos contrastes, na pedra branca no lugar da preta, no desenho ligeiramente alterado, não por falta de arte, mas por inspiração súbita.

Perícia
Dedicação

Outras marcas, mais difíceis de encontrar, são as que demonstram um calceteiro mais preocupado com a perfeição do que a quantidade de calçada. Os padrões podem ser preenchidos de muitas formas. Se a velocidade de execução for essencial, apenas os limites de cada cor vêem as pedras talhadas com mais cuidado e o resto é feito com um padrão mais ou menos regular. Há calceteiros, no entanto, que perdem mais uns minutos para que até mesmo a mancha de cor revele dedicação.

Veleiro
Veleiro

Não consigo imaginar que um calceteiro que se dá ao trabalho de esculpir um pequeno veleiro com três pedrinhas não tenha orgulho da sua arte.


20  01 2011

Chafariz das Bravas

Sempre tive uma especial afeição por Beja, e uma inexplicável desconfiança, completamente infundada, de Évora. Talvez seja a própria musicalidade do nome, remetendo para o sotaque alentejano, que me faça preferir a cidade mais a sul. Talvez sejam as muralhas de Évora, que a escondem de quem chega. Talvez sejam outras razões que ainda não descortino.

Visito Évora mais amiúde que Beja, o que me leva a comparar uma cidade presente na memória com uma cidade cujas ruas verdadeiras se confundem com as imaginadas. Tenho a certeza de que há muito mais para ver e conhecer em Évora que em Beja, mas continuo de pé atrás. E sei que sou injusto.

Reconheço Évora como uma cidade cheia de encanto e tenho a certeza de que irei sempre descobrir mais uma faceta agradável a cada visita. Ainda para mais, o Alentejo é uma das regiões que mais me cativa. Por isso mesmo, tenho aproveitado as mais recentes visitas à cidade para a descobrir mais um pouco. Os meses que por lá passei e trabalho pouco tempo me deixaram para turismo.

Hoje exploro um pouco mais desta cidade. Começo de fora para dentro, como quem acaba de chegar.

Nas últimas décadas, a cidade de Évora cresceu muito para fora das muralhas. Novos bairros e pequenas povoações dos arrabaldes foram absorvidos, como em tantas outras cidades. Os limites urbanos tornaram-se indefinidos, com as casas dos bairros mais periféricos a surgirem quando o zimbório da catedral ainda é só um pequeno ponto negro sobre o casario do centro.

Apesar deste crescimento, ainda há muitas marcas que atestam a história da cidade e do seu crescimento. Uma delas é o Chafariz das Bravas, que se situa perto do antigo posto da Guarda Fiscal, hoje posto de turismo, na estrada de Montemor-o-Novo.

Sabe-se que aqui está desde, pelo menos, o reinado de D. Manuel I, altura em que uma ilustração do segundo foral de Évora o retrata com a mesma aparência dos dias de hoje. O muro com ameias deve ter sido um bom ponto de referência. A sua construção é, provavelmente, do séc. XV.

Chafariz das Bravas
Chafariz das Bravas

Aproveita uma nascente que corre todo o ano e descarrega na linha de água que passa a algumas dezenas de metros. Uma única bica alimenta um longo bebedouro e, mais a jusante, enchia um tanque localizado nas ruínas da casa a oeste. Este tanque servia para a lavagem do gado e hoje, assegurava a Câmara de Évora em 2005, armazena água para rega de espaços verdes. Está vazio.

Obviamente que perdeu a importância de outrora. A água canalizada já chega a quase todas as casas e os poucos animais que ainda existem nos limites da cidade não vêm aqui beber de propósito. Até o velho mercado de gado, convenientemente perto deste chafariz, foi encerrado.

Na última recuperação, optou-se por instalar luzes submersas e pintar o fundo dos tanques de branco. Para quem passa na estrada, sem vontade de parar, o chafariz não passa despercebido, mas para quem o vai ver de perto o tanque pintado destoa.

Coordenadas aproximadas (WGS84): N 38º 34.000? W 7º 55.310?


18  01 2011

Pombo-correio engatatão

Há muitos anos, o instinto dos pombos levou a que fossem usados como carteiros. Os pombos-correio eram mensageiros de confiança, que entregavam as missivas nas condições mais adversas. O meu avô chegou a ter um pombo-correio do Exército Belga, com uma asa carimbada registando a incorporação.

Esta sua paixão por pombos, partilhada por muitos vizinhos seus contemporâneos, nunca cheguei a compreender plenamente. Alguma razão misteriosa motiva milhares de pessoas a criar pombos com desvelo para depois os ir libertar a umas centenas de quilómetros do pombal e esperar, com um nó na garganta, que regressem todos de boa saúde. Talvez seja essa a esperança de quem abandona os cães e gatos antes das férias de Verão – que voltem sãos e salvos quando a família estiver de regresso das suas duas semanas em Quarteira.

Para além das largadas oficiais, há os treinos diários, com o dono dos pombos a ordenar curvas ao bando mais experiente com um apito estridente. Os pombos menos treinados só conhecem o apito de regresso. Em certas ocasiões, um bando de pombos consegue ser dirigido contra outro e, na confusão, capturar alguns pombos alheios. Quando há muitos pombais perto uns dos outros e rivalidades entre os vários columbófilos, é quase certo que irão voltear os pombos na mesma altura para tentar roubar pombos ao vizinho.

Contava-me o meu pai que a aquisição deste pombo belga, encorpado e castanho, marcou uma verdadeira razia aos pombais vizinhos. A cada saída, lá vinham mais uns pombos no bando. Quase sempre pombas, por sinal.


« Previous PageNext Page »