Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

17  12 2010

Fotografias da apresentação

Durante a apresentação do livro estive demasiado ocupado para tirar fotografias, como é natural. Habitualmente sou eu quem fica atrás da máquina e apareço em poucas fotografias – fenómeno semelhante ao que afectou o meu avô paterno.

Mas, aos poucos, algumas fotografias dos participantes começam-nos a chegar. E, conforme prometido, irei publicar algumas.

Partilha
Leitura de um excerto

A primeira retrata um momento de partilha, em que a Cristina leu um pequeno excerto do livro (pág. 509) acerca da distância que separa os afectos e das marcas que deixa. Escutei as palavras e tentei recordar-me do que senti quando as escrevi. Foi uma altura difícil.


16  12 2010

Calçada assinada

A calçada portuguesa é uma das marcas das ruas de Lisboa, especialmente as da Baixa, onde os calceteiros se esmeram a criar mosaicos de pedras pretas e brancas.

Ampliam os desenhos originais para fazer moldes de cartão, com os quais iniciam o trabalho, preenchendo espaços com pedras talhadas a golpe de martelo. Cubos, prismas triangulares ou pentagonais ou até mesmo hexagonais nos trabalhos mais delicados, vão sendo cravados e batidos no areão um a um.

De joelho no chão e costas curvadas, os calceteiros são figuras anónimas, que nunca mostram o rosto e até mesmo a sua obra fica anónima, sem uma assinatura ou menção do autor da obra. Nas esculturas, o canteiro que talhou a pedra em nome do escultor, às vezes é recordado, mas os calceteiros permanecem anónimos. Sabem que a sua obra será um dia refeita por outros, tal como eles o fizeram a calceteiros de gerações anteriores, por causa de uma obra ou buraco inesperado.

Calçada portuguesa
Avenida da Liberdade

Mesmo assim, há alguns que não resistem e tentam deixar a sua marca para a posteridade. Havia, mesmo em frente ao Elevador da Glória, uma dessas assinaturas anónimas na calçada. O padrão no passeio incluia vários círculos pretos e num deles o calceteiro resolveu, com algumas pedras brancas, acrescentar um par de olhos e um sorriso rasgado. Era a sua marca.

Durante umas obras prolongadas na zona, toda aquela calçada foi levantada e o desenho desapareceu. No final da obra, os calceteiros refizeram os desenhos segundo o padrão original. Os mesmos círculos pretos adornam a calçada, mas o sorriso-assinatura do calceteiro da geração anterior ficou esquecido.


15  12 2010

Pobre Língua-Pátria

Descobri, finalmente, as verdadeiras razões para a ratificação do acordo ortográfico (que não merece maiúsculas). Não é uma conspiração dos vendedores de dicionários para vender o mesmo produto duas vezes, é apenas cirurgia plástica, hoje tão em voga, com lipo-aspiração localizada a algumas consoantes ditas mudas, mas que não o são verdadeiramente. Infelizmente, tal como acontece na cirurgia plástica, por vezes deixamos de reconhecer a pessoa.

As palavras não se lêem letra a letra. Apenas soletramos as que não conhecemos, porque as restantes, memorizamos a forma dos altos e baixos, pintas e tracinhos e lemos o alfabeto latino como se de ideogramas se tratassem. Ao retirar letras, a forma das palavras muda e os textos tornam-se mais difíceis de ler. Paramos muitas vezes para soletrar palavras que já conhecemos.

O c de facto e acto, apesar de não se pronunciar, marca o ligeiro prolongar do a em fato e ato. Sem a letra quase-muda as palavras perdem a forma.

Por outro lado, se a lipo-aspiração já está pronta a entrar em força, a moda das mamas de silicone chegou há muito. A língua-franca actual começa a entrar à martelada nos jornais e no discurso corrente, substituíndo palavras portuguesas por maus equivalentes em inglês, ou até mesmo com expressões idiomáticas aportuguesadas que nos fazem escorrer suores frios pelas costas.

Bonita vai a língua, com o h de humidade extirpado, por poder ser confundido com gordura, mas com uns belos implantes em inglês, para compôr o back-office.


14  12 2010

Final de tarde

Quando era pequenino, achava que o meu pai devia ser tolo quando dizia preferir o Outono às outras Estações. Achava que era um pouco parcial, por ter nascido nos últimos dias do Verão. Eu preferia a Primavera, quando podia voltar a brincar na rua, mesmo que sempre aos espirros por causa das alergias. O Outono trazia chuva, frio, galochas e a escola, que fechava de vez as férias grandes.

Mas agora percebo-o perfeitamente. É a Estação que mais nos desperta os sentidos, nem que seja pelas cores que a Natureza toma.

finaldatarde
Entardecer

Folhas douradas e vermelhas, céus azuis e laranja, cheiro a castanhas assadas no ar e a ponta do nariz fria. Rio cheio e ruidoso a acompanhar os últimos cânticos dos melros. Gosto do Outono!


13  12 2010

Avaria da ferramenta

Com um pouco mais de tempo nas mãos, retomei o trabalho na electrónica. Alguns projectos ficaram em suspenso, incompletos, esperando por vagar ou inspiração. Outros nem sequer passaram de um plano e alguns componentes separados. O plano perdeu-se na mudança e agora restam apenas as peças, sem que uma memória ténue do seu propósito tenha resistido.

Um dos mais prementes, que é como quem diz, já aguardava resolução um ano antes de partir para Angola era a estranha avaria do multímetro. De um da para o outro resolveu fazer greve. Com o mais importante instrumento avariado, os diagnósticos tornaram-se difíceis. As contas dizem quanta corrente e tensão se deve esperar em certos pontos do circuito, mas sem a possibilidade de as medir directamente, há algumas avarias impossíveis de resolver. Concluí que o multímetro necessitaria de um multímetro para ser reparado. Mas, se comprasse um novo multímetro, este perderia o seu propósito. Para além disso, este custou-me nove contos há quinze anos e não me estava a apetecer deitá-lo fora.

Felizmente que há problemas que se resolvem por si mesmos. Os longos anos de espera tornaram a avaria mais evidente. Um pequeno condensador electrolítico tinha entregue a alma ao criador e agora começava a verter o conteúdo para o circuito.

Condensador babado
O culpado

Dois toques com o ferro de soldar e o chupa-solda, um alicate a ajudar e o defunto deixou o espaço livre para um novo e mais competente condensador.

Condensador novo
O substituto

À falta de substituto do mesmo tamanho, o novo condensador foi montado à alentejana, deitadinho e aconchegado entre outros componentes. Com dois pontos de solda e uma bateria nova, o aparelho voltou à vida, como se nunca tivesse estado avariado.

Multímetro avariado
Já funciona!

Com um sorriso de orelha a orelha, fui medir resistências e dar palmadinhas nas costas a mim mesmo.


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